sábado, 1 de outubro de 2011

Às Voltas com a



SOCIÓLOGO: Profissão ou não! (Parte III e Última)

Refira-se ainda que, na sociologia, como é característico do respectivo percurso científico e as práticas de investigação tendem a permanecer, senão como actividades para muitos, pelo menos como referência para quase todos. Esta referência, é por vezes, um pouco ambígua e assume diversos sentidos. Uma vezes concretiza-se em vector de operacionalidade profissional, pela convocação de um reportório amplo de instrumentos de base científica, seleccionados e mobilizados de maneira criteriosa e criativamente ajustada aos problemas, conduzindo a resultados efectivos, inovadores e de qualidade. Estes são aqueles que se podem considerar ou classificar como de perfil sociológico integrador (integração produtiva da formação cientifica e da prática profissional). Outras vezes, os sociólogos exercem actividades profissionais variadas, onde a referência à dimensão científica da sociologia traduz-se basicamente numa aplicação ritualistica de técnicas de investigação empírica, accionadas de forma rotineira e adaptadas a qualquer questão ou situação, o que se revela de certa forma limitada para terceiros e pouco gratificante para os próprios. Outras vezes, ainda, a matriz científica da formação de base apresenta-se como um referência “em negativo”,. Algo a que se renuncia, ou se rejeita, pelo menos no emprego, por não se encontrar forma de transpor eficazmente os produtos cognitivos da sociologia para a acção profissional. Acaba-se por exercer uma profissão recorrendo apenas a recursos e saberes práticos adquiridos em contexto profissional ou a fragmentos de saberes de outras disciplinas, ou seja, sem qualquer valor acrescentado por parte da sociologia. Aqui podemos atribuir o perfil sociológico desistente (desistência da sociologia, do que nela poderia ser tornado como base de competências específicas, a accionar em conjugação com outras, no desempenho dos papeis profissionais).
Por último é de referir que alguns professores de sociologia e investigadores universitários não vêem a sociologia como uma profissão fora do contexto institucional específico em que eles se inscrevem, ou seja, tendem a não ver a actividade que desenvolvem propriamente como uma profissão, mas sim como uma espécie de “estado de graça epistemológico”. Não custa ver que se trata de uma posição débil, que não resiste a um mínimo de análise sociológica, sendo eles próprios, afinal, também profissionais, nuns casos da docência, noutros casos profissionais de investigação científica, e ainda noutros, ambas as coisas.
Sociologia, profissão ou não, tem como é evidente, repercussões decisivas no ensino/aprendizagem da sociologia, designadamente a três níveis: a) organização curricular, b) conteúdos programáticos, c) processos de formação.
Interessa retomar brevemente aqui a distinção entre, conhecimento, competências e práticas. Quanto às competências sociológicas, estas constituem uma instância mediadora crucial, entre, de um lado, os conhecimentos enquanto “produtos” (de trabalho sociológico prévio) e “conteúdos” (de programas de formação em sociologia) e, do outro lado, as práticas sociológicas, especialmente enquanto “acção profissional” (tanto dos profissionais da investigação e do ensino em sociologia, como dos sociólogos que desempenham outros papeis profissionais). Quanto às competências, não basta ter conhecimentos discursivos acerca da sociologia para ser capaz de transportar eficazmente esses conhecimentos para a prática sociológica, essencialmente para a esfera profissional. A questão coloca-se, relativamente aos conhecimentos teóricos dotados de elevado grau de síntese conceptual e aos conhecimentos metodológicos portadores de grande transversalidade processual, dadas as potencialidades, não só cognitivas, como profissionais generalizadas que comportam. Sublinhe-se, que, nesta perspectiva das competências, as práticas de investigação sociológica e as outras práticas profissionais em sociologia aproximam-se bastante entre si – muito mais contudo, do que alguns gostam de reconhecer. Em termos gerias, as competências sociológicas podem desdobrar-se em competências teóricas, competências metodológicas, competências relacionais e competências operatórias.
Por último, acrescenta-se que o valor social acumulado pelas práticas profissionais dos sociólogos, mesmo quando desempenham funções profissionais idênticas a outros colegas, com formação base diferente, que é o caso mais comum na profissionalização dos sociólogos, assenta no accionamento de competências específicas – a par de outras, partilhadas.
Para concluir, é de salientar que a questão das competências sociológicas não é só crucial nos processos de empregabilidade dos sociólogos em geral, como tem relevância para os processos de ensino/aprendizagem da sociologia. Uma formação exclusivamente teórica e metodológica, não dá o devido lugar aos processos de passagem à prática, apenas favorece uma captação de conteúdos limitada e de base discursiva. Por outro lado, uma formação sociológica preenchida apenas pela prática – de carácter localizado, fragmentário, imediatista, é extremamente vulnerável à obsolescência rápida, e torna-se modo geral, bastante superficial e circunscrita, por isso pouco útil.
Portanto não basta adquirir conhecimentos, sem mais, mas antes esses conhecimentos têm que implicar a capacidade de, perante cada uma nova situação que se apresente ou cada novo problema a enfrentar, seja possível seleccionar os conhecimentos a mobilizar, de entre o leque de possibilidades acumuladas e disponíveis, e de os accionar de maneira adequada ao caso concreto. Ora esta capacidade só tem uma forma de se adquirir, é através do treino concreto e exercício continuado, quanto possível, com acompanhamento e orientação de colegas mais experientes neste processos. Os estágios e pós-graduações, concorrem de maneira relevante para as desenvolver, para não falar do carácter insubstituível, da experiência profissional.
De tudo o que se disse, podemos concluir que os processos de aprendizagem não podem deixar de ter em conta as competências sociológicas, tanto na prática profissional de investigação, como no campo muito mais alargado das práticas profissionais dos sociólogos.

Extraído e Adaptado do Artigo de António Firmino da Costa: Será a sociologia profissionalizável?

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