terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O Poeta é um fingidor


TABACARIA


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
 
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
 
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Análise do Poema

Datado de 15 Jan. 1928, o poema "Tabacaria" enquadra-se na terceira fase poética de Álvaro de Campos, denominada a fase pessoal (Jacinto Prado Coelho) ou "Fase Pessimista", que vai de 1916 a 1935 (ano da morte de Pessoa). Desiludido dos esforços das fases anteriores, "Sensacionalista" e "Futurista", Campos deixa-se cair num pessimismo intenso, marcado com um forte regresso das memórias da sua infância e a consciência de que ficou (e está) sozinho no mundo.
A linguagem é muito mais moderada do que nas fases anteriores. Campos assume-se agora como um poeta plenamente desiludido com a vida, e muitos dos seus poemas – como Tabacaria – ganham um ritmo deliberadamente lento e retrospectivo, em clara contraposição com, por exemplo, as grandes Odes do seu período futurista.
O tema do poema é a dimensão da solidão interior face à vastidão do Universo exterior. A Tabacaria acaba por ser um símbolo que não tem valor próprio – verdadeiramente importante é que esse símbolo faz nascer em Campos a necessidade de analisar a sua própria existência face à existência da Tabacaria enquanto coisa fixa e real.
Podemos imaginar Pessoa no seu quarto da Rua Coelho da Costa. Talvez nada disto tenha ocorrido, ou tenha sido um episódio real que se derramou para a literatura. Seja como for, há nisto um leit-motif muito próprio de Pessoa – a ligação do imanente e do transcendente, do real e do ideal, do eu e do vário.
A própria simbologia do quarto e da janela versus a rua e a Tabacaria, representa essa oposição entre o "dentro" e o "fora", uma oposição dialéctica que parte em busca de uma síntese de compreensão.
Mas ao longo de todo o texto, há uma noção clara de diálogo, mesmo sem personagens. É de facto um monólogo, onde Campos fala para si mesmo, e em evidentes momentos de quebra (passagens entre parêntesis) pára mesmo para pensar, intercalando ao discurso racional momentos de delírio momentâneo, irracionais, emocionais, mas complementares.
Eu dividiria o poema em 4 partes:
A primeira parte corresponde à primeira estrofe, onde é assumido uma espécie de vazio ontológico – "não sou nada", e a contraposição entre o nada exterior e o tudo interior ("tenho em mim..."). Na realidade o vazio ontológico é ilusório e aquele "nada" é apenas o assumir de não ser nada exteriormente – a nulidade não é verdadeiramente ontológica, mas fenomenológica.
Na parte seguinte, estrofes 2-6, Campos estabelece a sua condição actual ao mesmo tempo que nos localiza – sabemos que está no seu quarto e a metáfora do quarto é a metáfora da sua condição humana. Ele é uma mente presa num quarto que olha a realidade do dia-a-dia por uma janela. Simples, mas ao mesmo tempo delicada, a simbologia marcante destas estrofes levam-nos à definição do "eu" de Campos enquanto ser só e abandonado à sua sorte. Ao transferir para metáforas reais os seus sentimentos, Campos concretiza poeticamente uma análise impossível através do raciocínio simples. Mas o que fica é sobretudo um sentido de oposição entre realidade (a rua, a Tabacaria) e irrealidade (a vida de Campos, o quarto). A ligação entre ambas é apenas uma janela, ou seja, permite uma interacção limitada, mas nunca uma passagem concreta de uma para a outra. Campo é um "falhado", mesmo que se saiba um génio – é afinal Pessoa que fala pela voz da Campos. Está vencido e sabe que nunca conseguirá ser feliz.
Na terceira parte (estrofes 7-13), até à entrada do homem na Tabacaria, Campos justifica para si mesmo o rumo que tomou na vida e, deixando ainda tomar-se pelo desespero, olha as alternativas que lhe restavam para ser feliz. Aqui a contraposição já não é entre o real e o ideal, entre o fora e o dentro, mas entre ele e os outros, entre a sua condição e a condição dos outros. Choca-lhe sobretudo aqueles que vivem a sua vida numa inconsciência plena – essa é afinal em muitas das passagens de Pessoa, afinal o ideal inatingível de felicidade – porque os vê precisamente como os suas próprias némesis, os seus adversários, os adversários de quem pensa e se preocupa. Começa com a rapariga que come chocolates, suja, perdida na sua gula. Essa passagem é marcante e simples de analisar: "Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! / Mas eu penso". Mas sabe que isso está fora do seu alcance – ele não vai deixar de pensar. Resta-lhe uma atitude nobre vaga: os poemas. Uma atitude nobre que ele espera que o salve, não sabe bem como, de uma mediocridade intensa que lhe vem de não nada fazer sentido na sua vida.
A quarta parte (estrofe 8 e seguintes) marcam o regresso da realidade. Campos deixa de "filosofar" quando um elemento real se intromete entre ele e a Tabacaria. Tudo se desmorona, porque tudo estava apenas no pensamento de Campos e nunca poderia ser real da mesma maneira que o Esteves é real. (haverá também afinal um nome mais real do que Esteves?). Passando subitamente a interveniente na realidade que analisava, Campos, assim que vê um conhecido e que depois lhe acena, deixa de poder estar fora da realidade para ser puxado violentamente para o meio dela. É assim que o Universo se reconstrói subitamente, sem metafísica, ou seja, sem dar mais azo ao pensamento e à análise – é só a verdade dos sentidos e não a idealização do pensamento.

