terça-feira, 17 de abril de 2012

O Poeta é um fingidor



Quando as crianças brincam


Quando as crianças brincam
E eu as ouço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no meu coração



Análise do poema "Quando as crianças brincam"


O poema "Quando as crianças brincam" é um poema ortónimo tardio de Fernando Pessoa, datado de 5/9/1933.

O tema da infância é um tema recorrente na obra ortónima (escrita com o próprio nome) de Pessoa. É um tema simultaneamente reconfortante e doloroso para Pessoa e é fácil de compreender porquê.

Fernando Pessoa viveu uma infância dita feliz até aos seus 6 anos. É com a morte do pai que a unidade (e paz) familiar se quebra de modo definitivo e irreversível, culminando na traumática mudança dos Pessoa para a distante África do Sul, tem o menino Fernando apenas 8 anos. Ele - uma criança precoce, quiçá mesmo sobredotada - tinha uma consciência do que lhe estava a acontecer e registou todos os pormenores dessa mudança na sua psique.

Por isso a sua infância é agridoce - se por um lado houve uma altura de verdadeira felicidade, a barreira dos 6 anos marca o princípio de uma tristeza imensa que sempre o acompanhará. Ele recordará assim, de modo ambivalente, este período da sua vida. Há poemas em que a infância é recordada como tempo feliz (poema "quando era criança" por ex) e outros em que ela é recordada pelo oposto.

O poema em análise colhe, por assim dizer, destes dois mundos. Nele Pessoa recorda a infância tanto pelo que teve de feliz como de infeliz.

Mas passemos à análise propriamente dita do mesmo:


Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

A memória visual de Pessoa é activada pelo movimento das criança, sobretudo pelos sons. A memória humana guarda eventos, muitas da vezes, relacionando-os com os sentidos (cheirar algo pode activar a nossa memória, assim como ver algo, ou sentir algo com as mãos). Neste caso é o som que activa a memória de Pessoa. Mas vemos que a actividade das crianças activa em Pessoa uma alegria e não propriamente uma memória imediata.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

A razão porque é actividade uma "alegria" e não uma "memória imediata", tem a ver com aquela ambivalência de que falávamos: a infância de Pessoa foi feliz e infeliz, e ele não pode lembrar-se dela sem esquecer estes dois lados da mesma. No caso da 2.ª estrofe, Pessoa tira uma alegria de uma infância que não teve, precisamente porque a sua própria infância não foi completamente feliz. Não o foi completamente, mas também não o foi totalmente infeliz. É esta réstea de felicidade, da vida até aos 6 anos, que de certo modo torna Pessoa são, que lhe permite lembrar um pouco da felicidade infantil. É a partir deste pouco que Pessoa extrapola o resto - este pouco serve-lhe para imaginar uma "infância totalmente feliz". É esta "memória projectada" que é dele, quando ele olha para as crianças. Ele imagina assim como poderia ter tido uma infância totalmente feliz e faz desta projecção a sua realidade momentânea.

Por isso ele diz que a memória "não foi de ninguém". É uma memória construída, projectada a partir de uma outra memória parcial.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

Esta pequena felicidade é o que suporta Pessoa nos momentos mais difíceis. Como ele, nós também em momentos recordamos a nossa infância, principalmente quando na nossa vida adulta nos encontramos em dificuldades - a infância, sobretudo a infância, é um porto seguro para as inseguranças dos adultos. É na infância que se define o mais básicos dos princípios, valores e traves mestras da nossa personalidade e das nossas crenças.

Se bem que possa parecer que aqui Pessoa cede à emoção, não penso que seja realmente o caso. Veja-se como Pessoa racionaliza o facto da emoção o confortar - ele não se limita a reconhecer que a emoção o conforta, mas associa a esse conforto pobre a realidade de ele ser um "enigma" e uma "visão". Para Pessoa a constatação de um facto não se fica apenas por essa mesma constatação e isso revela a sua necessidade permanente de racionalizar, de manter o controlo da sua mente e do que o rodeia. Esta necessidade de controlo absoluto - que se revela em todas as mentes racionais - é sinal óbvio dessa mesma infância perdida. É o pequeno rapaz que sentiu todo o seu mundo perder-se subitamente que tenta, enquanto adulto, racionalizar tudo à sua volta, de maneira progressivamente mais desesperada.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Notícia(s) do Dia: "Não falta emprego, falta é gente para trabalhar" (Tal vai o Desplante)


 


"Não falta emprego, falta é gente para trabalhar"

A ministra da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território, Assunção Cristas, disse hoje, em Leiria, que no setor da agricultura não falta emprego, mas pessoas para trabalhar.A ministra da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território, Assunção Cristas, disse hoje, em Leiria, que no setor da agricultura não falta emprego, mas pessoas para trabalhar.


A governante sublinhou que é preciso contrariar a ideia de que trabalhar neste setor "é uma vida de dificuldades" e passar a mensagem de que as pessoas "podem ganhar dinheiro e enriquecer", concluindo que "não há falta de emprego na agricultura, falta é gente para trabalhar".

Assunção Cristas afirmou que uma das soluções passa por garantir mais agricultores e "novas pessoas que sintam que há oportunidades", razão pela qual o Governo está a disponibilizar terras do próprio Estado, com prioridade para os novos agricultores. "Arranjamos verbas [através de fundos comunitários] e terra para cultivar", salientou a ministra, convicta de que o caminho a percorrer passa "por produzir mais, aumentar o consumo interno e as exportações". Uma das áreas de oportunidade que destacou é a da produção biológica, que tem sido uma das apostas dos jovens agricultores, assinalou a governante.

O cadastro territorial e a valorização da produção nacional são dois desafios enunciados por Assunção Cristas, que aproveitou para frisar a necessidade de "uma utilização mais eficiente da água, num dos países que possui uma menor área de regadio". Por outro lado, a governante reafirmou a intenção e a importância de, "brevemente", passar a ser publicada no 'site' do Ministério da Agricultura a margem de lucro dos vários elos da cadeia alimentar, procurando tornar mais transparente os valores praticados entre a produção e a distribuição.

As declarações de Assunção Cristas foram proferidas durante uma conferência em Leiria, organizada pela NERLEI - Associação Empresarial da Região de Leiria, intitulada "Novos desafios do Setor Agroalimentar - Uma Estratégia para o Crescimento da Economia Portuguesa".

Fonte: LUSA


Livros que merecem ser lidos...


Como chega um país à quase bancarrota? Porque são pedidos sacrifícios aos cidadãos que parecem não ter fim? Há uma solução duradoura para o problema da dívida pública? O argumento central deste ensaio é o de que os problemas das finanças públicas derivam da fraca qualidade da democracia. Na primeira paret, analisa-se como a situação actual é o resultado de uma cultura e uma prática orçamental laxista de décadas. Na segunda, após um breve diagnóstico dos bloqueios da democracia, são sugeridas algumas alterações do sistema político e administrativo, no sentidfo de maior liberdade, transparência e responsabilidade política, necessárias ao renascimento da democracia e à sustentabilidade das finaças públicas.

