quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Às Voltas com a


SOCIÓLOGO: Profissão ou não! (Parte I)

Falar em sociologia, é falar nas suas três componentes principais: sociologia como ciência, sociologia como formação e sociologia como profissão. Se a primeira se baseia essencialmente num conjunto específico de critérios, ferramentas cognitivas, conhecimentos acumulados e práticas de investigação, já o segundo incide basicamente sobre o sistema de ensino, sobre os cursos e diplomas, ou seja sobre os processos inerentes à aprendizagem da sociologia. Quanto ao terceiro, centra-se na diversidade de papéis e práticas profissionais em sociologia, bem como os processos de constituição dos sociólogos como grupo profissional, incluindo os aspectos de cultura profissional e formas de associação ou organização colectiva.
O que é facto é que dificilmente poderemos analisar uma das vertentes isoladamente, pois actualmente há que levar em conta, que essas vertentes se interligam fortemente entre si, não apenas no sentido retórico banalizado de que “tudo se relaciona com tudo”, mas de uma forma concreta, multifacetada, cada vez mais importante e acentuada. Senão vejamos, se à partida a sociologia como ciência se esgotava praticamente, com tudo o que de relevante acontecia na área, mais tarde a investigação científica e o ensino universitário passaram a estabelecer laços decisivos entre si, tanto em termos cognitivos como institucionais. Hoje em dia, com a formação de milhares de licenciados em sociologia e a respectiva inserção na esfera profissional e as expectativas e pedidos sociais entretanto desenvolvidos relativamente aos contributos potenciais da sociologia no plano científico, formativo e profissional, a articulação tornou-se irreversivelmente tripla. Finalmente e mais importante na sociologia, é que estas três componentes não existem umas sem as outras, pois a dinâmicas, presentes e futuras, de cada uma delas, e da própria sociologia no seu conjunto, dependem cada vez mais desta articulação.
A terceira componente, a da sociologia como profissão e as relações dos sociólogos com a sociedade ganha uma configuração e um acuidade muito particular, qualquer que seja o nível considerado, 1) o dos papeis/práticas profissionais, 2) o de grupo/organização profissional do conjunto dos sociólogos.
Temos aqui uma questão muito concreta, que é a relação dos sociólogos com entidades empregadoras, contratadoras ou financiadoras, ou seja, com as organizações em que trabalham, com os grupos e meios sociais objecto de estudo cientifico e acção profissional dos sociólogos, com profissionais de outras especialidades, com os meios de comunicação social e outras instâncias de formação da opinião pública.
Desta relação decorre, em grande medida, que, a uma dimensão cognitiva da sociologia, se venha a adicionar uma dimensão deontológica, também presente, como é óbvio, nas outras duas componentes, mas assumindo uma relevância muito especial na componente profissão. Por isso uma boa parte da pertinência em se proceder a uma análise propriamente sociológica da sociologia como profissão, e por outro lado, a importância de, que em qualquer análise sociológica da sociologia, tomar suficientemente em atenção a componente profissional.
Quando se analisam estes assuntos é que ter em conta a necessidade de dois tipos de abordagens distintas, a) uma que privilegia aspectos de conjuntura e contexto, b) e outra que incide preferencialmente sobre aspectos relativos à constituição específica do campo científico-profissional em causa.
Podemos assim, a partir de uma perspectiva mais de fundo, ou melhor, mais focada na constituição do campo da sociologia, a partir do triângulo ciência-profissão-formação, colocar a questão chave: será a sociologia, em si mesmo, profissionalizável?
Será forçoso começar por constatar que há quem ache que sim, e há quem ache que não. E há, ainda, quem ache que sim, ou que não, de maneiras diferentes.
Poderíamos avançar com uma resposta, de carácter empírico, simples e segura, por exemplo, a Associação Portuguesa de Sociologia conta, com cerca de 2000 membros, praticamente todos profissionalizados, exercendo profissões variadas, em áreas diversas.
Outro exemplo, seria os inquéritos do ODES – Sistema de Observação de Percursos de Inserção de Diplomados do Ensino Superior, realizados no início de 2000, que revelam igualmente que, na sua grande maioria, os licenciados em sociologia estão empregados, têm encontrado trabalho relativamente depressa, muitos deles, mesmo antes de acabarem a licenciatura, e outros até seis meses após conclusão da mesma. É evidente que também existem excepções, aliás, como noutras áreas de formação e profissionalização, mas a maior parte dos licenciados em sociologia enquadra-se na caracterização geral.

Extraído e Adaptado do Artigo de António Firmino da Costa: Será a sociologia profissionalizável?

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