segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ESTUDO DE CASO: PERCURSOS E REPRESENTAÇÕES DE CONSUMIDORES EXCESSIVOS DE ÁLCOOL



Práticas e representações sobre o Consumo
Excessivo de álcool


Relativamente às Praticas, estas estão ligadas às formas de fazer ou produzir qualquer actividade regular mais ou menos codificada. As práticas sociais reproduzem-se no quotidiano do indivíduo determinadas por factores de ordem económica, cultural, religiosa ou política. Nesta investigação interessa relacionar a alteração destas regularidades normativas na acção dos indivíduos, desde o momento em que passam de consumidores de álcool, para a situação de consumidores excessivos. Pierre Bourdieu introduziu o conceito de habitus que explica a reprodutibilidade das acções dos indivíduos de acordo com um determinado fio condutor, assim “o habitus é o princípio gerador de práticas objectivamente classificáveis e o sistema de classificação (pricipium divisionis) dessas práticas»[1]. É nesta relação, entre a capacidade de produzir práticas e a capacidade de diferenciar e apreciar essas práticas, ou seja, o gosto, que se constitui o espaço dos estilos de vida.
Os habitus, são por assim dizer esquemas de percepção e apreciação da acção, ou seja, normas interiorizadas, o indivíduo fica habilitado para que no decorrer da sua vida possa dar resposta aos estímulos convencionais cuja origem assenta nas estruturas do mundo que tem como objectivo definir os limites e as imposições da acção. São as estruturas que delimitam o campo de acção, então o indivíduo quando inicia a sua aprendizagem face ao mundo que o rodeia e o inclui, incorpora logo desde o início as próprias estruturas e as respectivas tendências. As diferentes condições de existência produzem habitus diferentes, este por sua vez estrutura as práticas e as representações. As práticas que originam os diferentes habitus inscrevem-se nas diferentes condições de existência dos agentes, possuidores de capacidades de percepção e apreciação necessárias para apreender e avaliar as diversas práticas. Condições de existência diferentes produzem habitus diferentes. As práticas que originam os diferentes habitus inscrevem-se nas diferentes condições de existência dos agentes, possuidores de capacidades de percepção e apreciação necessárias para apreender e avaliar as diversas práticas.
Por outro lado, as representações implicam uma relação de um sujeito com um objecto, no entanto, entendemos por representações as construções subjectivas dos sujeitos acerca dos objectos, portanto não é uma reflexão do objecto, é uma actividade que envolve uma construção, modelização e simbolização. Podemos afirmar que existem representações de vários tipos e sobre variados objectos. São consideradas representações sociais quando são partilhadas por um conjunto de indivíduos. “No caso do estudo das representações sociais, o nível de análise que se salienta é aquele que reenvia o sujeito para as suas pertenças sociais e para as actividades de comunicação, e a representação para a sua funcionalidade e eficácia sociais”.[2] O que pretendemos é saber quais as representações que os indivíduos consumidores de álcool possuem de si próprios. Se obtivermos um elevado número de indivíduos que partilhem duma semelhante visão do consumo excessivo de álcool, poderemos falar em representações sociais. Mesmo quando abordamos dois ou três grandes grupos distintos de visão do mundo, continuamos a falar em representações sociais, só que diferenciadas.
Após estas notas introdutórias passemos à análise da primeira questão, que era: o que representa para si consumir álcool?
As respostas foram diversas, mas algumas têm uma certa regularidade, senão vejamos:

“Beber álcool para mim era como uma fuga à realidade da vida.
“Enquanto bebia, estava eufórico, estava alegre, estava com os outros, não tocava nesses problemas, deixava andar, só que ao mesmo tempo estava a agravar mais a minha situação…”
(Entrevista Nº 1)


“Enquanto bebia, esquecia os problemas do dia a dia, ficava mais eufórico, mas mantinha sempre o meu ar bonacheirão,…”
(Entrevista Nº 2)

“Quando eu tinha qualquer coisa que me variava, ía comprar, e comprava vinho que era mais barato, mas eu não goste do álcool, foi sempre um escape…”
(Entrevista Nº 5)

“Quando bebia o álcool representava uma fuga, era um anestesiar dos sentimentos, era não querer encarar a realidade que não se gosta…”
(Entrevista Nº 7)

Poderíamos evocar mais algumas respostas, mas estas são suficientes para verificamos que existe uma certa normalidade em relação aquilo que o álcool representa, fuga, refúgio, escape, para não encarar a realidade da vida.
Quando se questionou na pergunta seguinte, se o indivíduo se acha um peso para a sociedade, ou se se achou, na altura em que consumia álcool em excesso, a regularidade das respostas ainda foi maior, sendo o não, a resposta com maior incidência. Existiram contudo duas respostas diferentes, foram:

“… cheguei a vender o meu próprio sangue nos hospitais para ter dinheiro para beber, era efectivamente um “peso” para a sociedade, naquela fase não havia dúvidas.”
(Entrevista Nº 3)

“Naquele período mais agudo do consumo de álcool, efectivamente, era um peso para a sociedade, mas digo isto agora, porque naquele tempo, nem pensar…”
(Entrevista Nº 9)

E o papel das instituições, é valorizado pelos próprios “utilizadores”, ou pelo contrário, são instituições desprezíveis, desnecessárias e que maltratam as pessoas? Quisemos saber:

“Portanto o CRAS nunca conseguiu que eu deixasse o álcool, mas conheço algumas pessoas que conseguiram, por isso ache que este tipo de instituições são muito úteis.”
(Entrevista Nº 4)

