segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Como nasceu a Sociologia em PORTUGAL? (Parte II)

A ditadura desconfiava dos sociólogos e das ciências sociais e por isso procurou sempre desvalorizar qualquer teorização do social e desta forma impedir o seu desenvolvimento institucional: não permitiu que a sociologia entrasse nas universidades, não permitiu organizações de índole social, nem a publicação ou difusão de obras relacionadas com o pensamento sociológico. Isto levou a que durante décadas, quem se aventurou por este caminho tevisse que o fazer de uma forma clandestina. O enfranquecimento do regime e a acumulação das contradições sociais dentro da própria sociedade portuguesa, levantaram enormes problemas entre a população e não havia como escondê-los. Isto levou a que a década de 60 devido a uma conjugação de factores, desde a tomada de consciência, por camadas mais amplas, ao atraso da sociedade portuguesa quando comparada com outras sociedades da Europa e o descrédito do modelo corporativista prometido como alternativa, transformaram-se rapidamente em preocupações de todos os cidadãos. Aumentou a procura de conhecimentos especializados na área social e surgiram instituições de planeamento e intervenção técnica, gabinentes e organismos de estudos sociais, cobrindo temáticas do âmbito colonial ou relacionadas com com o serviço social, o desenvolvimento comunitário, a formação profissional e políticas de desenvolvimento. Em 1963, surgiu cursos com disciplinas de sociologia e, mesmo uma licenciatura em Sociologia no Instituto de Estudos Superiores de Évora, mas sem efeitos notórios para a institucionalização da Sociologia, dadas as preocupações práticas de formação de profissionais e preocupações ético-religiosas.
Um verdadeiro marco na história da sociologia em Portugal, acontece em 1963 com o surgimento da revista Análise Social, projecto de um grupo de investigadores, quase todos identificados com o progressismo católico, movidos pelas ideias do desenvolvimento económico baseado no progresso e na justiça social. Este grupo levou tão longe quanto possível o estudo da realidade social e no elevado nível de exigência teórica e metedológica, ganhando credibilidade, investindo na formação especializada dos seus investigadores e esteve na origem em 1974, já depois da revolução de Abril, da primeira licenciatura em Sociologia nas Universidades Portuguesas.
Dava-se então início à terceira fase do processo de institucionalização da Sociologia em Portugal. Isto acontce, quer através da criação de novas licenciaturas noutras universidades, quer através da criação de verdadeiros centros de investigação sociológica, bem como revistas e publicações periódicas e ainda através da criação de organismos científicos e profissionais cujos congressos passaram a constituir eventos marcantes da vida colectiva dos sociólogos portugueses.
Importa salientar que o processo de institucionalização da sociologia em Portugal, vai coincidir com um período, em que a própria sociologia, enquanto disciplina institucionalizada, atravessava uma fase de reorientação e recuperação de um  período muito crítico, em que toda a produção científica-social, tinha sido posta em causa em toda a Europa. A crise de que se está a falar tinha a ver, sobretudo, com o porcesso de desenvolvimento da própria sociologia. É neste contexto de crítica acérrima e de forte pluralismo que, em Portugal a sociologia se institucionaliza, ou seja, o nascimento da sociologia em Portugal coincide com o renascimento da  própria sociologia, em países onde já mais precocemente se tinha institucionalizado.

Adaptado de um artigo de Pedro Hespanha "Os custos e os Benefícios da Institucionalização tardia da Sociologia em Portugal" de Outubro de 1996

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