sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Às Voltas com a


SOCIÓLOGO: Profissão ou não! (Parte II)

Outro dos contextos de actividade mais frequentemente encontrados e analisados por algumas monografias, realizadas ao longo dos últimos anos pelos estudantes da disciplina de “Práticas profissionais em sociologia”, é o das câmaras municipais. Cada vez mais, existe um número crescente de sociólogos em áreas como a de animação cultural, intervenção social, planeamento urbanístico, reabilitação urbana, protecção civil, ambiente, educação, desporto, ou ainda, gestão de recursos humanos das autarquias, para não falar de responsáveis autárquicos, presidentes de câmara e vereadores, que também são sociólogos. Outra das áreas onde os sociólogos se encontram profissionalizados, são nos ministérios, serviços centrais, laboratórios do Estado, gabinetes de estudos e projectos, empresas de sondagens, agências de publicidade, meios de comunicação social, empresas de consultoria e formação profissional, associações, sindicatos, IPSS, ONG’s, empresas de serviços financeiros, empresas industriais, escolas de ensino secundário, institutos politécnicos, universidades e centros de investigação. Nalguns destes contextos, a profissionalização tem-se mostrado razoavelmente dinâmica, como por exemplo nas autarquias; noutros porém, algo estagnada, nomeadamente no ensino secundário. Em certas situações a profissionalização é ainda precoce, começando com colaborações pontuais, estágios de fim de curso, noutros é morosa, implicando a passagem por vários empregos precários, até uma situação profissional mais duradoura. Finalmente existem também um conjunto de casos onde já existia uma actividade profissional estável, podendo esta influir muito ou pouco no trajecto subsequente.
Perante estes factos, e apesar das flutuações conjunturais e das indeterminações quanto ao futuro, a sociologia em Portugal, parece pois, ser profissionalizável.

Contudo, e partindo da premissa que a sociologia é profissionalizável, coloca-se outras questões, quanto ao tipo de profissionalização: Que tipos de profissionalização se podem esperar, e prepara, para os sociólogos? Numa análise de índole mais teórica, podemos considerar razoável que numa “sociedade de conhecimento”, como a nossa, os sociólogos tenham mais potencial apara se enquadrarem no âmbito dos “analistas simbólicos”, do que propriamente “prestadores de serviços” ou “trabalhadores de produção massificada”, mas trata-se efectivamente apenas de um potencial.
As relações que se constituem entre formação e profissão, são cruciais, no campo da sociologia, essa relações por sua vez dependem de diversos factores, uns são factores gerais de contexto, relativos às tendências da sociedade, como qualificações crescentes das populações, redes alargadas de interdependências e fluxos, centralidade cada vez maior do conhecimento elaborado e pericialidade na actividade económica e na organização social, rapidez dos processos de produção científica, inovação tecnológica e mudança organizacional, entre outros. Por outro lado, existem dois factores específicos, deveras importantes: a) os modelos de formação em sociologia (cursos, programas, professores, actividades de ensino/aprendizagem; b) as estratégias de profissionalização dos sociólogos – desenvolvidas quer individualmente, quer ao nível do grupo profissional organizado.
Actualmente, nas sociedades contemporâneas, no que “toca” à formação superior, existem duas modalidades ideal-tipo fundamentais de ralações formação/profissão, uma é das relações formação/profissão UNÍVOCAS, em que o curso corresponde basicamente a uma profissão, outra das relações formação/profissão MULTÍVOCAS, nas quais a formação te, em regra geral, uma articulação menos nítida com um determinado sector de profissionalização, mas que em contrapartida possibilita o desenvolvimento de estratégias de profissionalização dirigidas a uma pluralidade, mais ou menos, alargada de actividades profissionais qualificadas.
Se à primeira modalidade, a das relações formação/profissão unívocas, podemos apresentar como ilustrações emblemáticas, as áreas da medicina ou arquitectura, cuja formação corresponde a papeis profissionais bem definidos e bem delimitados, à segunda modalidade, a das relações formação/profissão multívocas, abrange um leque grande de áreas, como sejam, por exemplo a engenharia, a economia, ou outras mais recentes, como a psicologia, a gestão, a biologia e a própria sociologia. Esta segunda modalidade, da profissionalização mais diversificada, faz-se tipicamente, com a mobilização, em combinatórias de peso variável, de saberes e competências de vários géneros, de que salientamos três, a) saberes e competências de base, isto é, directamente provenientes dos programas de formação curricular iniciais, b) saberes e competências contextuais, decorrentes da experiência profissional adquirida no exercício da actividade, c) saberes e competências complementares, obtidos em curso de formação, pós-graduações ou no prolongamento directo da formação inicial, o que se passa particularmente com os sociólogos que têm vindo a adquirir formações complementares, onde a sociologia, por seu lado, é hoje em dia, bastante procurada como área de formação complementar por profissionais oriundos de outros domínios de formação inicial.
Poderemos ainda acrescentar, que o actual processo de profissionalização da sociologia assenta, em duas ordens de factores, a) no plano externo (contexto social), o aumento da procura potencial de acção profissional dos sociólogos, procura associada à complexidade e reflexividade contemporâneas, o que no remete, em termos muito gerais e abstractos, para uma multiplicidade de processos bem conhecidos dos sociólogos, b) no plano interno (campo sociológico), o crescimento da oferta potencial, nomeadamente na expansão do número de diplomados em sociologia, o qual desde há muito ultrapassou exponencialmente o volume e o âmbito do segmento profissional específico do ensino e da investigação universitários.

Extraído e Adaptado do Artigo de António Firmino da Costa: Será a sociologia profissionalizável?

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