quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Os "Pais" da SOCIOLOGIA: HERBERT SPENCER (n. 27 Abr.1820; m. 08 Dez.1903)

Herbert Spencer nasceu em Derby, na Inglaterra, no dia 27 de Abril de 1820. O seu pai, George Spencer, esforçou-se durante muitos anos para ter uma carreira. Tentou repetidamente trabalhar com manufactura de tecidos, e depois com a venda de roupas, mas foi à falência. Ganhava pouco dinheiro dando aulas em escolas. Amigos sugeriram-lhe trabalhar num curtume ou tornar-se clérigo. A mãe de Spencer, Harriet Holmes, não teve uma vida mais fácil: apesar de ter tido cinco filhos e quatro filhas, apenas Herbert viveu além dos dois anos idade.
Spencer desenvolveu uma mente ferozmente independente motivado pelos seus pais que eram quakers. “A individualidade era pronunciada em todos os membros da família”, lembraria, “e um individualismo pronunciado é necessariamente mais ou menos divergente em relação à autoridade. Uma natureza independente e autónoma resiste a todo governo que não seja declarada e equitativamente limitado”.
A sua educação formal era limitada: três anos numa escola primária e, depois, por um tempo desconhecido (provavelmente breve), frequentou a escola de seu tio William, e teve como tutor, por períodos intermitentes, seu tio Thomas, que era clérigo. Relata-se que aos onze anos de idade parecia estar caminhando por conta própria, frequentando palestras sobre ciências. Quando seu pai ensinava física e química, o rapaz o ajudava a preparar as experiências. Educou-se a si próprio sobre plantas e animais. Tornou-se bom a desenhar esquemas de coisas. Aprendeu muito ao ouvir os amigos dos seus pais que visitavam, e conversavam sobre política, religião, ciência, e sobre o certo e o errado. O seu pai participava da Derby Philosophical Society, que tinha uma biblioteca modesta de livros e periódicos de ciência, e Spencer vasculhava esse material.
Tinha quinze anos quando publicou o seu primeiro artigo – sobre barcos – foi publicado numa pequena revista. “Meu artigo parecia-me muito bom”, observou ele na época. “Gritei e dei cambalhotas pelo quarto... E, agora que comecei, pretendo continuar a escrever coisas”.
Enquanto isso, Spencer precisava de um salário fixo. O sector de construção de trilhos ferroviários estava em expansão e, em Novembro de 1837, conseguiu um emprego para desenhar as plantas de engenharia no London and Birmingham Railway. Sempre habilidoso, também inventou vários mecanismos de medição relacionada aos trilhos de ferro, e escreveu sete artigos para a Civil Enginner’s and Architect’s Journal. Depois de quatro anos, tinha poupado algum dinheiro e decidiu parar por um tempo para tentar uma carreira como escritor. Participou em reuniões de grupos favoráveis ao livre-comércio e contrários à escravidão e a uma religião estatal. Escreveu uma dúzia de artigos sobre filosofia política para o The Nonconformist, um periódico radical, que depois seriam reimpressos num panfleto chamado de On the Proper Sphere of Government [“A esfera própria do governo”].
Spencer ainda estava muito longe de conseguir sustentar-se escrevendo, então voltou a trabalhar para as empresas ferroviárias por mais três anos. Continuou lendo todo tipo de livros e manteve-se informado sobre as questões públicas. Em Novembro de 1848, ofereceram-lhe um cargo de editor na Economist, um periódico defensor do livre comércio, onde trabalhou por cinco anos. Um dos editores era Thomas Hodgskin, um anarquista filosófico que pode ter-lhe influenciado.
Spencer usou o seu tempo livre para escrever o seu primeiro livro, Social Statics [“Estática Social”], que foi publicado em 1851. Apresentava uma entusiástica defesa moral e prática dos direitos individuais que chamava “liberdade comum”. Todos deveriam ser livres para fazer o que quiserem, insistia Spencer, desde que não interferissem na liberdade das outras pessoas. Consequentemente, ele defendia a abolição de todas as restrições comerciais, subsídios dos pagadores de impostos para igrejas, colónias no além mar, licenças médicas, estabelecimento de moedas oficiais, bancos centrais, escolas estatais, assistência social governamental, monopólio estatal dos correios e 46 obrigações governamentais.
Spencer mostrou como o interesse próprio leva as pessoas não apenas a prosperar – como Adam Smith explicara – mas a melhorar a vida de inúmeras formas. Por exemplo, Spencer disse isso sobre sistema sanitário: “Embora todos saibam que a taxa de mortalidade tem baixado gradualmente e que o valor da vida é maior na Inglaterra do que em qualquer outro lugar, e embora todos saibam que a higiene das nossas cidades é maior agora do que em qualquer outra época, e que nossos arranjos sanitários desenvolvidos espontaneamente sejam muito melhor do que os que existem no Continente, onde o mau cheiro de Colónia, os esgotos abertos de Paris, os encanamentos de Berlim e as calçadas miseráveis das cidades germânicas mostram os resultados da administração estatal, e, embora todos saibam dessas coisas, ainda se presume perversamente que apenas a administração estatal pode remover os últimos obstáculos à saúde pública.
O capítulo mais famoso era o XIX: “O direito de ignorar o Estado”. Mesmo durante o auge do liberalismo clássico, era preciso coragem para declarar que: “Se cada homem tiver a liberdade de fazer o que quiser, desde que ele não infrinja a liberdade comum de nenhum outro homem, então ele está livre para cortar os seus laços com o Estado, abrindo mão de sua protecção e recusando-se a pagar para sustentá-lo. É auto-evidente que, agindo desse modo, ele não faz nada que viole a liberdade dos outros, pois a sua posição é passiva e, como tal, ele não pode ser um agressor”.
Social Statics catalogou Spencer como um sucesso emergente e, em Julho de 1853, ele renunciou ao seu cargo na Economist, determinado a tornar-se um escritor independente. Vendia artigos para Westminster Review, Edinburgh Review, Fortnightly Review, British Quarterly, e outras publicações influentes. Aplicava as suas ideias tanto à ciência como à ética e às políticas públicas.