PORTUGAL: DÍVIDA PÚBLICA E DÉFICE DEMOCRÁTICO
Paulo Trigo Pereira


Í N D I C E

Parte I - Défice, dívida e descontrolo orçamental

1 - Há vida além do défice?
1.1. Défice: um problema?
1.2. A dívida pública: conceito e contabilidade «criativa»
1.3. A dinâmica do crescimento, do défice e da dívida pública sustentável
1.4. O Pacto e os Programas de Estabilidade e Crescimento
1.5. O emprego, o défice e a dívida

2 - É a bacarrota o nosso destino cíclico?
2.1. O «modelo» português de gestão orçamental
2.2. O crescimento da despesa pública
2.3. Portugal e a Europa: antes e depois da crise

3 - A evolução da estrutura do «Estado» teve impacto
3.1. As administrações públicas
3.2. A alteração da estrutura do «Estado»
3.3. Os fundos e serviços autónomos
3.4 A desorçamentação e o seu impacto nas contas públicas

4 - Investimentos de iniciativa pública: que papel para o sector público?
4.1 Desperdícios nos investimentos de iniciativa pública
4.2. As decisões sobre como investir e como financiar

Conclusão

Parte II - Democracia e reforma das instituições

5 - Porque é que as democracias têm dificuldade em promover o interesse público?
5.1 Democracia, economia mista e bem comum
5.2 Votos, cidadãos desinformados e grupos de interesse
5.3. Recursos comuns, troca de votos e ausência de cooperação
5.4 Instituições para melhorar a democracia

6 - A democracia bloqueada e o Estado fraco
6.1 As especificidades da democracia portuguesa
6.2 Bloqueios do sistema político
6.3 A formação e recrutamento das elites
6.4 A insustentável leveza da política e o definhar do Estado

7 - As funções e a reforma do Estado
7.1 O papel do sector público
7.2 Ética, Mérito e Transparência

8 - Renovar a democracia
8.1 Contrato social: competição e cooperação
8.2 Alterações constitucionais
8.3 Algumas reformas «parlamentares»
8.4 O papel da «sociedade civil»

Epílogo

Sugestões de Leitura

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Livros que merecem ser lidos...


A classe média é um segmento social que suscitou inúmeras polémicas e que, no actual quadro de austeridade, se encontra em risco de empobrecimento compulsivo (sobretudo nos países periféricos da Europa, como Portugal). A noção é, ela própria controversa. Quer em termos teóricos, porque não corresponde, verdadeiramente, a uma "classe" enquanto sujeito ou actor colectivo dotado de uma identidade própria, quer no plano concreto, na medida em que se trata de um conjunto plural que reúne diversas camadas sociais situadas nas posições intermédias da estratificação social, esta é uma categoria social de múltiplas conotações e muito heterogénea.
O presente ensaio pretende contribuir para uma reflexão sociológica - ampla e crítica - em torno deste tema, mostrando a pluralidade de abordagens e concepções sobre o assunto, e ao mesmo tempo apontando exemplos, discutindo tendências e partilhando perplexidades que se apresentam hoje à sociedade portufguesa e à sua classe média.

A CLASSE MÉDIA: Ascensão e Declínio
Elísio Estanque


Í N D I C E

I Parte - Origens e Teorias

1. Classes e desigualdades sociais
1.1. As origens e os precursores
1.2. Divergências e controvérsias: a visão marxista
1.3. A importância do "status": a visão weberiana

2. Ascensão e complexidade da classe média
2.1. A perspectiva liberal e funcionalista
2.2. Conflito, mudança estrutural e subjectividades

II Parte - Portugal

3. Portugal no contexto europeu e global
3.1. Estrutura da população e da indústria
3.2. A evolução da estrutura das classes

4. A persistência das desigualdades: tendências recentes
4.1. Estratificação social e recomposição do sistema de emprego
4.2. Endividamento e desigualdades de rendimento
4.3. Mobilidade, imobilidade e reprodução social
4.4. Atitudes, subjectividades e o «efeito de classe média»

5. Classe de serviço ou classe trasnformadora?

Conclusão

Referências bibliográficas

Anexo: Glossário

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Notícia(s) do Dia: Centenas de pessoas em defesa da Maternidade Alfredo da Costa



Centenas de pessoas em defesa da Maternidade Alfredo da Costa


Centenas de pessoas responderam hoje ao apelo para formar um cordão humano, em torno da Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa, como contestação ao anúncio do encerramento deste estabelecimento de saúde até 2015.

O número de pessoas reunidas por volta das 19h30 no local era suficiente para fazer dois cordões em torno da Maternidade, que tem um perímetro de cerca de 400 metros.

Hoje mesmo, o ministro da Saúde voltou a dizer que a MAC deveria encerrar durante a presente legislatura, tendo-se limitado a afirmar que o mais importante da MAC - o seu 'know-how' e as equipas - seriam mantidos.

O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, disse hoje em Maputo, que o encerramento da MAC visa "aproveitar o melhor possível as equipas técnicas que estão em funcionamento" naquela unidade hospitalar.


Um desfile entre a MAC e o Ministério da Saúde, em Lisboa, no dia 19, vai ser a próxima iniciativa para tentar evitar o encerramento daquela unidade hospitalar.

A decisão foi tomada num plenário realizado antes do cordão humano em redor do edifício da maior maternidade do país, para fazer recuar o Governo na intenção de encerrar a unidade até 2015, anunciada segunda-feira pelo ministro da Saúde.

Fonte: Expresso ONLINE

terça-feira, 10 de abril de 2012

À Volta com a Vida: A Loucura...





"A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana.

Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal.

Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco.

Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido.

Ter consciência dela e ela ser grande é ser génio."


Fernando Pessoa

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Notícia(s) do Dia: Subsídios de férias e de Natal só vão ser repostos a partir de 2015 e de forma gradual




Subsídios de férias e de Natal só vão ser repostos a partir de 2015 e de forma gradual




Corte não termina no fim de 2013 e vai durar mais um ano. "O nosso programa de ajustamento decorre até 2014. Portanto, só depois disso. Com que ritmo, com que velocidade, não sabemos", refere Passos Coelho em entrevista à Renascença. Primeiro-ministro diz ainda que vê vantagens na redistribuição dos subsídios por 12 salários.


Os subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos só começam a ser repostos a partir de 2015. Em entrevista à Renascença, o primeiro-ministro afirma que a reposição dos 13º e 14º meses vai ser gradual.

"Creio que [a reposição] é depois de 2014, porque o nosso programa de ajustamento decorre até 2014. Portanto, só depois disso. A partir de 2015, haverá reposição desses subsídios. Com que ritmo, com que velocidade, não sabemos", começa por dizer Passos Coelho.

"Qual é o grau de reposição? Quanto tempo vai demorar? Não sabemos. E não sabemos porquê? Porque eu não conheço as condições que vão existir em 2014 e 2015", explica.

"Sabemos, sem ter uma bola de cristal, que eles não serão retomados automaticamente, porque dificilmente o Estado conseguiria encaixar num ano a reposição de todos esse benefício", acrescenta o chefe de Governo.

Diluição dos subsídios foi equacionada este ano
Em entrevista à Renascença, Passos Coelho admite mesmo que a redistribuição dos subsídios por 12 meses é uma possibilidade na qual vê vantagens. Ou seja, todos os trabalhadores – público e privados – podem passar a receber 12 salários e não 14, sendo o valor dos 14 redistribuído pelos 12.

