domingo, 13 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - DADOS ESTATÍSTICOS DE ENQUADRAMENTO


Consumo de Álcool na Europa[1]

O álcool é produzido e bebido na Europa desde há milhares de anos, geralmente feito com quaisquer materiais disponíveis. Em tempos, as bebidas alcoólicas eram usadas frequentemente como remédio, uma prática que foi continuada até ao princípio do século XX. Embora existissem de facto leis sobre o álcool, estas eram normalmente diferenciadas por razões de ordem pública ou para regular o mercado, e não numa perspectiva dos efeitos nocivos que o mesmo causava, quer em termos de saúde, quer sociais. Contudo, este quadro mudou com os desenvolvimentos na Europa medieval e moderna, incluindo a industrialização, melhoramento das linhas de comunicação, e a descoberta de bebidas mais fortes, as destiladas. Grandes movimentos espalharam-se pela Europa durante o século XIX e início do século XX, conduzidos sobretudo, por preocupações relativas ao consumo de bebidas destiladas, espalhando-se posteriormente a todo o tipo de bebidas alcoólicas. No entanto, esses movimentos, foram-se desvanecendo, até uma posição de pouca importância no fim do século vinte.
A Europa desempenha um papel central no mercado global do álcool, produzindo um quarto do álcool mundial, e mais de metade da produção mundial de vinho. Por exemplo, na União Europeia, o comércio é ainda mais centralizado, com 70% de exportações e pouco menos de metade das importações mundiais a envolver a União Europeia. Apesar da maioria deste comércio ser feito entre países da União Europeia, o comércio de álcool contribui com cerca de 9 biliões de euros para a balança comercial da UE como um todo.
O contrabando de álcool na Europa é enorme, tendo a European High Group on Fraud apresentado uma estimativa de 1,5 biliões de euros perdidos com a fraude do álcool durante 1996, e só nos 15 países da União Europeia. Em vários países, pelo menos um em cada seis turistas regressam das suas viagens ao estrangeiro com bebidas alcoólicas, trazendo consigo uma média de dois litros de álcool puro, por pessoa.
Baseado na revisão de estudos existentes, em 2003, o custo tangível total com o álcool foi estimado em cerca de 125 biliões de euros, só na Europa dos quinze, o equivalente a 1,3% do PIB. Quanto aos custos intangíveis, estes atingiram uma estimativa em cerca de 270 biliões de euros e mostram o valor que as pessoas atribuem à dor, sofrimento e perda de vidas que ocorre devido aos danos de origem criminosa, sociais, e de saúde pública causados pelo álcool. Recorrendo a outras maneiras de valorizar os mesmos danos, chega-se a estimativas que variam entre os 150 e 760 biliões de euros. Embora estas estimativas considerem um número de outras várias áreas da vida humana onde se regista o impacto do álcool, há várias outras áreas em que nenhuma estimativa foi feita, dado que foi impossível a obtenção de dados.
A União Europeia é a região com maior consumo de álcool do mundo, tendo atingindo em meados dos anos setenta um consumo médio por pessoa, de 15 litros de álcool puro por ano, havendo no entanto um decréscimo nos últimos quarenta anos, para cerca de 11 litros por ano. Embora a maior parte dos europeus bebam álcool, cinquenta e cinco milhões de adultos (15%) abstêm-se; tendo isto e o consumo não registado em conta, o consumo por bebedor chega aos 15 litros por ano.
Metade deste álcool é consumido em forma de cerveja, com o resto dividido entre vinho (34%) e bebidas destiladas (23%). Dentro da Europa dos quinze, as áreas do Norte e do Centro bebem principalmente cerveja, enquanto no Sul da Europa, se beba principalmente vinho. Cerca de 40% das ocasiões de consumo na maior parte da UE15 têm lugar na refeição da tarde/noite, embora na Europa do Sul seja mais provável que se beba ao almoço do que em qualquer outra ocasião.