Financeiramente, Spencer passou por apertos e, por algum tempo, procurou um trabalho confortável no governo que lhe desse tempo para escrever, mas felizmente nunca se tornou um burocrata. Orgulhoso, rejeitou a oferta generosa de John Stuart Mill para cobrir suas despesas. Estava determinado a ganhar a vida no mercado de trabalho. Em 1860, Spencer teve a ideia de integrar a ética, biologia e sociologia numa extensa obra filosófica – e financiando o empreendimento pedindo a assinantes que pagassem um halfcrown por cada fascículo, enviado várias vezes ao ano. Pediu aos amigos famosos que escrevessem textos de recomendações, e conseguiu que 450 pessoas se tornassem assinantes. Entre os primeiros estavam intelectuais americanos respeitados como o editor Horace Greeley, o historiador George Bancroft, o clérigo Henry Ward Beecher, o botânico Asa Gray, o cientista político Francis Lieber, e o abolicionista Charles Sumner. Spencer começou a trabalhar em First Principles [“Primeiros princípios”], num livro sobre o desenvolvimento da vida.
Infelizmente, como em todo negócio editorial, Spencer passou a perder alguns assinantes. Quando não tinha mais renda para manter o projecto, anunciou que iria interrompê-lo. Mas, em 1865, o Dr. Edward Youmans, palestrante e fundador da revista Popular Science, que se tornara um grande fã de Spencer, ajudou-o a arrecadar 7.000 dólares de amigos americanos, o que foi suficiente para que ele continuasse com o empreendimento.
Spencer antecipou-se ao trabalho de F. A. Hayek, ganhador do prémio Nobel, que lembrou ao mundo porque a acção espontânea do mercado, e não o panejamento central, é responsável pelas mais impressionantes realizações da humanidade.
Spencer teve mais influência nos Estados Unidos, onde as pessoas estavam animadamente construindo uma nova civilização. Em 1864, a Atlantic Monthly dizia que: “Mr. Herbert Spencer já é uma força no mundo... [Ele] representa o espírito científico da época”. Seus princípios, concluía a reportagem, “tornaram-se os fundamentos visíveis de uma sociedade aprimorada”. William Graham Sumner, sociólogo de Yale, tornou-se o maior defensor americano das ideias de Spencer.
No que concerne à sua aplicação no domínio da sociologia, ela foi efectuada pelo próprio Spencer, que, assim, aderiu ao movimento do biologismo sociológico. Spencer parte da definição de sociedade como um organismo. Por analogia, destaca, então, processos de crescimento, expressos através de diferenciações estruturais e funcionais.
Tratando da evolução da sociedade,
Spencer sublinhará a importância dos processos de interdependência das partes, bem como a da existência de unidades (células) nos organismos e nas sociedades (ou seja, nos indivíduos). Spencer insistirá no facto de que, tal como nos organismos, também nas sociedades se observam fenómenos de assimilação, circulação, regulação, etc.
Apesar dos esforços heróicos de Spencer, a opinião pública passou cada vez mais a favorecer a intervenção do governo no final do século XIX. Talvez porque o governo tinha tornar-se tão mais limitado que já não parecia mais ser uma ameaça pública. Mais pessoas passaram a imaginar que o governo poderia fazer o bem. Spencer respondeu escrevendo quatro fortes artigos que afirmavam os princípios fundamentais do laissez faire e atacavam a intervenção do governo publicados na Contemporary Review em 1884. Eles despertaram o que ele chamou de “um ninho de vespas na forma de críticas vindas dos periódicos esquerdistas”. Em Julho de 1884, os artigos foram reunidos e publicados em um livro The Man Versus The State [“O homem contra o Estado”].
Foi uma performance magnífica, com Spencer martelando os seus adversários – os socialistas em particular – com factos dramáticos que mostravam porque novas leis saem pela culatra. Ele contou como os tectos das taxas de juros impostos pelo governo, supostamente criados para ajudar as pessoas, sempre dificultavam a obtenção de empréstimos. Documentou como as bem intencionadas autoridades de Londres demoliram casas para 21 mil pessoas, construíram novas casas para 12 mil e deixaram 9 mil desabrigadas – antecipando ataques idênticos aos que seriam usados contra o programa do governo americano de “renovação urbana” durante o século XX. O jornalista americano Henry Hazlitt considerou que esses foram “uma das mais fortes e influentes defesas de um governo limitado, laissez faire e individualismo jamais escritas”.
Spencer aparentemente ficou deprimido com as acusações de que ele era superficial e insensível e, em 1892, aprovou uma edição revisada de Social Statics sem o capítulo XIX original, “O direito de ignorar o Estado”. Essa concessão não acalmaria os seus críticos. O juiz Oliver Wendell Holmes, defendendo as regulamentações trabalhistas de Nova York em 1905, dois anos depois da morte do filósofo, julgou necessário denunciá-lo explicitamente: “A décima-quarta emenda não implica na implementação de Social Statics do senhor Herbert Spencer”.
Ainda assim, o século XX, o mais sangrento da história, mostrou que Spencer foi um profeta fenomenal. Com mais força e clareza do que qualquer pessoa durante a sua vida, ele alertou que o socialismo levaria à escravidão. Condenou o militarismo muito antes que a corrida armamentista europeia explodisse na Primeira Guerra Mundial. Ele antecipou os males das políticas de assistência social que destroem os incentivos para que as pessoas pobres se tornem independentes. Previu o fracasso colossal da educação estatal. Afirmou que os indivíduos privados eram responsáveis pelo progresso humano. E teria ficado entusiasmado com o ressurgimento mundial da economia de mercado nos nossos dias, provando a sua convicção de que, onde o governo menos interferir, mais se verá a decência e o aprimoramento nas vidas das pessoas comuns.
Faleceu em 08 de Dezembro de 1903, em Brighton.