"É uma possibilidade. Não a posso afastar. Posso dizer que chegámos a equacionar essa possibilidade já para este ano. O que nos pareceu é que haveria reformas a mais, que poderiam não ser bem entendidas", afirma.

"Eu, por acaso, não vejo grandes inconvenientes. Pelo contrário, vejo até vantagens em que um dia possamos fazer essa discussão e passar de uma convenção de 14 pagamentos para uma de 12 pagamentos", diz ainda Passos Coelho.

Sem condições para mais apoios sociais
O primeiro-ministro diz ainda que o país não tem condições para reforçar os apoios sociais. “Não há dinheiro para isso”, afirma. Quanto a diminuição de gastos que possam resultar da renegociação das parcerias público-privadas, espera que venha a conseguir poupar, mas refere que esse dinheiro será usado para “aliviar a pressão” sobre os futuros orçamentos.

O chefe do Governo reafirma que não vai rever a estimativa de desemprego para este ano, porque acredita que o segundo semestre “vai correr melhor” e, em 2013, considera que vai haver recuperação económica que permita a Portugal regressar aos mercados.

Em princípio, será a Irlanda a regressar "primeiro aos mercados" e Passos admite serem necessárias “pontes” que ajudem ambos os países nesse regresso. Ainda assim, acrescenta que não foi do Governo que partiu qualquer pedido ou informação nesse sentido.

Fonte: RENASCENÇA Online

terça-feira, 3 de abril de 2012

Notícia(s) do Dia: “Governo está a isolar-se cada vez mais do povo”



“Governo está a isolar-se cada vez mais do povo”

Mário Soares alerta para o perigo do caminho seguido pelo Governo de “não dialogar nem explicar as medidas difíceis” aos portugueses.

O ex-presidente da República defende que o Executivo, liderado por Pedro Passos Coelho, está a "isolar-se cada vez mais do povo". Mário Soares diz que a culpa não é apenas das medidas "impopularíssimas que tem vindo a tomar", mas também do facto de não dialogar e explicar aos portugueses essas medidas. O histórico socialista conclui assim que "as pessoas não compreendem qual a estratégia do Governo para combater a crise".

"O nosso Governo, legítimo, porque resultou do voto popular, está a isolar-se cada vez mais do povo. Não só por causa da crise e das medidas impopularíssimas que tem vindo a tomar - dos cortes que quase só atingem os trabalhadores mais pobres, os desempregados, os precários e boa parte da classe média -, mas porque não dialoga com os portugueses, não explica as medidas que toma, avança e recua em silêncio sobre medidas tomadas, e as pessoas não compreendem, por mais que o desejem, qual é a estratégia do Governo para vencer a crise. A austeridade, por si só, não leva com certeza a nenhum lugar", defende Mário Soares num artigo de opinião publicado hoje no Diário de Notícias.

Mário Soares dá o exemplo da manifestação das freguesias para ilustrar o facto de o Governo estar de costas voltadas para os portugueses. "No sábado passado, a "leizinha", como lhe chamou António José Seguro, quando foi anunciada pelo ministro Relvas, sem ouvir, como seria natural, os principais interessados, teve uma reacção unânime das freguesias portuguesas. De norte a sul, desfilaram, em sinal de protesto, pelo centro de Lisboa". "Como é que o Governo não compreendeu a impopularidade da lei que anunciou, depois de ter recuado, por razões políticas que estavam à vista, da ideia peregrina de unir os municípios, para que as Finanças reunissem mais fundos?", questiona o histórico socialista.

Soares acusa mesmo o Governo de não defender a identidade e coesão do país. "É caso para dizer que a obsessão dos cortes ordenados pela troika faz esquecer ao Governo a necessidade de defender a nossa identidade nacional e a coesão entre os portugueses. Num momento de crise - em que o desemprego e a criminalidade crescem -, é particularmente importante evitar o mal-estar e o pessimismo profundo que invadem os portugueses: assim não vamos longe, infelizmente".

No mesmo artigo de opinião o ex-presidente da República acrescenta que os portugueses "começam a ter a sensação de que quem manda é a troika e que Portugal". "É um verdadeiro protectorado comandado, não pelo Governo legítimo mas pelo exterior. Não há patriotismo que resista a uma tal situação".



Fonte: Diário Notícias

O Poeta é um fingidor




NÃO: NÃO DIGAS NADA


Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

análise do poema "não: não digas nada"


O poema que se inicia com "Não: não digas nada", é um poema ortónimo de Fernando Pessoa, datado de 5 e 6/2/1931. Trata-se, por isso, de um poema tardio do poeta. Muito curto, mas intensamente dramático, como teremos oportunidade de ver, de seguida.

Quanto à temática do poema, eu diria que ele fala sobre o silêncio. Mas é curioso observar que, em Fevereiro de 1931, a relação entre Pessoa e a sua namorada Ophélia Queiroz estava a terminar, para nunca mais ser reatada. A última carta entre os dois data de 21 de Março de 1931, pelo que, datará de alguns meses antes (provavelmente Fevereiro) a efectiva separação.

Julgo que este poema poderá também estar influenciado por este factor. Senão vejamos: Parece-nos que, no poema, a mensagem é dirigida a um interlocutor (ou interlocutora) que não é nomeado. Mas é claramente alguém que não o próprio autor. E ele pede silêncio - aliás, é a abertura do poema:

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já.

Isto fala um pouco da própria maneira como Pessoa opunha o sonho e a idealização do real face ao próprio real. Ele sempre insistiu numa realidade sonhada que nunca poderia ser alcançada.

Com Ophélia ocorreu um pouco isto. Ele sonhou muito a relação de ambos, e esse sonho nunca se aproximou da realidade. Ele, por exemplo, não conseguia suportar ter de se relacionar com a família dela, de maneira formal, nem sequer oficializar o namoro de ambos. Era avesso a tudo o que saísse da sua idealização do que era a relação entre ambos. Não queria que o mundo se intrometesse na sua ideia do que era Ophélia para ele.

Desta forma podemos compreender este pedido de silêncio à sua "amante ideal". Se nada for ouvido, tudo pode ser verdade. O silêncio é o nada, mas é também - de certa forma - o tudo que não foi ainda dito: é uma forma de realidade perfeita, que permite tudo dentro de si mesma.

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

Não ouvir nada (não ligar à realidade concreta) é assim melhor do que qualquer coisa real. A realidade intromete-se na perfeição da ideia que Pessoa faz dela. E nessa realidade estão as suas relações pessoais, os seus amigos, a sua família, e Ophélia.

És melhor do que tu.
Não digas nada; sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

O poema chega ao extremo de considerar que a ideia que Pessoa faz da sua "amante ideal" é melhor do que ela alguma vez poderá ser. Desta forma, Pessoa também consegue anular qualquer hipótese da relação entre ambos resultar, porque nunca se poderá aproximar desta ideia de perfeição. Ao desejar a perfeição de uma ideia subjectiva, Pessoa defende-se de ter de oficializar os seus sentimentos por Ophélia, de se comprometer com ela. O seu sonho dela basta-lhe, ao que parece, e esta é uma ideia triste de felicidade. Uma felicidade contida numa dimensão em que nunca se torna real.

Notícia(s) do Dia: Corte nas baixas "pode pôr em causa correcto tratamento dos doentes"



Corte nas baixas "pode pôr em causa correcto tratamento dos doentes"


Bastonário da Ordem dos Médicos alerta para consequências da proposta do Governo.


