quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O Poeta é um fingidor.


BIOGRAFIA DE RICARDO REIS


Nascido (literariamente) em 1897, Ricardo Reis tem de pessoa a sua disciplina mental, que falta por exemplo a Álvaro de Campos.
Segundo muitos dos críticos, Ricardo Reis é aquele, de entre os heterónimos, aquele que se aproxima mais de Pessoa-ele-próprio. Ou seja, aquele em que a forma e o conteúdo dos seus poemas mais se aproxima da verdadeira intenção de Pessoa. Pois se Campos é o modernismo em si mesmo e Caeiro é a ascese, a despersonalização completa, a Reis resta o tudo que é ainda Pessoa em si mesmo.
Reis é analítico, como Pessoa é analítico e como ele, também segue uma herança eminentemente clássica, conservadora, que não está presente nos outros heterónimos. Reis destaca-se da poesia que Pessoa escreve em nome próprio, talvez mais pelo seu poder de síntese. Reis é imbuído de um sentimento religioso, mesmo sendo adepto do paganismo, pois tem um panteão de deuses, que mesmo dentro da natureza, podem aceitar Cristo. É porventura essa também a crença de Pessoa, que se considera um "cristão gnóstico", oposto às igrejas organizadas. Reis é como Pessoa, favorável à monarquia, favorável a uma visão de nobre sobre a vida que nos oprime, no que isso tem de inglês, de indiferente.
Ás Odes de Ricardo Reis, vários críticos têm achado semelhanças nas Odes do poeta clássico Horácio. No que ambas têm de avisos nobres, no que ambas transmitem de uma visão da vida permeada pela calma e pela filosofia prática.
Se bem que é verdade que há semelhanças, Pessoa-Reis não é como Horácio, defensor de vida dentro dos mesmos moldes. Pois que Horácio defende uma visão epicurista da vida, em que se devem degustar os pequenos prazeres do momento e não as promessas eternas do futuro, enquanto Pessoa-Reis defende precisamente a renúncia do amor. Aqui acha-se uma qualidade essencial de Pessoa: a de sempre filtrar as suas influências (como indicou António Quadros). Pois que se ele recebe Horácio, não o copia, mas filtra-o por outros olhos.
Parece-me que, numa análise mais próxima, esta incapacidade de amar, ou a descrença no amor, é uma coisa muito própria de Pessoa, relacionada com a sua infância e também com a sua idade adulta. Ele um homem sempre desiludido com a "traição" da mãe, que, adulto, desconfia do amor de outras mulheres, afastando-se delas, mas sempre desejando o que não pretende alcançar.

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