sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - METODOLOGIAS E TÉCNICAS DE PESQUISA

A Análise de Conteúdo

Segundo Matalon[1], podemos enumerar algumas das perguntas que o investigador é levado a colocar, para lá do simples “o que haverá aí dentro?”, nomeadamente:

·         Como colocar cada discurso de uma forma mais fácil de abordar, de maneira a conservar tudo o que é pertinente e nada mais do que isso?

·         O que disse cada um a propósito de um ponto em particular?

·         Que diferenças e semelhanças existem entre os diversos discursos?

Como forma de responder ou procurar responder a este tipo de questões, escolheu-se a análise de conteúdo como técnica para tratar os dados recolhidos nas entrevistas, considerando que se enquadra de uma forma adequada aos objectivos que se pretende atingir e ao tipo de abordagem metodológica adoptada para este estudo.
A análise de conteúdo, considerada uma das técnicas mais comuns em investigação empírica em ciências sociais, tem um campo de aplicação muito vasto. Pode ser efectuada sobre comunicações diversas (texto literário, programas televisivos, relatórios,…) e ser utilizada em objectos de investigação diferenciados. Segundo Raymond Quivy[2] ela é particularmente adequada nas seguintes circunstâncias: 1) Análise das Ideologias, dos sistemas de valores e representações; 2) Análise dos processos de difusão e de socialização (manuais, publicidade, …); 3) Análise de estratégias, das componentes de uma problemática, das interpretações de um acontecimento; 4) A reconstituição de realidades passadas não materiais (mentalidade, sensibilidades, …).
A análise de conteúdo consiste num “conjunto de técnicas de análise de comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objectivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (qualitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção / recepção (variáveis inferidas) destas mensagens”[3].
Este tipo de análise é bastante rico, pois permite inferências sobre a própria fonte, a situação em que esta produziu o material objecto de análise, sendo a sua finalidade “efectuar inferências com base numa lógica explicitada sobre as mensagens cujas características foram inventariadas e sistematizadas[4]. Neste sentido tem por objectivo, aferir o sentido do texto, interpretá-lo em relação a um determinado objecto de investigação e aos próprios problemas que suscitam a sua realização.
Procurou-se um discurso sob a forma que o tornasse mais “inteligível” com tudo, o que este termo pode ser subjectivo, de ambíguo e de impreciso, recorreu-se à elaboração de um resumo para, de uma forma mais cómoda, se poderem comparar as várias entrevistas. Ou seja, a ideia chave que se pretendeu transmitir é a de que o sentido do discurso que a análise de conteúdo visa, é desmontar não de uma forma imediata, mas é antes o resultado de um processo muito mais complexo.
Laurence Bardin[5], referencia três fases de processo de análise de conteúdo, como forma de simplificar a tarefa de organizar o trabalho. Uma primeira, é a pré-análise, a segunda, chama-se a fase de exploração do material; e finalmente a fase de tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação.
A primeira fase indicada consiste numa “leitura” do material a analisar, com o objectivo de sensibilizar e de construir as primeiras ideias, de “conhecer o texto deixando-se invadir por impressões e orientações. Pouco a pouco, a leitura torna-se mais precisa, em função das hipóteses, da projecção de teorias adaptadas sobre o material e da possível aplicação de técnicas utilizadas sobre materiais análogos”[6] .
Esta fase de leituras repetidas do texto permite ao investigador familiarizar-se com o material, constituir um corpus através do qual apreende as regularidades e as singularidades do discurso, os aspectos mais significativos, as questões ou temas a evidenciar, e a própria lógica existente em cada discurso. Para além disso, o autor considera importante nesta fase do trabalho de preparação, a referenciação dos índices, a elaboração dos indicadores e a preparação de todo o material – neste caso, a transcrição das entrevistas gravadas.
Numa segunda fase, o trabalho de análise consiste na exploração do material, ou seja, no tratamento do corpus por operações de codificação, uma questão central da análise de conteúdo. Para L. Bardin, “A codificação corresponde a uma transformação – efectuada segundo regras precisas – dos dados brutos do texto, transformação esta que, por recorte, agregação e enumeração, permite atingir uma representação de conteúdo, ou da sua expressão, susceptível de esclarecer o analistas acerca das características do texto, que podem servir de índices”[7].
Organizar a codificação passa por escolher unidades de texto pertinentes, a partir das quais é possível fazer a sua classificação. Trata-se de “recortar” o texto em unidades isoladas e significativas do ponto de vista do seu conteúdo. Ghiglione e Matalon[8], referem a presença de uma outra unidade: a unidade de numeração, que pode ser de dois tipos: aritmética ou geográfica. Não vamos desenvolver este tipo de unidade, pelo facto de trazer uma série de problemas técnicos e práticos que lhe estão associados, muito fáceis de surgir e que poderiam atrasar a prossecução deste estudo. Como afirmam, “o problema da numeração é de um duplo obstáculo: teórico e metodológico. Se o tratarmos de forma teoricamente inadequada, seremos conduzidos a extrair conclusões não fundamentadas; se o tratamos de forma metodologicamente desajustada, seremos levados a utilizar instrumentos inadequados”.
As unidades podem ser de registo ou de contexto, correspondendo as primeiras “ao segmento do conteúdo a considerar como unidades base, visando a categorização”[9], e as segundas, à “unidade de compreensão para codificar a unidade de registo e corresponde ao segmento da mensagem cujas dimensões (superiores às unidades de registo) são óptimas para se compreender a significação exacta da unidade de registo”
De uma forma talvez mais clara, Ghiglione e Matalon[10] afirmam que no campo da análise da entrevista, as unidades de registo podem ser definidas como “o segmento de conteúdo mínimo que é tomado em atenção pela análise (frase, por exemplo), a unidade de contexto é caracterizada por comparação com a precedente, já que ela (a unidade de contexto) será o mais estreito segmento de conteúdo ao qual nos deveremos referir para compreender a unidade de registo (o parágrafo onde a frase se insere, por exemplo). Poderíamos igualmente, num dado tipo de análise de conteúdo, ter como unidade de contexto a frase, e como unidade de registo a palavra”.
Para Bardin, pode-se assumir como unidade de registo, uma palavra, um tema, um objecto, um acontecimento ou mesmo um documento. E em todos os casos, as naturezas podem ser diferentes e de dimensão variável.
O recurso ao tema como unidade base para a análise de conteúdo, é usualmente utilizado quando se pretende estudar opiniões, atitudes, valores, crenças ou tendências, sendo um procedimento que normalmente se pratica no tratamento de respostas a questões abertas e entrevistas – daí considerarmos a opção mais pertinente para o nosso estudo. Esta prática, como afirmam Ghiglione e Matalon, “consiste em isolar os temas presentes num texto com o objectivo de, por um lado, o reduzir a proporções utilizáveis e, por outro lado, permitir a sua comparação com outros textos tratados da mesma maneira. Aprofundando este método, convirá realçar que se estabelece geralmente uma clara distinção entre temas principais e temas secundários. Os primeiros podem ser definidos como dando conta do conteúdo do segmento de texto analisado; os segundos servem para especificar os primeiros nos seus diferentes aspectos”[11] .
As análises temáticas, podem ser de dois tipos: análise categorial, que consiste em calcular e comparar frequências de certas categorias previamente agrupadas em categorias significativas, e a análise de avaliação, incide sobre as representações sociais ou os juízos dos interlocutores, a partir de um exame de certos elementos constitutivos do discurso, através do cálculo da sua frequência e direcção[12]. Este tipo de análise encontra-se inserido numa diversidade de tipologias de conteúdo. Laurence Bardin[13] enumera, para além das análises temáticas, mais outros dois tipos de análise de conteúdo: as análises de expressão, efectuadas sobre a forma da comunicação que indica o estado de espírito do emissor e, a análise da enunciação, que se centra sobre o discurso como um processo; as análises estruturais incidem sobretudo, sobre a maneira como os elementos da mensagem estão dispostos de forma a revelar aspectos subjacentes e implícitos da mensagem.
A utilização de uma análise temática, presente na vertente empírica deste trabalho, implica o descobrir de “núcleos de sentido”, que compõem uma comunicação e cuja presença, e frequência podem significar alguma coisa para o objectivo analítico escolhido. O tema, enquanto unidade de registo corresponde a uma tarefa de recorte (do sentido e, não da forma) que não é fornecida, visto que o recorte depende do nível de análise e não de manifestações reguladas.[14]
Uma das etapas fundamentais na análise de conteúdo, e a categorização, que consiste numa “operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto por diferenciação e, seguidamente, o seu reagrupamento segundo o género (analogia), com os critérios previamente definidos. As categorias são rubricas ou classes, as quais reúnem um grupo de elementos (unidades de registo, no caso da análise de conteúdo), sob um título genérico, um agrupamento, efectuado em razão dos caracteres comuns destes elementos”[15].
Este estudo assenta num processo de inventariação, em que se isolam os elementos mais significativos e a sua posterior distribuição por grupos organizados – a classificação. A categorização pode ser feita a partir de um sistema predefinido de categorias, pelas quais se distribuem os elementos do texto, de acordo com as suas características, ou em alternativa, determina progressivamente as categorias, a partir da classificação dos próprios elementos do texto[16].