“O CRAS, que é aquele que conheço, é uma instituição dura, aquilo é muito duro lá, mas eu acho que tem de ser assim, para as pessoas aprenderem, é uma coisa muito boa, detestei estar lá internada, mas tem que ser assim, é uma forma dura de encarar e ver a realidade, se fosse muito boa, as pessoas não aprendiam nada, mas assim ajuda muito a deixar o álcool, é muito difícil a pessoa sair sem esta ajuda médica porque eles lá dentro… “
(Entrevista Nº 7)

“Eu estou a referir que estive aqui, mas é bom dizer que foi no Telhal, que a minha vida nasceu de novo, que eu me tornei um homem novo, que me saiu a sorte grande, talvez uma sorte grande diferente do totoloto, mas que para mim é um totoloto.”
(Entrevista Nº 1)

“Mas hoje posse vos dizer, que de facto, abençoada a hora que eu cheguei aqui, a esta casa, encontrei-me aqui com uma equipa multidisciplinar vocacionada para o doente alcoólico, que efectivamente, me tratou com carinho, com respeito, tratou-me como ser humano, que eu era, e na realidade quando eu saí daqui levei outro pensamento, outra ideia para poder transmitir na Guarda.”
(Entrevista Nº 2)


De todas as respostas, existe uma concordância quase total para a existência deste tipo de instituições, apenas com a diferença de que alguns as acham muito duras, mas compreendem que é uma forma dos indivíduos deixarem a bebida. O que não deixa de ser natural, pois todas as entrevistas se realizaram a indivíduos que estavam ou estiverem internados neste tipo de instituições.
Para terminar este conjunto de questões, abordou-se as preocupações que os indivíduos têm perante o alcoolismo, havendo também aqui uma regularidade muito grande, nomeadamente em relação à juventude, e aos seus elevados consumos ainda em idades muito jovens, dizem-nos alguns entrevistados:

“Eu quando vejo jovens, de catorze, quinze anos, em Alcoólicos Anónimos, é inadmissível, porque eles conseguem entrar em discotecas, ou porque os porteiros fecham os olhos, ou porque levam bilhetes de identidades falsos, mas eles não olham para a cara da pessoa e não vêem? O álcool daqui a pouco está pior que a SIDA, ou qualquer outra droga, porque cada vez se consome mais álcool. Não me admiro nada que qualquer dia o álcool esteja em primeiro lugar no consumo das pessoas.”
(Entrevistada Nº 5)


“O álcool é um problema que tende a aumentar, eu vejo o meu sobrinho já a consumir, é um consumismo já directo e publicitário para os homens consumirem álcool muito rapidamente, eles hoje em dia querem tudo muito rapidamente, temos Internet, mas a publicidade é culpada, veja bem a imagem que dá, “Portugal apoia a selecção”, e ali a garrafa de cervejinha logo ali, e depois no fim, com um bocado de decência “beba com moderação”.
(Entrevista Nº6)

“Eu acho que nunca deviam dar álcool as pessoas com menos de dezoito, e depois as pessoas não são ensinadas a ver aquilo que o álcool faz, e mete-me um bocado de impressão ver pessoas tão novas a consumirem álcool e um dia podem cair mesmo na dependência, isto é um problema da nossa sociedade, mete-me muita aflição ver pessoas tão novas alcoolizadas”
(Entrevista Nº 7)



[1] BOURDIEU, Pierre ,  La Distinction - Critique Social du Jugement, Paris, Éd. de Minuit, 1979,  p.199
[2] VALA, J., MONTEIRO, M. B., Psicologia Social, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian,1994

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Às Voltas com a Memória: SOPHIA DE MELLO BREYNER (n. 06 Nov. 1919; m. 02 Jul. 2004)



Sophia de Mello Breyner, nasceu no Porto, a 6 de Novembro de 1919, tem origem dinamarquesa pelo lado paterno. O seu bisavô, Jan Heinrich Andresen, desembarcou um dia no Porto e nunca mais abandonou esta região, tendo o seu filho João Henrique comprado, em 1895, a Quinta do Campo Alegre, hoje Jardim Botânico do Porto. Como afirmou em entrevista, em 1993, essa quinta "foi um território fabuloso com uma grande e rica família servida por uma criadagem numerosa". Pelo seu lado materno, é prima afastada de Nicolau Breyner.
Frequenta o Colégio do Sagrado Coração de Maria, no Porto, até aos dezassete anos, primeiro como semi-interna, depois como externa. Tem professores marcantes e apesar da pouca estima pela Matemática e Química, nunca chumbou. Aos doze anos escreve os primeiros poemas e entre os dezasseis e os vinte e três anos tem uma fase excepcionalmente fértil na sua produção poética.
Criada na velha aristocracia portuense, educada nos valores tradicionais da moral cristã, foi dirigente de movimentos universitários católicos quando frequentava Filologia Clássica na Universidade de Lisboa (1936-39). Colaborou na revista “Cadernos de Poesia”, onde fez amizades com autores influentes e reconhecidos: Rui Cinatti e Jorge de Sena. Veio a tornar-se uma das figuras mais representativas de uma atitude política liberal, apoiando o movimento monárquico e denunciando o regime salazarista e os seus seguidores. Ficou célebre como canção de intervenção dos Católicos Progressistas a sua "Cantata da Paz", também conhecida e chamada pelo seu refrão: "Vemos, Ouvimos e Lemos. Não podemos ignorar!"
Estuda Filologia Clássica, na Faculdade de Letras de Lisboa, mas não leva a licenciatura até ao fim, pois três anos depois regressa ao Porto.
Casou-se, em 1946, com o jornalista, político e advogado Francisco Sousa Tavares e foi mãe de cinco filhos: uma professora universitária de Letras, um jornalista e escritor de renome (Miguel Sousa Tavares), um pintor e ceramista e mais uma filha que é terapeuta ocupacional e herdou o nome da mãe. Os filhos motivaram-na a escrever contos infantis.
Em 1964 recebeu o Grande Prémio de Poesia pela Sociedade Portuguesa de Escritores pelo seu livro Livro sexto. Já depois do Revolução dos Cravos (25 de Abril), foi eleita para a Assembleia Constituinte, em 1975, pelo círculo do Porto numa lista do Partido Socialista, enquanto o seu marido navegava rumo ao Partido Social Democrata.
Distinguiu-se também como contista (Contos Exemplares) e autora de livros infantis (A Menina do Mar, O Cavaleiro da Dinamarca, A Floresta, O Rapaz de Bronze, A Fada Oriana, etc.). Foi também tradutora de Dante Alighieri e de Shakespeare e membro da Academia das Ciências de Lisboa. Para além do Prémio Camões, foi também distinguida com o Prémio Rainha Sofia, em 2003.
Sophia de Melo Breyner faleceu, aos 84 anos, no dia 2 de Julho de 2004 no Hospital da Cruz Vermelha.
Desde 2005, no Oceanário de Lisboa, os seus poemas com ligação forte ao Mar foram colocados para leitura permanente nas zonas de descanso da exposição, permitindo aos visitantes absorverem a força da sua escrita enquanto estão imersos numa visão de fundo do mar.