A redução do subsídio de doença pode colocar em causa o tratamento de doentes, adverte o bastonário da Ordem dos Médicos, em declarações à Renascença.

José Manuel Silva critica a proposta apresentada esta segunda-feira pelo Governo, em sede de concertação social, de proceder a cortes nesta prestação social.

“Isso pode pôr em causa o correcto tratamento dos doentes e o período que necessitem para convalescer. Não entendemos, de forma alguma, este tipo de medidas e propomos que, a serem tomadas, não sejam aplicadas a cidadãos com vencimentos inferiores a mil euros mensais”, defende o bastonário.

O Governo diz que o objectivo é evitar as chamadas “baixas fraudulentas”, mas o bastonário da Ordem dos Médicos considera tratar-se de uma “qualificação abusiva, sem comprovação, que visa estigmatizar a atribuição de baixas por parte dos médicos a muitos doentes”.

Nestas declarações à Renascença, José Manuel Silva deixa críticas à forma de actuação das juntas médicas que, “muitas vezes, sem examinarem o doente, têm uma opinião de que ele está apto para o trabalho, o que também nem sempre corresponde à verdade”.

“Se o Estado fala abusivamente em baixas fraudulentas, nós teríamos também de falar, eventualmente, em muitas altas inadequadas dessas baixas que são atribuídas pelos médicos de família”, acusa.

O Governo quer reduzir de 65% para 55% o subsídio de doença nos casos de incapacidade temporária inferior a 30 dias e para 60% no caso dos beneficiários com baixa entre 30 e 90 dias.

O ministro da Solidariedade e Segurança Social, Pedro Mota Soares, diz que o objectivo é evitar que quem recebe subsídio de doença não ganhe mais do que se estivesse a trabalhar.

Fonte: Renascença ONLINE

quarta-feira, 28 de março de 2012

Notícia(s) do Dia: Novas regras violam Constituição, diz Relatora do Bloco de Esquerda



Novas regras violam Constituição, diz Relatora do Bloco de Esquerda


A deputada encarregue de dar o parecer sobre a revisão do Código do Trabalho (CT), a 'bloquista' Mariana Aiveca, considera que a proposta do Governo "não reúne os requesitos constitucionais e regimentais para ser discutida e votada em plenário".


A deputada relatora da proposta de lei do Governo para a terceira revisão do CT, ou seja, encarregue de verificar se o diploma está conforme à Constituição e está em condições regimentais de subir a plenário, disse à agência Lusa que a proposta legislativa "não garante a objetividade na seleção do trabalhador a despedir, prevista e imposta no artigo 53º da Constituição da República Portuguesa".

Segundo a relatora, a proposta governamental, se fosse aprovada, implicaria "uma profunda alteração no regime do despedimento por inadaptação, criando um novo conceito jurídico".

No seu relatório, que será discutido durante a manhã na Comissão Parlamentar de Trabalho, a deputada considera que a proposta de revisão da legislação laboral "incide especialmente na alteração da organização do tempo de trabalho, fiscalização das condições de trabalho, alterações ao regime de cessação do contrato de trabalho e alteração ao regime aplicável aos instrumentos de regulamentação coletiva de trabalho".

Mariana Aiveca explicou à Lusa que nas 13 páginas do seu relatório fez uma análise da proposta de lei do Governo, analisou os pareceres entregues na Assembleia da Republica no âmbito da discussão pública e deu a sua opinião sobre a proposta.

A deputada não acredita que o seu relatório seja aprovado pela Comissão de Trabalho pois é previsível que a maioria parlamentar apoie a proposta governamental.

Se o relatório de Mariana Aiveca for chumbado isso não afetará o normal prosseguimento do processo legislativo.

Segundo a deputada bloquista foram recebidos mais de 2000 pareceres de estruturas sindicais da CGTP, e outros três de várias entidades relacionados com a supressão de feriados, nomedamente o 5 de outubro e o 1 de dezembro.



Fonte: LUSA

segunda-feira, 26 de março de 2012

Notícia(s) do Dia: Óbito: Morreu António Tabucchi: Pilar del Rio, Gael Garcia Bernal e Javier Solana lamentam nas redes sociais morte do escritor



Óbito: Morreu António Tabucchi: Pilar del Rio, Gael Garcia Bernal e Javier Solana lamentam nas redes sociais morte do escritor


Personalidades ligadas à área da cultura, como a jornalista espanhola Pilar del Rio, o ator mexicano Gael García Bernal e o ex-ministro da cultura espanhol Javier Solana lamentaram hoje, nas redes sociais, a morte do escritor italiano Antonio Tabucchi.

António Tabucchi morreu hoje de manhã em Lisboa aos 68 anos, vítima de doença, e será sepultado na próxima quinta-feira na capital portuguesa, disse à Lusa a sua mulher, Maria José de Lencastre.

Pilar del Rio, viúva do Nobel da Literatura José Saramago, enviou, através da rede social Twitter, uma “piscadela” aos leitores de Tabucchi e acrescentou: “Perdemos um grande escritor, um resistente. A liberdade era valor indiscutível e ele lutou por ela”.

Gael Garcia Bernal mencionou a morte do escritor italiano ao escrever na sua conta do Twitter: “Tabucchi…A Cabeça tinha nome, era Damasceno Monteiro. O meu primeiro policial foi em busca dela. Boa Viagem professor!”. O ator fazia referência, como explica o próprio, ao livro “A cabeça perdida de Damasceno Monteiro”, livro de Tabucchi publicado em 1997.

Javier Solana, ministro da Cultura espanhol entre 1982 e 1995, escreveu no Twitter: “Que pena!, afirma Pereira. Faleceu o escritor italiano Antonio Tabucchi aos 68 anos em Lisboa”.

Nascido em Vecchiano, na província de Pisa, a 24 de setembro de 1943, Antonio Tabucchi era um escritor italiano e professor de língua portuguesa na Universidade de Siena.

Grande conhecedor de Portugal, país pelo qual era apaixonado, Tabucchi era também tradutor e crítico da obra de Fernando Pessoa, tendo recebido, entre outros galardões, o Prémio Médicis, por “Nocturno Indiano”, e o Prémio Campiello, por “Afirma Pereira”, duas obras adaptadas ao cinema.

Fonte: Agência LUSA

sexta-feira, 23 de março de 2012

Notícia(s) do Dia: Identificação de jornalistas pode transformá-los em alvos a abater(Esta era Jornalista, uma vergonha)


Identificação de jornalistas pode transformá-los em alvos a abater


O presidente do Sindicato de Jornalistas alertou hoje para o perigo de os jornalistas estarem sempre identificados nos acontecimentos de rua, como recomendou quinta-feira a PSP, defendendo que isso pode transformá-los em alvos a abater.


 

Apesar de considerar que a identificação dos jornalistas deve ser seguida por princípio, Alfredo Maia sublinhou, em declarações à agência Lusa, que a sugestão da PSP não se pode transformar numa lei.

“Há circunstâncias em que a cobertura dos acontecimentos pode ser desagradável para uma das partes e a identificação do jornalista torna-o um alvo a abater, no sentido de que ele é uma testemunha profissional de um acontecimento, é os olhos e os ouvidos de um acontecimento, e uma das partes em conflito pode ter interesse em neutralizar essa testemunha para evitar que o seu comportamento seja difundido”, explicou.

