quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Livros que merecem ser lidos...


Nos Rastos da Solidão - Deambulações sociológicas

Solidão. Como chegar à realidade deste sentimento, tão esquivo à investigação? Deambulando nos rastos das vivências que lhe dão forma, buscando os seus distintos rostos nos rostos distintos de quem a vive: mendigos que dormem na rua; vagabundos, esquizofrénicos e consumidores compulsivos; bêbados e alcoólicos; viúvos, idosos e moribundos; amantes virtuais; solitários que se projectam em mundos espirituais; gente que se afeiçoa a animais de estimação; imigrantes clandestinos...Saberemos pensar a solidão de forma distinta como a pensamos? Saberemos percebê-la através de outros olhares que não apenas os nossos? Saberemos que essas outras formas de saber nos capacitam a ver a realidade de outra forma? A ler...

Livro editado pela Ambar, em 2006, com 373 páginas, e escrito pelo sociólogo José Machado Pais, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, professor convidado do ISCTE e professor visitante em várias universidades europeias e sul-americanas. É director da Análise Social. De entre os seus livros destacam-se: A Prostituição e a Lisboa Boémia; Artes de amar da burguesia; Culturas juvenis; Sousa Martins e suas memórias sociais; Consciência histórica e identidade; Sociologia da vida quotidiana; Ganchos Tachos e Biscates (Prémio Gulbenkian de Ciência, 2003).


Índice

Introdução: seguindo rastos, fixando rostos

A minha casa é um mundo: os sm-abrigo
Modos de olhar
Percursos de sobrevivência
Retratos
Relacionamentos

As faces ocultas da loucura: o consumismo que nos consome
Atrás da loucura
Nós e eles
No labirinto de um centro comercial
Consumo e identidades

Peregrinando tabernas: fugas de si mesmo
Um sociólogo aos «copos»
Sociabilidades de taberna
Beber para esquecer?

Exilados da vida: a solidão na velhice
Recordações
Sociabilidades
No espelho da vida
O piso dos «fundos»

Afectos virtuais: em busca de conexão
Namoros de principiante
Manipulando impressões
Uma comunidade de afectos?
A idealização do desejo

O desencanto com o mundo: a força do transcendental
José e a sacola da Bíblia
A companhia de Deus
A comunhão religiosa
Kinkas, um «homem das almas»
A memória dos mortos
As celebrações afectivas de cunho individual

Animais de companhia: o vazio da perda
A «alma branca» de Bambino e a «filha» Nikas
Sentimentos de perda
Companhias descartáveis

Em busca de um Oeste: imigrantes do Leste
Enigmatizando o social
Jovens entre o passado, o agora e o futuro
De braço dado com Mihaela e Schutz