Obra

1944  Poesia
1947  O Dia do Mar
1950  Coral
1954  No Tempo Dividido
1956  O Rapaz de Bronze
1958  Mar Novo
1958  A Menina do Mar
1958  A Fada Oriana
1958  Ensaio sobre Cecília Meireles na «Cidade Nova»
1960  Noite de Natal
1960  Ensaio Poesia e Realidade
1961  O Cristo Cigano
1962  Livro Sexto
1962  Contos Exemplares
1964  O Cavaleiro da Dinamarca
1967  Geografia
1968  A Floresta
1968  Antologia
1970  Grades
1972  Dual
1975  O Nu na Antiguidade Clássica
1977  O Nome das Coisas
1983  Navegações
1984  Histórias da Terra e do Mar
1985  Árvore
1989  Ilhas
1990  Obra Poética (Toda a sua obra em 3 Volumes)
1994  Musa
1994  Signo
1997  Era Uma Vez uma Praia Lusitana
1998  O Búzio de Cós

Prémios

Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores
Prémio Teixeira de Pascoães
Prémio da Crítica do Centro Português da Associação de Críticos Literários
Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus e Inasset-INAPA
Grande Prémio de Poesia Pen Clube
Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças
Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores
Placa de Honra do Prémio Petrarca, atribuído em Itália
Prémio Fundação Luís Miguel Nava
Prémio Camões
Prémio Rosália de Castro, do Pen Club Galego
Prémio Max Jacob Étranger
Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana


A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ESTUDO DE CASO: PERCURSOS E REPRESENTAÇÕES DE CONSUMIDORES EXCESSIVOS DE ÁLCOOL





Trajectória de Vida


Este segundo grupo de questões, é de extrema importância para percebermos quais foram os grandes motivos, as dificuldades ou as relações estabelecidas que levaram os indivíduos a tornarem-se dependentes do álcool, é este mecanismo social que interessa à sociologia compreender.
Na primeira questão, parece óbvio que existem factores culturais que levaram estes indivíduos a terem contacto com o álcool ainda muito novos, alguns impulsionados pelos próprios pais, como afirmam dois dos entrevistados:

“O meu primeiro contacto com o álcool, foi talvez aí aos oito anos, a minha mãe dava-me “sopas de cavalo cansado”, também me dava cerveja com gemada, aquelas coisas fortes.”
(Entrevista Nº 7)

“Os meus pais emigraram para França e logo aí começou, que eu me lembro, em tenra idade, os primeiros contactos com a bebida alcoólica. Através das sopas, as famosas sopas de “cavalo cansado”
(Entrevista Nº 2)

Outras situações existem em que é evidente a pouca atenção que os próprios pais davam ao consumo de bebidas alcoólicas, levando os filhos a verem com regularidade o consumo de álcool, de uma forma mais ou menos leviana:

“Os meus hábitos de consumo começaram bastante novo, era eu que ia buscar o vinho ao meu pai também, à taberna. E na realidade, no percurso taberna/casa, tinha uma certa tendência para meter a garrafa à boca e beber.”
   (Entrevista Nº 3)

Mas avancemos com a análise; as questões seguintes, já pretendiam saber como é que se desenvolveu a dependência alcoólica, em que idade e quais os factores que a desencadearam. Sobre estes aspectos, temos uma diversidade de situações, que poderão não ter propriamente a ver com o consumo regular que alguns já tinham, mas sim com acontecimentos que vieram alterar profundamente os níveis de consumo.
Um caso flagrante acontece com um indivíduo, que já sendo consumidor de álcool e mesmo de droga, alterou os seus hábitos alcoólicos, quando a pressão sobre ele aumentou ao pertencer a uma banda rock, como ele próprio afirma:

“Mais tarde é que se complicou, com vinte e dois anos, queria mais era tocar Rock-and-Roll, e isso acarreta logo uma sobrecarga tremenda, as pessoas é que julgam que estar a tocar é tudo muito fácil, cansa, é uma grande entrega, que uma pessoa tem que dar, e acaba por ser esgotante a nível emocional, e eu refugiava-me muito nestas coisas, e as pessoas sempre a dizer-me, “Oh Pedro toca mais uma”, e chegou a uma altura que eu já não conseguia tocar. Andei mais uns tempos, sempre a beber, sempre a beber.”
(Entrevista Nº 6)

Mas a situação mais flagrante, de como alguém pode entrar na dependência alcoólica devido a um acontecimento, é o caso de uma mulher, que nunca tinha bebido, até que aos trinta e sete anos, algo aconteceu que lhe modificou a vida toda:

“E nessa altura, eu tinha trinta e sete anos, ele meteu uma tia dele dentro da minha casa, uma pessoa que eu só tinha visto uma vez… Até que um dia estávamos a comer caldeirada de pargo, e eu estava naqueles dias não, e o meu marido disse-me bebe uma pinga de vinho que até cai bem com a comida e isto anima-te. Eu estava tão coisa, que pensei, mal também não faz, eu nunca bebi isto, deixa lá ver o gosto. O que é facto é que depois do almoço senti-me com mais coragem para entrar no quarto da velha, e comecei-me a aperceber-me que cada vez que eu bebia, era para arranjar coragem, aliás não era coragem, aquilo até era uma falsa coragem, eu hoje vejo isso.
E foi aí que eu comecei a beber, uma filha já com quinze anos, outra com onze…”
(Entrevistas Nº 5)

A outra pessoa de sexo feminino, embora fosse uma consumidora regular de bebidas, mais cerveja, também por volta dos trinta e sete anos, algo lhe fez aumentar o consumo de álcool, até à sua dependência, diz ela:

“…agora a primeira vez que eu bebi quase uma garrafa cheia de Martini, foi na minha fase do divórcio, porque não é que eu gostasse daquilo, aliás eu não gosto, é incrível mas eu não gosto do sabor do álcool, eu era mesmo só para o efeito.
Foi em 2001, eu tinha trinta e três anos, portanto foi o divórcio e foi aquele fulano com quem eu vivi.”
(Entrevista Nº 7)

Outro caso de consumos motivados por acontecimentos marcantes na vida, foi o caso do entrevistado nº 1, que desencadeou a dependência, quando foi para a tropa, ele próprio diz:

“Não sei se para justificar a ausência da família dos amigos ou propriamente o isolamento em que me encontrava, o stress motivado pela própria guerra em si, porque eu estive numa zona operacional a cem por cento, levaram-me a beber, a consumir bebidas alcoólicas exageradamente, sem ter a noção que isso estava efectivamente a ser um perigo para a minha saúde e para a minha vida futura.”
(Entrevista Nº 1)


Outras situações houveram, que motivaram o consumo em excesso de álcool, por exemplo aquele jovem que para deixar a droga, aumentou o consumo de álcool, diz ele:

“Com cerca de dezanove anos, porque a minha saúde ía ficando cada vez mais deteriorada, fiz um tratamento para deixar a droga, uma desintoxicação, foi uma coisa a sério, passei noites e noites terríveis, mas consegui, no entanto foi-se a droga, ficou o álcool. Mais ou menos entre os dezanove, vinte anos, até aos meus vinte e cinco, vinte seis, estive completamente dependente do álcool, consumia tudo, não queria saber se era branco ou tinto, porque pensava, “Não me drogo, ao menos bebo”, foi também uma fase muito má, porque quem me conhecia, não sabia muitas vezes se estava bêbado ou drogado, as pessoas de fora não percebem.”
(Entrevista Nº 8)

Avançando nesta trajectória de vida, questionou-se quais as perspectivas que os indivíduos tinham, quando consumiam álcool excessivamente, e as respostas foram em quase todos os casos muito semelhantes. Se não vejamos:

“Bebia essencialmente para esquecer e conseguir lidar com aquela vida, em que sentia, que a qualquer momento podia acabar.”
(Entrevista Nº 1)

“…e o álcool para mim representa uma espécie de fuga, porque se eu bebo, é só para esquecer.”
   (Entrevista Nº 5)

“Portanto quando bebia com os meus amigos, a perspectiva que tinha do álcool, era de divertimento, de amizade, e também para esquecer alguns problemas que fui tendo, nomeadamente financeiros e com a minha segunda mulher.”
(Entrevista Nº 9)

Poderíamos retirar mais alguns depoimentos, mas a homogeneidade seria esta, o álcool é uma fuga e um refúgio para não enfrentar a realidade e as contrariedades da vida.
Finalmente e para acabarmos este nosso trajecto de vida, questionaram-se as consequências. Como foi? O que se perdeu? Vejamos:

“Talvez por isso e porque não acompanhava muito de perto o negócio, a loja cada vez facturava menos, e mais tarde acabámos mesmo por fechar a Loja.”
(Entrevista Nº 4)

“…começaram a surgir os problemas do tribunal para eu pagar dívidas, e as coisas começaram a ficar pior… porque daí nasceram desobediências a tribunais, e outras coisas do género, porque eu não aparecia a julgamentos, não aparecia a convocatórias do tribunal e tudo isso, por força das circunstâncias, e acabei por me degradar socialmente e familiarmente.”
(Entrevista Nº 1)