A PSP recomendou na quinta-feira, em comunicado, que os jornalistas se identifiquem de forma bem visível nas manifestações e que se coloquem sempre do lado da barreira policial que os separa dos manifestantes em geral.

A recomendação foi feita depois de elementos daquela polícia terem agredido dois fotojornalistas que faziam a cobertura de uma manifestação no Chiado, em Lisboa, no âmbito da greve geral, realizada quinta-feira.

Dois jornalistas, um da agência Lusa e outra da AFP, ficaram feridos em incidentes com as forças policiais, no Chiado, em Lisboa, enquanto recolhiam imagens da manifestação organizada pela Plataforma 15 de outubro, no âmbito da greve geral convocada pela CGTP.

Admitindo que irá averiguar os incidentes entre as forças policiais e os jornalistas que ficaram feridos, a PSP apelou à sua "correta identificação" durante as manifestações e disse continuar “a verificar que tal não aconteceu nas manifestações”.

“Lamentavelmente tivemos necessidade de usar a força pública, num contexto de arremesso de cadeiras, pedras e outros objetos contra as forças policiais, que acabaram por originar ferimentos nos nossos agentes", lê-se no comunicado.

A Direção de Informação da Lusa protestou “com a maior veemência” contra “a agressão”, por agentes da PSP, do fotógrafo da agência José Sena Goulão, que estava "devidamente identificado como jornalista".

Também em relação à recomendação da PSP para que os jornalistas se mantenham sempre do lado da barreira policial, o presidente do Sindicato de Jornalistas lança um alerta. “Isto, aparentemente, visa proteger os jornalistas mas também tem o seu lado perverso porque a captação de imagens, sons e testemunhos pode tornar-se unilateral”, afirmou Alfredo Maia.

Num caso de confronto entre polícias e manifestantes, como o que aconteceu na quinta-feira, esta sugestão da polícia pode levar a que sejam “colhidas apenas imagens dos manifestantes e não da polícia. Tudo isto tem de ser ponderado e não se pode exigir como regra medidas como estas”, sublinhou.

Repudiando a agressão aos jornalistas José Goulão e Patrícia Melo, o sindicalista adiantou que o Sindicato “exige que o ministro da Administração Interna esclareça, se pronuncie, dê explicações sobre estes acontecimentos que têm indícios de uma escalada de agressão por parte da polícia a jornalistas, impedindo o seu trabalho no terreno e em particular em manifestações”.

Além disso, acrescentou, o SJ “vai também pedir ao Inspetor-Geral da Administração Interna que proceda a um inquérito rigoroso e até às ultimas consequências, não só disciplinares mas também penais, por tudo o que aconteceu”.



Fonte: Lusa

quinta-feira, 22 de março de 2012

Notícia(s) do Dia: Sócrates exigia 2 milhões de euros para aprovar licenciamento, disse arguido a testemunha



Sócrates exigia 2 milhões de euros para aprovar licenciamento, disse arguido a testemunha


Augusto Ferreira do Amaral disse hoje em tribunal que o arguido Manuel Pedro lhe confidenciou que o ex-ministro do Ambiente José Sócrates exigia dois milhões de euros para aprovar o licenciamento do empreendimento Freeport, em Alcochete.

Ouvido como testemunha de acusação no tribunal do Barreiro, onde decorre o julgamento do caso Freeport, o advogado Augusto Ferreira do Amaral referiu que Manuel Pedro lhe confidenciou, em janeiro de 2001, que José Sócrates exigia 500 mil contos e que estava "chocado" e "escandalizado" com a exigência do então ministro do Ambiente, revelando-lhe que um dos administradores do Freeport ia deslocar-se a Lisboa para tratar pessoalmente do assunto.

A testemunha, que disse conhecer Manuel Pedro desde os tempos em que este era aluno da Faculdade de Direito, disse ao coletivo de juízes estar convicto de que o arguido disse a verdade, porque estava a ser "espontâneo" e a gravidade do assunto não permitia outra atitude.

O advogado, que representava os interesses da Mckinney, promitentes compradores dos terrenos onde mais tarde foi construído o Freeport, relatou que quando Manuel Pedro lhe falou das exigências das autoridades ambientais pensou tratar-se de diretores, ao que este respondeu "upa, upa", dizendo a mesma frase quando lhe perguntou se era o chefe de gabinete ou o secretário de Estado.

Garante que Manuel Pedro lhe disse o nome de "José Sócrates" como a pessoa que exigia aquele "montão de dinheiro" para viabilizar o projeto.

Augusto Ferreira do Amaral precisou ao tribunal que a alegada exigência de Sócrates, no valor de 500 mil contos, foi transmitida a Manuel Pedro por um porta-voz do então ministro do Ambiente.

Revelou ainda que Manuel Pedro, apesar de "chocado" com o caso, estava "resignado", mas feliz porque o projeto, finalmente, ia avançar e que o emissário de Sócrates, cujo nome nunca precisou, indicou um número de conta para os ingleses depositarem o dinheiro.

"Eu não quis acreditar", declarou em tribunal Augusto Ferreira do Amaral, admitindo, em resposta a questões da advogada de defesa Paula Lourenço e do presidente do coletivo de juízes, Afonso andrade, que a acusação de tentativa de extorsão aos arguidos Manuel Pedro e Charles Smith é um absurdo, porquê aparentemente se tratou de um caso de corrupção em que a culpa é dos membros do Governo.

Augusto Ferreira do Amaral garantiu que não voltou a falar com Manuel Pedro sobre os contornos do negócio porque "teve a sensação que ia destapar alguma coisa que não ia ser agradável", muito embora ainda tenha sido Manuel Pedro a alertar a testemunha para o facto de no último Conselho de Ministros do Governo PS em 2002 ter sido aprovado uma alteração dos limites da Reserva do estuário do Tejo para permitir a edificação do projeto Freeport.

Augusto Ferreira do Amaral disse não dispor de provas, nem lhe ter sido dito por Manuel Pedro, que o dinheiro chegou efetivamente a ser pago por causa da exigência atribuída a José Sócrates, mas observou que a vinda do administrador do Freeport a Lisboa e a existência de uma reunião deste com um alto responsável do Ministério do Ambiente indicia que tudo ficou resolvido naquele sentido.

O tribunal ouviu ainda Maria Fernanda Vara Castor, antiga diretora regional do Ambiente e do Ordenamento do Território, cujo depoimento ficou marcado por alegadas contradições entre o que disse em fase de investigação e hoje em tribunal.

Confrontada com as declarações feitas em sede de inquérito, a testemunha admitiu que numa reunião com José Sócrates, foram discutidas diversas formas de ultrapassar os obstáculos do parecer negativo da avaliação do impacto ambiental, de forma a alterar o projeto para que este fosse aprovado e executado.

Nessa reunião, admitiu que, além de Sócrates, esteve presente o secretário de Estado do Ambiente, o arquiteto Capinha Lopes e o arguido Manuel Pedro, consultor da Smith and Pedro.

Manuel Pedro e Charles Smith respondem em julgamento pelo crime de tentativa de extorsão.