Obras:

XXXX  Estática Social
XXXX  Sistema de Filosofia Sintética
1863  A Educação Intelectual, Moral e física

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ESTUDO DE CASO: PERCURSOS E REPRESENTAÇÕES DE CONSUMIDORES EXCESSIVOS DE ÁLCOOL


Análise dos Dados

Realizadas que foram nove entrevistas, distribuídas pelas três instituições que constituíram a área de intervenção, CRAS - Centro Regional de Alcoologia do Sul, Hospital Miguel Bombarda e Casa de Saúde do Telhal, há que analisar toda a informação recolhida, para dela retirarmos algumas conclusões que nos ajudarão a identificar, compreender e descrever o percurso de vida que leva os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool, objectivo central desta dissertação.
O objectivo deste estudo, projecta-se numa questão central, que constituiu o ponto de partida de todo o trabalho de investigação: Quais os principais motivos que levam os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool? Para que a resposta a esta questão central fosse integradora de toda a pesquisa, optou-se por constituir um conjunto de questões derivadas, desmultiplicando a questão inicial, e dando um fio condutor aos entrevistados, de forma a obterem-se os melhores resultados, sabendo de antemão que muitas vezes o discurso apresentado por estes indivíduos,  devido à própria situação, é de difícil diálogo.
Pretendeu-se assim, que a partir do objectivo do estudo, e da sua problemática, se obtivesse uma Hipótese Principal (O consumo excessivo de álcool é o resultado das dificuldades que o indivíduo se vê confrontado no seu dia a dia e nas relações estabelecidas ao nível de grupos, organizações e círculos de amigos) e algumas outras secundárias, que serão agora analisadas pelo conjunto das entrevistas realizadas no presente trabalho.
Tratando-se, como opção que foi, de entrevistas semi-directivas, cujo objectivo era estruturar, limitar e evitar grandes divagações, o que é facto é que neste tipo de entrevistas e entrevistados, muitas vezes se torna complicado pormos “um travão”, ao discurso do entrevistado, e obriga-nos a um vaivém constante, ou em opção, retirarmos à posteriori, os fragmentos que mais correspondem ao objectivo traçado. Quase sempre se optou, pela primeira opção, orientarmos o entrevistado e limitá-lo a grandes divagações, com a vantagem de tornar o dialogo muito mais aberto, e dando ao indivíduo um à-vontade de forma a corresponder ás expectativas, que foram sempre, retirar o melhor conteúdo possível das suas palavras.
Não quero também deixar de salientar, o enorme valor acrescentado que trouxeram as entrevistas exploratórias, pois as pessoas que participaram têm muitos anos de experiência à frente das suas instituições, são conhecedoras do que se passa à volta deste fenómeno e enriqueceram todas as leituras que antecipadamente tinha realizado, dando uma panorâmica do que se passa nas instituições, no país e até no mundo, em geral.
No percurso do Guião, traçaram-se quatro grandes blocos que seriam os fios condutores de toda a entrevista. Primeiro, a caracterização do entrevistado, um segundo bloco, sobre a trajectória de vida, em terceiro lugar, as práticas e representações sobre o consumo de álcool, e finalmente, a questão do futuro que estes indivíduos reservam para si.  


Caracterização do entrevistado (a)


Em relação à caracterização dos entrevistados, achou-se interessante saber alguns dados, mas não era objectivo do estudo fazer-se qualquer extrapolação em relação a estes dados, pelo que se cingiu aos mais básicos, como o sexo, idade, situação conjugal, escolaridade, meio familiar e meio de vida, sabendo que grande parte passou ao longo do seu percurso de vida por diversas alterações nestes dados (excepto sexo e idade), portanto quisemos apenas saber actualmente a sua situação, porque a multiplicidade de alterações foram ouvidas ao longo das entrevistas. 
Tal como a maioria dos estudos indicam, o número de homens, consumidores de álcool prevalece bastante maior do que em relação às mulheres, neste caso obtivemos sete entrevistas a homens e duas a mulheres, no entanto verificou-se, quer em observação directa, quer nas entrevistas exploratórias, um crescente número de mulheres que começam a aparecer nestes Centros de Recuperação.