No que respeita ao bebedor excessivo de álcool, também aqui existem algumas discrepâncias, pois os europeus sulistas declaram menos vezes que se embebedam todos os meses. Este padrão é atenuado quando o “binge-drinking”[2] é, por sua vez investigado, sugerindo a existência de diferenças sistemáticas na vontade das pessoas de declararem que estão intoxicadas, ou declarar a extensão de um “única ocasião”. Os estudos do “binge-drinking” mostram também excepções ao padrão norte-sul, em particular a Suécia que tem uma das mais baixas taxas de “binge-drinking” na UE15. Em resumo, na Europa dos quinze, os adultos declaram ficar bêbados em média 5 vezes por ano, mas fazem “binge-drinking” dezassete vezes por ano; isto é equivalente a 40 milhões dos cidadãos da UE15 que “bebem demasiado” por mês e 100 milhões (1 em cada 3) que fazem “binge-drinking” pelo menos uma vez por mês.
Embora existam muito menos dados disponíveis para a UE10[3], estes sugerem que algum do consumo de vinho, foi substituído por bebidas destiladas, que a frequência de consumo é menor, e que a frequência de “binge-drinking” é maior do que na UE15.
Enquanto 266 milhões de adultos bebem até 20g (mulheres) ou 40g (homens) por dia, mais de 58 milhões de adultos (15%) consomem acima deste nível, com 20 milhões destes (6%) bebendo acima dos 40g (mulheres) ou 60g (homens). Podemos igualmente estimar que 23 milhões de Europeus (5% de Homens e 1% de Mulheres) são dependentes do álcool.
Outro dado interessante, é o facto de muitas mulheres, enquanto grávidas continuarem a beber (25% - 50%) e, algumas continuam a beber a níveis danosos.
Também na Europa dos quinze, quase todos os estudantes de quinze, dezasseis anos (> 90%) beberam álcool em algum momento da sua vida, começando em média aos 12 – 13 anos de idade e, embriagando-se pela primeira vez aos 14 anos. A quantidade média bebida numa única ocasião por jovens de quinze, dezasseis anos é acima das 40g de álcool e, chega mesmo a quase 60g no Sul da Europa. A maior parte dos países mostram uma substancial subida do “binge-drinking” para os rapazes desde 1995 a 2003 e, quase todos os países mostram isto tanto para os rapazes como para as raparigas.
Embora o uso do álcool traga consigo, se bebido moderadamente, um número de prazeres, o risco de uma vasta gama de danos sociais, aumenta se a dose consumida for elevada, isto é, quanto maior o consumo de álcool, maior o risco. Os danos provocados variam, de perturbações sociais tais como ficar acordado durante a noite, até consequências mais sérias, tais como danos conjugais, abuso de crianças, crime, violência e até homicídio. Geralmente quanto maior o nível de consumo de álcool, mais grave é o crime ou o dano.
Além de ser uma droga de dependência, o álcool é a causa de 60 tipos de diferentes doenças e problemas.
O álcool é responsável por colocar um grande peso em vários aspectos da vida humana na Europa, que podem ser vastamente descritos como “danos para a saúde” e “danos sociais”. Sete milhões de adultos afirmam ter estado envolvidos em brigas enquanto bebiam, no último ano (baseados numa revisão de um pequeno número de estudos com custos suportados pelos próprios países) e o custo económico do crime atribuído ao álcool foi estimado em 33 biliões de euros na UE em a 2003. Este custo é dividido entre polícia, tribunais e prisões (15 biliões), despesas com prevenção do crime e seguros administrativos (12 biliões) e danos de propriedade (6 biliões). Os danos de propriedade devido à condução com álcool foram também estimados em 10 biliões, enquanto que o custo intangível dos efeitos físicos e psicológicos do crime foi avaliado entre 9 e 37 biliões de euros (52 biliões para o custo do crime relacionado com o álcool).