Fonte: SAPO Notícias ONLINE

segunda-feira, 19 de março de 2012

Notícia(s) do Dia: Timor-Leste/Eleições: Ramos-Horta reconheceu a sua derrota



Timor-Leste/Eleições: Ramos-Horta reconheceu a sua derrota

O Presidente de Timor-Leste, José Ramos Horta, reconheceu hoje a sua derrota nas eleições presidenciais de sábado e felicitou Francisco Guterres Lu Olo e Taur Matan Ruak, os dois candidatos que passam à segunda volta.

Ao fim do dia de domingo em Timor-Leste estavam contados 73,45 por cento dos votos (460.216 votos), colocando Francisco Guterres Lu Olo em primeiro lugar com 124.081 votos (28,26 por cento), seguido de Taur Matan Ruak com 109.968 votos (25,04 por cento).

O atual Presidente do país, José Ramos-Horta, ocupava o terceiro lugar com 79.044 votos (18 por cento).

Fonte: Diário Digital / Lusa

sexta-feira, 16 de março de 2012

O Mundo que nos Rodeia: Otelo defende actuação das forças armadas em nome do povo



Otelo defende actuação das forças armadas em nome do povo


O "Capitão de Abril" defende que as Forças Armadas poderão resolver o problema da perda de soberania de Portugal derrubando o Governo.


O coronel Otelo Saraiva de Carvalho afirmou quarta-feira, em Coimbra, que só as Forças Armadas, em nome do povo, poderão resolver o problema da perda de soberania de Portugal, como a que actualmente se verifica, derrubando o Governo.

Ao proferir uma palestra no Instituto de Contabilidade e Administração de Coimbra (ISCAC) sobre "As Forças Armadas na Defesa da República e da Democracia Portuguesa", disse que àqueles que reclamam um novo 25 de Abril responde "sem dúvida que era necessário".

Para o "Capitão de Abril", tal como o que se passava com o governo socialista liderado por José Sócrates, com actual executivo "há esta submissão grande em relação à grande potência actual da Europa que é a Alemanha", com "uma perda de alta soberania" de Portugal.

Esta perda de soberania é tão marcante que, foi por isso que eu disse, estão a ser atingidos limites. Quando esses limites forem ultrapassados... E aqui, nesta ligação constitucional das Forças Armadas ao povo, com as Forças Armadas ao lado do povo, em defesa do povo português, aí de facto as Forças Armadas terão que actuar", sustentou.

Para Otelo Saraiva de Carvalho essa actuação das Forças Armadas passaria por "uma operação militar que derrube o Governo que está" em funções.

"Mesmo apesar de eu saber que o Governo foi eleito. Mas foi eleito em que condições? E actualmente há satisfação dos portugueses em relação ao poder que foi eleito? E se houver outras eleições haverá satisfação? Não!", responde aquele que foi um dos protagonistas da revolução democrática do 25 de Abril, em 1974.

No início de Janeiro, o Ministério Público abriu um inquérito relacionado com declarações de Otelo Saraiva de Carvalho, que, numa entrevista à agência Lusa publicada em Novembro, falou na possibilidade de haver um golpe militar, caso fossem "ultrapassados os limites".

Na intervenção em Coimbra, Otelo Saraiva de Carvalho considerou também que a "esperança que o 25 de Abril abriu está a morrer e está a ser passada de [certa] forma uma certidão de óbito total" àquilo que representou a revolução.

"Há uma infracção permanente às disposições constitucionais por parte dos sucessivos governos e, sobretudo, que vão atingir os direitos sociais dos trabalhadores", acrescenta.

Para Otelo Saraiva de Carvalho, o que se está a passar é mais uma consequência da falta de audácia do Movimento das Forças Armadas (MFA) no período revolucionário.

"Nós, MFA, tínhamos o poder na mão, de nos afirmarmos como um país soberano, como um exemplo dado ao mundo, notável, que foi a descolonização, sem ponta de neocolonialismo nosso, no estabelecimento de relações fraternas", acentuou.

Este coronel na reserva considerou a Islândia "um caso notável" de reacção popular recente. "O povo prendeu os políticos, prendeu os banqueiros, disse que não pagava dívida nenhuma, que a culpa não era do povo, e com o poder popular emergente elegeram uma comissão para elaborar uma nova Constituição", concluiu.



Fonte: Visão ONLINE

Notícia(s) do Dia: Portugal gastou 15 milhões em vacinas, mas destruiu mais de metade (9,7 milhões para o lixo, assim está o país)



Portugal gastou 15 milhões em vacinas, mas destruiu mais de metade


Portugal comprou dois milhões de vacinas contra a gripe A, por 15 milhões de euros, mas acabou por destruir mais de metade, que equivale a 9,7 milhões, segundo a sub-directora geral da Saúde.

Em entrevista à Lusa, Graça Freitas explicou que foram administradas 700 mil vacinas e realçou que foram vários os factores que estiveram na origem desta «reduzida adesão» à vacinação contra o H1N1 pandémico em 2009, nomeadamente o facto de a actividade gripal se ter revelado mais moderada do que o esperado.

Esta fraca adesão resultou numa utilização das vacinas muito inferior à esperada. Assim, inicialmente o Estado português tinha encomendado seis milhões, mas conseguiu a compra de apenas dois milhões, considerados suficientes na altura.

Destes dois milhões de vacinas, que custaram 15 milhões de euros, foram administradas pouco mais de 700 mil.

As restantes, explicou Graça Freitas, ou foram inutilizadas, pois os frascos tinham dez doses e as que não eram administradas na altura não podiam ser guardadas, ou simplesmente foram destruídas.

O prazo de validade destas vacinas expirou em Agosto de 2011, mas mesmo se tal não tivesse acontecido elas não podiam ser usadas, pois o vírus da época gripal seguinte (2009/10) foi outro.

Por definir está o futuro do anti-viral Oseltamivir, que Portugal adquiriu em 2005 para responder a uma eventual pandemia do vírus da gripe das aves.

Parte dos 2,5 milhões de tratamentos, adquiridos por 22,58 milhões de euros para a reserva estratégica de medicamentos, foi usada aquando da pandemia do H1N1, em 2009, mas uma outra continua guardada.

Graça Freitas revelou à Lusa que este produto deverá ser sujeito a uma reavaliação ainda durante este ano, de modo a assegurar que está em condições para prolongar a sua validade.

Se as autoridades competentes decidirem que esse prazo foi ultrapassado, ou se o produto não estiver em condições, o Oseltamivir deverá ser destruído, adiantou a sub-diretora geral da Saúde.

Além deste medicamento, Portugal dispõe na sua reserva estratégica de medicamentos de vacinas contra a varíola, que têm uma validade «muito prolongada», disse.

Para a gripe sazonal da presente época foram distribuídas gratuitamente 330 mil doses de vacinas nos centros de saúde, nomeadamente aos idosos com mais de 65 anos e baixo rendimento, e às pessoas institucionalizadas.

Graça Freitas reconhece que a adesão tem ficado «aquém das expectativas», mas não adianta justificações nem estabelece, para já, uma ligação deste fato ao elevado número de mortos que se tem registado nas últimas semanas.