Verificou-se uma ligeira diferença entre a média de idades nos homens e mulheres, com uma média de idades superior para os homens (49 anos) em relação às mulheres (43 anos). Também em entrevistas exploratórias, foi consenso nas três entrevistas, que a estrutura física da mulher em relação ao homem é muito inferior, ou seja, se um indivíduo do sexo masculino for consumidor excessivo de álcool, muito provavelmente só ao fim de nove, dez anos, é que começam a aparecer as primeira debilidades físicas, enquanto nas mulheres, bastam três, quatro anos, para a sua saúde física ficar em risco.
Quanto à situação conjugal, verificou-se no caso dos homens, a existência de cinco indivíduos ainda casados, um outro divorciado, e finalmente um solteiro. Em relação aos casados, existe um caso, em que o indivíduo vai no terceiro casamento, porque os anteriores não resistiram, sobretudo devido ao seu alcoolismo. Outro indivíduo casado, já conheceu a sua actual mulher na fase de recuperação, não passando esta senhora, pelo processo de dependência alcoólica do marido.
Em relação às mulheres, a situação também é diferente, pois se num caso, foi o próprio divórcio que desencadeou o quadro alcoólico, no segundo, o marido sempre se manteve com a esposa, acreditando na sua recuperação, são palavras da própria entrevistada:

“Não perdi a família, bem pelo contrário, as minhas filhas sempre se prontificaram a ajudar-me, o meu marido como é assim, aquele género mais tortinho, não é mau, mas é tortinho. Eu acho que ele também tem vergonha, a verdade é esta. Disse-me sempre que me ajudava naquilo que pudesse, nos medicamentos que necessitasse, custe o que custar, dava-me o dinheiro, mas que não lhe pedisse para me acompanhar que ele não ía.”
                                                                                                                                 (Entrevista Nº 5)

Quanto à escolaridade, temos aqui um problema transversal às habilitações académicas, pois nestas nove entrevistas, aparecem quatro graus de ensino, que vai desde a 4ª classe até ao ensino superior. Existe neste aspecto uma heterogeneidade bastante grande, não se traçando qualquer perfil a este nível.
Em relação ao meio familiar, existe também uma diversidade muito grande, pois temos indivíduos que vivem sozinhos, até outros que vivem com mulher e dois filhos.
Finalmente em relação ao meio de vida, existe apenas uma situação de desemprego, verificando-se que todos os outros trabalham, excepto uma mulher que por opção se tornou doméstica, embora já tivesse trabalhado. Existem também dois ex-empresários, que embora neste momento não estejam a trabalhar, a todo o momento iniciarão a sua actividade.
  

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Poeta é um fingidor


Biografia


Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.



Análise do Poema
 
Este poema, datado de 8 de Novembro de 1915 pertence ao conjunto de poemas de Alberto Caeiro denominado por "Poemas Inconjuntos".
Os poemas inconjuntos são aqueles poemas que, pela sua natureza, não puderam ser incluídos nem no "Guardador de Rebanhos" nem no "Pastor Amoroso", ou seja, são poemas desgarrados, sem temas específicos, que foram deixados num conjunto externo.
No entanto por este poema inconjunto passam temas queridos a Alberto Caeiro – nomeadamente a falta de metafísica, a ausência de pensamento e uma sensação forte de não pertencer a nada, um alheamento forte da realidade e da vida.
Diz Caeiro que a sua biografia (a sua vida) tem só duas datas: a do seu nascimento e a da sua morte. Todos os outros dias são seus. O que quer Caeiro dizer com isto?
É simples. Os dias da vida de Caeiro pertenceram-lhe, não pertenceram à humanidade, à realidade exterior. Apenas duas datas exteriores teve Caeiro – quando nasceu, porque não o podia evitar, e a morte, porque também lhe será uma data alheia que não pode controlar. No meio das duas, no que é costume dizer-se se enchem as biografias das pessoas, Caeiro não acha nada que possa pertencer a uma biografia comum, porque os seus dias não foram dias normais, de um homem com uma vida normal.
Caeiro vive a sua vida para dentro – é uma realidade interior, vivida interiormente. No exterior não há nada de Caeiro, apenas uma calma intensa, de um homem tranquilo, sem acção.
"Sou fácil de definir", diz ele. E na realidade é mesmo. Porque ele só viu. Viu como um "danado", ou seja, foi essencialmente um observador da realidade. E mais nada. Nada. Não amou com sentimento, nem desejou cegamente. Nem sequer ouviu só por ouvir. Compreendeu a realidade das coisas serem diferentes umas das outras - sem ligação entre si, ou seja, sem significado. Compreendeu com os olhos e nunca com o pensamento.
O mesmo é dizer que Caeiro não quis pensar. Só quis ver. E isso impediu que ele tivesse uma vida como os outros tinham uma vida, pois ele é apenas um contemplador, não agiu, não interferiu com a realidade exterior. Foi uma personagem diáfana que passou pela realidade humana exterior.
A morte chegou-lhe como o sono a uma criança.
Esta metáfora simples simboliza a posição de Caeiro perante a vida – quer aproximar-se à inocência de uma criança (a criança nova que ele refere no Guardador de Rebanhos). As crianças, enquanto são crianças, não sabem que vivem.
Além disso apenas foi o "único poeta da natureza". Uma afirmação estranha, para quem não viveu um único dia. Mas permitimos a Caeiro este erro momentâneo, se compreendermos a sua missão impossível.  

