quarta-feira, 9 de março de 2011

O Poeta é um fingidor



A Noite É Muito Escura


É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.


Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?


Análise ao Poema


O poema que se inicia com "É noite. A noite é muito escura", é um poema de Alberto Caeiro, datado de 8/11/1915 e que pertence aos "Poemas Inconjuntos"; uma série de poemas datados entre 1914 e 1930 que se distingue do corpo do livro do "Guardador de Rebanhos".
 Os "Poemas Inconjuntos" são, por assim dizer, poemas órfãos, que não entram no raciocínio perfeito e alinhado do "Guardador de Rebanhos". São poemas desgarrados e que só perfazem um conjunto pela sua própria diferenciação em relação aos restantes. Há um outro conjunto de poemas órfãos, o conjunto "Pastor Amoroso" (nome dado por Pessoa) que se distingue dos "Poemas Inconjuntos" por ter uma temática muito própria e por nos mostrar Caeiro enquanto poeta escritor de poemas de amor. Pessoa deu um título aos poemas do conjunto do "Pastor Amoroso", mas foi Reis – seguidor de Caeiro – que deu o nome "Poemas Inconjuntos" aos restantes, colocando-os obviamente numa posição acessória, quer aos poemas do "Guardador de Rebanhos” quer aos poemas do “Pastor Amoroso”.
 Mas os "Poemas Inconjuntos" são, muitos deles, poemas escritos na mesma época dos poemas do "Guardador de Rebanhos". O poema em análise é disso mesmo um claro exemplo. Trata-se de um poema em que aparecem muitos dos temas principais tratados por Alberto Caeiro, sendo apenas um poema que não se enquadra na mesma lógica do "Guardador", por provavelmente ser um poema episódico, sem continuidade necessária; e por isso mesmo desgarrado. Mas é certamente um poema escrito nas mesmas circunstâncias dos outros, e um poema inicial de Caeiro (pela data aposta nele), pelo que será assim que ele terá de ser analisado.
Comecemos pela paisagem do poema. O poeta olha, de noite, uma luz numa casa distante. A princípio ele olha a luz da janela e compreende instintivamente que a luz representa a presença de alguém naquela casa, de uma outra vida. É essa semelhança a si próprio que o faz "sentir-se humano dos pés à cabeça". Mas apenas momentaneamente. Pois se Caeiro olha a luz e é levado a compreender a presença humana por detrás da luz, logo de seguida ele percebe que na realidade ele não quer pensar na existência da luz, mas apenas contemplá-la enquanto luz à distância.
 Ver a luz apenas enquanto luz – e não enquanto um símbolo ou um objecto ideal intermédio entre a luz e a presença humana na casa, revela-nos em essência o que de mais importante reside no pensamento filosófico de Alberto Caeiro: ele é um objectivista. Ele diz, no "Guardador de Rebanhos":  "Penso com os olhos e com os ouvidos / E com as mãos e com os pés / E com o nariz e a boca” (poema IX).
 O que é "pensar com os olhos"? Pensar com os olhos é aceitar simplesmente o que recebemos dos nossos sentidos, sem sentirmos necessidade de pensar nisso. Pensar com os olhos é apenas ver, sem ter necessidade de pensar. Para Caeiro basta-lhe o que os seus olhos vêem – é assim ser natural, é assim que a Natureza funciona. Apenas os homens insistem em ir para além da Natureza, e Caeiro pretende um regresso ao "ser natural", um regresso à simplicidade, à "realidade imediata"; porque "para além da realidade imediata não há nada", diz-nos ele neste poema que agora analisamos.
 Tanto é assim que, quando a luz se apaga, também se apaga o interesse de Caeiro. Porquê? Porque ele olhava a luz e não o que a luz significava (a presença humana, da família).
 Todo o poema é uma metáfora para o engano que é pensar nas coisas, quando podemos simplesmente observá-las. Os homens, ao verem a luz na janela, nunca conseguem só ver a luz na janela, querem pensar em quem a acendeu e a quem pertence a luz e porque a luz existe, acesa, naquele instante. O exemplo da luz serve para tudo o resto – os homens querem sempre compreender o porquê das coisas, mesmo que as coisas possam não ter um porquê. As luzes acesas são afinal tudo o que vemos, tudo o que ouvimos, tudo o que sentimos e querer compreender o porquê da luz, é querer compreender o porquê de todas as coisas, quando as coisas não têm (para Caeiro) um porquê que seja acessível à compreensão humana.
 "Pensar é estar doente dos olhos", diz Caeiro no poema II do "Guardador de Rebanhos. Este poema é um exemplo disso mesmo, de como não devemos ir além do que vemos, porque essa já é toda a realidade e o resto, o pensar na realidade que vemos, é apenas "estar doente".

