sábado, 26 de fevereiro de 2011

O Poeta é um fingidor


Dizem que em cada Coisa uma Coisa Oculta Mora

Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora.
Sim, é ela própria, a coisa sem ser oculta,
Que mora nela.

Mas eu, com consciência e sensações e pensamento,
Serei como uma coisa?
Que há a mais ou a menos em mim?
Seria bom e feliz se eu fosse só o meu corpo -
Mas sou também outra coisa, mais ou menos que só isso.
Que coisa a mais ou a menos é que eu sou?

O vento sopra sem saber.
A planta vive sem saber.
Eu também vivo sem saber, mas sei que vivo.
Mas saberei que vivo, ou só saberei que o sei?
Nasço, vivo, morro por um destino em que não mando,
Sinto, penso, movo-me por uma força exterior a mim.
Então quem sou eu?

Sou, corpo e alma, o exterior de um interior qualquer?
Ou a minha alma é a consciência que a força universal
Tem do meu corpo por dentro, ser diferente dos outros?
No meio de tudo onde estou eu?

Morto o meu corpo,
Desfeito o meu cérebro,
Em coisa abstracta, impessoal, sem forma,
Já não sente o eu que eu tenho,
Já não pensa com o meu cérebro os pensamentos que eu sinto meus,
Já não move pela minha vontade as minhas mãos que eu movo.

Cessarei assim? Não sei.
Se tiver de cessar assim, ter pena de assim cessar,
Não me tomará imortal.

Análise do Poema

O poema que se inicia com "Dizem que em cada coisa uma coisa..." é um poema que pertence ao conjunto de poemas de Caeiro denominado como "Poemas Inconjuntos" e está datado de 5/6/1922. Data desde já curiosa, visto que Caeiro morre (segundo a sua biografia) em 1915...
 O facto é que este pequeno (e curioso pormenor) nos indica desde logo a natureza de certos poemas "tardios" de Caeiro. São poemas onde o autor é claramente o mesmo, mas onde os assuntos, as temáticas, ou mesmo as abordagens às temáticas podem ser muito variadas e diferentes, se as compararmos com as temáticas e perspectivas presentes no grande livro de Caeiro, a sua obra-prima, o "Guardador de Rebanhos". Esta diferença é ainda mais notória num outro conjunto de poemas, denominado "Pastor Amoroso".
 Neste poema que agora analisamos podemos ver um Caeiro um pouco diferente do Caeiro do "Guardador de Rebanhos". É um Caeiro com maiores dúvidas, que põe em questão algumas certezas que estabelecera no seu "livro". Nomeadamente põe em dúvida a sua própria natureza:
 Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora.
Sim, é ela própria, a coisa sem ser oculta,
Que mora nela.
 Mas eu, com consciência e sensações e pensamento,
Serei como uma coisa?
Que há a mais ou a menos em mim?
Seria bom e feliz se eu fosse só o meu corpo —
Mas sou também outra coisa, mais ou menos que só isso.
Que coisa a mais ou a menos é que eu sou?
 A segunda estrofe é uma estrofe atípica em Alberto Caeiro, que sempre insiste na visão que passa na primeira estrofe: as coisas são o que são e nada mais do que isso, porque pensar no que as coisas são é "estar doente dos olhos". Mas vemos como ele aqui se questiona a si próprio, coisa que normalmente ele não faria.
 Todo o seu discurso subsequente é profundamente anti-Caeiro:
 Sou, corpo e alma, o exterior de um interior qualquer?
Ou a minha alma é a consciência que a força universal
Tem do meu corpo por dentro, ser diferente dos outros?
No meio de tudo onde estou eu?
 E isto revela que Caeiro - que é visto sobretudo como um anti-metafísico, como alguém que renega o pensar em favor de um objectivismo total da realidade, que se quer aproximar à Natureza ao ponto de ser parte integrante dela e nada mais - teve momentos de dúvida, numa época tardia (mesmo post mortem!). Mas não deixa de ser o mesmo indivíduo em busca das mesmas explicações.

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