Conclusão: desenlaces, solidão, solidariedade

Bibliografia

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O Poeta é um fingidor


BIOGRAFIA DE RICARDO REIS


Nascido (literariamente) em 1897, Ricardo Reis tem de pessoa a sua disciplina mental, que falta por exemplo a Álvaro de Campos.
Segundo muitos dos críticos, Ricardo Reis é aquele, de entre os heterónimos, aquele que se aproxima mais de Pessoa-ele-próprio. Ou seja, aquele em que a forma e o conteúdo dos seus poemas mais se aproxima da verdadeira intenção de Pessoa. Pois se Campos é o modernismo em si mesmo e Caeiro é a ascese, a despersonalização completa, a Reis resta o tudo que é ainda Pessoa em si mesmo.
Reis é analítico, como Pessoa é analítico e como ele, também segue uma herança eminentemente clássica, conservadora, que não está presente nos outros heterónimos. Reis destaca-se da poesia que Pessoa escreve em nome próprio, talvez mais pelo seu poder de síntese. Reis é imbuído de um sentimento religioso, mesmo sendo adepto do paganismo, pois tem um panteão de deuses, que mesmo dentro da natureza, podem aceitar Cristo. É porventura essa também a crença de Pessoa, que se considera um "cristão gnóstico", oposto às igrejas organizadas. Reis é como Pessoa, favorável à monarquia, favorável a uma visão de nobre sobre a vida que nos oprime, no que isso tem de inglês, de indiferente.
Ás Odes de Ricardo Reis, vários críticos têm achado semelhanças nas Odes do poeta clássico Horácio. No que ambas têm de avisos nobres, no que ambas transmitem de uma visão da vida permeada pela calma e pela filosofia prática.
Se bem que é verdade que há semelhanças, Pessoa-Reis não é como Horácio, defensor de vida dentro dos mesmos moldes. Pois que Horácio defende uma visão epicurista da vida, em que se devem degustar os pequenos prazeres do momento e não as promessas eternas do futuro, enquanto Pessoa-Reis defende precisamente a renúncia do amor. Aqui acha-se uma qualidade essencial de Pessoa: a de sempre filtrar as suas influências (como indicou António Quadros). Pois que se ele recebe Horácio, não o copia, mas filtra-o por outros olhos.
Parece-me que, numa análise mais próxima, esta incapacidade de amar, ou a descrença no amor, é uma coisa muito própria de Pessoa, relacionada com a sua infância e também com a sua idade adulta. Ele um homem sempre desiludido com a "traição" da mãe, que, adulto, desconfia do amor de outras mulheres, afastando-se delas, mas sempre desejando o que não pretende alcançar.

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE INTERVENÇÃO


Casa de Saúde do Telhal






A Casa de Saúde do Telhal, foi fundada em 1893 e, pertence à Província Portuguesa da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, dependendo jurídica e administrativamente do Instituto S. João de Deus, instituição particular de solidariedade social.
Não contando exaustivamente a sua história, procurarei fazê-lo de uma forma que permita dar conta dos principais momentos nela vividos.
A Ordem Hospitaleira, espalhada pelo mundo, sofreu um forte abalo, aquando das convulsões políticas do séc. XIX, tendo mesmo chegado a ser extinta na Península Ibérica.
Foi restaurada poucas décadas depois, ainda no mesmo século, tendo sido, então o seu principal obreiro o Padre Bento Menni, já canonizado, a quem são atribuídos actos de verdadeiro heroísmo.
Foi ele que, em 1893, fundou a Casa de Saúde do Telhal, tendo sofrido fortes perseguições e sido alvo de violentas calúnias.
Já que os doentes mentais eram pessoas com fortes carências, Bento Menni, ao comprar a Quinta do Telhal, propôs-se fundar, para eles, uma Casa de Saúde.
A escritura da propriedade, situada a cerca de vinte cinco quilómetros de Lisboa, foi assinada no dia 29 de Junho de 1893, tendo esta sido adquirida à família Van Zeller que, ao saber dos fins a que se destinava, facilitou significativamente o pagamento inicialmente proposto.