[1] Esta alínea foi retirada de um estudo efectuado pelo Institute of Alcohol Studies, Inglaterra, e escrito por Peter Anderson e Bem Baumberg.
[2] Binge-drinking é o termo utilizado para o padrão de consumo para além de um certo número de bebidas numa ocasião, cerca de 5 ou mais bebidas.
[3] UE10, refere-se aos países que entraram agora para a União Europeia, que são os seguintes: Chipre, República Checa, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Malta, Polónia, Eslováquia e Eslovénia.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Poeta é um fingidor


BIOGRAFIA ÁLVARO DE CAMPOS


Pessoa diz, na célebre carta em que relata a origem dos heterónimos, o seguinte: O difícil para mim é escrever a prosa de Reis – ainda inédita – ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea em verso.)"
O assunto da simulação, vasto em Pessoa, encontra em Álvaro de Campos uma encruzilhada. Porque para Pessoa, escrever a Prosa de Campos é "difícil". Porquê? Porque em Campos, encontramos temas sensíveis a Pessoa e que Pessoa deslocaliza, pelo menos emocionalmente, para a caneta do seu heterónimo engenheiro naval. Esses temas são nomeadamente, os relativos à infância, à memória da sua mãe e das viagens para a África do Sul.
Como nasce Campos? Pessoa diz na mesma carta: "E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo individuo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.". Ou seja, Campos surge em oposição a Reis, o que Reis tem de exacto, Campos tem de maleável, o que Reis apresenta de rigoroso, Campos demonstra irracional.
Poeta sensacionalista por excelência, escandaloso e moderno, Campos descreve um mundo em mudança, por efeito retardado (pelo menos em Portugal) da revolução industrial. Mas há, mesmo em Campos, 3 fases distintas (Prado Coelho). A do Opiário (1914); a das grandes Odes (1914-16) e a fase pessoal, que termina com a própria morte de Pessoa (1916-35).
Choca em contraste que o poeta poderoso, à Whitman, que exorta delirante a máquina, que fala do peito as proezas da Energia e do Progresso, surja por vezes tão assumidamente deixado ao tédio, que quase abúlico, fica morto de entusiasmo e capturado pelo niilismo. Prado Coelho diz-nos que "Campos sentiu como Whitman para deixar de sentir como Campos" (in Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa). Tão semelhante se torna a Pessoa, que Pessoa o traz consigo para a vida do dia-a-dia, falando por exemplo dele a Ophélia de Campos, como se pela sua própria voz.
Campos é a parte desligada da realidade emocional de Pessoa. Nele Pessoa escreve mais despreocupado do que se escrevesse em nome próprio, e sente segurança para se deitar ao lamentos de uma vida de sofrimento. Campos é menos sereno, é mais intranquilo, mais solto, energético mesmo quando deitado ao tédio, do que Pessoa – ele mesmo.
A consciência que Caeiro quer não enfrentar, Campos perde-a pelo exagero (Eduardo Lourenço). A noite "materna" invade-o. Porque assombrado pela memória da mãe, da infância perdida, a sua sinceridade acha apenas cansaço, quando ele se vê perto da morte, sem esperança de um regresso impossível à felicidade infantil. A noite é, em sentido literal, a sua própria mãe, que o abandona, mas nunca deixa de o dominar.

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - DADOS ESTATÍSTICOS DE ENQUADRAMENTO


Consumo de Álcool no Mundo

O consumo de álcool cresceu rapidamente desde 1961 a 1981, entre 25% a 243%, especialmente em países como os Estados Unidos, Alemanha, Rússia, Japão, Reino Unido, Espanha, Holanda, Irlanda, Hungria, Bélgica, Dinamarca, Áustria, Canadá e Finlândia. Paradoxalmente a França é um dos raros países onde o consumo de álcool puro após um período de estabilização, tendeu a diminuir, desde 1960 a 1994.
Se verificarmos a tabela abaixo, em 1996 ainda existiam países com taxas de consumo de álcool puro, superior a 10 litros/ano por habitante, valor pelo qual já é considerado um factor de risco, entre os quais se incluía Portugal, com 11,2 litros por habitante.



No quadro que se segue, e recuando mais no tempo, verificamos, com excepção de alguns países cujos índices de consumo de álcool eram muito elevados, que a maioria teve aumentos significativos, sabendo também que o mercado paralelo em alguns deles, evita que os dados sejam precisos, pois seriam, concerteza, ainda mais elevados:

Um outro dado que não queria deixar de salientar, tem a ver com o próximo quadro, onde é visível um aumento considerável do consumo médio de álcool puro, na União Europeia em relação às restantes regiões do Mundo, vejamos:

Entre outros dados, é interessante verificar que os dez principais consumidores mundiais de álcool puro se situam todos na Europa, como mostra o quadro seguinte:  



 