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ESTUDO DE CASO: PERCURSOS E REPRESENTAÇÕES DE CONSUMIDORES EXCESSIVOS DE ÁLCOOL



Que futuro reserva para si?


No final do Guião e para consolidar toda a informação já obtida, falou-se do futuro, o que pensam do futuro, o que se pretendem fazer no futuro, o que pensam ainda realizar os entrevistados. Era importante perceber se o álcool tinha tido apenas consequências no passado e no presente dos indivíduos, ou também tinha retirado aos indivíduos o”sonho” de viverem e construírem algo de positivo. Embora se utilizassem quatro questões, as mesmas poderiam funcionar como um bloco, pois o que se pretendia saber, era o que queriam fazer daqui em diante, quais as perspectivas no futuro. Ora vejamos:

“Portanto quanto ao futuro, é assim, tenho o meu restaurante, não é grande, mas vai dando para viver, mas mentia se lhe dissesse que estou satisfeito, o ser humano quer sempre mais. Por isso gostava muito de ter uma coisa maior, embora saiba que quanto maior for, mas dificuldades para gerir é, mas gostava. Também gostava de mudar de casa, porque a casa onde vivo, é uma casa, numa quintinha, que é do meu pai e do meu tio, e é daquelas casas muito velhas, parece mais uma barraca, por isso gostaria de ter uma casa com todas as condições, para mim e para a minha mulher e o meu filho.”
(Entrevista Nº 8)

“Voltar a ter uma família, ter a minha casa, de ter um emprego, porque eu gosto muito de ter a minha independência, toda a gente gosta de ter a sua independência, que reconstruir a minha vida, mas em bases bem sólidas.”
(Entrevista Nº 6)

“Eu gostava ainda de ter um filho, ter a minha família, ter um companheiro, ter um filho, ainda estou a ver se arranjo força para tirar o curso que eu sempre quis ir, eu deixei economia, porque não gostava de economia, ou seja, na minha vida parece que deixei tudo por metade, então queria concretizar aquelas metas, queria ir para psicologia,…”
(Entrevista Nº 7)

Excepto o entrevistado, que ainda continua a consumir, todos os outros demonstraram grande força de vontade para realizarem os seus “sonhos”, uns mais modestos, como aprender a viver de novo com o marido, outros mais ambiciosos, como escrever um livro, no entanto todos demonstraram uma coisa, álcool nunca mais, há excepção de um, conforme já salientado.