O desenvolvimento do Telhal foi lento e desgastante. Muitas vezes foi necessário pedir esmolas para assegurarem a sua manutenção, devido à escassez dos recursos, então existentes.
Os doentes começaram a ser assistidos gratuitamente e só mais tarde foram admitidos alguns pensionistas, tendo a comparticipação destes permitido prestar maior e melhor ajuda.
Aquando da implantação da República, o Telhal, tal como as outras casas religiosas, sofreram um forte abalo, no entanto a prudente actuação do seu fundador e a visita do Dr. Afonso Costa, Ministro da Justiça que, ao encontrar internado e fortemente perturbado um ex–colega da Universidade, se impressionou fortemente, mudando a sua actuação perante a Ordem, contribuindo para a sua continuidade e desenvolvimento, apesar dos condicionalismos ainda impostos.
Entretanto, o Governo que tantos problemas criara, veio mais tarde, solicitar os seus serviços, para que prestassem assistência aos militares vindos da guerra de 1914-18, em que Portugal se viu envolvido, regressados de França mentalmente perturbados, devido aos gases usados pelas forças alemães.
As pensões que o Governo pagava pelos militares internados e algumas economias, permitiram fazer novas construções, nomeadamente o Pavilhão S. José que, para a época, por volta de 1918, tinha instalações modelares, tendo sido considerado o melhor serviço da Europa para pessoas com doença mental.
O número de internados continuava a aumentar e a Casa de Saúde do Telhal foi assumindo o aspecto de uma pequena povoação, com algumas construções, ruas e jardins. Os doentes, já devidamente agrupados de acordo com os seus quadros psicopatológicos, habitavam os edifícios como se vivessem em grandes casas de campo agradáveis e arejadas.
A evolução terapêutica, na Casa de Saúde do Telhal foi, desde cedo, marcada pela preocupação de reabilitar os doentes para a vida social através do trabalho. Desta forma se esbateram muitos acessos de agitação psicomotora, sendo o trabalho industrial e agrícola, um dos meios encontrados mais valiosos.
Mas o Telhal não foi sempre e só uma instituição psiquiátrica. Teve clínica cirúrgica com vinte camas, construída entre 1953 e 1954, e Escola de Enfermagem, criada em 1936. Estas áreas de actuação, pelo prestígio que tiveram, também contribuíram para o notabilizar.
A população assistida em serviços de internamento, vai desde pessoas com doença mental aguda até doentes alcoólicos.
A sua lotação é de 430 camas, e tem consultas externas de várias especialidades, nomeadamente:
ü  Psiquiatria
ü  Alcoologia
ü  Neurologia
ü  Clínica Geral
ü  Medicina Dentária
ü  Oftalmologia
ü  Psicologia e avaliação psicológica
ü  Psicoterapia
ü  Terapia Familiar.
No que respeita à alcoologia, o serviço é assegurado pela Clínica Novo Rumo, que tem como trabalho base a desintoxicação e tratamentos dos indivíduos.
A Clínica Novo Rumo desenvolve um programa de desintoxicação e recuperação de doentes com dependência ou abuso de álcool. Trata-se de um programa estruturado, com duração de 4 semanas, num modelo biopsico-social e espiritual que se pretende integrador e que assume como referência o Programa Minnesota.[1]
A equipe multidisciplinar acolhe e íntegra o doente, assegura os cuidados médicos e de enfermagem, desde a desintoxicação até à alta e dinamiza um programa diversificado de reuniões psicopedagógicas, acompanhamento das famílias, treino de assertividade e de relaxamento, educação física, avaliação e acompanhamento psicoterapêutico.
Na consulta externa é feita a triagem dos doentes, para tratamento em ambulatório ou em internamento, de acordo com critérios precisos, nomeadamente:

·         Fracasso de uma ou várias desintoxicações ambulatórias recentes;
·         Dependência do álcool grave com previsão de sintomas de privação complicados;
·         Psicologia psiquiátrica associada, em particular à depressão e risco de suicídio;
·         Adição medicamentosa;
·         Isolamento social;
·         Inexistência de estrutura familiar de suporte;
·         Ambiente familiar conflituoso;
·         Reconhecimento do doente de que não será capaz de parar o consumo em ambulatório “sozinho”.

São também claros os objectivos do tratamento, designadamente:

·         Ajudar a pessoa a iniciar e a manter, a longo prazo, a abstinência total do álcool;
·         Favorecer a melhoria da qualidade de vida;
·         Reabilitação física, metal, familiar, profissional e social.

Quanto ao perfil dos indivíduos que são internados nesta unidade, e com base num estudo realizado entre Julho de 2003 e Junho de 2004 (360 dias), em 128 doentes, são os seguintes:


 Fonte: Revista Hospitalidade, Ano 70, nº 272, Abril – Junho 2006


Fonte: Revista Hospitalidade, Ano 70, nº 272, Abril – Junho 2006

Fonte: Revista Hospitalidade, Ano 70, nº 272, Abril – Junho 2006


Fonte: Revista Hospitalidade, Ano 70, nº 272, Abril – Junho 2006

Fonte: Revista Hospitalidade, Ano 70, nº 272, Abril – Junho 2006


Este estudo confirma um pouco que a eficácia do programa de tratamento da Clínica Novo Rumo está dentro dos valores encontrados noutros estudos e noutros centros.