terça-feira, 8 de março de 2011

O Mundo que nos Rodeia: DEVEM-ME DINHEIRO


Este artigo foi escrito por Mário Crespo para a Revista Penthouse, de Novembro de 2010, e por considerar pertinente, real e certamente transcrever o que vai no pensamento de milhares de portugueses, passo a citá-lo:


DEVEM-ME DINHEIRO
Por Mário Crespo

José Sócrates em 2010 prometeu que não ia aumentar os impostos. E aumentou.Deve-me dinheiro. António Mexia da EDP comprou uma sinecura para Manuel Pinho em Nova Iorque. Deve-me o dinheiro da sinecura de Pinho. E dos três milhões de bónus que recebeu. E da taxa da RTP na conta da luz. Deve-me a mim e a Francisco C. que perdeu este mês um dos quatro empregos de uma loja de ferragens na Ajuda onde eu ia e que fechou. E perderam-se quatro empregos. Por causa dos bónus de Mexia. E da sinecura de Pinho. E das taxas da RTP.



Aníbal Cavaco Silva e a família devem-me dinheiro. Pelas acções da SLN que tiveram um lucro pago pelo BPN de 147,5 %. num ano. Manuel Dias Loureiro deve-me dinheiro. Porque comprou por milhões, coisas que desapareceram na SLN e o BPN pagou depois. E eu pago pelo BPN agora. Logo, eu pago as compras de Dias Loureiro. E pago pelos 147,5 das acções dos Silva. Cavaco Silva deve-me muito dinheiro. Por ter acabado com a minha frota pesqueira em Peniche e Sesimbra e Lagos e Tavira e Viana do Castelo. Antes, à noite, viam-se milhares de luzes de traineiras. Agora, no escuro, eu como a Pescanova que chega de Vigo. Por isso, Cavaco deve-me mais robalos do que Godinho alguma vez deu a Vara. Deve-me por ter vendido a ponte que Salazar me deixou e que eu agora pago à Mota Engil.



António Guterres deve-me dinheiro porque vendeu a EDP. E agora a EDP compra cursos em Nova Iorque para Manuel Pinho. E cobra a electricidade mais cara da Europa. Porque inclui a taxa da RTP para os ordenados e bónus da RTP, e para o bónus de Mexia.



A PT deve-me dinheiro. Porque não paga impostos sobre tudo o que ganha. E eu pago. Eu e a D. Isabel que vive na Cova da Moura e limpa três escritórios pelo mínimo dos ordenados. E paga Impostos sobre tudo o que ganha. E ficou sem abonos de família. E a PT não paga os impostos que deve e tenta comprar a estação de TV que diz mal do Primeiro-Ministro.



Rui Pedro Soares da PT deve-me o dinheiro que usou para pagar a Figo o ménage com Sócrates, nas eleições. E o que gastou a comprar a TVI.
Mário Lino deve-me pelos lixos e robalos de Godinho. E pelo que pagou pelos estudos de aeroportos onde não se vai voar. E de comboios em que não se vai andar. E pelas pontes que projectou e que nunca ligarão nada.



Teixeira dos Santos deve-me dinheiro porque em 2008 me disse que as contas do Estado estavam sãs. E estavam doentes. Muito. E não há cura para as contas deste Estado. Os jornalistas que têm casas da Câmara devem-me o dinheiro das rendas. E os arquitectos também. E os médicos e todos aqueles que deviam pagar rendas e prestações e vivem em casas da Câmara, devem-me dinheiro. Os que construíram dez estádios de futebol devem-me o custo de dez estádios de futebol. Os que não trabalham porque não querem e recebem subsídios porque querem, devem-me dinheiro. Devem-me tanto como os que não pagam renda de casa e deviam pagar. Jornalistas, médicos, economistas, advogados e arquitectos, deviam ter vergonha na cara e pagar rendas de casa. Porque o resto do país paga. E eles não pagam. E não têm vergonha de me dever dinheiro.



Nem eles nem Pedro Silva Pereira que deve dinheiro à natureza pela alteração da Zona de Protecção Especial de Alcochete. Porque o Freeport foi feito à custa de robalos e matou flamingos. E agora para pagar o que devem aos flamingos e ao país, vão vendendo Portugal aos chineses. Mas eles não nos dão robalos suficientes, apesar de nos termos esquecido de Tien Amen e da Birmânia e do Prémio Nobel e do Google censurado. Apesar de censurarmos, também, a manifestação da Amnistia, não nos dão robalos. Ensinam-nos a pescar dando-nos dinheiro a conta gotas para ir a uma loja chinesa comprar canas de pesca e isco de plástico e tentar a sorte com tainhas, à borda do Tejo. Mas pesca-se pouca tainha porque o Tejo vem sujo, de Alcochete.



