sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O Poeta é um fingidor



Falas de Civilização, e de não Dever Ser

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!


 
Análise do poema "falas de civilização..."

O poema que se inicia com "Falas de civilização..." é um poema de Alberto Caeiro, não datado, e que ao que se convencionou chamar os "Poemas Inconjuntos". Os "Poemas Inconjuntos" são poemas que ficaram fora do grupo do "Guardador de Rebanhos" e também fora do conjunto "Pastor Amoroso".

A característica comum a todos os "Poemas Inconjuntos" é precisamente o facto de não pertencerem a nenhuma estrutura temática definida, sendo como que poemas soltos, da autoria do mesmo autor - Alberto Caeiro - mas que não pertenciam pela sua natureza a nenhum dos outros dois conjuntos mais tematicamente fixos: o livro "O Guardador de Rebanhos" (em que o poeta fala de si próprio e da sua maneira de ver o mundo) e os poemas do "Pastor Amoroso" (em que o poeta fala da sua definição de amor e que são, por definição, poemas tardios ou "decadentes").

É compreensível, assim, que um "Poema Inconjunto" possa ter todas as características comuns aos poemas mais conhecidos de Alberto Caeiro, nomeadamente a linguagem simples e pouco adjectivada, a propensão para a recusa da inteligência e o reforço da importância dos sentidos quando contrapostos com a análise racional.

No poema em análise existe um diálogo, em que ouvimos apenas a voz de Caeiro, mas que adivinhamos ser de alguém que o terá interpelado. A questão é complexa - sobre a "civilização" e sobre "o dever ser". Caeiro, na sua típica postura simples e natural, ouve mas não ouve. "Escuto sem te ouvir" - diz o Mestre Caeiro, respondendo para si mesmo. Perante o desejo de mudança que lhe é comunicado pelo seu interlocutor, a sua resposta é a única que lhe é possível: "Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo / Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres". Ou seja, na sua visão do mundo, as coisas existem mas não têm um significado intrínseco - pelo que é de todo pouco recomendável que os homens tentem moldar a natureza à sua maneira. A natureza existe sempre só por si própria, são os homens que dão nomes às coisas, aos fenómenos (naturais ou sociais), quando na realidade nada existe para além do que nos chega pelos sentidos.

Caeiro é - não por coincidência - um nome que invoca o branco da cal. O branco, em Caeiro, significa a limpeza de todos os significados. Até os seus versos são brancos, sem rima. O homem, para Caeiro, não deve pensar, só deve observar e tomar assim a natureza como aquilo que lhe chega aos olhos, ao nariz, às mãos, à boca e aos ouvidos. Pensar é estar doente dos sentidos, diz Caeiro. Nesta frase resume-se na perfeição todo o seu método, toda a sua filosofia.
 Aliás, o aviso no final do poema é dirigido mesmo a todos os que, ao contrário dele, insistem em pensar e não querem apenas ver: "Ai de ti e de todos que levam a vida / A querer inventar a máquina de fazer felicidade!"
 

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