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - DADOS ESTATÍSTICOS DE ENQUADRAMENTO



Consumo Per Capita


O consumo de álcool e de bebidas alcoólicas é medido, ao nível populacional, em termos de consumo per capita. O seu cálculo é baseado na totalidade de bebidas alcoólicas consumidas em Portugal, que é estimado com base nas estatísticas de produção e nas vendas de diferentes bebidas alcoólicas, tendo em conta as exportações e importações. Este cálculo não inclui a produção doméstica de bebidas alcoólicas que, como se sabe, é muito elevada no nosso país, nem tem em conta os produtores de vinho existentes e não declarados, ou seja, a produção ilegal de outras bebidas que não o vinho, as bebidas trazidas pelos turistas, as bebidas consumidas por turistas principalmente no Algarve e zonas de maior fluxo turístico, como também não entra em linha de conta, com as bebidas alcoólicas que são compradas, armazenadas e não consumidas. Por isso, o consumo per capita fornece-nos uma estimativa do consumo e não o consumo exacto actual.
O consumo per capita resulta da divisão da quantidade total de álcool etílico consumido por estimativa pela totalidade da população com mais de 15 anos. Este cálculo atribui, assim, um consumo médio a cada português, independentemente do seu consumo actual de bebidas alcoólicas e, por consequência, de álcool puro.
Apesar do consumo per capita oferecer uma estimativa aproximada da quantidade total de álcool consumido, são necessários novos dados, novos inquéritos, que permitam ligar dados de consumo a outros de ordem sócio demográfica e de consumo, ao nível individual.
Segundo dados de 2002, o consumo médio per capita dos então doze países da União Europeia, situava-se acima dos oito litros de álcool puro por ano.
Em Portugal, o consumo per capita é dos mais elevados do mundo, tendo-se situado, em 2000, em 10,8 L de álcool puro, sendo assim o segundo consumidor mundial.


Desde 1970 registou-se um aumento de 10% no consumo de etanol. Atingiu-se o quarto lugar mundial, com 50 L por habitante, em 2000, no que diz respeito ao consumo de vinho, quando por exemplo, em 1970, o consumo era de 72,5 L. O consumo de cerveja tem vindo a aumentar vertiginosamente, com um incremento superior a 390% entre 1970 e 2000; cada português consumiu, neste último ano, 65,3 L de cerveja. O consumo de bebidas destiladas situou-se, neste mesmo ano, acima de 1 L de etanol, tendo aumentado cerca de 180%, entre 1970 e 2000. Mais uma vez se salienta o facto de que a capitação de vinho e de bebidas destiladas se encontra subestimada em virtude de existir muita produção não declarada destas bebidas e, portanto, sem integração nas estatísticas oficiais.




À semelhança do que vem acontecendo noutros países, também em Portugal os hábitos tradicionais de consumo de bebidas alcoólicas parece ter sofrido, nos últimos anos, alterações significativas, destacando-se as seguintes tendências:

  • Aumento substancial do consumo de cerveja
  • Aumento crescente no consumo de bebidas alcoólicas pela mulher
  • Aumento crescente de bebidas alcoólicas pelos jovens
  • Aumento significativo no consumo de bebidas destiladas (aperitivos, whisky, licores, cocktails, etc,)
  • Internacionalização e uniformização dos hábitos de beber
  • Aumento no consumo de novas bebidas (sumos com álcool, Redbull com vodka, shots, etc,)

A alcoolização geral da população é uma realidade. Segundo um estudo de Aires Gameiro, em 1987, cerca de um milhão e setecentos mil portugueses são consumidores excessivos e doentes alcoólicos crónicos. Um estudo realizado no âmbito do Programa CINDI, Setúbal 1987, cerca de 12% dos indivíduos inquiridos apresentavam dependência alcoólica e/ou graves problemas com o álcool, e 13% tinham tido pelo menos um problema com o álcool. Um outro estudo apresentado pelo Centro Regional de Alcoologia de Coimbra, em Janeiro de 1997, apresentava os seguintes resultados:

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O Poeta é um fingidor



BIOGRAFIA DE ALBERTO CAEIRO


Parece-me bem começar a explicar quem foi Caeiro citando Agostinho da Silva, no seu “Um Fernando Pessoa”, quando o pensador nos diz que “para Caeiro, o ideal é que não se junte coisa alguma daquelas que o mundo, naturalmente, nos apresenta separadas”. Serve esta pequena citação para apresentar uma “personagem” criada por Pessoa para exprimir o que Pessoa tinha em si de contemplativo, de mero observador da Natureza. É uma verdade que Caeiro, que Pessoa apelida de “O Mestre”, surge, na linha temporal dos heterónimos, não como o primeiro, como se esperaria de um “Mestre”, mas sim em último (Pessoa data os seus primeiros poemas de Caeiro com datas de 1925, embora ele surja na sua mente em 1914) contraposição ao próprio Pessoa, como que funcionando como filtro da sua escrita e das suas emoções. Caeiro, em rigor, define a estrutura funcional da obra, partindo dele Reis – em oposição – e Campo – em subordinação. Serve por isso Caeiro um propósito estrito para Fernando Pessoa – o de limpar a sua mente da confusão do que seria ter de desenvolver linearmente uma linha, um estilo de pensamento, que incluía, às vezes contra a sua vontade, pontos de vista tão diversos e, em certa medida, inconciliáveis.
O poeta múltiplo, mais do que apenas levado por uma necessidade de negar a sua própria personalidade, via-se confrontado com uma necessidade de desvendar tudo aquilo que sentia, e nenhuma melhor forma existia que dar vida a cada uma dessas linhas de pensamento, a cada hipótese dar vida e respiração, para que na “discussão em família”, eventualmente se chegasse mais perto da Verdade Inicial. Note-se que esta operação é trinitária – Caeiro, Reis, Campos – e por isso mesmo simbólica, alquímica, oculta. Curiosamente e como indica outro critico, Eduardo Lourenço, no seu Pessoa Revisitado, Caeiro é porventura o mais intelectualista das personagens poéticas de Pessoa, um quasi-filósofo da ontologia tão em voga hoje na nossa modernidade, e que acabou por desaguar na filosofia da linguagem de Wittgenstein. A análise exaustiva de Caeiro, sob a aparência da simplicidade, leva-o a uma “patética aventura”, nas palavras de Lourenço, consubstancia uma crença num mundo de irrealidade, negação ou afastamento não poderemos saber exactamente.
Caeiro na verdade, segundo Pessoa, surge no seguimento de uma brincadeira com o amigo de Pessoa e também poeta Mário de Sá-Carneiro. Pessoa ter-se-á encostado à sua cómoda (segundo nos dizem, costumava escrever assim) e num jacto terá escrito a obra maior de Caeiro, o Guardador de Rebanhos, num dia em 1914, para depois surpreender com esta aventura o seu colega e amigo. Parece esta explicação de índole mais simples. Claro que cabe aos críticos por vezes achar os porquês que o próprio poeta ignora, ou que em verdade operam inconscientemente. Curiosamente a Caeiro é dada uma vida com os mesmos anos de Sá-Carneiro, 26, e morre tuberculoso o “Mestre” como o pai de Pessoa, depois de ter 5 curtos anos de actividade poética fictícia, 5 tendo sido também os anos de felicidade do “Menino de Sua Mãe”.

Os "Pais" da SOCIOLOGIA: ALEXIS DE TOCQUEVILLE (n. 29 Jul.1805; m. 16 Abr.1859)