Por isso devem-me dinheiro. A mim e aos 600 mil que ficaram desempregados e aos 600 mil que ainda vão ficar sem trabalho. E à D.Isabel que vai a esta hora da noite ou do dia na limpeza de mais um escritório. Normalmente limpa três. E duas vezes por semana vai ao Banco Alimentar. E se está perto vai a um refeitório das Misericórdias. À Sexta come muito. Porque Sábado e Domingo estão fechados. E quando está doente vai para o centro de saúde às 4 da manhã. E limpa menos um escritório. E nessa altura ganha menos que o ordenado mínimo. Por isso devem-nos muito dinheiro.



E não adianta contratar o Cobrador do Fraque. Eles não têm vergonha nenhuma.
Vai ser preciso mais para pagarem. Muito mais. Já!

segunda-feira, 7 de março de 2011

O Poeta é um fingidor


Quando era criança

Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.

E hoje que sinto
Aquilo que fui.
Minha vida flui,
Feita do que minto.

Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.

Análise do Poema

O poema "Quando era criança" é um poema ortónimo tardio de Fernando Pessoa, datado de 2 de Outubro de 1933. Sendo um poema tardio e da autoria de Pessoa em seu próprio nome, caracteriza-se por uma das temáticas mais queridas a Pessoa quando escrevia em seu próprio nome: a lembrança da infância, enquanto período dourado da sua vida.
Por isso, este poema fala da própria infância de Pessoa e não só da infância enquanto período de felicidade para todos os homens.
Passemos à análise do poema propriamente dito:

Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.


Aqui Pessoa aborda a temática da infância enquanto período da inconsciência completa: "Vivi, sem saber". As crianças vivem a felicidade, porque em grande medida a desconhecem estar a viver. Esta oposição pensar/viver acompanhará sempre Pessoa nas suas análises. Ele sabe que será impossível regressar àquela condição infantil, porque hoje adulto ele sabe qual é a sua vida e não a pode ignorar: ele agora pensa e não se limita a viver. Por isso ele diz "Só para hoje ter / Aquela lembrança". De facto tudo o que resta é a lembrança, porque essa inconsciência da vida não vai regressar novamente.

É hoje que sinto
Aquilo que fui
Minha vida flui
Feita do que minto.


"Hoje" é que Pessoa sente o que foi. Isto reforça o que já dissemos: hoje a vida de Pessoa é feita daquele "pensar" que não existia quando ele era apenas criança. Hoje ele "sente", quando era criança apenas "vivia". A sua vida actual é uma mentira – pela sua própria avaliação. É uma mentira, provavelmente porque ele sente não conseguir descobrir a verdade do seu destino: é uma mentira existencial, uma vida que Pessoa sente não lhe pertencer por direito.

Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.


Pessoa está preso então nessa vida, nessa mentira que lhe impuseram. O que lhe resta é o "livro" que lê, o livro das memórias de uma infância perdida. E ao ler, vem-lhe um "sorriso alheio", um sorriso do passado, que já não é dela, mas que ele pode continuar a recordar, num apaziguamento frágil, mas que ao menos o poderá consolar na sua existência perdida. A memória da infância perdida conforta-o, mas igualmente o sufoca.

Às Voltas com a Memória: ANTÓNIO SILVA (n. 15 Ago. 1886; m. 03 Mar. 1971)


António Maria da Silva nasceu em Lisboa em 15 de Agosto de 1886, no seio de uma família modesta. Começou a trabalhar cedo, como marçano, aprendiz de empregado de balcão, e aos 16 anos já mostrava um desejo em ser actor, pois assistia a todas as peças que passavam no Teatro D. Amélia, na Rua do Tesouro Velho, o actual Teatro São Luiz.
Trabalhou como empregado de comércio e tirou o curso comercial. Foi também bombeiro voluntário da Ajuda, chegando a ser comandante da corporação. A ligação ao cinema deu-se quando António Silva integrou o grupo Fitas Faladas, que dobrava filmes mudos passados no Salão Ideal, na Rua do Loreto, ao Camões.
Estreia-se no Teatro da Rua dos Condes, com a companhia de Alves Costa, na peça “O Novo Cristo”, de Tolstoi, em 1910. Parte em “tournée” para o Brasil em 1913, país onde se estreia no cinema, participando nos filmes “Convém Martelar” e “Coração Gaúcho”, em 1920. Casa-se com Josefina Marco, filha do cantor italiano Giuseppe Paccini e de Guilhermina Marco, nesse mesmo ano. Fica no Brasil até 1921. Ao regressar, integra a Companhia Luísa Satanela-Estevão Amarante até 1928, assumindo sempre papéis de pouco destaque, à excepção do que representou na revista “Água-Pé”, a sua primeira experiência no teatro de revista, que lhe granjeou algum sucesso. Até 1932 vai fazendo várias revistas no Teatro Variedades e no Maria Vitória.
Em 1933, António Silva interpretou o alfaiate Caetano, na “Canção de Lisboa”, de Cottinelli Telmo, o seu primeiro filme em Portugal e que o tornou bastante popular junto do público. Passa a primeira figura de cartaz nas peças em que participa, pisando o palco lisboeta com o teatro de revista. Fez uma dupla de sucesso com o seu parceiro de cena, Vasco Santana, especialmente em “Senhora da Atalaia” e “Alto Lá com o Charuto!”. António Silva trabalhava muito com as mãos, transmitindo uma graça e comicidade que só as palavras não seriam capazes de transmitir.
Em 1944 ganhou o prémio “Actor do Ano”, do SNI (Secretariado Nacional de Informação), pelo seu desempenho em “A Menina da Rádio”. É nesse ano que faz a sua entrada para a companhia de António e Francisco Lopes Ribeiro, Comediantes de Lisboa, no Teatro da Trindade. Ficou na companhia apenas nas duas primeiras temporadas. Com eles representou todas as peças que levaram ao palco até 1946. Deu provas do seu enorme talento com o papel de Doolitle, em 1945, na peça “O Pigmaleão”, de Bernard Shaw. Em 1950 formou uma sociedade artística que explorou o Teatro Apolo durante dois anos, em que participaram actores como Irene Isidro, Laura Alves, Ribeirinho, Barroso Lopes e Carlos Alves. Trabalhou com Leitão de Barros, Jorge Brum do Canto, António Lopes Ribeiro, Arthur Duarte e Perdigão Queiroga, alguns dos realizadores com quem se cruzou durante mais de 30 anos de cinema.
As suas últimas aparições foram na Revista “Adão e Elas” e no filme “Sarilho de Fraldas”, de Constantino Esteves, ambas em 1966. António Silva morria aos 85 anos de idade, a 3 de Março de 1971.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O Poeta é um fingidor