Certo é que o vírus em circulação (H3N2) é «bastante agressivo» e tem «uma expressão mais grave do que a gripe pandémica» de 2009, disse

Fonte: LUSA/SOL

quinta-feira, 15 de março de 2012

Às Voltas com a Memória: JOAQUIM AGOSTINHO (n. 07 Abr.1943; m. 10 Mai.1984)



Joaquim Francisco Agostinho, nasceu em Brejenjas, concelho de Torres Vedras, no dia 7 de Abril de 1943. Foi o quarto filho de uma família de camponeses. No início, a sua vida foi igual à de muitos outros. Trabalhou no campo e casou com uma rapariga da terra, Ana Maria, com quem teve um filho. Fez o serviço militar em Moçambique. Foi em África que começou a dar as primeiras pedaladas. Participava em corridas de amadores - e ganhava-as. Um dia, a passar férias em Portugal e entusiasmado com as vitórias conquistadas em Moçambique, pediu emprestado o equipamento de ciclista. Participou numa prova popular e ganhou com uma volta de avanço sobre o segundo classificado. A actuação impressionou João Roque, vencedor da Volta a Portugal de 1963. Convidou-o a entrar para a equipa do Sporting, corria o ano de 1968. Logo nesse ano, foi Campeão Nacional de Estrada e participou, pela primeira vez, na Volta a Portugal em Bicicleta. Tinha 25 anos. Vermelho e ofegante do esforço, agarrou o 2.º lugar. Um feito espantoso para um estreante. Era a confirmação da sua fibra de campeão. Fernando Seara relembra a vez em que chegou à meta “com 15 minutos de avanço face ao pelotão”.

Depois da prova rainha do ciclismo português, participou na Volta ao Estado de São Paulo. Venceu a corrida brasileira, após luta renhida com um ciclista italiano. O desempenho de Agostinho foi seguido com atenção por Jean de Gribaldy, patrão da equipa francesa Frimatic, que acabou por contratá-lo. Tinha chegado a vez de participar na prova mais famosa do ciclismo à escala planetária: a Volta à França.

Joaquim Agostinho não sabia falar francês mas, como bom português, lá se foi desembaraçando, com ajuda de um dicionário de bolso. O Tour não era parecido com as provas nacionais. Tinha concorrentes de grande qualidade e enorme impacto mediático. Começou bem, tornando-se o primeiro português a ganhar uma etapa. Não satisfeito, venceu outra, para delírio dos emigrantes. Joaquim Agostinho terminou o Tour em 8.º lugar. Um resultado extraordinário, que, no entanto, poderia ter sido melhor, não fosse uma queda.

As quedas, aliás, foram trágicas na carreira de Agostinho. Anos mais tarde viria a morrer devido a uma delas. “Era um poço de força, mas não era um virtuoso da bicicleta”, salienta Leonor Pinhão. O domínio técnico da bicicleta era o seu ponto fraco. Leonor Pinhão acrescenta: “Perdeu uma volta à Espanha porque caiu numa descida.”
Regressou a Portugal para participar na Volta. Ganhou a prova, mas foi desclassificado devido a um controlo positivo de “anti-doping”. Joaquim Agostinho sempre jurou estar inocente. De 1970 a 1973 dominou, por completo, a Volta a Portugal. Não tinha adversários. Ciente de que Agostinho só evoluiria se competisse com os melhores, o técnico Raphael Geminani aconselhou-o a não participar nas provas portuguesas. Tinha de escolher entre ser um campeão português ou um campeão mundial.

Em 1973 Agostinho defendeu as cores da equipa espanhola BIC, no Tour, vencendo várias etapas. Participou na Volta a Portugal, onde acabou por ser desclassificado, mais uma vez por causa de “doping”. Sentiu-se injustiçado e tomou a decisão de correr apenas no estrangeiro. No ano seguinte pedalou na Volta à Espanha, uma das provas mais frustrantes da sua vida. Chegou a ser anunciado como o vencedor, mas viu a vitória ser-lhe retirada. Apesar de terem sido invocados erros de cronometragem, ficou a sensação de que houve manobras de bastidores para dar a vitória a um espanhol.

Depois de prestações pouco entusiasmantes, em 1978 regressou em força à Volta à França. Como tinha 35 anos, foi olhado de lado pelos concorrentes, na maior parte dos casos mais novos. Não faziam ideia do que tinham pela frente. Alcançou o 3.º posto e foi aplaudido entusiasticamente pelos portugueses que assistiram à subida ao pódio. No ano seguinte repetiu a façanha e venceu a etapa mais difícil do Tour: a L’Alpe-d’Huez, com uma subida de cerca de 13 km. Em 1980, concorreu pela última vez na Volta à França. Ficou no 11.º lugar.

Joaquim Agostinho regressou a Portugal, para acabar a carreira no Sporting, clube que lhe tinha aberto as portas do ciclismo. Participava na Volta ao Algarve quando viu um cão à sua frente. Ao tentar desviar-se, caiu e bateu com a cabeça no asfalto. Sofreu um traumatismo craniano. Mesmo assim, quis terminar a prova e vencê-la. No Hospital de Loulé, decidiram enviá-lo para Lisboa. Em vez de o transportarem de avião, fizeram-no de ambulância. Quando chegou à capital, estava em coma. Morreu em 10 de Maio de 1984.

Apesar das quedas e do “doping”, Joaquim Agostinho foi um ciclista de altíssima dimensão internacional. Um herói que conquistou um lugar cativo na nossa memória colectiva. O atleta Dionísio Castro tem toda a razão quando diz que Joaquim Agostinho “continua connosco”.

A 30 de Abril de 1984, quando liderava a X Volta ao Algarve, na 5ª. etapa. A 300m da meta, um cão atravessou-se no seu caminho, o que o fez cair, provocando-lhe uma fractura craniana - algum tempo depois afirmou-se que as consequências deste acidente poderiam ser menores se Joaquim levasse capacete. Levantou-se, voltou a montar na bicicleta e terminou a etapa com a ajuda de dois colegas. As dores persistentes na cabeça levaram-no a ingressar no hospital de Loulé, onde o seu estado de saúde agravou-se drasticamente. Foi evacuado de emergência, de helicóptero, para o hospital da CUF, em Lisboa. Após 10 intervenções cirúrgicas e de permanecer 10 dias em coma, faleceu a 10 de Maio, poucos minutos antes das 11:00 horas. Foi enterrado na sua terra natal.


Palmarés



Volta a Portugal

1969 (7º Lugar) (Vencedor de 1 Etapa)
1970 (1º Lugar) (Vencedor de 4 Etapas)
1971 (1º Lugar) (Vencedor de 8 Etapas)
1972 (1º Lugar) (Vencedor de 5 Etapas)

Volta a França


1969 (8º Lugar) (Vencedor de 2 Etapas)
1970 (14º Lugar)
1971 (5º Lugar)
1972 (8º Lugar)
1973 (8º Lugar) (Vencedor de 1 Etapa)
1974 (6º Lugar)
1975 (15º Lugar)
1977 (13º Lugar) (Vencedor de 1 Etapa)
1978 (3º Lugar)
1979 (3º Lugar) (Vencedor de 4 Etapas)
1980 (5º Lugar)
1983 (11º Lugar)

Volta a Espanha


1973 (6º Lugar)
1974 (2º Lugar) (Vencedor de 2 Etapas)
1976 (7º Lugar) (Vencedor de 1 Etapa)
1977 (15º Lugar)


Campeonato do Mundo de Estrada


1968 (16º Lugar)
1969 (15º Lugar)

1972 (42º Lugar)
1973 (20º Lugar)

1968-1972 6 Campeonatos Nacionais de Estrada

1971 1 Campeonato Nacional de Perseguição Individual
1968-1969 2 Campeonatos Nacionais Contra-relógio por Equipas

quarta-feira, 14 de março de 2012

O Poeta é um fingidor



O que Me Dói não É


O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.



