domingo, 13 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - DADOS ESTATÍSTICOS DE ENQUADRAMENTO


Consumo de Álcool na Europa[1]

O álcool é produzido e bebido na Europa desde há milhares de anos, geralmente feito com quaisquer materiais disponíveis. Em tempos, as bebidas alcoólicas eram usadas frequentemente como remédio, uma prática que foi continuada até ao princípio do século XX. Embora existissem de facto leis sobre o álcool, estas eram normalmente diferenciadas por razões de ordem pública ou para regular o mercado, e não numa perspectiva dos efeitos nocivos que o mesmo causava, quer em termos de saúde, quer sociais. Contudo, este quadro mudou com os desenvolvimentos na Europa medieval e moderna, incluindo a industrialização, melhoramento das linhas de comunicação, e a descoberta de bebidas mais fortes, as destiladas. Grandes movimentos espalharam-se pela Europa durante o século XIX e início do século XX, conduzidos sobretudo, por preocupações relativas ao consumo de bebidas destiladas, espalhando-se posteriormente a todo o tipo de bebidas alcoólicas. No entanto, esses movimentos, foram-se desvanecendo, até uma posição de pouca importância no fim do século vinte.
A Europa desempenha um papel central no mercado global do álcool, produzindo um quarto do álcool mundial, e mais de metade da produção mundial de vinho. Por exemplo, na União Europeia, o comércio é ainda mais centralizado, com 70% de exportações e pouco menos de metade das importações mundiais a envolver a União Europeia. Apesar da maioria deste comércio ser feito entre países da União Europeia, o comércio de álcool contribui com cerca de 9 biliões de euros para a balança comercial da UE como um todo.
O contrabando de álcool na Europa é enorme, tendo a European High Group on Fraud apresentado uma estimativa de 1,5 biliões de euros perdidos com a fraude do álcool durante 1996, e só nos 15 países da União Europeia. Em vários países, pelo menos um em cada seis turistas regressam das suas viagens ao estrangeiro com bebidas alcoólicas, trazendo consigo uma média de dois litros de álcool puro, por pessoa.
Baseado na revisão de estudos existentes, em 2003, o custo tangível total com o álcool foi estimado em cerca de 125 biliões de euros, só na Europa dos quinze, o equivalente a 1,3% do PIB. Quanto aos custos intangíveis, estes atingiram uma estimativa em cerca de 270 biliões de euros e mostram o valor que as pessoas atribuem à dor, sofrimento e perda de vidas que ocorre devido aos danos de origem criminosa, sociais, e de saúde pública causados pelo álcool. Recorrendo a outras maneiras de valorizar os mesmos danos, chega-se a estimativas que variam entre os 150 e 760 biliões de euros. Embora estas estimativas considerem um número de outras várias áreas da vida humana onde se regista o impacto do álcool, há várias outras áreas em que nenhuma estimativa foi feita, dado que foi impossível a obtenção de dados.
A União Europeia é a região com maior consumo de álcool do mundo, tendo atingindo em meados dos anos setenta um consumo médio por pessoa, de 15 litros de álcool puro por ano, havendo no entanto um decréscimo nos últimos quarenta anos, para cerca de 11 litros por ano. Embora a maior parte dos europeus bebam álcool, cinquenta e cinco milhões de adultos (15%) abstêm-se; tendo isto e o consumo não registado em conta, o consumo por bebedor chega aos 15 litros por ano.
Metade deste álcool é consumido em forma de cerveja, com o resto dividido entre vinho (34%) e bebidas destiladas (23%). Dentro da Europa dos quinze, as áreas do Norte e do Centro bebem principalmente cerveja, enquanto no Sul da Europa, se beba principalmente vinho. Cerca de 40% das ocasiões de consumo na maior parte da UE15 têm lugar na refeição da tarde/noite, embora na Europa do Sul seja mais provável que se beba ao almoço do que em qualquer outra ocasião.