[1] Este programa nasceu para o tratamento do alcoolismo, sendo posteriormente aplicado à problemática da droga e estando nos últimos anos a ser usado para o tratamento de todos os comportamentos compulsivos, desviantes e destrutivos. Este programa assenta numa base espiritual forte e uma metodologia própria que permite à pessoa reencontrar-se, assumir e arriscar numa mudança global. Este programa assenta em três características base, 1) Princípios – É humano, holístico e flexível e assenta nas seguintes premissas: Tratar os dependentes químicos com dignidade e respeito, tratar as pessoas na sua totalidade: corpo, mente e espírito; 2) Considera a Adição – Uma doença primária e crónica (tratável, mas não curável), a doença é bio-psico-social e espiritual; 3) Tratamento – Baseia-se nos doze passos de alcoólicos anónimos (AA), exige a abstinência total e vitalícia dos produtos químicos, há um continuo terapêutico (diagnóstico, tratamento, acompanhamento, apoio familiar, etc.), é pragmático na abordagem psicoterapêutica.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Os "Pais" da SOCIOLOGIA: VILFREDO PARETO(n. 15 Jul.1848; m. 19 Ago.1923)


Vilfredo Pareto, nasceu em Paris, a 15 de Julho de 1848, a família de Pareto, era originária da Ligúria, e detinha o título de nobreza desde o início do século XVIII. Seu avô, Giovanni Benedetto Pareto, foi nomeado Barão do Império por Napoleão em 1811. Seu pai, recebeu asilo em Paris devido às suas ideias republicanas e antipiemontesas. Lá se casou com Marie Méténier.
Em 1867 a família de Pareto volta à Itália onde este conclui os estudos secundários clássicos e estudos científicos na Universidade Politécnica de Turim.
Durante o período de 1874 e 1892 vive em Florença, tendo sido engenheiro ferroviário e Director-geral das estradas de ferro italianas. Nesta época também participa da Sociedade Adam Smith em Florença e junto a esta em manifestações contra o socialismo de Estado, o proteccionismo e o militarismo do governo italiano. Era adepto, na época, da democracia e do liberalismo. Em 1882 é candidato ao cargo de deputado sem sucesso.
Em 1889 casa-se com Alessandra Bakunin.
Entre 1892 e 1894 publica estudos sobre os princípios fundamentais da economia pura, entre outros pontos da teoria económica. Em 1892, após contacto com L. Walras, este o indica para tomar seu lugar na cadeira de economia política da Universidade de Lausanne. Em 1893 assumiria o cargo.
Em 1897 executou um estudo sobre a distribuição de renda. Através deste estudo, percebeu-se que a distribuição de riqueza não se dava de maneira uniforme, havendo grande concentração de riqueza (80%) nas mãos de uma pequena parcela da população (20%).
Depois de separar-se de Alessandra Bakunin em 1901, passa a viver com Jeanne Régis em 1902.
A partir de 1907, por motivos de doença passa a reduzir, pouco a pouco, seu trabalho como professor.
Em 1923 Vilfredo Pareto é nomeado Senador do Reino da Itália. Publica então dois artigos nos quais se aproxima do fascismo recomendando aos adeptos desta ideologia uma atitude liberal.
Pareto introduziu o conceito de óptimo de Pareto e ajudou o desenvolvimento da microeconomia com a ideia de curva de indiferença.
A partir de então, tal princípio de análise, conhecida com Lei de Pareto, tem sido estendido a outras áreas e actividades tais como a industrial e a comercial, sendo mais amplamente aplicado a partir da segunda metade do século XX.
Na sociologia, Pareto contribuiu para a elevação desta disciplina ao estatuto de ciência. Sua recusa em atribuir um carácter utilitário à ciência, mas antes apontar para sua busca pela verdade independentemente de sua utilidade, o faz distinguir como objecto da sociologia as acções não-lógicas diferentemente do objecto da economia como sendo as ações lógicas.
A utilidade é o objeto das ações, enquanto que o da ciência é a verdade ao que Pareto se propõe a estudar de forma lógica ações não-lógicas, que, segundo ele, são as mais comuns entre os seres humanos. O homem para Vilfredo Pareto não é um ser racional, mas um ser que raciocina tão-somente. Frequentemente este homem tenta atribuir justificativas pretensamente lógicas para suas ações ilógicas deixando-se levar pelos sentimentos.
A relação entre ciência e acção para Pareto se dá directamente com as ações lógicas, uma vez que estas, ao se definirem pela coincidência entre a relação objectiva e subjectiva entre meios e fins (tal relação é verdadeira tanto objectivamente, constatada pelos fatos, quanto subjectivamente, presente na consciência humana, que conhece os fatos), está pautada pelo conhecimento das regularidades entre uma causa X e um efeito Y. No entanto, a ciência é limitada, ela conhece parte dos fatos e está em constante desenvolvimento, por isso, as ações baseadas nos conhecimentos produzidos por ela serem raras sendo mais frequentes as ações não-lógicas, que não conhecem a verdade dos fatos, mas que são baseadas nas intuições e emoções dos indivíduos e grupos.
Há, mesmo assim, probabilidades de sucesso nestas ações: aqueles que agem motivados por um ideal podem produzir efeitos objectivos na realidade, ainda que no curso de sua ação tenham que modificá-la para adaptá-la às circunstâncias até então desconhecidas.
É preciso, no entanto, ressaltar que a ciência não pode resolver os problemas impostos pela ação. Aquela não pode indicar quais os melhores fins para esta, pode somente indicar os meios mais eficazes para atingi-los uma vez escolhidos. A ciência, portanto, não se propõe a efectuar juízos de valor a respeito das ações individuais ou da organização social, não poderá solucionar seus problemas. Poderá sim criticá-los enquanto não-lógicos, ou seja, pautados numa relação falsa, não objetiva, entre meios e fins.
Vilfredo Pareto morreu com 75 anos, a 19 de Agosto de 1923, em Céligny, na Suiça (existem contudo outras localidades para a morte de Pareto, nomeadamente Genebra e Lausanne), mas este parece o local que reúne maior consenso.