“Fiquei com a minha vida totalmente arruinada, em termos financeiros, também tive a ajuda do outro senhor, ele deixou-me 1.500 contos para pagar…fiquei monetariamente pelas ruas da amargura, quase perdi o meu emprego, também pouco mais do que isso tenho. Quer dizer, perdendo o emprego, não pagando as dívidas que devia da casa, sei lá, penhoravam-me os bens, ficava sem nada, até os desgraçados dos meus animais que eu adoro, os ía perder”
(Entrevista Nº 7)

As mazelas neste tipo de situações são enormes, passam muitas vezes pela ruína total, até à perda dos próprios familiares e amigos, é uma paragem no tempo, que muitas vezes é irrecuperável.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Os "Pais" da SOCIOLOGIA: HERBERT SPENCER (n. 27 Abr.1820; m. 08 Dez.1903)

Herbert Spencer nasceu em Derby, na Inglaterra, no dia 27 de Abril de 1820. O seu pai, George Spencer, esforçou-se durante muitos anos para ter uma carreira. Tentou repetidamente trabalhar com manufactura de tecidos, e depois com a venda de roupas, mas foi à falência. Ganhava pouco dinheiro dando aulas em escolas. Amigos sugeriram-lhe trabalhar num curtume ou tornar-se clérigo. A mãe de Spencer, Harriet Holmes, não teve uma vida mais fácil: apesar de ter tido cinco filhos e quatro filhas, apenas Herbert viveu além dos dois anos idade.
Spencer desenvolveu uma mente ferozmente independente motivado pelos seus pais que eram quakers. “A individualidade era pronunciada em todos os membros da família”, lembraria, “e um individualismo pronunciado é necessariamente mais ou menos divergente em relação à autoridade. Uma natureza independente e autónoma resiste a todo governo que não seja declarada e equitativamente limitado”.
A sua educação formal era limitada: três anos numa escola primária e, depois, por um tempo desconhecido (provavelmente breve), frequentou a escola de seu tio William, e teve como tutor, por períodos intermitentes, seu tio Thomas, que era clérigo. Relata-se que aos onze anos de idade parecia estar caminhando por conta própria, frequentando palestras sobre ciências. Quando seu pai ensinava física e química, o rapaz o ajudava a preparar as experiências. Educou-se a si próprio sobre plantas e animais. Tornou-se bom a desenhar esquemas de coisas. Aprendeu muito ao ouvir os amigos dos seus pais que visitavam, e conversavam sobre política, religião, ciência, e sobre o certo e o errado. O seu pai participava da Derby Philosophical Society, que tinha uma biblioteca modesta de livros e periódicos de ciência, e Spencer vasculhava esse material.
Tinha quinze anos quando publicou o seu primeiro artigo – sobre barcos – foi publicado numa pequena revista. “Meu artigo parecia-me muito bom”, observou ele na época. “Gritei e dei cambalhotas pelo quarto... E, agora que comecei, pretendo continuar a escrever coisas”.
Enquanto isso, Spencer precisava de um salário fixo. O sector de construção de trilhos ferroviários estava em expansão e, em Novembro de 1837, conseguiu um emprego para desenhar as plantas de engenharia no London and Birmingham Railway. Sempre habilidoso, também inventou vários mecanismos de medição relacionada aos trilhos de ferro, e escreveu sete artigos para a Civil Enginner’s and Architect’s Journal. Depois de quatro anos, tinha poupado algum dinheiro e decidiu parar por um tempo para tentar uma carreira como escritor. Participou em reuniões de grupos favoráveis ao livre-comércio e contrários à escravidão e a uma religião estatal. Escreveu uma dúzia de artigos sobre filosofia política para o The Nonconformist, um periódico radical, que depois seriam reimpressos num panfleto chamado de On the Proper Sphere of Government [“A esfera própria do governo”].
Spencer ainda estava muito longe de conseguir sustentar-se escrevendo, então voltou a trabalhar para as empresas ferroviárias por mais três anos. Continuou lendo todo tipo de livros e manteve-se informado sobre as questões públicas. Em Novembro de 1848, ofereceram-lhe um cargo de editor na Economist, um periódico defensor do livre comércio, onde trabalhou por cinco anos. Um dos editores era Thomas Hodgskin, um anarquista filosófico que pode ter-lhe influenciado.
Spencer usou o seu tempo livre para escrever o seu primeiro livro, Social Statics [“Estática Social”], que foi publicado em 1851. Apresentava uma entusiástica defesa moral e prática dos direitos individuais que chamava “liberdade comum”. Todos deveriam ser livres para fazer o que quiserem, insistia Spencer, desde que não interferissem na liberdade das outras pessoas. Consequentemente, ele defendia a abolição de todas as restrições comerciais, subsídios dos pagadores de impostos para igrejas, colónias no além mar, licenças médicas, estabelecimento de moedas oficiais, bancos centrais, escolas estatais, assistência social governamental, monopólio estatal dos correios e 46 obrigações governamentais.
Spencer mostrou como o interesse próprio leva as pessoas não apenas a prosperar – como Adam Smith explicara – mas a melhorar a vida de inúmeras formas. Por exemplo, Spencer disse isso sobre sistema sanitário: “Embora todos saibam que a taxa de mortalidade tem baixado gradualmente e que o valor da vida é maior na Inglaterra do que em qualquer outro lugar, e embora todos saibam que a higiene das nossas cidades é maior agora do que em qualquer outra época, e que nossos arranjos sanitários desenvolvidos espontaneamente sejam muito melhor do que os que existem no Continente, onde o mau cheiro de Colónia, os esgotos abertos de Paris, os encanamentos de Berlim e as calçadas miseráveis das cidades germânicas mostram os resultados da administração estatal, e, embora todos saibam dessas coisas, ainda se presume perversamente que apenas a administração estatal pode remover os últimos obstáculos à saúde pública.
O capítulo mais famoso era o XIX: “O direito de ignorar o Estado”. Mesmo durante o auge do liberalismo clássico, era preciso coragem para declarar que: “Se cada homem tiver a liberdade de fazer o que quiser, desde que ele não infrinja a liberdade comum de nenhum outro homem, então ele está livre para cortar os seus laços com o Estado, abrindo mão de sua protecção e recusando-se a pagar para sustentá-lo. É auto-evidente que, agindo desse modo, ele não faz nada que viole a liberdade dos outros, pois a sua posição é passiva e, como tal, ele não pode ser um agressor”.