Às Voltas com a Memória: ACÁCIO BARREIROS (n. 24 Mar. 1948; m. 18 Fev. 2004)


Político e governante português, Acácio Manuel de Frias Barreiros nasceu a 24 de Março de 1948, em Cabinda, em Angola, filho de um funcionário da administração colonial e de uma professora primária.
Acácio Barreiros estudou em Nova Lisboa, actualmente chamada Huambo, e depois de se mudar para Portugal frequentou até ao quarto ano o Instituto Superior Técnico de Lisboa. Durante esta época envolveu-se em lutas estudantis e ingressou na UDP (União Democrática Popular), partido da extrema-esquerda. Entretanto, abandonou os estudos e começou a trabalhar como bancário.
Em 1976 foi pela primeira vez eleito deputado à Assembleia da República, onde esteve até 1979, tendo protagonizado emocionados discursos, principalmente contra os ricos e os fascistas.
Em 1979 entrou em ruptura com a UDP e abandonou o partido. Pouco tempo depois, no início da década de 80, associou-se à Nova Esquerda, para logo de seguida ingressar no Partido Socialista (PS). Em 1983, depois de ter sido convidado por Mário Soares para integrar as listas de candidatos a deputados ao Parlamento, voltou à Assembleia da República. Nessa época dedicou-se a causas como a defesa do ambiente e a habitação para jovens. Quatro anos depois, em 1987, saiu do Parlamento.
Em 1989 foi o candidato do PS à Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, mas perdeu as eleições.
Dois anos depois voltou como deputado à Assembleia da República, onde se manteve até morrer em 2004. No entanto, fez alguns interregnos no desempenho das funções de deputado, nomeadamente em 1999 quando foi empossado como secretário de Estado da Defesa do Consumidor do governo socialista liderado por António Guterres. Acácio Barreiros esteve no Governo até este cair em finais de 2001.
Entre 1993 e Janeiro de 2002 foi presidente da Assembleia Municipal de Sintra. Ganhou de novo este posto nas eleições autárquicas de Dezembro 2001, mas uma coligação dos restantes partidos impediu-o de ocupar o cargo.
Morreu a 18 de Fevereiro de 2004, vitimado por um cancro, numa altura em que era vice-presidente da bancada parlamentar do PS.

Livros que merecem ser lidos...


Nos Rastos da Solidão - Deambulações sociológicas

Solidão. Como chegar à realidade deste sentimento, tão esquivo à investigação? Deambulando nos rastos das vivências que lhe dão forma, buscando os seus distintos rostos nos rostos distintos de quem a vive: mendigos que dormem na rua; vagabundos, esquizofrénicos e consumidores compulsivos; bêbados e alcoólicos; viúvos, idosos e moribundos; amantes virtuais; solitários que se projectam em mundos espirituais; gente que se afeiçoa a animais de estimação; imigrantes clandestinos...Saberemos pensar a solidão de forma distinta como a pensamos? Saberemos percebê-la através de outros olhares que não apenas os nossos? Saberemos que essas outras formas de saber nos capacitam a ver a realidade de outra forma? A ler...

Livro editado pela Ambar, em 2006, com 373 páginas, e escrito pelo sociólogo José Machado Pais, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, professor convidado do ISCTE e professor visitante em várias universidades europeias e sul-americanas. É director da Análise Social. De entre os seus livros destacam-se: A Prostituição e a Lisboa Boémia; Artes de amar da burguesia; Culturas juvenis; Sousa Martins e suas memórias sociais; Consciência histórica e identidade; Sociologia da vida quotidiana; Ganchos Tachos e Biscates (Prémio Gulbenkian de Ciência, 2003).


Índice

Introdução: seguindo rastos, fixando rostos

A minha casa é um mundo: os sm-abrigo
Modos de olhar
Percursos de sobrevivência
Retratos
Relacionamentos

As faces ocultas da loucura: o consumismo que nos consome
Atrás da loucura
Nós e eles
No labirinto de um centro comercial
Consumo e identidades

Peregrinando tabernas: fugas de si mesmo
Um sociólogo aos «copos»
Sociabilidades de taberna
Beber para esquecer?