Estou Cansado

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Análise do Poema


O poema em questão enquadra-se na terceira fase de Álvaro de Campos – a fase pessimista, onde o poeta encara mais a frio a realidade da sua vida, depois das duas fases anteriores (a decandentista e a futurista), onde ainda era dominado por um sentimento de grande esperança, mesmo que diluída.
O tema do cansaço é um tema recorrente nesta fase e um tema que domina literalmente muitos dos poemas de Campos. Podemos recordar-nos rapidamente de alguns: "O que há em mim é sobretudo cansaço"; "Eu, eu mesmo... Cheio de todos os cansaços..."; "Não, não é cansaço", entre outros.
Cansaço afinal de quê? Pensamos que cansaço de viver, mas sobretudo cansaço de viver uma vida que nunca se assemelha à vida que o poeta imagina que podia ser a sua. Ele vive uma vida simples, precária, doente, sem fama ou glória, e sobretudo sem ter atingido nenhum dos seus objectivos principais. Ele (Pessoa) que abdicou da vida normal, do amor, em favor da sua obra, da sua escrita, encontra-se cada vez mais sozinho, cada vez mais abandonado, cada vez mais à beira da loucura, e sobretudo encontra-se cada vez mais longe de onde imaginara poder estar.
Este desencantamento com a vida é uma marca forte da poesia tardia de Pessoa. E diz-nos muito do que ele sentia, diz-nos imensamente sobre o que ele sofria com o seu quotidiano - um dia-a-dia feito de coisas originais, de pesquisas profundas, mas que progressivamente se esgotava com o tempo e não dava frutos visíveis.
Neste poema que agora analisamos o desencantamento aparece afinal como súmula do tema principal. Não é só tristeza, é desilusão, falta de esperança, nada.
Estou cansado: é uma constatação fria da sua condição actual. E é uma constatação que não deixa lugar à mudança, apenas um sorriso triste ("um pouco sorridente"). Sorriso triste ele mesmo de consciência do fim de estrada, de resolução, de inevitabilidade. O curso da sua vida termina nesta conclusão a preto e branco. Sem esperança mas ainda lúcido e inteligente, Campos lança uma visão geral sobre a sua vida e diz-nos o que vê, sem entoação na sua voz.
Os recursos estilísticos que usa, são em favor deste ciclo fechado e doente: as repetições, as aliterações, as interrogações indefinidas...
A sua "cabeça", a sua mente, agora serve-lhe apenas para esta retrospecção triste e apagada, para mais nada.

O Mundo que nos Rodeia: TODA A VIDA EUROPEIA MORREU EM AUSCHWITZ

Vou iniciar hoje uma nova rúbrica, "O Mundo que nos Rodeia". Esta nova temática irá abordar básicamente notícias do dia-a-dia com relevância e interesse para todos os leitores e obriga a alguma reflexão sobre o mundo e a sociedade que nos rodeia. Inicie com um artigo de um escritor espanhol, Sebastian Vilar Rodriguez, intitulado: "TODA A VIDA EUROPEIA MORREU EM AUSCHWITZ",  escrito num jornal espanhol.