Análise do poema "o que me dói não é"

Poema tardio de Fernando Pessoa, escrito em nome próprio e datado de 1933, "O que me dói não é..." é um poema típico da fase tardia da produção poética ortónima de Fernando Pessoa.

A poesia ortónima de Fernando Pessoa segue um ritmo próprio e diferenciado do ritmo das obras paralelas dos seus heterónimos. De certo modo é, como Pessoa disse, ainda Fernando Pessoa mas estripado de todas as dimensões que eram usadas para escrever em nome dos heterónimos.

Resta Fernando Pessoa ele mesmo, pouco mas ainda muito. Mais racional e frio, algo intelectual e pensativo, sem chegar a assumir a sua tristeza num desespero real e destrutivo. Cabisbaixo mas quase indefinido nas suas palavras bem medidas.

Este poema em análise é suma perfeita de todos estes vectores complementares. Pessoa fala da sua tristeza, mas de forma intelectual, sem assumir um sentimento seja ele qual for. Como se conseguisse colocar a sua tristeza debaixo de um microscópio e a analisasse a frio, à maneira de uma autópsia, para melhor compreender o que sentia.

Como análise post-mortem que é, vê-se logo que se torna infrutífera. Querer compreender o que é depois de esse ser estar morto não traz vantagem qualquer a nenhum ser que está vivo. Matar para compreender não é, em rigor, razão suficiente para querer saber mais, apenas menos.

Pessoa queixa-se da ausência, do que não tem. E essa queixa é dirigida às "formas sem forma que passam", sem que a dor as conhecesse ou o amor as faça suas.

Queixa-se não do que "há no coração", mas das "coisas lindas que nunca existirão".

Queixa-se afinal de um futuro que tema nunca vai chegar. Estamos em 1933 e Fernando Pessoa tem 2 anos de vida restante. Estaria já certo do seu destino? Que acabaria sozinho e sem ambições concretas, sem estar feliz? Talvez. Talvez a sua poesia sempre reflectisse este medo e esta certeza negra - de que os seus sonhos teriam sido sempre demasiado altos para alguma vez se realizarem e que, na verdade, a sua felicidade andava na tal bruma que ele refere, mas numa bruma rasteira, baixa demais para os seus olhos sempre em busca das estrelas.

A sua busca pelas formas indefinidas, do sonho ou da realidade, marca o seu percurso terreno. Sejam estas formas as pessoas que passavam ou as ideias e as verdades, nem interessa. São formas porque são confirmações da sua incapacidade de as capturar e de as fazer deixar de ser apenas formas. Toda a forma é uma indefinição, uma falta de humanidade, de calor. Tem forma apenas aquilo que não tem conteúdo, que é vazio, linhas, sem dentro, só fora.

A tristeza que ele sente, equipara-a a estas formas a caírem em forma de folhas à sua volta, num ambiente frio e desolado. A sua vida é vivida no meio deste desespero racional em que se encontra preso e para o qual nunca achará uma saída racional. Porventura porque nenhuma saída racional poderá alguma vez existir para um homem desesperado com a realidade. Mas a saída emocional era-lhe já impossível - ele estava demasiado esvaziado, era afinal também já uma forma, como as formas que desejava possuir e compreender, era já só fora, linhas, sem dentro, sem conteúdo, frio e distante.

No vestígio e na bruma vivia os seus dias inconsequentes. Mesmo a sua obra talvez o desanimasse e apenas um pequeno, indistinto timbre de imortalidade o fizesse ainda respirar e trabalhar pelas noites frias da cidade, do alto da sua janela para a rua cheia de Universo. Ainda assim insistia em ficar vivo enquanto pudesse. Vivo enquanto todas as folhas não caíssem da sua árvore da tristeza e deixassem sequer de existir razões para ser apenas forma.

E que pouco pedem as formas só para existir...

Notícia(s) do Dia: Juiz proíbe acordo ortográfico



Juiz proíbe acordo ortográfico


Um juiz do tribunal de Viana do Castelo emitiu uma ordem de serviço proibindo a utilização da grafia do novo acordo ortográfico, alegando que os tribunais não estão abrangidos pela resolução do Governo.

A decisão do juiz Rui Estrela Oliveira consta de uma ordem de serviço datada de 23 de janeiro deste ano e aplica-se a todos os processos e tramitações do segundo Juízo Civil daquele tribunal, sendo justificada pelo próprio, em entrevista à Agência Lusa, como uma "questão eminentemente jurídica".

O juiz recorda a resolução do Conselho de Ministros de Dezembro de 2010, que "determina que, a partir de 1 de Janeiro de 2012, o Governo e todos os serviços, organismos e entidades sujeitos aos poderes de direcção, superintendência e tutela do Governo aplicam a grafia do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa", para concluir: "Esta antecipação de efeitos não engloba os tribunais, porque não fazem parte do Governo. Não são superintendidos, não são dirigidos nem são tutelados pelo Governo". Este é o primeiro motivo para não aplicar o acordo.

Paralelamente, a "preocupação" deste juiz, plasmada na ordem de serviço, vai ainda mais longe e chega à própria interpretação jurídica de textos, conforme a aplicação da nova ou da antiga grafia, dando forma ao segundo motivo.

"Se há campo onde há mais mudanças, na intensidade de utilização de certas palavras, é no Direito. Pode provocar, com o mesmo texto, um sentido totalmente diferente. Isto nunca foi pensado nem acautelado de nenhum modo. Juridicamente é muito importante o que se diz e o modo como se diz", afirma ainda o juiz.

Aponta como exemplo uma construção da sua autoria, envolvendo "corretores" da bolsa e a função de "corrector", esta pela antiga grafia.

"De início, o corretor da sala 3 assumia a função de corretor do corretor da sala 2, para depois passar a ser o corretor de todos, até do corretor da última sala que, confrontado com a situação, esboçou um sorriso", apontou o juiz, para logo depois concluir: "Uma vez que corrector perdeu o 'c', o sentido é indecifrável".

O que o leva ao encontro do terceiro motivo para não aplicar o acordo. "Alguém que está a escrever, se se apercebe disto, não vai escrever. E aí há uma quebra da sua liberdade", garante, assumindo ainda a possibilidade de, com a nova grafia, poder haver "uma situação em que o Tribunal não é entendido na sua ordem", sobretudo por quem apenas aprendeu uma grafia em toda a vida.

Por outro lado, este juiz entende que a aplicação do novo acordo ainda "não entrou em vigor na ordem jurídica portuguesa", classificando a antecipação da sua aplicação como "um bocadinho forçada, tendo em conta as características do Direito".

"À partida, o prazo de adaptação deve ser o mais longo possível para os tribunais", afirma o juiz Rui Estrela Oliveira, reconhecendo um dos efeitos da sua decisão: "Agradecimentos dos advogados. Fundamentalmente isso".


Fonte: EXPRESSO ONLINE