Exilados da vida: a solidão na velhice
Recordações
Sociabilidades
No espelho da vida
O piso dos «fundos»

Afectos virtuais: em busca de conexão
Namoros de principiante
Manipulando impressões
Uma comunidade de afectos?
A idealização do desejo

O desencanto com o mundo: a força do transcendental
José e a sacola da Bíblia
A companhia de Deus
A comunhão religiosa
Kinkas, um «homem das almas»
A memória dos mortos
As celebrações afectivas de cunho individual

Animais de companhia: o vazio da perda
A «alma branca» de Bambino e a «filha» Nikas
Sentimentos de perda
Companhias descartáveis

Em busca de um Oeste: imigrantes do Leste
Enigmatizando o social
Jovens entre o passado, o agora e o futuro
De braço dado com Mihaela e Schutz

Conclusão: desenlaces, solidão, solidariedade

Bibliografia

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O Poeta é um fingidor


BIOGRAFIA DE RICARDO REIS


Nascido (literariamente) em 1897, Ricardo Reis tem de pessoa a sua disciplina mental, que falta por exemplo a Álvaro de Campos.
Segundo muitos dos críticos, Ricardo Reis é aquele, de entre os heterónimos, aquele que se aproxima mais de Pessoa-ele-próprio. Ou seja, aquele em que a forma e o conteúdo dos seus poemas mais se aproxima da verdadeira intenção de Pessoa. Pois se Campos é o modernismo em si mesmo e Caeiro é a ascese, a despersonalização completa, a Reis resta o tudo que é ainda Pessoa em si mesmo.
Reis é analítico, como Pessoa é analítico e como ele, também segue uma herança eminentemente clássica, conservadora, que não está presente nos outros heterónimos. Reis destaca-se da poesia que Pessoa escreve em nome próprio, talvez mais pelo seu poder de síntese. Reis é imbuído de um sentimento religioso, mesmo sendo adepto do paganismo, pois tem um panteão de deuses, que mesmo dentro da natureza, podem aceitar Cristo. É porventura essa também a crença de Pessoa, que se considera um "cristão gnóstico", oposto às igrejas organizadas. Reis é como Pessoa, favorável à monarquia, favorável a uma visão de nobre sobre a vida que nos oprime, no que isso tem de inglês, de indiferente.
Ás Odes de Ricardo Reis, vários críticos têm achado semelhanças nas Odes do poeta clássico Horácio. No que ambas têm de avisos nobres, no que ambas transmitem de uma visão da vida permeada pela calma e pela filosofia prática.
Se bem que é verdade que há semelhanças, Pessoa-Reis não é como Horácio, defensor de vida dentro dos mesmos moldes. Pois que Horácio defende uma visão epicurista da vida, em que se devem degustar os pequenos prazeres do momento e não as promessas eternas do futuro, enquanto Pessoa-Reis defende precisamente a renúncia do amor. Aqui acha-se uma qualidade essencial de Pessoa: a de sempre filtrar as suas influências (como indicou António Quadros). Pois que se ele recebe Horácio, não o copia, mas filtra-o por outros olhos.
Parece-me que, numa análise mais próxima, esta incapacidade de amar, ou a descrença no amor, é uma coisa muito própria de Pessoa, relacionada com a sua infância e também com a sua idade adulta. Ele um homem sempre desiludido com a "traição" da mãe, que, adulto, desconfia do amor de outras mulheres, afastando-se delas, mas sempre desejando o que não pretende alcançar.