TODA A VIDA EUROPEIA MORREU EM AUSCHWITZ
Por Sebastian Vilar Rodriguez

Desci uma rua em Barcelona, e descobri repentinamente uma verdade terrível. – A Europa morreu em Auschwitz. Matámos seis milhões de Judeus e substituímo-los por 20 milhões de  muçulmanos.
Em Auschwitz queimámos uma cultura, pensamento, criatividade, e talento.
Destruímos o povo escolhido, verdadeiramente escolhido, porque era um povo grande e maravilhoso que mudara o mundo.
 A contribuição deste povo sente-se em todas as áreas da vida: ciência, arte, comercio internacional, e acima de tudo, como a consciência do mundo. Este é o povo que queimámos.
E debaixo de uma pretensa tolerância, e porque queríamos provar a nós mesmos que estávamos curados da doença do racismo, abrimos as nossas portas a 20 milhões de muçulmanos que nos trouxeram estupidez e ignorância, extremismo religioso e falta de tolerância, crime e pobreza, devido ao pouco desejo de trabalhar e de sustentar as suas famílias com orgulho.
Eles fizeram explodir os nossos comboios, transformaram as nossas lindas cidades espanholas, num terceiro mundo, afogando-as em sujeira e crime.
Fechados nos seus apartamentos eles recebem, gratuitamente, do governo, eles planeiam o assassinato e a destruição dos seus ingénuos hospedeiros.
E assim, na nossa miséria, trocámos a cultura por ódio fanático, a habilidade criativa, por habilidade destrutiva, a inteligência por subdesenvolvimento e superstição.
Trocámos  a procura de paz dos judeus da Europa e o seu talento, para um futuro melhor para os seus filhos, a sua determinação, o seu  apego à vida porque a vida é santa, por aqueles que prosseguem na morte, um povo consumido pelo desejo de morte para eles e para os outros, para os nossos filhos e para os deles.
Que terrível erro cometido pela miserável Europa.
O total da população islâmica (ou muçulmana) é de, aproximadamente, 1 200 000 000, isto é um bilião e duzentos milhões  ou seja 20% da população mundial. Eles receberam os seguintes Prémios Nobel:

Literatura
1988 – Najib Mahfooz

Paz
1978 – Mohamed Anwar El-Sadat
1990 – Elias James Corey
1994 – Yaser Arafat
1999 – Ahmed Zewai

Economia
(ninguém)

Física
(ninguém)

Medicina
1960 – Peter Brian Medawar
1998 – Ferid Mourad

TOTAL: 7 (sete)

O total da população de Judeus é, aproximadamente, 14 000 000, isto é catorze milhões ou seja cerca de 0,02% da população mundial. Eles receberam os seguintes Prémios Nobel:

Literatura 
1910 - Paul Heyse
1927 - Henri Bergson
1958 - Boris Pasternak
1966 - Shmuel Yosef Agnon
1966 - Nelly Sachs
1976 - Saul Bellow
1978 - Isaac Bashevis Singer
1981 - Elias Canetti
1987 - Joseph Brodsky
1991 - Nadine Gordimer World

Paz 
1911 - Alfred Fried
1911 - Tobias Michael Carel Asser
1968 - Rene Cassin
1973 - Henry Kissinger
1978 - Menachem Begin
1986 - Elie Wiesel
1994 - Shimon Peres
1994 - Yitzhak Rabin

Física 
1905 - Adolph Von Baeyer
1906 - Henri Moissan
1907 - Albert Abraham Michelson
1908 - Gabriel Lippmann
1910 - Otto Wallach
1915 - Richard Willstaetter
1918 - Fritz Haber
1921 - Albert Einstein
1922 - Niels Bohr
1925 - James Franck
1925 - Gustav Hertz
1943 - Gustav Stern
1943 - George Charles de Hevesy
1944 - Isidor Issac Rabi
1952 - Felix Bloch
1954 - Max Born
1958 - Igor Tamm
1959 - Emilio Segre
1960 - Donald A. Glaser
1961 - Robert Hofstadter
1961 - Melvin Calvin
1962 - Lev Davidovich Landau
1962 - Max Ferdinand Perutz
1965 - Richard Phillips Feynman
1965 - Julian Schwinger
1969 - Murray Gell-Mann
1971 - Dennis Gabor
1972 - William Howard Stein
1973 - Brian David Josephson
1975 - Benjamin Mottleson
1976 - Burton Richter
1977 - Ilya Prigogine
1978 - Arno Allan Penzias
1978 - Peter L Kapitza
1979 - Stephen Weinberg
1979 - Sheldon Glashow
1979 - Herbert Charles Brown
1980 - Paul Berg
1980 - Walter Gilbert
1981 - Roald Hoffmann
1982 - Aaron Klug
1985 - Albert A. Hauptman
1985 - Jerome Karle
1986 - Dudley R. Herschbach
1988 - Robert Huber
1988 - Leon Lederman
1988 - Melvin Schwartz
1988 - Jack Steinberger
1989 - Sidney Altman
1990 - Jerome Friedman
1992 - Rudolph Marcus
1995 - Martin Perl
2000 - Alan J.. Heeger