Conclusões


Pretendeu-se com este trabalho consolidar todos os conhecimentos adquiridos ao longo de vários anos de trabalho e dedicação, neste tão grato curso de Sociologia. Não pretendo contudo terminar sem que este capítulo reúna uma série de conclusões relacionadas com o objectivo desta análise, a sua problemática e as respectivas hipóteses em estudo. Há que compreender porque se começa a consumir bebidas alcoólicas, primeiro com regularidade, depois com dependência, até terminar muitas vezes numa luta desenfreada indivíduo/álcool, que tantas e tantas mazelas vai deixando pelo caminho.
Após a operacionalização da nossa questão inicial (questão central), esta foi subdividida em outras questões (questões secundárias) de forma a flexibilizar a nossa investigação e adaptá-la à realidade do estudo.
Após essa operacionalização construiu-se uma bateria de hipóteses (A principal e secundárias) para agora e após a análise de conteúdo das entrevistas estudá-las e compreendê-las.
Começando pelas hipóteses secundárias, tínhamos como primeira hipótese em estudo: A falta de emprego e as dificuldades económicas conduzem os indivíduos a refugiarem-se no consumo de álcool, de forma a não enfrentarem a realidade da sua situação.
Segundo as análises verificadas, esta afirmação não se retratou em nenhuma das entrevistas obtidas. Aliás a falta de dinheiro pode, antes, ser impeditivo de consumir álcool, pois não havendo hipóteses monetárias de o comprar, o mesmo só poder ser feito através de empréstimos de amigos e/ou familiares. Alguns entrevistados, dizem terem recorrido aos empréstimos de alguns amigos para conseguirem consumir álcool, empréstimos ou pagamento das bebidas pelos próprios amigos. (Entrevista Nº 1 e 4).
A segunda questão em estudo era a seguinte: As dificuldades familiares e a própria negligência perante a família, são factores que desencadeiam a busca abusiva de álcool.
O que se compreendeu na maioria das entrevistas, é que esta hipótese surgia quase sempre, depois dos indivíduos se tornarem consumidores excessivos de álcool e nunca antes (Entrevista Nº 4, 5 e 6), ou seja, era o consumo excessivo de álcool que causava os problemas domésticos, chegando por vezes à violência doméstica (Entrevista Nº3), ou aos divórcios (Entrevista Nº 9) como foi o caso do último entrevistado. Houve pelo menos duas situações em que o facto de acontecer o casamento foi unicamente para haver mais liberdade e portanto mais facilidade no consumo de álcool, outrora restringido pelos pais. (Entrevista Nº 3 e 9). Em suma, esta segunda questão também não se enquadra no nosso estudo.
Passando para a terceira questão em análise, esta diz, A perda de velhos amigos, pode levar ao consumo excessivo de álcool, como forma de “esquecerem temporariamente” o assunto.
Nesta hipótese há a considerar esta perda de amigos mais abrangente, ou seja, deveríamos aqui incluir também os familiares. Neste caso a entrevista nº 1, corrobora esta ideia, pois é afirmado que um dos factores que contribuiu (não foi o único factor) para o consumo excessivo de álcool foi a ausência de familiares e amigos. Existe um segundo caso (Entrevistado Nº 7), que não foi propriamente os amigos, mas sim o seu processo de divórcio, portanto perda do marido, que lhe levou numa primeira fase a consumir mais álcool, ou seja, a perspectiva de ficar sozinha causava-lhe mal-estar e necessidade de se refugiar no álcool.
Finalmente a quarta questão em estudo, dizia, Os factores sócio culturais são muitas vezes uma forma do consumo de álcool se tornar banal, levando ao consumo excessivo do mesmo.
Esta hipótese tem realmente alguma consistência, pois os nossos entrevistados apresentaram algumas práticas que consolidavam esta ideia dos factores sócio culturais. Primeiro e isto foi focado por muitos, os factores culturais inerentes a Portugal ser um país produtor de grande dimensão (Entrevista Nº 5 e 7), por isso o acesso muito fácil ao vinho, principalmente. Depois também o facto do convívio, dos amigos, das festas, serem motivadores para o consumo de álcool, alguns entrevistados falaram mesmo que um dos principais motivos do consumo em excesso, era porque isso acontecia na companhia de vários amigos, nas conversas de café e nos serões em casa, ou passeando pela noite fora (Entrevista Nº 2 e 9). Esta hipótese parece estabelecer um mecanismo social evidente do aumento de consumidores de álcool, se juntarmos a todos estes factores, as discotecas, os jantares e as festas mais privadas, estamos perante uma série de factores sócio-culturais e ambientais para o aumento do consumo de álcool.
Estamos finalmente perante a nossa questão principal, O consumo excessivo de álcool é o resultado das dificuldades que o indivíduo se vê confrontado no seu dia a dia e nas relações estabelecidas ao nível de grupos, círculos de amigos.
Objectivando esta questão ao conjunto das nossas nove entrevistas, verifica-se efectivamente um conjunto de situações que levaram os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool, e mesmo aquele caso (Entrevista Nº 6) que afirma não encontrar razão aparente para ser um consumidor abusivo de álcool, algumas circunstâncias aconteceram, nomeadamente a pressão exercida quando tocava numa banda, para que o fizesse. Em dois outros casos, (Entrevista Nº 2 e 9) esse consumo excessivo de álcool, aconteceu ao nível do círculo de amigos, com quem conviviam e bebiam. Os restantes apresentaram sempre uma dificuldade com que foram confrontados e motivou-os a consumirem álcool em excesso. Para a nossa hipótese central existem, sem dúvida, situações em todos os entrevistados que se poderão enquadrar e validar a mesma. Extrapolando estes resultados, para a nossa questão central, Quais os principais motivos que levam os indivíduos a tornarem-se consumidores de álcool?  Poderíamos enumerar uma série deles para responder a esta questão, ausência de família, stress na tropa, vida boémia com muito dinheiro e rodeado de amigos, tratar de uma pessoa desconhecida, pressão emocional, divórcio, troca de droga pelo álcool, divertimento e amigos.
Com base nestas ilações, este trabalho contribuiu certamente para:
Identificar, compreender e descrever o percurso de vida que leva os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool, levando-os    a   situações   de  exclusão   social  e afastamento perante a sociedade.
Tendo perfeita noção que este trabalho é um trabalho académico, é com grande entusiasmo que vejo nele uma ferramenta, exploratória para futuras pesquisas nesta área que muitas vezes é descorada, a favor de outros objectivos e outra dependências, mas não nos podemos esquecer, e isto são números reais e que estão disponíveis, é que em Portugal morrem diariamente cerca de vinte a vinte e cinco pessoas, directa ou indirectamente, por causa do álcool. A sociologia tem aqui uma palavra a dizer, até porque nesta área e em Portugal existem muito poucos trabalhos com a perspectiva sociológica sobre o consumo excessivo de álcool, e como tal espero que este não seja, o último, mas … mais um.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Às Voltas com a Memória: MANUEL BENTO (n. 25 Jun. 1948; m. 01 Mar. 2007)