Social Statics catalogou Spencer como um sucesso emergente e, em Julho de 1853, ele renunciou ao seu cargo na Economist, determinado a tornar-se um escritor independente. Vendia artigos para Westminster Review, Edinburgh Review, Fortnightly Review, British Quarterly, e outras publicações influentes. Aplicava as suas ideias tanto à ciência como à ética e às políticas públicas.
Financeiramente, Spencer passou por apertos e, por algum tempo, procurou um trabalho confortável no governo que lhe desse tempo para escrever, mas felizmente nunca se tornou um burocrata. Orgulhoso, rejeitou a oferta generosa de John Stuart Mill para cobrir suas despesas. Estava determinado a ganhar a vida no mercado de trabalho. Em 1860, Spencer teve a ideia de integrar a ética, biologia e sociologia numa extensa obra filosófica – e financiando o empreendimento pedindo a assinantes que pagassem um halfcrown por cada fascículo, enviado várias vezes ao ano. Pediu aos amigos famosos que escrevessem textos de recomendações, e conseguiu que 450 pessoas se tornassem assinantes. Entre os primeiros estavam intelectuais americanos respeitados como o editor Horace Greeley, o historiador George Bancroft, o clérigo Henry Ward Beecher, o botânico Asa Gray, o cientista político Francis Lieber, e o abolicionista Charles Sumner. Spencer começou a trabalhar em First Principles [“Primeiros princípios”], num livro sobre o desenvolvimento da vida.
Infelizmente, como em todo negócio editorial, Spencer passou a perder alguns assinantes. Quando não tinha mais renda para manter o projecto, anunciou que iria interrompê-lo. Mas, em 1865, o Dr. Edward Youmans, palestrante e fundador da revista Popular Science, que se tornara um grande fã de Spencer, ajudou-o a arrecadar 7.000 dólares de amigos americanos, o que foi suficiente para que ele continuasse com o empreendimento.
Spencer antecipou-se ao trabalho de F. A. Hayek, ganhador do prémio Nobel, que lembrou ao mundo porque a acção espontânea do mercado, e não o panejamento central, é responsável pelas mais impressionantes realizações da humanidade.
Spencer teve mais influência nos Estados Unidos, onde as pessoas estavam animadamente construindo uma nova civilização. Em 1864, a Atlantic Monthly dizia que: “Mr. Herbert Spencer já é uma força no mundo... [Ele] representa o espírito científico da época”. Seus princípios, concluía a reportagem, “tornaram-se os fundamentos visíveis de uma sociedade aprimorada”. William Graham Sumner, sociólogo de Yale, tornou-se o maior defensor americano das ideias de Spencer.
No que concerne à sua aplicação no domínio da sociologia, ela foi efectuada pelo próprio Spencer, que, assim, aderiu ao movimento do biologismo sociológico. Spencer parte da definição de sociedade como um organismo. Por analogia, destaca, então, processos de crescimento, expressos através de diferenciações estruturais e funcionais.
Tratando da evolução da sociedade,
Spencer sublinhará a importância dos processos de interdependência das partes, bem como a da existência de unidades (células) nos organismos e nas sociedades (ou seja, nos indivíduos). Spencer insistirá no facto de que, tal como nos organismos, também nas sociedades se observam fenómenos de assimilação, circulação, regulação, etc.
Apesar dos esforços heróicos de Spencer, a opinião pública passou cada vez mais a favorecer a intervenção do governo no final do século XIX. Talvez porque o governo tinha tornar-se tão mais limitado que já não parecia mais ser uma ameaça pública. Mais pessoas passaram a imaginar que o governo poderia fazer o bem. Spencer respondeu escrevendo quatro fortes artigos que afirmavam os princípios fundamentais do laissez faire e atacavam a intervenção do governo publicados na Contemporary Review em 1884. Eles despertaram o que ele chamou de “um ninho de vespas na forma de críticas vindas dos periódicos esquerdistas”. Em Julho de 1884, os artigos foram reunidos e publicados em um livro The Man Versus The State [“O homem contra o Estado”].
Foi uma performance magnífica, com Spencer martelando os seus adversários – os socialistas em particular – com factos dramáticos que mostravam porque novas leis saem pela culatra. Ele contou como os tectos das taxas de juros impostos pelo governo, supostamente criados para ajudar as pessoas, sempre dificultavam a obtenção de empréstimos. Documentou como as bem intencionadas autoridades de Londres demoliram casas para 21 mil pessoas, construíram novas casas para 12 mil e deixaram 9 mil desabrigadas – antecipando ataques idênticos aos que seriam usados contra o programa do governo americano de “renovação urbana” durante o século XX. O jornalista americano Henry Hazlitt considerou que esses foram “uma das mais fortes e influentes defesas de um governo limitado, laissez faire e individualismo jamais escritas”.
Spencer aparentemente ficou deprimido com as acusações de que ele era superficial e insensível e, em 1892, aprovou uma edição revisada de Social Statics sem o capítulo XIX original, “O direito de ignorar o Estado”. Essa concessão não acalmaria os seus críticos. O juiz Oliver Wendell Holmes, defendendo as regulamentações trabalhistas de Nova York em 1905, dois anos depois da morte do filósofo, julgou necessário denunciá-lo explicitamente: “A décima-quarta emenda não implica na implementação de Social Statics do senhor Herbert Spencer”.
Ainda assim, o século XX, o mais sangrento da história, mostrou que Spencer foi um profeta fenomenal. Com mais força e clareza do que qualquer pessoa durante a sua vida, ele alertou que o socialismo levaria à escravidão. Condenou o militarismo muito antes que a corrida armamentista europeia explodisse na Primeira Guerra Mundial. Ele antecipou os males das políticas de assistência social que destroem os incentivos para que as pessoas pobres se tornem independentes. Previu o fracasso colossal da educação estatal. Afirmou que os indivíduos privados eram responsáveis pelo progresso humano. E teria ficado entusiasmado com o ressurgimento mundial da economia de mercado nos nossos dias, provando a sua convicção de que, onde o governo menos interferir, mais se verá a decência e o aprimoramento nas vidas das pessoas comuns.
Faleceu em 08 de Dezembro de 1903, em Brighton.

