quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ESTUDO DE CASO: PERCURSOS E REPRESENTAÇÕES DE CONSUMIDORES EXCESSIVOS DE ÁLCOOL


Análise dos Dados

Realizadas que foram nove entrevistas, distribuídas pelas três instituições que constituíram a área de intervenção, CRAS - Centro Regional de Alcoologia do Sul, Hospital Miguel Bombarda e Casa de Saúde do Telhal, há que analisar toda a informação recolhida, para dela retirarmos algumas conclusões que nos ajudarão a identificar, compreender e descrever o percurso de vida que leva os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool, objectivo central desta dissertação.
O objectivo deste estudo, projecta-se numa questão central, que constituiu o ponto de partida de todo o trabalho de investigação: Quais os principais motivos que levam os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool? Para que a resposta a esta questão central fosse integradora de toda a pesquisa, optou-se por constituir um conjunto de questões derivadas, desmultiplicando a questão inicial, e dando um fio condutor aos entrevistados, de forma a obterem-se os melhores resultados, sabendo de antemão que muitas vezes o discurso apresentado por estes indivíduos,  devido à própria situação, é de difícil diálogo.
Pretendeu-se assim, que a partir do objectivo do estudo, e da sua problemática, se obtivesse uma Hipótese Principal (O consumo excessivo de álcool é o resultado das dificuldades que o indivíduo se vê confrontado no seu dia a dia e nas relações estabelecidas ao nível de grupos, organizações e círculos de amigos) e algumas outras secundárias, que serão agora analisadas pelo conjunto das entrevistas realizadas no presente trabalho.
Tratando-se, como opção que foi, de entrevistas semi-directivas, cujo objectivo era estruturar, limitar e evitar grandes divagações, o que é facto é que neste tipo de entrevistas e entrevistados, muitas vezes se torna complicado pormos “um travão”, ao discurso do entrevistado, e obriga-nos a um vaivém constante, ou em opção, retirarmos à posteriori, os fragmentos que mais correspondem ao objectivo traçado. Quase sempre se optou, pela primeira opção, orientarmos o entrevistado e limitá-lo a grandes divagações, com a vantagem de tornar o dialogo muito mais aberto, e dando ao indivíduo um à-vontade de forma a corresponder ás expectativas, que foram sempre, retirar o melhor conteúdo possível das suas palavras.
Não quero também deixar de salientar, o enorme valor acrescentado que trouxeram as entrevistas exploratórias, pois as pessoas que participaram têm muitos anos de experiência à frente das suas instituições, são conhecedoras do que se passa à volta deste fenómeno e enriqueceram todas as leituras que antecipadamente tinha realizado, dando uma panorâmica do que se passa nas instituições, no país e até no mundo, em geral.
No percurso do Guião, traçaram-se quatro grandes blocos que seriam os fios condutores de toda a entrevista. Primeiro, a caracterização do entrevistado, um segundo bloco, sobre a trajectória de vida, em terceiro lugar, as práticas e representações sobre o consumo de álcool, e finalmente, a questão do futuro que estes indivíduos reservam para si.  

Caracterização do entrevistado (a)


Em relação à caracterização dos entrevistados, achou-se interessante saber alguns dados, mas não era objectivo do estudo fazer-se qualquer extrapolação em relação a estes dados, pelo que se cingiu aos mais básicos, como o sexo, idade, situação conjugal, escolaridade, meio familiar e meio de vida, sabendo que grande parte passou ao longo do seu percurso de vida por diversas alterações nestes dados (excepto sexo e idade), portanto quisemos apenas saber actualmente a sua situação, porque a multiplicidade de alterações foram ouvidas ao longo das entrevistas. 
Tal como a maioria dos estudos indicam, o número de homens, consumidores de álcool prevalece bastante maior do que em relação às mulheres, neste caso obtivemos sete entrevistas a homens e duas a mulheres, no entanto verificou-se, quer em observação directa, quer nas entrevistas exploratórias, um crescente número de mulheres que começam a aparecer nestes Centros de Recuperação.

Verificou-se uma ligeira diferença entre a média de idades nos homens e mulheres, com uma média de idades superior para os homens (49 anos) em relação às mulheres (43 anos). Também em entrevistas exploratórias, foi consenso nas três entrevistas, que a estrutura física da mulher em relação ao homem é muito inferior, ou seja, se um indivíduo do sexo masculino for consumidor excessivo de álcool, muito provavelmente só ao fim de nove, dez anos, é que começam a aparecer as primeira debilidades físicas, enquanto nas mulheres, bastam três, quatro anos, para a sua saúde física ficar em risco.
Quanto à situação conjugal, verificou-se no caso dos homens, a existência de cinco indivíduos ainda casados, um outro divorciado, e finalmente um solteiro. Em relação aos casados, existe um caso, em que o indivíduo vai no terceiro casamento, porque os anteriores não resistiram, sobretudo devido ao seu alcoolismo. Outro indivíduo casado, já conheceu a sua actual mulher na fase de recuperação, não passando esta senhora, pelo processo de dependência alcoólica do marido.
Em relação às mulheres, a situação também é diferente, pois se num caso, foi o próprio divórcio que desencadeou o quadro alcoólico, no segundo, o marido sempre se manteve com a esposa, acreditando na sua recuperação, são palavras da própria entrevistada:

“Não perdi a família, bem pelo contrário, as minhas filhas sempre se prontificaram a ajudar-me, o meu marido como é assim, aquele género mais tortinho, não é mau, mas é tortinho. Eu acho que ele também tem vergonha, a verdade é esta. Disse-me sempre que me ajudava naquilo que pudesse, nos medicamentos que necessitasse, custe o que custar, dava-me o dinheiro, mas que não lhe pedisse para me acompanhar que ele não ía.”
                                                                                                                                 (Entrevista Nº 5)

Quanto à escolaridade, temos aqui um problema transversal às habilitações académicas, pois nestas nove entrevistas, aparecem quatro graus de ensino, que vai desde a 4ª classe até ao ensino superior. Existe neste aspecto uma heterogeneidade bastante grande, não se traçando qualquer perfil a este nível.
Em relação ao meio familiar, existe também uma diversidade muito grande, pois temos indivíduos que vivem sozinhos, até outros que vivem com mulher e dois filhos.
Finalmente em relação ao meio de vida, existe apenas uma situação de desemprego, verificando-se que todos os outros trabalham, excepto uma mulher que por opção se tornou doméstica, embora já tivesse trabalhado. Existem também dois ex-empresários, que embora neste momento não estejam a trabalhar, a todo o momento iniciarão a sua actividade.
  

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