Alexis Henri Charles Clérel, visconde de Tocqueville, dito Alexis de Tocqueville, nasceu em 29 de Julho de 1805.
Alexis de Tocqueville pertenceu a uma grande família aristocrática normanda. Era bisneto de Chrétien Guillaume de Malesherbes e tinha ligações familiares com o visconde de Chateaubriand. Seus ancestrais participaram da batalha de Hastings em 1066, que concretizou a conquista de Guilherme, Duque da Normandia e o fim da dinastia de reis anglo-saxões na Inglaterra. Seus pais, Hervé Louis François Jean Bonaventure Clérel, conde de Tocqueville, soldado da guarda constitucional do rei Luís XVI e Louise Madeleine Le Peletier de Rosanbo, escaparam da guilhotina graças à queda de Robespierre no Ano II (1794). Destino diferente teve seu avô, o Marquês de Rosanbo, que foi executado.
Após exílio na Inglaterra, Hervé e Louise retornaram à França durante o Primeiro Império (1804-1815). Aos 16 anos Tocqueville entrou para o Royal College, em Metz, para estudar filosofia. Durante esse tempo Tocqueville começou a ter dúvidas sobre o papel da aristocracia no governo francês e sofreu uma profunda crise religiosa que teria efeito para o resto da vida. Depois de terminar no Royal College, aos 18 anos, Tocqueville voltou a Paris, onde estudou direito.
Embora consagrado pela posteridade como homem de letras, sociólogo da democracia moderna e historiador do Antigo Regime, Alexis de Tocqueville sempre ambicionou ser um homem da política. Em 1827 Hervé torna-se “Pair de France” e “Préfet” de Versalhes (a prefeitura mais importante de França), enquanto Tocqueville filho, recebeu uma posição como aprendiz magistrado no tribunal de Versalhes. Tocqueville começa a ter cada vez mais simpatia pelo liberalismo, como resultado da sua crença que o declínio da aristocracia em França era inevitável.
A revolução de Julho de 1830, em que Carlos X abdica e Luís Filipe subiu ao trono, trouxe fortes repercussões na vida de Tocqueville. Como resultado desta revolução, a família Tocqueville perdeu a sua nobreza e posição que tinha, tornando-se a sua situação precária. Isto levou a que Tocqueville verificasse que a França caminhava para a democracia e viu os Estados Unidos como um modelo a seguir. Consegue viajar para a América, a pretexto de querer estudar reformas prisionais, mas o seu grande objectivo era adquirir conhecimentos sobre o desenvolvimento político americano, que esperar à posterior usar em França. Tocqueville viaja também para Inglaterra para estudar o sistema político britânico.
Em 1835, escreve a primeira parte do livro “A Democracia na América”, onde faz um relato muito positivo e optimista do governo americano e da sua sociedade e nesse mesmo ano casa com Maria Montley, uma inglesa. O casamento foi um escândalo para a família, pois consideravam Maria Montley de um estrato social inferior. A mãe de Tocqueville morre em 1836.
Após a morte de sua mãe, reencontra a política e em 1836, Tocqueville lança a sua primeira candidatura à Câmara, na qual foi derrotado. Em 1839, conseguiria a primeira de uma série de vitórias que o manteriam na câmara até o golpe de estado de 1851.
Em 1840, publica a segunda parte do livro “A Democracia na América”. Sendo muito mais pessimista que o primeiro, fala do despotismo e dos perigos da centralização governamental e como resultado não foi recebido com o entusiasmo do primeiro, em França, embora altamente elogiado em Inglaterra.
Em 1841, Tocqueville é eleito para a Academia Francesa e Academia de Moral e Ciência Política. Nesse ano visita a Argélia, uma colónia francesa e critica os militares franceses e a burocracia do país.
Na Câmara dos Deputados, Tocqueville defendia a expansão do poder naval para desafiar o domínio britânico e apoia o papel da Igreja Católica em relação ao ensino e às Universidades, sendo assim coerente com o que escreveu no seu livro “A Democracia na América”. Tocqueville estava cada vez mais a movimentar-se para uma politica de esquerda, tornando-se em 1844 proprietário do jornal “Le radical do Comércio”, mas deixou-o no ano seguinte devido ao fracasso financeiro.
Em 1846, alinhou-se à “nova esquerda”, facção da Câmara e os partidos de esquerda iniciaram uma campanha para angariar apoios, Tocqueville faz um discurso no início de 1848 a prever a eclosão de uma revolução, mas a sua advertência foi ignorada.
Tocqueville era contra a revolução que finalmente acontece, em 1848, tal como previra, no entanto ajuda a formar um novo governo, é eleito para a Assembleia Constituinte e ajuda a escrever a Constituição da Segunda República. No ano seguinte foi eleito para a Assembleia Legislativa tornando-se seu Vice-Presidente e Ministro dos Negócios Estrangeiros. Esta situação não durou muito tempo porque o Presidente Luís Napoleão Bonaparte o demitiu do cargo. Tocqueville sofre um colapso físico e vai para Itália recuperar a sua saúde.
Retorna a Paris em 1851, opõe-se fortemente ao governo, é preso por pouco tempo, e é impedido de exercer cargos públicos, porque se recusa a jurar lealdade ao novo regime.
Fora da vida política, Tocqueville escreve “O Antigo Regime e a Revolução Francesa no início de 1850, onde relata a história de França que antecedeu a revolução de 1789, onde enfatiza os factores que levaram ao fracasso francês.
Em 1856, morre o seu pai e passados apenas alguns anos, em 16 de Abril de 1859, em função de uma crise de tuberculose pulmonar morre Alexis de Tocqueville.

Obras
1833  États-Unis et le son application en France
1840  De la Démocratie
1856  L’ancien régime et la révolution

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - DADOS ESTATÍSTICOS DE ENQUADRAMENTO


Consumo de Álcool em Portugal


Portugal, país situado entre os países-membros da União Europeia com um dos maiores consumos de bebidas alcoólicas e de prevalência de Problemas Ligados ao Álcool (PLA), tem vindo a integrar-se, nos últimos anos, na política geral europeia de controlo dos PLA para uma melhor saúde do indivíduo e da comunidade, conforme nos refere Maria Lucília Mercês de Mello (2001: 9).
Portugal situa-se entre os países de maior produção e consumo vinícolas. Embora se tenham verificado nos últimos anos, aumentos de consumo em alguns países da Europa, Portugal e França continuam a ocupar posições cimeiras entre os maiores produtores/consumidores de álcool.
O elevado consumo relaciona-se claramente com a forte produção, que em 1999 foi de 7,8 milhões de Hl de vinho, ocupando deste modo o 9º lugar como produtor mundial; a produção de cerveja, em cerca de 6,8 milhões de Hl, enquanto a estatística de produção de bebidas destiladas apresenta uma fiabilidade muito duvidosa.
Cada português gasta, em média, 150 euros por ano em bebidas alcoólicas, mais do que qualquer outro produto alimentar analisado isoladamente; de frisar que este montante sobe para 1500 euros no caso dos doentes alcoólicos, isto em 1995.






Um outro aspecto relevante é o facto de Portugal estar colocado entre os principais consumidores de cerveja. O quadro seguinte é ilustrativo disso mesmo, mostrando o consumo per capita de cerveja, por pessoa, anualmente:



Também ao nível do consumo de bebidas destiladas, Portugal ocupa uma posição significativa, sendo o 32º país mundial em termos de consumo deste tipo de bebidas.