Obras:

XXXX  Estática Social
XXXX  Sistema de Filosofia Sintética
1863  A Educação Intelectual, Moral e física

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ESTUDO DE CASO: PERCURSOS E REPRESENTAÇÕES DE CONSUMIDORES EXCESSIVOS DE ÁLCOOL


Análise dos Dados

Realizadas que foram nove entrevistas, distribuídas pelas três instituições que constituíram a área de intervenção, CRAS - Centro Regional de Alcoologia do Sul, Hospital Miguel Bombarda e Casa de Saúde do Telhal, há que analisar toda a informação recolhida, para dela retirarmos algumas conclusões que nos ajudarão a identificar, compreender e descrever o percurso de vida que leva os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool, objectivo central desta dissertação.
O objectivo deste estudo, projecta-se numa questão central, que constituiu o ponto de partida de todo o trabalho de investigação: Quais os principais motivos que levam os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool? Para que a resposta a esta questão central fosse integradora de toda a pesquisa, optou-se por constituir um conjunto de questões derivadas, desmultiplicando a questão inicial, e dando um fio condutor aos entrevistados, de forma a obterem-se os melhores resultados, sabendo de antemão que muitas vezes o discurso apresentado por estes indivíduos,  devido à própria situação, é de difícil diálogo.
Pretendeu-se assim, que a partir do objectivo do estudo, e da sua problemática, se obtivesse uma Hipótese Principal (O consumo excessivo de álcool é o resultado das dificuldades que o indivíduo se vê confrontado no seu dia a dia e nas relações estabelecidas ao nível de grupos, organizações e círculos de amigos) e algumas outras secundárias, que serão agora analisadas pelo conjunto das entrevistas realizadas no presente trabalho.
Tratando-se, como opção que foi, de entrevistas semi-directivas, cujo objectivo era estruturar, limitar e evitar grandes divagações, o que é facto é que neste tipo de entrevistas e entrevistados, muitas vezes se torna complicado pormos “um travão”, ao discurso do entrevistado, e obriga-nos a um vaivém constante, ou em opção, retirarmos à posteriori, os fragmentos que mais correspondem ao objectivo traçado. Quase sempre se optou, pela primeira opção, orientarmos o entrevistado e limitá-lo a grandes divagações, com a vantagem de tornar o dialogo muito mais aberto, e dando ao indivíduo um à-vontade de forma a corresponder ás expectativas, que foram sempre, retirar o melhor conteúdo possível das suas palavras.
Não quero também deixar de salientar, o enorme valor acrescentado que trouxeram as entrevistas exploratórias, pois as pessoas que participaram têm muitos anos de experiência à frente das suas instituições, são conhecedoras do que se passa à volta deste fenómeno e enriqueceram todas as leituras que antecipadamente tinha realizado, dando uma panorâmica do que se passa nas instituições, no país e até no mundo, em geral.
No percurso do Guião, traçaram-se quatro grandes blocos que seriam os fios condutores de toda a entrevista. Primeiro, a caracterização do entrevistado, um segundo bloco, sobre a trajectória de vida, em terceiro lugar, as práticas e representações sobre o consumo de álcool, e finalmente, a questão do futuro que estes indivíduos reservam para si.  


Caracterização do entrevistado (a)


Em relação à caracterização dos entrevistados, achou-se interessante saber alguns dados, mas não era objectivo do estudo fazer-se qualquer extrapolação em relação a estes dados, pelo que se cingiu aos mais básicos, como o sexo, idade, situação conjugal, escolaridade, meio familiar e meio de vida, sabendo que grande parte passou ao longo do seu percurso de vida por diversas alterações nestes dados (excepto sexo e idade), portanto quisemos apenas saber actualmente a sua situação, porque a multiplicidade de alterações foram ouvidas ao longo das entrevistas. 
Tal como a maioria dos estudos indicam, o número de homens, consumidores de álcool prevalece bastante maior do que em relação às mulheres, neste caso obtivemos sete entrevistas a homens e duas a mulheres, no entanto verificou-se, quer em observação directa, quer nas entrevistas exploratórias, um crescente número de mulheres que começam a aparecer nestes Centros de Recuperação.