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE INTERVENÇÃO


Casa de Saúde do Telhal






A Casa de Saúde do Telhal, foi fundada em 1893 e, pertence à Província Portuguesa da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, dependendo jurídica e administrativamente do Instituto S. João de Deus, instituição particular de solidariedade social.
Não contando exaustivamente a sua história, procurarei fazê-lo de uma forma que permita dar conta dos principais momentos nela vividos.
A Ordem Hospitaleira, espalhada pelo mundo, sofreu um forte abalo, aquando das convulsões políticas do séc. XIX, tendo mesmo chegado a ser extinta na Península Ibérica.
Foi restaurada poucas décadas depois, ainda no mesmo século, tendo sido, então o seu principal obreiro o Padre Bento Menni, já canonizado, a quem são atribuídos actos de verdadeiro heroísmo.
Foi ele que, em 1893, fundou a Casa de Saúde do Telhal, tendo sofrido fortes perseguições e sido alvo de violentas calúnias.
Já que os doentes mentais eram pessoas com fortes carências, Bento Menni, ao comprar a Quinta do Telhal, propôs-se fundar, para eles, uma Casa de Saúde.
A escritura da propriedade, situada a cerca de vinte cinco quilómetros de Lisboa, foi assinada no dia 29 de Junho de 1893, tendo esta sido adquirida à família Van Zeller que, ao saber dos fins a que se destinava, facilitou significativamente o pagamento inicialmente proposto.
O desenvolvimento do Telhal foi lento e desgastante. Muitas vezes foi necessário pedir esmolas para assegurarem a sua manutenção, devido à escassez dos recursos, então existentes.
Os doentes começaram a ser assistidos gratuitamente e só mais tarde foram admitidos alguns pensionistas, tendo a comparticipação destes permitido prestar maior e melhor ajuda.
Aquando da implantação da República, o Telhal, tal como as outras casas religiosas, sofreram um forte abalo, no entanto a prudente actuação do seu fundador e a visita do Dr. Afonso Costa, Ministro da Justiça que, ao encontrar internado e fortemente perturbado um ex–colega da Universidade, se impressionou fortemente, mudando a sua actuação perante a Ordem, contribuindo para a sua continuidade e desenvolvimento, apesar dos condicionalismos ainda impostos.
Entretanto, o Governo que tantos problemas criara, veio mais tarde, solicitar os seus serviços, para que prestassem assistência aos militares vindos da guerra de 1914-18, em que Portugal se viu envolvido, regressados de França mentalmente perturbados, devido aos gases usados pelas forças alemães.
As pensões que o Governo pagava pelos militares internados e algumas economias, permitiram fazer novas construções, nomeadamente o Pavilhão S. José que, para a época, por volta de 1918, tinha instalações modelares, tendo sido considerado o melhor serviço da Europa para pessoas com doença mental.
O número de internados continuava a aumentar e a Casa de Saúde do Telhal foi assumindo o aspecto de uma pequena povoação, com algumas construções, ruas e jardins. Os doentes, já devidamente agrupados de acordo com os seus quadros psicopatológicos, habitavam os edifícios como se vivessem em grandes casas de campo agradáveis e arejadas.
A evolução terapêutica, na Casa de Saúde do Telhal foi, desde cedo, marcada pela preocupação de reabilitar os doentes para a vida social através do trabalho. Desta forma se esbateram muitos acessos de agitação psicomotora, sendo o trabalho industrial e agrícola, um dos meios encontrados mais valiosos.
Mas o Telhal não foi sempre e só uma instituição psiquiátrica. Teve clínica cirúrgica com vinte camas, construída entre 1953 e 1954, e Escola de Enfermagem, criada em 1936. Estas áreas de actuação, pelo prestígio que tiveram, também contribuíram para o notabilizar.
A população assistida em serviços de internamento, vai desde pessoas com doença mental aguda até doentes alcoólicos.
A sua lotação é de 430 camas, e tem consultas externas de várias especialidades, nomeadamente:
ü  Psiquiatria
ü  Alcoologia
ü  Neurologia
ü  Clínica Geral
ü  Medicina Dentária
ü  Oftalmologia
ü  Psicologia e avaliação psicológica
ü  Psicoterapia
ü  Terapia Familiar.
No que respeita à alcoologia, o serviço é assegurado pela Clínica Novo Rumo, que tem como trabalho base a desintoxicação e tratamentos dos indivíduos.
A Clínica Novo Rumo desenvolve um programa de desintoxicação e recuperação de doentes com dependência ou abuso de álcool. Trata-se de um programa estruturado, com duração de 4 semanas, num modelo biopsico-social e espiritual que se pretende integrador e que assume como referência o Programa Minnesota.[1]
A equipe multidisciplinar acolhe e íntegra o doente, assegura os cuidados médicos e de enfermagem, desde a desintoxicação até à alta e dinamiza um programa diversificado de reuniões psicopedagógicas, acompanhamento das famílias, treino de assertividade e de relaxamento, educação física, avaliação e acompanhamento psicoterapêutico.
Na consulta externa é feita a triagem dos doentes, para tratamento em ambulatório ou em internamento, de acordo com critérios precisos, nomeadamente:

·         Fracasso de uma ou várias desintoxicações ambulatórias recentes;
·         Dependência do álcool grave com previsão de sintomas de privação complicados;
·         Psicologia psiquiátrica associada, em particular à depressão e risco de suicídio;
·         Adição medicamentosa;
·         Isolamento social;
·         Inexistência de estrutura familiar de suporte;
·         Ambiente familiar conflituoso;
·         Reconhecimento do doente de que não será capaz de parar o consumo em ambulatório “sozinho”.