Economia 
1970 - Paul Anthony Samuelson
1971 - Simon Kuznets
1972 - Kenneth Joseph Arrow
1975 - Leonid Kantorovich
1976 - Milton Friedman
1978 - Herbert A. Simon
1980 - Lawrence Robert Klein
1985 - Franco Modigliani
1987 - Robert M. Solow
1990 - Harry Markowitz
1990 - Merton Miller
1992 - Gary Becker
1993 - Robert Fogel

Medicina
1908 - Elie Metchnikoff
1908 - Paul Erlich
1914 - Robert Barany
1922 - Otto Meyerhof
1930 - Karl Landsteiner
1931 - Otto Warburg
1936 - Otto Loewi
1944 - Joseph Erlanger
1944 - Herbert Spencer Gasser
1945 - Ernst Boris Chain
1946 - Hermann Joseph Muller
1950 - Tadeus Reichstein
1952 - Selman Abraham Waksman
1953 - Hans Krebs
1953 - Fritz Albert Lipmann
1958 - Joshua Lederberg
1959 - Arthur Kornberg
1964 - Konrad Bloch
1965 - Francois Jacob
1965 - Andre Lwoff
1967 - George Wald
1968 - Marshall W. Nirenberg
1969 - Salvador Luria
1970 - Julius Axelrod
1970 - Sir Bernard Katz
1972 - Gerald Maurice Edelman
1975 - Howard Martin Temin
1976 - Baruch S. Blumberg
1977 - Roselyn Sussman Yalow
1978 - Daniel Nathans
1980 - Baruj Benacerraf
1984 - Cesar Milstein
1985 - Michael Stuart Brown
1985 - Joseph L. Goldstein
1986 - Stanley Cohen [& Rita Levi-Montalcini]
1988 - Gertrude Elion
1989 - Harold Varmus
1991 - Erwin Neher
1991 - Bert Sakmann
1993 - Richard J. Roberts
1993 - Phillip Sharp
1994 - Alfred Gilman
1995 - Edward B. Lewis
1996- Lu RoseIacovino 

TOTAL: 128 (cento e vinte e oito)  


Os judeus não estão a promover lavagens cerebrais a crianças em campos de treino militar, ensinando-os a fazerem-se explodir e causar um máximo de mortes a judeus e a outros não muçulmanos.
Os judeus não “tomam”  aviões, nem matam atletas nos Jogos Olímpicos, nem se fazem explodir em restaurantes alemães.
Não há um único judeu que tenha destruído uma igreja. NÃO há um único judeu que proteste matando pessoas.
Os judeus não traficam escravos, não têm líderes a clamar pela Jihad Islâmica e morte a todos os infiéis.
Talvez os muçulmanos do mundo devessem considerar investir mais numa educação modelo e menos em queixarem-se dos judeus  por todos os seus problemas.
Os muçulmanos deviam perguntar o que poderiam fazer  pela humanidade antes de pedir que a humanidade os respeite.
Independentemente dos seus sentimentos sobre a crise entre Israel e os seus vizinhos palestinianos  e árabes, mesmo que creiamos que há mais culpas na parte de Israel, as duas frases que se seguem realmente dizem tudo:
“Se os árabes depusessem hoje as suas armas não haveria mais violência. Se os judeus depusessem hoje as suas armas  não haveria mais Israel” (Benjamin Netanyahu)
Por uma questão histórica, quando o Comandante Supremo das Forças Aliadas, General Dwight Eisenhower, encontrou todas as vítimas mortas nos campos de concentração nazi, mandou que as pessoas ao visitarem esses  campos de morte, tirassem todas as fotografias possíveis, e para os alemães das aldeias próximas serem levados através dos campos e que enterrassem os mortos.
Ele fez isto porque disse de viva voz o seguinte:
 “Gravem isto tudo hoje. Obtenham os filmes, arranjem as testemunhas, porque poderá haver algum malandro  lá em baixo, na estrada da história, que se levante e diga que isto nunca aconteceu.
Recentemente, no Reino Unido, debateu-se a intenção de remover  o holocausto do curriculum das suas escolas, porque era uma ofensa para a população  muçulmana, a qual diz que isto nunca aconteceu. Até agora ainda não foi retirado do curriculum. Contudo é uma demonstração do
grande receio que está a preocupar o mundo e a facilidade com que as nações o estão a aceitar.
Já passaram mais de sessenta anos depois da Segunda Guerra Mundial na Europa ter terminado.
O conteúdo deste mail está a ser enviado como uma cadeia em memória dos 6 milhões de judeus, dos 20 milhões de russos, dos 10 milhões de cristãos e dos 1 900 padres Católicos que foram assassinados, violados, queimados, que morreram de fome, foram  espancados, e humilhados enquanto o povo alemão olhava para o outro lado.
Agora, mais do que nunca, com o Irão entre outros, reclamando que o Holocausto é um mito, é imperativo assegurar-se de que o mundo nunca esquecerá isso.
É intento deste mail que chegue a 400 milhões de pessoas.
Que seja um elo na cadeia-memorial e ajude a distribui-lo pelo mundo.
Depois do ataque ao World Trade Center, quantos anos passarão antes que se diga. “NUNCA ACONTECEU”, porque isso pode ofender alguns muçulmanos nos Estados Unidos???