Às Voltas com a Memória: MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (n. 19 Mai. 1890; m. 26 Abr. 1916)


Nasceu, em Lisboa, no dia 19 de Maio de 1890, no seio de uma abastada família alto-burguesa, sendo filho e neto de militares. Órfão de mãe com apenas dois anos (1892), ficou entregue ao cuidado dos avós, indo viver para a Quinta da Vitória, na freguesia de Camarate, às portas de Lisboa, aí passando grande parte da infância.
Inicia-se na poesia com doze anos, sendo que aos quinze já traduzia Victor Hugo, e com dezesseis, Goethe e Schiller. No liceu teve ainda algumas experiências episódicas como ator, e começa a escrever.
Em 1911, com dezenove anos, vai para Coimbra, onde se matricula na Faculdade de Direito, mas não conclui sequer o ano. Em 1912 veio a conhecer aquele que foi, sem dúvida, o seu melhor amigo – Fernando Pessoa.
Desiludido com a «cidade dos estudantes», segue para Paris a fim de prosseguir os estudos superiores, com o auxílio financeiro do pai. Cedo, porém, deixou de frequentar as aulas na Sorbonne, dedicando-se a uma vida boémia, deambulando pelos cafés e salas de espectáculo, chegando a passar fome e debatendo-se com os seus desesperos, situação que culminou na ligação emocional a uma prostituta, a fim de combater as suas frustrações e desesperos.
Na capital francesa viria a conhecer Guilherme de Santa-Rita (Santa-Rita Pintor). Inadaptado socialmente e psicologicamente instável, foi neste ambiente que compôs grande parte da sua obra poética e a correspondência com o seu confidente Pessoa; é, pois, entre 1912 e 1916 (o ano da sua morte), que se inscreve a sua fugaz – e no entanto assaz profícua – carreira literária.
Entre 1913 e 1914 vem a Lisboa com certa regularidade, regressando à capital devido à deflagração do conflito entre a Sérvia e a Áustria-Hungria, o qual a breve trecho se tornou uma conflagração à escala europeia – a I Guerra Mundial. Com Pessoa e ainda Almada-Negreiros integrou o primeiro grupo modernista português (o qual, influenciado pelo cosmopolitismo e pelas vanguardas culturais europeias, pretendia escandalizar a sociedade burguesa e urbana da época), sendo responsável pela edição da revista literária Orpheu (e que por isso mesmo ficou sendo conhecido como a Geração d’Orpheu ou Grupo d’Orpheu), um verdadeiro escândalo literário à época, motivo pelo qual apenas saíram dois números (Março e Junho de 1915; o terceiro, embora impresso, não foi publicado, tendo os seus autores sido alvo da chacota social) – ainda que hoje seja, reconhecidamente, um dos marcos da história da literatura portuguesa, responsável pela agitação do meio cultural português, bem como pela introdução do modernismo em Portugal.
Em Julho de 1915 regressa a Paris, escrevendo a Pessoa cartas de uma crescente angústia, das quais ressalta não apenas a imagem lancinante de um homem perdido no «labirinto de si próprio», mas também a evolução e maturidade do processo de escrita de Sá-Carneiro.
Uma vez que a vida que trazia não lhe agradava, e aquela que idealizava tardava em se concretizar, Sá-Carneiro entrou numa cada vez maior angústia, que viria a conduzi-lo ao seu suicídio prematuro, perpetrado no Hôtel de Nice, no bairro de Montmartre em Paris, com o recurso a cinco frascos de arseniato de estricnina, em 26 de Abril de 1916.
Contava tão-só vinte e cinco anos. Extravagante tanto na morte como em vida (de que o poema Fim é um dos mais belos exemplos), convidou para presenciar a sua agonia o seu amigo José de Araújo. E apesar de o grupo modernista português ter perdido um dos seus mais significativos colaboradores, nem por isso o entusiasmo dos restantes membros esmoreceu – no segundo número da revista Athena, Pessoa dedicou-lhe um belo texto, apelidando-o de «génio não só da arte como da inovação dela», e dizendo dele, retomando um aforismo das Báquides (IV, 7, 18), de Plauto, que «Morre jovem o que os Deuses amam» (tradução literal de Quem di diligunt adulescens moritur).
Verdadeiro insatisfeito e inconformista (nunca se conseguiu entender com a maior parte dos que o rodeavam, nem tão pouco ajustar-se à vida prática, devido às suas dificuldades emocionais), mas também incompreendido (pelo modo com os contemporâneos olhavam o seu jeito poético), profetizou acertadamente que no futuro se faria jus à sua obra, no que não falhou.
Com efeito, reconhecido no seu tempo apenas por uma fina élite, à medida que a sua obra e correspondência foi publicada, ao longo dos anos, tornou-se acessível ao grande público, sendo atualmente considerado um dos maiores expoentes da literatura moderna em língua portuguesa. Embora não tenha a mesma repercussão de Fernando Pessoa, a sua genialidade é tão grande (senão mesmo maior) que a de Pessoa, mas porém muito mais próxima da loucura que a do seu amigo.
A terra que o acolheu na infância – Camarate –, e a quem ele dedicou também algumas das suas poesias, homenageou-o, conferindo o seu nome a uma escola local. O seu poema Fim foi musicado por um grupo português no final dos anos 1980, os Trovante. Mais tarde, o seu poema O Outro foi também musicado pela cantora brasileira Adriana Calcanhotto.
As suas influências literárias são de Edgar Allan Poe, Oscar Wilde, Charles Baudelaire, Stéphane Mallarmé, Fiódor Dostoievski, Cesário Verde e António Nobre. Este escritor influenciou vários escritores, entre eles Eugénio de Andrade.