São também claros os objectivos do tratamento, designadamente:

·         Ajudar a pessoa a iniciar e a manter, a longo prazo, a abstinência total do álcool;
·         Favorecer a melhoria da qualidade de vida;
·         Reabilitação física, metal, familiar, profissional e social.

Quanto ao perfil dos indivíduos que são internados nesta unidade, e com base num estudo realizado entre Julho de 2003 e Junho de 2004 (360 dias), em 128 doentes, são os seguintes:


 Fonte: Revista Hospitalidade, Ano 70, nº 272, Abril – Junho 2006


Fonte: Revista Hospitalidade, Ano 70, nº 272, Abril – Junho 2006

Fonte: Revista Hospitalidade, Ano 70, nº 272, Abril – Junho 2006


Fonte: Revista Hospitalidade, Ano 70, nº 272, Abril – Junho 2006

Fonte: Revista Hospitalidade, Ano 70, nº 272, Abril – Junho 2006


Este estudo confirma um pouco que a eficácia do programa de tratamento da Clínica Novo Rumo está dentro dos valores encontrados noutros estudos e noutros centros.






[1] Este programa nasceu para o tratamento do alcoolismo, sendo posteriormente aplicado à problemática da droga e estando nos últimos anos a ser usado para o tratamento de todos os comportamentos compulsivos, desviantes e destrutivos. Este programa assenta numa base espiritual forte e uma metodologia própria que permite à pessoa reencontrar-se, assumir e arriscar numa mudança global. Este programa assenta em três características base, 1) Princípios – É humano, holístico e flexível e assenta nas seguintes premissas: Tratar os dependentes químicos com dignidade e respeito, tratar as pessoas na sua totalidade: corpo, mente e espírito; 2) Considera a Adição – Uma doença primária e crónica (tratável, mas não curável), a doença é bio-psico-social e espiritual; 3) Tratamento – Baseia-se nos doze passos de alcoólicos anónimos (AA), exige a abstinência total e vitalícia dos produtos químicos, há um continuo terapêutico (diagnóstico, tratamento, acompanhamento, apoio familiar, etc.), é pragmático na abordagem psicoterapêutica.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Os "Pais" da SOCIOLOGIA: VILFREDO PARETO(n. 15 Jul.1848; m. 19 Ago.1923)