No que respeita ao bebedor excessivo de álcool, também aqui existem algumas discrepâncias, pois os europeus sulistas declaram menos vezes que se embebedam todos os meses. Este padrão é atenuado quando o “binge-drinking”[2] é, por sua vez investigado, sugerindo a existência de diferenças sistemáticas na vontade das pessoas de declararem que estão intoxicadas, ou declarar a extensão de um “única ocasião”. Os estudos do “binge-drinking” mostram também excepções ao padrão norte-sul, em particular a Suécia que tem uma das mais baixas taxas de “binge-drinking” na UE15. Em resumo, na Europa dos quinze, os adultos declaram ficar bêbados em média 5 vezes por ano, mas fazem “binge-drinking” dezassete vezes por ano; isto é equivalente a 40 milhões dos cidadãos da UE15 que “bebem demasiado” por mês e 100 milhões (1 em cada 3) que fazem “binge-drinking” pelo menos uma vez por mês.
Embora existam muito menos dados disponíveis para a UE10[3], estes sugerem que algum do consumo de vinho, foi substituído por bebidas destiladas, que a frequência de consumo é menor, e que a frequência de “binge-drinking” é maior do que na UE15.
Enquanto 266 milhões de adultos bebem até 20g (mulheres) ou 40g (homens) por dia, mais de 58 milhões de adultos (15%) consomem acima deste nível, com 20 milhões destes (6%) bebendo acima dos 40g (mulheres) ou 60g (homens). Podemos igualmente estimar que 23 milhões de Europeus (5% de Homens e 1% de Mulheres) são dependentes do álcool.
Outro dado interessante, é o facto de muitas mulheres, enquanto grávidas continuarem a beber (25% - 50%) e, algumas continuam a beber a níveis danosos.
Também na Europa dos quinze, quase todos os estudantes de quinze, dezasseis anos (> 90%) beberam álcool em algum momento da sua vida, começando em média aos 12 – 13 anos de idade e, embriagando-se pela primeira vez aos 14 anos. A quantidade média bebida numa única ocasião por jovens de quinze, dezasseis anos é acima das 40g de álcool e, chega mesmo a quase 60g no Sul da Europa. A maior parte dos países mostram uma substancial subida do “binge-drinking” para os rapazes desde 1995 a 2003 e, quase todos os países mostram isto tanto para os rapazes como para as raparigas.
Embora o uso do álcool traga consigo, se bebido moderadamente, um número de prazeres, o risco de uma vasta gama de danos sociais, aumenta se a dose consumida for elevada, isto é, quanto maior o consumo de álcool, maior o risco. Os danos provocados variam, de perturbações sociais tais como ficar acordado durante a noite, até consequências mais sérias, tais como danos conjugais, abuso de crianças, crime, violência e até homicídio. Geralmente quanto maior o nível de consumo de álcool, mais grave é o crime ou o dano.
Além de ser uma droga de dependência, o álcool é a causa de 60 tipos de diferentes doenças e problemas.
O álcool é responsável por colocar um grande peso em vários aspectos da vida humana na Europa, que podem ser vastamente descritos como “danos para a saúde” e “danos sociais”. Sete milhões de adultos afirmam ter estado envolvidos em brigas enquanto bebiam, no último ano (baseados numa revisão de um pequeno número de estudos com custos suportados pelos próprios países) e o custo económico do crime atribuído ao álcool foi estimado em 33 biliões de euros na UE em a 2003. Este custo é dividido entre polícia, tribunais e prisões (15 biliões), despesas com prevenção do crime e seguros administrativos (12 biliões) e danos de propriedade (6 biliões). Os danos de propriedade devido à condução com álcool foram também estimados em 10 biliões, enquanto que o custo intangível dos efeitos físicos e psicológicos do crime foi avaliado entre 9 e 37 biliões de euros (52 biliões para o custo do crime relacionado com o álcool).


[1] Esta alínea foi retirada de um estudo efectuado pelo Institute of Alcohol Studies, Inglaterra, e escrito por Peter Anderson e Bem Baumberg.
[2] Binge-drinking é o termo utilizado para o padrão de consumo para além de um certo número de bebidas numa ocasião, cerca de 5 ou mais bebidas.
[3] UE10, refere-se aos países que entraram agora para a União Europeia, que são os seguintes: Chipre, República Checa, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Malta, Polónia, Eslováquia e Eslovénia.


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