Manuel Galrinho Bento, nasceu na Golegã, a 25 de Junho de 1948, foi guarda-redes de futebol português, e considerado por muitos, o melhor guarda-redes de sempre do Benfica e de Portugal.
Bento iniciou a sua carreira futebolística no Clube Atlético Riachense de onde foi transferido para o FC Barreirense e depois para o Sport Lisboa e Benfica, no ano de 1972. Inicialmente foi o substituto de José Henriques. Entre 1973 e 1976, Bento e José Henriques alternaram na baliza, passando Bento a indiscutível titular em 1976, quando tinha 28 anos. Nesse mesmo ano, passou a defender as cores nacionais, nas qualificações para o Campeonato do Mundo de 1978. No primeiro jogo de Bento, Portugal perdeu no Porto, 0-2 contra a Polónia. Bento foi o guarda-redes nacional até 1986.
Bento é recordado pelas suas defesas acrobáticas, sangue-frio e temeridade. Possivelmente o seu melhor jogo, foi nas meias-finais do Campeonato Europeu de Futebol de 1984, contra a França, que Portugal perdeu por 2-3. Bento jogou também no Campeonato do Mundo de 1986, no México, e foi mesmo o porta-voz dos jogadores amotinados aquando do Caso Saltillo. Bento jogaria apenas o primeiro jogo no México, a vitória por 1-0 sobre a Inglaterra. Num treino, partiu uma perna e esteve sem jogar quase toda a época seguinte. A partir de então passou a ser guarda-redes suplente ou terceiro guarda-redes do Benfica, até ao fim da sua carreira, em 1991/92.
Bento tem o impressionante registo de 611 jogos pelo Benfica, nos quais sofreu 447 golos.
Depois de terminar a carreira de jogador, foi treinador de guarda-redes do SL Benfica. Tentou ainda a carreira de treinador principal no Leça, na União de Coimbra e no Amora, mas regressou à Luz onde trabalhava na formação das camadas jovens do clube. Numa entrevista a um jornal local do Barreiro, onde vivia, Bento confessou um dos seus segredos: Dentro das balizas que defendia colocava um par de luvas suplentes onde guardava o seu amuleto: um pedaço do corno esquerdo de uma vaca.
Morreu no dia 1 de Março de 2007, o dia seguinte à comemoração, no Casino Estoril, do 103º aniversário do Sport Lisboa e Benfica, no qual esteve presente. Tinha 58 anos, e foi vítima de um enfarte fulminante.
A Golegã, localidade ribatejana onde nasceu, deu o seu nome ao estádio municipal.

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ESTUDO DE CASO: PERCURSOS E REPRESENTAÇÕES DE CONSUMIDORES EXCESSIVOS DE ÁLCOOL



Práticas e representações sobre o Consumo
Excessivo de álcool


Relativamente às Praticas, estas estão ligadas às formas de fazer ou produzir qualquer actividade regular mais ou menos codificada. As práticas sociais reproduzem-se no quotidiano do indivíduo determinadas por factores de ordem económica, cultural, religiosa ou política. Nesta investigação interessa relacionar a alteração destas regularidades normativas na acção dos indivíduos, desde o momento em que passam de consumidores de álcool, para a situação de consumidores excessivos. Pierre Bourdieu introduziu o conceito de habitus que explica a reprodutibilidade das acções dos indivíduos de acordo com um determinado fio condutor, assim “o habitus é o princípio gerador de práticas objectivamente classificáveis e o sistema de classificação (pricipium divisionis) dessas práticas»[1]. É nesta relação, entre a capacidade de produzir práticas e a capacidade de diferenciar e apreciar essas práticas, ou seja, o gosto, que se constitui o espaço dos estilos de vida.
Os habitus, são por assim dizer esquemas de percepção e apreciação da acção, ou seja, normas interiorizadas, o indivíduo fica habilitado para que no decorrer da sua vida possa dar resposta aos estímulos convencionais cuja origem assenta nas estruturas do mundo que tem como objectivo definir os limites e as imposições da acção. São as estruturas que delimitam o campo de acção, então o indivíduo quando inicia a sua aprendizagem face ao mundo que o rodeia e o inclui, incorpora logo desde o início as próprias estruturas e as respectivas tendências. As diferentes condições de existência produzem habitus diferentes, este por sua vez estrutura as práticas e as representações. As práticas que originam os diferentes habitus inscrevem-se nas diferentes condições de existência dos agentes, possuidores de capacidades de percepção e apreciação necessárias para apreender e avaliar as diversas práticas. Condições de existência diferentes produzem habitus diferentes. As práticas que originam os diferentes habitus inscrevem-se nas diferentes condições de existência dos agentes, possuidores de capacidades de percepção e apreciação necessárias para apreender e avaliar as diversas práticas.
Por outro lado, as representações implicam uma relação de um sujeito com um objecto, no entanto, entendemos por representações as construções subjectivas dos sujeitos acerca dos objectos, portanto não é uma reflexão do objecto, é uma actividade que envolve uma construção, modelização e simbolização. Podemos afirmar que existem representações de vários tipos e sobre variados objectos. São consideradas representações sociais quando são partilhadas por um conjunto de indivíduos. “No caso do estudo das representações sociais, o nível de análise que se salienta é aquele que reenvia o sujeito para as suas pertenças sociais e para as actividades de comunicação, e a representação para a sua funcionalidade e eficácia sociais”.[2] O que pretendemos é saber quais as representações que os indivíduos consumidores de álcool possuem de si próprios. Se obtivermos um elevado número de indivíduos que partilhem duma semelhante visão do consumo excessivo de álcool, poderemos falar em representações sociais. Mesmo quando abordamos dois ou três grandes grupos distintos de visão do mundo, continuamos a falar em representações sociais, só que diferenciadas.
Após estas notas introdutórias passemos à análise da primeira questão, que era: o que representa para si consumir álcool?
As respostas foram diversas, mas algumas têm uma certa regularidade, senão vejamos:

“Beber álcool para mim era como uma fuga à realidade da vida.
“Enquanto bebia, estava eufórico, estava alegre, estava com os outros, não tocava nesses problemas, deixava andar, só que ao mesmo tempo estava a agravar mais a minha situação…”
(Entrevista Nº 1)


“Enquanto bebia, esquecia os problemas do dia a dia, ficava mais eufórico, mas mantinha sempre o meu ar bonacheirão,…”
(Entrevista Nº 2)

“Quando eu tinha qualquer coisa que me variava, ía comprar, e comprava vinho que era mais barato, mas eu não goste do álcool, foi sempre um escape…”
(Entrevista Nº 5)

“Quando bebia o álcool representava uma fuga, era um anestesiar dos sentimentos, era não querer encarar a realidade que não se gosta…”
(Entrevista Nº 7)

Poderíamos evocar mais algumas respostas, mas estas são suficientes para verificamos que existe uma certa normalidade em relação aquilo que o álcool representa, fuga, refúgio, escape, para não encarar a realidade da vida.
Quando se questionou na pergunta seguinte, se o indivíduo se acha um peso para a sociedade, ou se se achou, na altura em que consumia álcool em excesso, a regularidade das respostas ainda foi maior, sendo o não, a resposta com maior incidência. Existiram contudo duas respostas diferentes, foram:

“… cheguei a vender o meu próprio sangue nos hospitais para ter dinheiro para beber, era efectivamente um “peso” para a sociedade, naquela fase não havia dúvidas.”
(Entrevista Nº 3)

“Naquele período mais agudo do consumo de álcool, efectivamente, era um peso para a sociedade, mas digo isto agora, porque naquele tempo, nem pensar…”
(Entrevista Nº 9)

E o papel das instituições, é valorizado pelos próprios “utilizadores”, ou pelo contrário, são instituições desprezíveis, desnecessárias e que maltratam as pessoas? Quisemos saber:

“Portanto o CRAS nunca conseguiu que eu deixasse o álcool, mas conheço algumas pessoas que conseguiram, por isso ache que este tipo de instituições são muito úteis.”
(Entrevista Nº 4)

“O CRAS, que é aquele que conheço, é uma instituição dura, aquilo é muito duro lá, mas eu acho que tem de ser assim, para as pessoas aprenderem, é uma coisa muito boa, detestei estar lá internada, mas tem que ser assim, é uma forma dura de encarar e ver a realidade, se fosse muito boa, as pessoas não aprendiam nada, mas assim ajuda muito a deixar o álcool, é muito difícil a pessoa sair sem esta ajuda médica porque eles lá dentro… “
(Entrevista Nº 7)

“Eu estou a referir que estive aqui, mas é bom dizer que foi no Telhal, que a minha vida nasceu de novo, que eu me tornei um homem novo, que me saiu a sorte grande, talvez uma sorte grande diferente do totoloto, mas que para mim é um totoloto.”
(Entrevista Nº 1)

“Mas hoje posse vos dizer, que de facto, abençoada a hora que eu cheguei aqui, a esta casa, encontrei-me aqui com uma equipa multidisciplinar vocacionada para o doente alcoólico, que efectivamente, me tratou com carinho, com respeito, tratou-me como ser humano, que eu era, e na realidade quando eu saí daqui levei outro pensamento, outra ideia para poder transmitir na Guarda.”
(Entrevista Nº 2)


De todas as respostas, existe uma concordância quase total para a existência deste tipo de instituições, apenas com a diferença de que alguns as acham muito duras, mas compreendem que é uma forma dos indivíduos deixarem a bebida. O que não deixa de ser natural, pois todas as entrevistas se realizaram a indivíduos que estavam ou estiverem internados neste tipo de instituições.
Para terminar este conjunto de questões, abordou-se as preocupações que os indivíduos têm perante o alcoolismo, havendo também aqui uma regularidade muito grande, nomeadamente em relação à juventude, e aos seus elevados consumos ainda em idades muito jovens, dizem-nos alguns entrevistados:

“Eu quando vejo jovens, de catorze, quinze anos, em Alcoólicos Anónimos, é inadmissível, porque eles conseguem entrar em discotecas, ou porque os porteiros fecham os olhos, ou porque levam bilhetes de identidades falsos, mas eles não olham para a cara da pessoa e não vêem? O álcool daqui a pouco está pior que a SIDA, ou qualquer outra droga, porque cada vez se consome mais álcool. Não me admiro nada que qualquer dia o álcool esteja em primeiro lugar no consumo das pessoas.”
(Entrevistada Nº 5)


“O álcool é um problema que tende a aumentar, eu vejo o meu sobrinho já a consumir, é um consumismo já directo e publicitário para os homens consumirem álcool muito rapidamente, eles hoje em dia querem tudo muito rapidamente, temos Internet, mas a publicidade é culpada, veja bem a imagem que dá, “Portugal apoia a selecção”, e ali a garrafa de cervejinha logo ali, e depois no fim, com um bocado de decência “beba com moderação”.
(Entrevista Nº6)

“Eu acho que nunca deviam dar álcool as pessoas com menos de dezoito, e depois as pessoas não são ensinadas a ver aquilo que o álcool faz, e mete-me um bocado de impressão ver pessoas tão novas a consumirem álcool e um dia podem cair mesmo na dependência, isto é um problema da nossa sociedade, mete-me muita aflição ver pessoas tão novas alcoolizadas”
(Entrevista Nº 7)



[1] BOURDIEU, Pierre ,  La Distinction - Critique Social du Jugement, Paris, Éd. de Minuit, 1979,  p.199
[2] VALA, J., MONTEIRO, M. B., Psicologia Social, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian,1994

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Às Voltas com a Memória: SOPHIA DE MELLO BREYNER (n. 06 Nov. 1919; m. 02 Jul. 2004)



Sophia de Mello Breyner, nasceu no Porto, a 6 de Novembro de 1919, tem origem dinamarquesa pelo lado paterno. O seu bisavô, Jan Heinrich Andresen, desembarcou um dia no Porto e nunca mais abandonou esta região, tendo o seu filho João Henrique comprado, em 1895, a Quinta do Campo Alegre, hoje Jardim Botânico do Porto. Como afirmou em entrevista, em 1993, essa quinta "foi um território fabuloso com uma grande e rica família servida por uma criadagem numerosa". Pelo seu lado materno, é prima afastada de Nicolau Breyner.
Frequenta o Colégio do Sagrado Coração de Maria, no Porto, até aos dezassete anos, primeiro como semi-interna, depois como externa. Tem professores marcantes e apesar da pouca estima pela Matemática e Química, nunca chumbou. Aos doze anos escreve os primeiros poemas e entre os dezasseis e os vinte e três anos tem uma fase excepcionalmente fértil na sua produção poética.
Criada na velha aristocracia portuense, educada nos valores tradicionais da moral cristã, foi dirigente de movimentos universitários católicos quando frequentava Filologia Clássica na Universidade de Lisboa (1936-39). Colaborou na revista “Cadernos de Poesia”, onde fez amizades com autores influentes e reconhecidos: Rui Cinatti e Jorge de Sena. Veio a tornar-se uma das figuras mais representativas de uma atitude política liberal, apoiando o movimento monárquico e denunciando o regime salazarista e os seus seguidores. Ficou célebre como canção de intervenção dos Católicos Progressistas a sua "Cantata da Paz", também conhecida e chamada pelo seu refrão: "Vemos, Ouvimos e Lemos. Não podemos ignorar!"
Estuda Filologia Clássica, na Faculdade de Letras de Lisboa, mas não leva a licenciatura até ao fim, pois três anos depois regressa ao Porto.
Casou-se, em 1946, com o jornalista, político e advogado Francisco Sousa Tavares e foi mãe de cinco filhos: uma professora universitária de Letras, um jornalista e escritor de renome (Miguel Sousa Tavares), um pintor e ceramista e mais uma filha que é terapeuta ocupacional e herdou o nome da mãe. Os filhos motivaram-na a escrever contos infantis.
Em 1964 recebeu o Grande Prémio de Poesia pela Sociedade Portuguesa de Escritores pelo seu livro Livro sexto. Já depois do Revolução dos Cravos (25 de Abril), foi eleita para a Assembleia Constituinte, em 1975, pelo círculo do Porto numa lista do Partido Socialista, enquanto o seu marido navegava rumo ao Partido Social Democrata.
Distinguiu-se também como contista (Contos Exemplares) e autora de livros infantis (A Menina do Mar, O Cavaleiro da Dinamarca, A Floresta, O Rapaz de Bronze, A Fada Oriana, etc.). Foi também tradutora de Dante Alighieri e de Shakespeare e membro da Academia das Ciências de Lisboa. Para além do Prémio Camões, foi também distinguida com o Prémio Rainha Sofia, em 2003.
Sophia de Melo Breyner faleceu, aos 84 anos, no dia 2 de Julho de 2004 no Hospital da Cruz Vermelha.
Desde 2005, no Oceanário de Lisboa, os seus poemas com ligação forte ao Mar foram colocados para leitura permanente nas zonas de descanso da exposição, permitindo aos visitantes absorverem a força da sua escrita enquanto estão imersos numa visão de fundo do mar.