Vilfredo Pareto, nasceu em Paris, a 15 de Julho de 1848, a família de Pareto, era originária da Ligúria, e detinha o título de nobreza desde o início do século XVIII. Seu avô, Giovanni Benedetto Pareto, foi nomeado Barão do Império por Napoleão em 1811. Seu pai, recebeu asilo em Paris devido às suas ideias republicanas e antipiemontesas. Lá se casou com Marie Méténier.
Em 1867 a família de Pareto volta à Itália onde este conclui os estudos secundários clássicos e estudos científicos na Universidade Politécnica de Turim.
Durante o período de 1874 e 1892 vive em Florença, tendo sido engenheiro ferroviário e Director-geral das estradas de ferro italianas. Nesta época também participa da Sociedade Adam Smith em Florença e junto a esta em manifestações contra o socialismo de Estado, o proteccionismo e o militarismo do governo italiano. Era adepto, na época, da democracia e do liberalismo. Em 1882 é candidato ao cargo de deputado sem sucesso.
Em 1889 casa-se com Alessandra Bakunin.
Entre 1892 e 1894 publica estudos sobre os princípios fundamentais da economia pura, entre outros pontos da teoria económica. Em 1892, após contacto com L. Walras, este o indica para tomar seu lugar na cadeira de economia política da Universidade de Lausanne. Em 1893 assumiria o cargo.
Em 1897 executou um estudo sobre a distribuição de renda. Através deste estudo, percebeu-se que a distribuição de riqueza não se dava de maneira uniforme, havendo grande concentração de riqueza (80%) nas mãos de uma pequena parcela da população (20%).
Depois de separar-se de Alessandra Bakunin em 1901, passa a viver com Jeanne Régis em 1902.
A partir de 1907, por motivos de doença passa a reduzir, pouco a pouco, seu trabalho como professor.
Em 1923 Vilfredo Pareto é nomeado Senador do Reino da Itália. Publica então dois artigos nos quais se aproxima do fascismo recomendando aos adeptos desta ideologia uma atitude liberal.
Pareto introduziu o conceito de óptimo de Pareto e ajudou o desenvolvimento da microeconomia com a ideia de curva de indiferença.
A partir de então, tal princípio de análise, conhecida com Lei de Pareto, tem sido estendido a outras áreas e actividades tais como a industrial e a comercial, sendo mais amplamente aplicado a partir da segunda metade do século XX.
Na sociologia, Pareto contribuiu para a elevação desta disciplina ao estatuto de ciência. Sua recusa em atribuir um carácter utilitário à ciência, mas antes apontar para sua busca pela verdade independentemente de sua utilidade, o faz distinguir como objecto da sociologia as acções não-lógicas diferentemente do objecto da economia como sendo as ações lógicas.
A utilidade é o objeto das ações, enquanto que o da ciência é a verdade ao que Pareto se propõe a estudar de forma lógica ações não-lógicas, que, segundo ele, são as mais comuns entre os seres humanos. O homem para Vilfredo Pareto não é um ser racional, mas um ser que raciocina tão-somente. Frequentemente este homem tenta atribuir justificativas pretensamente lógicas para suas ações ilógicas deixando-se levar pelos sentimentos.
A relação entre ciência e acção para Pareto se dá directamente com as ações lógicas, uma vez que estas, ao se definirem pela coincidência entre a relação objectiva e subjectiva entre meios e fins (tal relação é verdadeira tanto objectivamente, constatada pelos fatos, quanto subjectivamente, presente na consciência humana, que conhece os fatos), está pautada pelo conhecimento das regularidades entre uma causa X e um efeito Y. No entanto, a ciência é limitada, ela conhece parte dos fatos e está em constante desenvolvimento, por isso, as ações baseadas nos conhecimentos produzidos por ela serem raras sendo mais frequentes as ações não-lógicas, que não conhecem a verdade dos fatos, mas que são baseadas nas intuições e emoções dos indivíduos e grupos.
Há, mesmo assim, probabilidades de sucesso nestas ações: aqueles que agem motivados por um ideal podem produzir efeitos objectivos na realidade, ainda que no curso de sua ação tenham que modificá-la para adaptá-la às circunstâncias até então desconhecidas.
É preciso, no entanto, ressaltar que a ciência não pode resolver os problemas impostos pela ação. Aquela não pode indicar quais os melhores fins para esta, pode somente indicar os meios mais eficazes para atingi-los uma vez escolhidos. A ciência, portanto, não se propõe a efectuar juízos de valor a respeito das ações individuais ou da organização social, não poderá solucionar seus problemas. Poderá sim criticá-los enquanto não-lógicos, ou seja, pautados numa relação falsa, não objetiva, entre meios e fins.
Vilfredo Pareto morreu com 75 anos, a 19 de Agosto de 1923, em Céligny, na Suiça (existem contudo outras localidades para a morte de Pareto, nomeadamente Genebra e Lausanne), mas este parece o local que reúne maior consenso.


Bibliografia

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  • Xxxx  Le Marché financier italien
  • Xxxx  Écrits sur la courbe de répartition de la richesse
  • 1902  Les systèmes socialistes
  • Xxxx  Mythes et idéologies de la politique
  • 1906  Manuale di politica economica
  • 1911  Le mythe vertuiste et la littérature immorale, Paris, Rivière
  • Xxxx  Marxisme et économie politique
  • 1916  Trattato di sociologia Generale
  • 1920  Fatti e teorie, Florence, Vallechi
  • 1921  Transformazioni della democrazia Milão, Corbaccio