Verificou-se uma ligeira diferença entre a média de idades nos homens e mulheres, com uma média de idades superior para os homens (49 anos) em relação às mulheres (43 anos). Também em entrevistas exploratórias, foi consenso nas três entrevistas, que a estrutura física da mulher em relação ao homem é muito inferior, ou seja, se um indivíduo do sexo masculino for consumidor excessivo de álcool, muito provavelmente só ao fim de nove, dez anos, é que começam a aparecer as primeira debilidades físicas, enquanto nas mulheres, bastam três, quatro anos, para a sua saúde física ficar em risco.
Quanto à situação conjugal, verificou-se no caso dos homens, a existência de cinco indivíduos ainda casados, um outro divorciado, e finalmente um solteiro. Em relação aos casados, existe um caso, em que o indivíduo vai no terceiro casamento, porque os anteriores não resistiram, sobretudo devido ao seu alcoolismo. Outro indivíduo casado, já conheceu a sua actual mulher na fase de recuperação, não passando esta senhora, pelo processo de dependência alcoólica do marido.
Em relação às mulheres, a situação também é diferente, pois se num caso, foi o próprio divórcio que desencadeou o quadro alcoólico, no segundo, o marido sempre se manteve com a esposa, acreditando na sua recuperação, são palavras da própria entrevistada:

“Não perdi a família, bem pelo contrário, as minhas filhas sempre se prontificaram a ajudar-me, o meu marido como é assim, aquele género mais tortinho, não é mau, mas é tortinho. Eu acho que ele também tem vergonha, a verdade é esta. Disse-me sempre que me ajudava naquilo que pudesse, nos medicamentos que necessitasse, custe o que custar, dava-me o dinheiro, mas que não lhe pedisse para me acompanhar que ele não ía.”
                                                                                                                                 (Entrevista Nº 5)

Quanto à escolaridade, temos aqui um problema transversal às habilitações académicas, pois nestas nove entrevistas, aparecem quatro graus de ensino, que vai desde a 4ª classe até ao ensino superior. Existe neste aspecto uma heterogeneidade bastante grande, não se traçando qualquer perfil a este nível.
Em relação ao meio familiar, existe também uma diversidade muito grande, pois temos indivíduos que vivem sozinhos, até outros que vivem com mulher e dois filhos.
Finalmente em relação ao meio de vida, existe apenas uma situação de desemprego, verificando-se que todos os outros trabalham, excepto uma mulher que por opção se tornou doméstica, embora já tivesse trabalhado. Existem também dois ex-empresários, que embora neste momento não estejam a trabalhar, a todo o momento iniciarão a sua actividade.
  

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Poeta é um fingidor


Biografia


Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.



Análise do Poema
 
Este poema, datado de 8 de Novembro de 1915 pertence ao conjunto de poemas de Alberto Caeiro denominado por "Poemas Inconjuntos".
Os poemas inconjuntos são aqueles poemas que, pela sua natureza, não puderam ser incluídos nem no "Guardador de Rebanhos" nem no "Pastor Amoroso", ou seja, são poemas desgarrados, sem temas específicos, que foram deixados num conjunto externo.
No entanto por este poema inconjunto passam temas queridos a Alberto Caeiro – nomeadamente a falta de metafísica, a ausência de pensamento e uma sensação forte de não pertencer a nada, um alheamento forte da realidade e da vida.
Diz Caeiro que a sua biografia (a sua vida) tem só duas datas: a do seu nascimento e a da sua morte. Todos os outros dias são seus. O que quer Caeiro dizer com isto?
É simples. Os dias da vida de Caeiro pertenceram-lhe, não pertenceram à humanidade, à realidade exterior. Apenas duas datas exteriores teve Caeiro – quando nasceu, porque não o podia evitar, e a morte, porque também lhe será uma data alheia que não pode controlar. No meio das duas, no que é costume dizer-se se enchem as biografias das pessoas, Caeiro não acha nada que possa pertencer a uma biografia comum, porque os seus dias não foram dias normais, de um homem com uma vida normal.
Caeiro vive a sua vida para dentro – é uma realidade interior, vivida interiormente. No exterior não há nada de Caeiro, apenas uma calma intensa, de um homem tranquilo, sem acção.
"Sou fácil de definir", diz ele. E na realidade é mesmo. Porque ele só viu. Viu como um "danado", ou seja, foi essencialmente um observador da realidade. E mais nada. Nada. Não amou com sentimento, nem desejou cegamente. Nem sequer ouviu só por ouvir. Compreendeu a realidade das coisas serem diferentes umas das outras - sem ligação entre si, ou seja, sem significado. Compreendeu com os olhos e nunca com o pensamento.
O mesmo é dizer que Caeiro não quis pensar. Só quis ver. E isso impediu que ele tivesse uma vida como os outros tinham uma vida, pois ele é apenas um contemplador, não agiu, não interferiu com a realidade exterior. Foi uma personagem diáfana que passou pela realidade humana exterior.
A morte chegou-lhe como o sono a uma criança.
Esta metáfora simples simboliza a posição de Caeiro perante a vida – quer aproximar-se à inocência de uma criança (a criança nova que ele refere no Guardador de Rebanhos). As crianças, enquanto são crianças, não sabem que vivem.
Além disso apenas foi o "único poeta da natureza". Uma afirmação estranha, para quem não viveu um único dia. Mas permitimos a Caeiro este erro momentâneo, se compreendermos a sua missão impossível.