Bibliografia

  • 1897 Cours d'économie politique
  • Xxxx  Le Marché financier italien
  • Xxxx  Écrits sur la courbe de répartition de la richesse
  • 1902  Les systèmes socialistes
  • Xxxx  Mythes et idéologies de la politique
  • 1906  Manuale di politica economica
  • 1911  Le mythe vertuiste et la littérature immorale, Paris, Rivière
  • Xxxx  Marxisme et économie politique
  • 1916  Trattato di sociologia Generale
  • 1920  Fatti e teorie, Florence, Vallechi
  • 1921  Transformazioni della democrazia Milão, Corbaccio

Às Voltas com a Memória: FERNANDO PESSOA (n. 13 Jun. 1888; m. 30 Nov. 1935)


Fernando Pessoa, um dos expoentes máximos do modernismo no século XX, considerava-se a si mesmo um «nacionalista místico».
Nasceu Fernando António Nogueira Pessoa em Lisboa, no dia 13 de Junho de 1888, filho de Maria Madalena Pinheiro Nogueira e de Joaquim de Seabra Pessoa.
A juventude é passada em Lisboa, alegremente, até à morte do pai em 1893 e do irmão Jorge no ano seguinte. Estes acontecimentos, em conjunto com o facto de sua mãe ter conhecido o cônsul de Portugal em Durban, levam-no a viajar para a África do Sul. Aí vive entre 1896 e 1905. À vivência nesse país da Commonwealth pode atribuir-se uma influência decisiva ao nível cultural e intelectual, pondo-o em contacto com os grandes autores de língua inglesa.
O Regresso a Portugal, com 17 anos, é feito com o intuito de frequentar o curso de Letras. Viveu primeiro com uma tia, na rua de S. Bento e depois com a avó paterna, na Rua da Bela Vista à Lapa. Mas com o fracasso do curso (frequentou-o poucos meses), governa-se apenas com o seu grande conhecimento da língua inglesa, trabalhando com diversos escritórios em Lisboa em assuntos de correspondência comercial.
Ficou sobretudo conhecido como grande prosador do modernismo (ou futurismo) em Portugal. Expressando-se tanto com o seu próprio nome, como através dos seus heterónimos. Entre estes ficaram famosos três: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Sendo que as suas participações literárias se espalhavam por inúmeras publicações, das quais se destacam: Athena, Presença, Orpheu, Centauro, Portugal Futurista, Contemporânea, Exílio, A Águia, Gládio. Estas colaborações eram tanto em prosa como em verso.
Teve uma paixão confessa – Ophélia Queirós – com a qual manteve uma relação muitas das vezes distante, se bem que intensa. Mas foi talvez Ophélia a única a conhecer-lhe o lado menos introspectivo e melancólico.
O seu percurso intelectual dificilmente se descreve em poucas linhas. É sobretudo o relato de uma grande viagem de descoberta, à procura de algo divino mas sempre desconhecido. Essa procura efectuou-a Pessoa com recurso a todas as armas - metafísicas, religiosas, racionalistas - mas sem ter chegado a uma conclusão definitiva, enfim exclamando que todos os caminhos são verdadeiros e que o que é preciso é navegar (no mundo das ideias).
Os últimos anos são vividos em angústia. Os seus projectos intelectuais não se realizam plenamente, nem sequer parcialmente. Talvez os seus objectivos fossem à partida demasiado elevados... Certo é que esta falta de resultados concretos o deita a um desespero cada vez mais profundo. Foi um profeta que esperava a realização da sua profecia, mas que morreu sem ver sequer o princípio da sua realização.
Fernando Pessoa morre a 30 de Novembro de 1935, de uma grave crise hepática induzida por anos de consumo de álcool, no hospital de S. Luís. Uma pequena procissão funerária levou o corpo a enterrar no Cemitério dos Prazeres. Em 1985, por ocasião do cinquentenário da sua morte, os seus restos mortais foram transladados para o Mosteiro dos Jerónimos em Belém. Em vida apenas publicou um livro em Português: o poema épico Mensagem, deixando um vasto espólio que ainda hoje não foi completamente analisado e publicado.

NOTA: Esta é uma breve biografia do grande poeta, porque irei desenvolver uma biografia mais profunda e ampla no espaço "O POETA É UM FINGIDOR", nomeadamente em relação também aos seus heterónimos e a toda a sua vida e obra.

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE INTERVENÇÃO


 Hospital Miguel Bombarda



Em 1983, surge no Hospital Miguel Bombarda, o Gabinete de Estudos, Prevenção, Tratamento e Recuperação de Alcoólicos (GEPTRA). Em 1992 é criada a Unidade de Tratamento e Reabilitação de Alcoólicos (UTRA), que visa dar resposta ao número cada vez maior de indivíduos que se dirigiam a essa instituição, devido a problemas relacionados com o consumo de álcool.
Esta unidade (UTRA), é um serviço de internamento com lotação de 36 camas, sendo 24 destinadas a receber indivíduos com esta problemática (18 camas para homens e 6 para mulheres), as restantes (12 camas), poderão em qualquer altura servir de apoio a doentes do foro psiquiátrico dos restantes serviços do H.M.Bombarda. O espaço físico é constituído por 13 quartos, uma sala de TV e Vídeo, uma sala de reuniões, um gabinete médico, de psicologia e de gestão, sala de enfermagem, refeitório, copa, duas casas de banho e uma sala de convívio para fumadores.
Esta unidade tem uma equipa multidisciplinar constituída por enfermeiros, médicos, psicólogos, assistente social, técnica de movimento, psicopedagogo e auxiliares de acção médica.
O grande objectivo desta unidade é, a reabilitação e reintegração de pessoas com problemas de álcool, a partir de um plano de internamento que tem uma duração prevista de 4 semanas.
O seu plano de actividades, é constituído por 4 vertentes, a saber:

ACTIVIDADES TERAPÊUTICAS

§  Acolhimento Individualizado,
§  Desintoxicação alcoólica com duração de quatro semanas,
§  Reuniões de Grupo com Enfermeiros, Psicólogos e Assistente Social,
§  Acompanhamento médico, de enfermagem e psicologia individualizados,
§  Planeamento da alta desde o primeiro dia de internamento com vista à reinserção na comunidade,
§  Acompanhamento pós alta em consulta médica,
§  Acompanhamento pós alta em grupo,
§  Acompanhamento Psicológico individualizado no pós alta.

GRUPO PSICOEDUCATIVO / AJUDA MÚTUA

§  Fornecer informação sobre a doença alcoólica, implicações físicas, psicológicas, familiares e sociais. Como lidar com as recaídas e com o doente após alta. (destina-se essencialmente aos familiares e amigos dos doentes internados)

APOIO À FAMÍLIA

§  Fornecer informação sobre o familiar, funcionamento do serviço e esclarecimento de dúvidas.

INFORMAÇÃO MÉDICA E PSICOLÓGICA

§  Mediante marcação prévia, é fornecido apoio, informação e esclarecimentos aos familiares dos doentes. Para benefício desta assistência basta contactar os enfermeiros.

Em 2004, o UTRA manteve a colaboração com a Associação “Crescer na Maior”, organismo de solidariedade da Câmara Municipal de Lisboa, com quem estabeleceu um protocolo para apoio a indivíduos sem abrigo com problemas de álcool.
Manteve a colaboração com os Alcoólicos Anónimos (AA), que continuaram a realizar reuniões semanais, com a perspectiva de vir a ser alargada aos doentes alcoólicos internados noutras enfermarias e à comunidade.
Desenvolveu uma parceria com o Serviço de Atendimento à Família e Indivíduo (SAFI), da Faculdade de Psicologia da Universidade Clássica de Lisboa, para acompanhamento de famílias em Terapia Familiar Sistémica no Pós – Alta.
Iniciou os primeiros contactos para a organização das 4ªs. Jornadas de Alcoologia do Hospital Miguel Bombarda, a realizar durante os dias 23, 24 e 25 de Junho de 2005, subordinado ao tema “Álcool e Comorbilidade”.
A equipa de enfermagem orientou, acompanhou e avaliou alunos de enfermagem durante o seu Ensino Clínico na UTRA, das seguintes escolas:

·         Escola Superior de Enfermagem Cruz Vermelha Portuguesa (4 estudantes),
·         Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende (6 estudantes),
·         Escola Superior de Enfermagem de São Vicente de Paulo (3 estudantes em visita de observação),
·         Escola do Serviço de Saúde Militar (3 estudantes).

A equipa de psicólogos orientou estágios escolares e profissionais, com a colaboração do Serviço de Psicologia, das seguintes instituições:

·         Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologia (2 estagiários)
·         Instituto de Emprego e Formação Profissional (1 estagiário).

Foi feita a caracterização da população internada na UTRA, durante 2003/2004 e foi feito um estudo sobre a Avaliação da Qualidade do Atendimento, com o objectivo de medir o grau de satisfação do utente em relação aos serviços prestados pela equipa e às condições do próprio espaço físico.
Finalmente, iniciou-se, em colaboração com o Laboratório Bio Portugal, a utilização da substância “Cerebrolysine” em doentes alcoólicos com disfunções cognitivas. Este estudo encontra-se a aguardar um parecer da Comissão de Ética do HMB.
Em 2004 e, em virtude de obras de remodelação do espaço físico do serviço de alcoologia, foi reduzida temporariamente a lotação do serviço, de 36 para 30 e depois para 27 vagas de internamentos.
No entanto, e apesar destas restrições, verificou-se um aumento do número total de doentes internados, em relação ao ano anterior, de 176 para 186.
Destes 186 internamentos, 162 foram de doentes com a patologia alcoólica, sendo as restantes 24 admissões de doentes de outras enfermarias.
Na tabela seguinte pode-se observar a distribuição de doentes alcoólicos pelo número de internamentos / readmissões em 2004:

Fonte: Relatório de Actividades 2004, Unidade de Tratamento e Reabilitação Alcoólica - HMB

Durante o ano de 2004, realizaram-se também 58 sessões, das 90 planeadas de reuniões pedagógicas para doentes com múltiplos internamentos, com uma média de 9 doentes por sessão, o que totalizou 508 doentes. Estas reuniões consistem em 8 sessões com uma duração de 60 minutos, e são realizadas bissemanalmente, durante as quatro semanas de internamento.
Realizaram-se também 64 reuniões de apoio às famílias, sendo que 14 reuniões familiares e 50 entrevistas familiares. A finalidade destas reuniões é a de corresponder às necessidades e expectativas das famílias em relação à recuperação do seu familiar.
Quanto a reuniões comunitárias, foram realizadas 17, das 20 previstas, com uma média de 9,94 utentes por sessão num total de 169 utentes. Estas sessões foram distribuídas da seguinte forma:

Fonte: Relatório de Actividades 2004, Unidade de Tratamento e Reabilitação Alcoólica – HMB


Foram também realizadas algumas actividades de promoção de estilos de vida saudáveis, destacando-se 10 actividades no exterior, nomeadamente, visita ao zoo, oceanário, encontro sócio - cultural dos centro de saúde mental e psiquiatria do patriarcado de Lisboa, cruzeiro no Rio Tejo, duas idas ao teatro, santuário de Fátima, corrida de solidariedade pela saúde mental, iluminação de natal da cidade de Lisboa, e circo cardinalli, num total de 88 indivíduos.
Foram também realizadas 120 entrevistas psicológicas, que consiste no preenchimento de uma ficha de acolhimento e recolha de dados, sendo realizadas também 255 acompanhamentos psicológicos, cuja finalidade é a identificação, conjuntamente com o indivíduo, das necessidades e benefícios da abstinência e também para evitar o aparecimento de dificuldades que terminem no recurso ao álcool.
Realizaram-se 146 reuniões de grupo, num total de 592 indivíduos e cujo objectivo é a promoção da motivação para a abstinência, a prevenção de recaídas e o treino de competências sociais, recorrendo-se a diversas técnicas, tais como: matriz de decisão, rolle-playing, modelagem social, análise de cadeia comportamental, registo de auto – monitorização e psicodrama de resultado.
Efectuaram-se 37 reuniões de pós-alta, envolvendo um total de 81 utentes e numa média de 2,2 indivíduos por sessão, e 5 sessões de grupo de prevenção de recaídas.
No que respeita à ajuda mútua para familiares, realizaram-se 27 reuniões, das 40 planeadas, com uma média de 2,7 famílias por sessão, num total de 75 famílias / pessoas, sendo 21 esposas, 16 mães, 11 pais, 12 filhos e 15 outros familiares.
Em relação às consultas médicas, foram efectuadas 945 consultas, durante o ano de 2004, sendo 98 consultas de triagem, num total de 412 doentes.
Quanto a consultas psicológicas, efectuaram-se 905 psicoterapias, num total de 85 utentes, com uma média de 10,65 doentes por consulta.
Em resumo realizaram-se durante 2004 um total de 1850 consultas, distribuídas assim:
Fonte: Relatório de Actividades 2004, Unidade de Tratamento e Reabilitação Alcoólica – HMB


Em resumo, o Plano de Actividades da Unidade de Tratamento e Reabilitação
de Alcoólicos:

Este quadro mostra-nos o Plano de Actividades semanal que a instituição realiza aos doentes internados, passa por diversas acções, que vai desde a sua higiene e arrumação da unidade (Auto-cuidado), a reuniões nos Alcoólicos Anónimos (AA), terapêutica de grupo e reuniões comunitárias.
Todos os doentes internados nesta unidade de alcoologia têm que cumprir estas regras, que pertencem ao próprio regulamento interno da unidade de alcoologia.