Obra

1944  Poesia
1947  O Dia do Mar
1950  Coral
1954  No Tempo Dividido
1956  O Rapaz de Bronze
1958  Mar Novo
1958  A Menina do Mar
1958  A Fada Oriana
1958  Ensaio sobre Cecília Meireles na «Cidade Nova»
1960  Noite de Natal
1960  Ensaio Poesia e Realidade
1961  O Cristo Cigano
1962  Livro Sexto
1962  Contos Exemplares
1964  O Cavaleiro da Dinamarca
1967  Geografia
1968  A Floresta
1968  Antologia
1970  Grades
1972  Dual
1975  O Nu na Antiguidade Clássica
1977  O Nome das Coisas
1983  Navegações
1984  Histórias da Terra e do Mar
1985  Árvore
1989  Ilhas
1990  Obra Poética (Toda a sua obra em 3 Volumes)
1994  Musa
1994  Signo
1997  Era Uma Vez uma Praia Lusitana
1998  O Búzio de Cós

Prémios

Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores
Prémio Teixeira de Pascoães
Prémio da Crítica do Centro Português da Associação de Críticos Literários
Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus e Inasset-INAPA
Grande Prémio de Poesia Pen Clube
Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças
Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores
Placa de Honra do Prémio Petrarca, atribuído em Itália
Prémio Fundação Luís Miguel Nava
Prémio Camões
Prémio Rosália de Castro, do Pen Club Galego
Prémio Max Jacob Étranger
Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana


A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ESTUDO DE CASO: PERCURSOS E REPRESENTAÇÕES DE CONSUMIDORES EXCESSIVOS DE ÁLCOOL





Trajectória de Vida


Este segundo grupo de questões, é de extrema importância para percebermos quais foram os grandes motivos, as dificuldades ou as relações estabelecidas que levaram os indivíduos a tornarem-se dependentes do álcool, é este mecanismo social que interessa à sociologia compreender.
Na primeira questão, parece óbvio que existem factores culturais que levaram estes indivíduos a terem contacto com o álcool ainda muito novos, alguns impulsionados pelos próprios pais, como afirmam dois dos entrevistados:

“O meu primeiro contacto com o álcool, foi talvez aí aos oito anos, a minha mãe dava-me “sopas de cavalo cansado”, também me dava cerveja com gemada, aquelas coisas fortes.”
(Entrevista Nº 7)

“Os meus pais emigraram para França e logo aí começou, que eu me lembro, em tenra idade, os primeiros contactos com a bebida alcoólica. Através das sopas, as famosas sopas de “cavalo cansado”
(Entrevista Nº 2)

Outras situações existem em que é evidente a pouca atenção que os próprios pais davam ao consumo de bebidas alcoólicas, levando os filhos a verem com regularidade o consumo de álcool, de uma forma mais ou menos leviana:

“Os meus hábitos de consumo começaram bastante novo, era eu que ia buscar o vinho ao meu pai também, à taberna. E na realidade, no percurso taberna/casa, tinha uma certa tendência para meter a garrafa à boca e beber.”
   (Entrevista Nº 3)

Mas avancemos com a análise; as questões seguintes, já pretendiam saber como é que se desenvolveu a dependência alcoólica, em que idade e quais os factores que a desencadearam. Sobre estes aspectos, temos uma diversidade de situações, que poderão não ter propriamente a ver com o consumo regular que alguns já tinham, mas sim com acontecimentos que vieram alterar profundamente os níveis de consumo.
Um caso flagrante acontece com um indivíduo, que já sendo consumidor de álcool e mesmo de droga, alterou os seus hábitos alcoólicos, quando a pressão sobre ele aumentou ao pertencer a uma banda rock, como ele próprio afirma:

“Mais tarde é que se complicou, com vinte e dois anos, queria mais era tocar Rock-and-Roll, e isso acarreta logo uma sobrecarga tremenda, as pessoas é que julgam que estar a tocar é tudo muito fácil, cansa, é uma grande entrega, que uma pessoa tem que dar, e acaba por ser esgotante a nível emocional, e eu refugiava-me muito nestas coisas, e as pessoas sempre a dizer-me, “Oh Pedro toca mais uma”, e chegou a uma altura que eu já não conseguia tocar. Andei mais uns tempos, sempre a beber, sempre a beber.”
(Entrevista Nº 6)

Mas a situação mais flagrante, de como alguém pode entrar na dependência alcoólica devido a um acontecimento, é o caso de uma mulher, que nunca tinha bebido, até que aos trinta e sete anos, algo aconteceu que lhe modificou a vida toda:

“E nessa altura, eu tinha trinta e sete anos, ele meteu uma tia dele dentro da minha casa, uma pessoa que eu só tinha visto uma vez… Até que um dia estávamos a comer caldeirada de pargo, e eu estava naqueles dias não, e o meu marido disse-me bebe uma pinga de vinho que até cai bem com a comida e isto anima-te. Eu estava tão coisa, que pensei, mal também não faz, eu nunca bebi isto, deixa lá ver o gosto. O que é facto é que depois do almoço senti-me com mais coragem para entrar no quarto da velha, e comecei-me a aperceber-me que cada vez que eu bebia, era para arranjar coragem, aliás não era coragem, aquilo até era uma falsa coragem, eu hoje vejo isso.
E foi aí que eu comecei a beber, uma filha já com quinze anos, outra com onze…”
(Entrevistas Nº 5)

A outra pessoa de sexo feminino, embora fosse uma consumidora regular de bebidas, mais cerveja, também por volta dos trinta e sete anos, algo lhe fez aumentar o consumo de álcool, até à sua dependência, diz ela:

“…agora a primeira vez que eu bebi quase uma garrafa cheia de Martini, foi na minha fase do divórcio, porque não é que eu gostasse daquilo, aliás eu não gosto, é incrível mas eu não gosto do sabor do álcool, eu era mesmo só para o efeito.
Foi em 2001, eu tinha trinta e três anos, portanto foi o divórcio e foi aquele fulano com quem eu vivi.”
(Entrevista Nº 7)

Outro caso de consumos motivados por acontecimentos marcantes na vida, foi o caso do entrevistado nº 1, que desencadeou a dependência, quando foi para a tropa, ele próprio diz:

“Não sei se para justificar a ausência da família dos amigos ou propriamente o isolamento em que me encontrava, o stress motivado pela própria guerra em si, porque eu estive numa zona operacional a cem por cento, levaram-me a beber, a consumir bebidas alcoólicas exageradamente, sem ter a noção que isso estava efectivamente a ser um perigo para a minha saúde e para a minha vida futura.”
(Entrevista Nº 1)


Outras situações houveram, que motivaram o consumo em excesso de álcool, por exemplo aquele jovem que para deixar a droga, aumentou o consumo de álcool, diz ele:

“Com cerca de dezanove anos, porque a minha saúde ía ficando cada vez mais deteriorada, fiz um tratamento para deixar a droga, uma desintoxicação, foi uma coisa a sério, passei noites e noites terríveis, mas consegui, no entanto foi-se a droga, ficou o álcool. Mais ou menos entre os dezanove, vinte anos, até aos meus vinte e cinco, vinte seis, estive completamente dependente do álcool, consumia tudo, não queria saber se era branco ou tinto, porque pensava, “Não me drogo, ao menos bebo”, foi também uma fase muito má, porque quem me conhecia, não sabia muitas vezes se estava bêbado ou drogado, as pessoas de fora não percebem.”
(Entrevista Nº 8)

Avançando nesta trajectória de vida, questionou-se quais as perspectivas que os indivíduos tinham, quando consumiam álcool excessivamente, e as respostas foram em quase todos os casos muito semelhantes. Se não vejamos:

“Bebia essencialmente para esquecer e conseguir lidar com aquela vida, em que sentia, que a qualquer momento podia acabar.”
(Entrevista Nº 1)

“…e o álcool para mim representa uma espécie de fuga, porque se eu bebo, é só para esquecer.”
   (Entrevista Nº 5)

“Portanto quando bebia com os meus amigos, a perspectiva que tinha do álcool, era de divertimento, de amizade, e também para esquecer alguns problemas que fui tendo, nomeadamente financeiros e com a minha segunda mulher.”
(Entrevista Nº 9)

Poderíamos retirar mais alguns depoimentos, mas a homogeneidade seria esta, o álcool é uma fuga e um refúgio para não enfrentar a realidade e as contrariedades da vida.
Finalmente e para acabarmos este nosso trajecto de vida, questionaram-se as consequências. Como foi? O que se perdeu? Vejamos:

“Talvez por isso e porque não acompanhava muito de perto o negócio, a loja cada vez facturava menos, e mais tarde acabámos mesmo por fechar a Loja.”
(Entrevista Nº 4)

“…começaram a surgir os problemas do tribunal para eu pagar dívidas, e as coisas começaram a ficar pior… porque daí nasceram desobediências a tribunais, e outras coisas do género, porque eu não aparecia a julgamentos, não aparecia a convocatórias do tribunal e tudo isso, por força das circunstâncias, e acabei por me degradar socialmente e familiarmente.”
(Entrevista Nº 1)


“Fiquei com a minha vida totalmente arruinada, em termos financeiros, também tive a ajuda do outro senhor, ele deixou-me 1.500 contos para pagar…fiquei monetariamente pelas ruas da amargura, quase perdi o meu emprego, também pouco mais do que isso tenho. Quer dizer, perdendo o emprego, não pagando as dívidas que devia da casa, sei lá, penhoravam-me os bens, ficava sem nada, até os desgraçados dos meus animais que eu adoro, os ía perder”
(Entrevista Nº 7)

As mazelas neste tipo de situações são enormes, passam muitas vezes pela ruína total, até à perda dos próprios familiares e amigos, é uma paragem no tempo, que muitas vezes é irrecuperável.