quinta-feira, 3 de março de 2011

À Volta com a Vida: MARIA GUILHERMINA (n. 03 de Mar. 1923; m. 19 Mai.1997)



Poderia retirar na Net palavras bonitas e lindas de homenagem às mães deste país, porventura deste universo, no entanto optei por palavras mais singelas, quiçá humildes, distinguir aquela que foi e será a grande mulher da minha vida – A minha MÃE.
Porque o faço hoje? Porque hoje, dia 3 de Março a minha mãe faria anos, caso ainda estivesse entre nós, porque hoje é um dia triste e alegre, porque hoje é um dia melancólico e atrozmente perturbador, e finalmente porque hoje, relembro uma grande vida, uma grande mulher, uma grande mãe. Não quero no entanto cair no chamado “senso comum”, a minha mãe é a melhor do mundo, a minha mãe é magnífica, a minha mãe é única, isso concerteza pensarão e dirão todas as pessoas (ou quase todas), não; quero apenas relembrá-la nesta pequena homenagem de um filho desolado porque já não a tem, de um filho triste porque já não se aconselha, de um filho abatido porque já não chora no seu ombro.
Hoje pensei profundamente sobre algo que me atormenta, algo que rumina dentro das profundezas do meu ser, algo que não controlo e por isso não tenho capacidade de resolver, a morte…Olhei para a história da humanidade, para os grandes homens e mulheres que por ela passaram, para as grandes descobertas, avanços, recuos, frustrações e “descobri”, todos morrem. Mas perguntei…a minha mãe porquê? Sou sincero, não consegui ainda ultrapassar a falta que me faz (e já lá vão 14 anos), e por vezes até penso…junto a ela estaria bem melhor, mas depois sinto que aqui poderei dignificar a pessoa que ela foi, embora por ora seja impossível realizar alguns dos seus sonhos…uma família unida, em paz, e sobretudo viva. Talvez a paz consiga, a união atinja…agora dar vida a quem já “abdicou” dela, isso é completamente impossível, e refiro-me aqui à tristeza que foi a perda de um irmão, já posterior ao desaparecimento da minha mãe.
Hoje pensei profundamente sobre algo que me atormenta, a capacidade de estar e não estar, de viver e não viver, de recordar e não recordar, de não ter a capacidade de replicar a vida ao ponto de partida, aos momentos felizes, aos momentos venturosos, auspiciosos que ela nos proporciona.
Acabo esta pequena homenagem, porque este tipo de missivas, quando longas tornam-se irrelevantes, porque ninguém as lê, por isso à minha MÃE o meu muito obrigado, deste filho que te adora e que permaneces sempre viva no seu coração. Homenagem também ao dia 3 DE MARÇO DE 1923 que trouxe na penumbra da madrugada esta grande mulher.   

quarta-feira, 2 de março de 2011

Os "Pais" da SOCIOLOGIA: TALCOTT PARSONS (n. 13 Dez.1902; m. 08 Mai.1979)



Talcott Edgar Frederick Parsons, nasceu em 13 de Dezembro de 1902, no Colorado. O Seu pai foi um pastor Congregacionalista e depois reitor da Faculdade Marietta em Ohio. Como universitário, Parsons estudou Biologia e Filosofia na Faculdade Amherst e recebeu o título de bacharel em 1924. Depois de Amherst, estudou na London School of Economics por um ano, onde se familiarizou com a obra e o pensamento de Harold Laski, R. H. Tawney, Bronislaw Malinowski, Leonard Trelawny Hobhouse. Depois, na Universidade de Heidelberg, recebeu o título de Ph. D. em Sociologia e Economia. Foi em Heidelberg que ele se familiarizou com as ideias de Max Weber, então relativamente desconhecido entre os sociólogos americanos. Parsons traduziu diversos textos de Weber para o Inglês. Depois de um ano leccionando em Amherst (1923-1924), conseguiu um cargo em Harvard, primeiro em Economia e depois em Sociologia. Obteve seu primeiro reconhecimento significativo com a publicação de “A Estrutura da Acção Social” em 1937, sua primeira grande síntese, combinando as ideias de Durkheim, Weber, Pareto, entre outros. Em Harvard, formou o Departamento de Relações Sociais, um projecto interdisciplinar de Sociologia, Antropologia e Psicologia. Na América, foi um grande defensor da profissionalização da Sociologia e de sua expansão na academia americana. Foi eleito presidente da Sociedade Americana de Sociologia em 1949 e serviu como secretário entre 1960 e 1965.
Parsons trabalhou na Universidade de Harvard entre 1927 e 1973. Inicialmente, foi uma figura central no Departamento de Sociologia de Harvard, e posteriormente no Departamento de Relações Sociais (criado por Parsons para reflectir a sua visão de uma ciência social integrada). Desenvolveu um sistema teorético geral para a análise da sociedade que veio a ser chamado de Funcionalismo Estrutural.
A análise de Parsons foi largamente desenvolvida nas suas principais obras publicadas. Assim como outros sociólogos, ele buscou combinar actividade humana e estrutura numa teoria e não se limitou ao Funcionalismo.
Foi por muitos anos um dos Sociólogos mais conhecidos nos Estados Unidos e no mundo. O seu trabalho teve grande influência nas décadas de 1950 e 1960, particularmente na América, mas decaiu gradualmente a partir de então. A mais proeminente tentativa de reviver o pensamento parsoniano, sob o título de "Neofuncionalismo", pertence ao sociólogo Jeffrey Alexander, da Universidade de Yale.
Parsons saiu de Harvard em 1973, mas continuou ensinando (noutras universidades, como professor visitante) e escrevendo até a sua morte em 1979, no dia 8 de Maio, durante uma viagem à Alemanha.