[1] GHIGLIONE, Rodolphe, MATALON, Benjamim, (1995), O inquérito: Teoria e Prática, Oeiras, Celta, pp.205-206.
[2] QUIVY, Raymond, CAMPENHOUDT, Lucvan. (1998), Manual de investigação em ciências sociais, Lisboa, Gradiva, (2ª edição).
[3] BARDIN, Laurence, (1977), Análise de Conteúdo, Lisboa, Edições 70, p.42
[4] VALA, Jorge, A Análise de Conteúdo, in SILVA, A. Santos, PINTO, J. Madureira, (orgs.), (1999), Metodologia das Ciências Sociais, Porto, Edições Afrontamento, p.104 
[5] BARDIN, Laurence, (1977), Análise de Conteúdo, Lisboa, Edições 70, p.95
[6] Idem, p.96
[7] BARDIN, Laurence, (1977), Análise de Conteúdo, Lisboa, Edições 70, p.103
[8] GHIGLIONE, Rodolphe, MATALON, Benjamim, (1995), O inquérito: Teoria e Prática, Oeiras, Celta, p.215.
[9] BARDIN, Laurence, (1977), Análise de Conteúdo, Lisboa, Edições 70, p.104
[10] GHIGLIONE, Rodolphe, MATALON, Benjamim, (1995), O inquérito: Teoria e Prática, Oeiras, Celta, pp.210-215.
[11] GHIGLIONE, Rodolphe, MATALON, Benjamim, (1995), O inquérito: Teoria e Prática, Oeiras, Celta, p.233
[12] BARDIN, Laurence, (1997), Análise de Conteúdo, Lisboa, Edições 70, pp. 105 -106
[13] Idem
[14] Ibidem
[15] Ibidem
[16] VALA (1986), no mesmo sentido, designa este processo de construção de categorias à priori (para a primeira forma) e à posteriori (para a segunda forma), podendo ainda ser realizado pela combinação dos dois procedimentos.

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