Obra:

  • 1937  A Estrutura da Acção Social
  • 1951  O Sistema Social
  • 1956  Economia e Sociedade - com N. Smelser
  • 1960  Estrutura e Processo nas Sociedades Modernas
  • 1961  Teorias da Sociedade - com Edward Shils, Kaspar D. Naegele e Jesse R. Pitts
  • 1966  Sociedades: Perspectivas Evolucionárias e Comparativas
  • 1968  Teoria Sociológica e Sociedade Moderna
  • 1969  Política e Estrutura Social
  • 1973  A Universidade Americana - com G. Platt
  • 1977  Sistemas Sociais e a Evolução da Teoria da Acção
  • 1978  Teoria da Acção e a Condição Humana

terça-feira, 1 de março de 2011

O Poeta é um fingidor


Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus! O que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a unidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Análise do Poema



Escrito em 1929, portanto já um poema de maturidade de Pessoa, o poema "Aniversário" pode certamente contar-se entre os poemas mais tristes e simultaneamente pungentes de toda a obra do poeta.
Lembremos porém, e em antecipação à análise propriamente dita, a biografia deste heterónimo. Campos é o heterónimo da modernidade em Pessoa, é o escandaloso, o extrovertido, cuja poesia (sobretudo em prosa) propicia a oralidade - é feita quase para ser declamada em voz alta. Sem métrica definida, muitas das vezes autor de longas odes, Campos marca a diferença também por essa forma de encarar a poesia. O caos do seu método é o caos do mundo moderno que ele retrata tão magistralmente, quer nos momentos activos (fase modernista), quer passivos (fases decandentista e pessimista).
O poema "Aniversário" enquadra-se precisamente na última fase do poeta, a fase dita "pessimista", em que os temas abordados por Campos voam em redor da sua desilusão com a vida, com a amargura e a lembrança de um passado para onde nunca mais poderá regressar. "Aniversário" é mesmo marcado por essa recordação da infância: " No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, / Eu era feliz e ninguém estava morto".
Campos parece referir-se aos anos de infância de Pessoa, em que nenhum dos seus irmãos tinha ainda morrido, e o seu próprio pai ainda o acompanhava. Nesse "tempo", festejar os anos era ainda uma festa inocente e feliz. Tudo isto na "casa antiga", na casa de infância. Talvez a casa do Largo de S. Carlos, ao Chiado, onde nasceu. Esse tempo passado é um tempo feliz, mas simultaneamente um tempo perdido, porque as crianças não sabem que são felizes, só mais tarde quando recordam.
As crianças têm "a grande saúde de não perceber coisa nenhuma". Tudo isso se perdeu. Perdeu-se "o menino". "O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), / O que eu sou hoje é terem vendido a casa, / É terem morrido todos, / É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio..." Passa uma grande desilusão nestas palavras.
A infância perdeu-se para nunca mais regressar igual, e o hoje o poeta sente essa perda como a perda da sua identidade feliz. Ele apenas sobrevive, como "um fósforo frio", ou seja, um cadáver que vive, mas sem função, abandonado, sem utilidade. Campos deseja reatar o fogo apagado,", comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!", mas não o vai conseguir. Ele sabe-o quando diz: " Pára, meu coração! / Não penses! Deixa o pensar na cabeça!"
Deixar de pensar é, em Pessoa, alcançar a paz dos simples de espírito, daqueles que vivem simplesmente a vida: um objectivo que ele paradoxalmente sempre perseguirá, sendo ao mesmo tempo o maior dos poetas racionais.  

Nota: Como fiz anos a 27 de Fevereiro, resolvi dedicar este poema a mim!