quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ESTUDO DE CASO: PERCURSOS E REPRESENTAÇÕES DE CONSUMIDORES EXCESSIVOS DE ÁLCOOL


Análise dos Dados

Realizadas que foram nove entrevistas, distribuídas pelas três instituições que constituíram a área de intervenção, CRAS - Centro Regional de Alcoologia do Sul, Hospital Miguel Bombarda e Casa de Saúde do Telhal, há que analisar toda a informação recolhida, para dela retirarmos algumas conclusões que nos ajudarão a identificar, compreender e descrever o percurso de vida que leva os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool, objectivo central desta dissertação.
O objectivo deste estudo, projecta-se numa questão central, que constituiu o ponto de partida de todo o trabalho de investigação: Quais os principais motivos que levam os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool? Para que a resposta a esta questão central fosse integradora de toda a pesquisa, optou-se por constituir um conjunto de questões derivadas, desmultiplicando a questão inicial, e dando um fio condutor aos entrevistados, de forma a obterem-se os melhores resultados, sabendo de antemão que muitas vezes o discurso apresentado por estes indivíduos,  devido à própria situação, é de difícil diálogo.
Pretendeu-se assim, que a partir do objectivo do estudo, e da sua problemática, se obtivesse uma Hipótese Principal (O consumo excessivo de álcool é o resultado das dificuldades que o indivíduo se vê confrontado no seu dia a dia e nas relações estabelecidas ao nível de grupos, organizações e círculos de amigos) e algumas outras secundárias, que serão agora analisadas pelo conjunto das entrevistas realizadas no presente trabalho.
Tratando-se, como opção que foi, de entrevistas semi-directivas, cujo objectivo era estruturar, limitar e evitar grandes divagações, o que é facto é que neste tipo de entrevistas e entrevistados, muitas vezes se torna complicado pormos “um travão”, ao discurso do entrevistado, e obriga-nos a um vaivém constante, ou em opção, retirarmos à posteriori, os fragmentos que mais correspondem ao objectivo traçado. Quase sempre se optou, pela primeira opção, orientarmos o entrevistado e limitá-lo a grandes divagações, com a vantagem de tornar o dialogo muito mais aberto, e dando ao indivíduo um à-vontade de forma a corresponder ás expectativas, que foram sempre, retirar o melhor conteúdo possível das suas palavras.
Não quero também deixar de salientar, o enorme valor acrescentado que trouxeram as entrevistas exploratórias, pois as pessoas que participaram têm muitos anos de experiência à frente das suas instituições, são conhecedoras do que se passa à volta deste fenómeno e enriqueceram todas as leituras que antecipadamente tinha realizado, dando uma panorâmica do que se passa nas instituições, no país e até no mundo, em geral.
No percurso do Guião, traçaram-se quatro grandes blocos que seriam os fios condutores de toda a entrevista. Primeiro, a caracterização do entrevistado, um segundo bloco, sobre a trajectória de vida, em terceiro lugar, as práticas e representações sobre o consumo de álcool, e finalmente, a questão do futuro que estes indivíduos reservam para si.  


Caracterização do entrevistado (a)


Em relação à caracterização dos entrevistados, achou-se interessante saber alguns dados, mas não era objectivo do estudo fazer-se qualquer extrapolação em relação a estes dados, pelo que se cingiu aos mais básicos, como o sexo, idade, situação conjugal, escolaridade, meio familiar e meio de vida, sabendo que grande parte passou ao longo do seu percurso de vida por diversas alterações nestes dados (excepto sexo e idade), portanto quisemos apenas saber actualmente a sua situação, porque a multiplicidade de alterações foram ouvidas ao longo das entrevistas. 
Tal como a maioria dos estudos indicam, o número de homens, consumidores de álcool prevalece bastante maior do que em relação às mulheres, neste caso obtivemos sete entrevistas a homens e duas a mulheres, no entanto verificou-se, quer em observação directa, quer nas entrevistas exploratórias, um crescente número de mulheres que começam a aparecer nestes Centros de Recuperação.

Verificou-se uma ligeira diferença entre a média de idades nos homens e mulheres, com uma média de idades superior para os homens (49 anos) em relação às mulheres (43 anos). Também em entrevistas exploratórias, foi consenso nas três entrevistas, que a estrutura física da mulher em relação ao homem é muito inferior, ou seja, se um indivíduo do sexo masculino for consumidor excessivo de álcool, muito provavelmente só ao fim de nove, dez anos, é que começam a aparecer as primeira debilidades físicas, enquanto nas mulheres, bastam três, quatro anos, para a sua saúde física ficar em risco.
Quanto à situação conjugal, verificou-se no caso dos homens, a existência de cinco indivíduos ainda casados, um outro divorciado, e finalmente um solteiro. Em relação aos casados, existe um caso, em que o indivíduo vai no terceiro casamento, porque os anteriores não resistiram, sobretudo devido ao seu alcoolismo. Outro indivíduo casado, já conheceu a sua actual mulher na fase de recuperação, não passando esta senhora, pelo processo de dependência alcoólica do marido.
Em relação às mulheres, a situação também é diferente, pois se num caso, foi o próprio divórcio que desencadeou o quadro alcoólico, no segundo, o marido sempre se manteve com a esposa, acreditando na sua recuperação, são palavras da própria entrevistada:

“Não perdi a família, bem pelo contrário, as minhas filhas sempre se prontificaram a ajudar-me, o meu marido como é assim, aquele género mais tortinho, não é mau, mas é tortinho. Eu acho que ele também tem vergonha, a verdade é esta. Disse-me sempre que me ajudava naquilo que pudesse, nos medicamentos que necessitasse, custe o que custar, dava-me o dinheiro, mas que não lhe pedisse para me acompanhar que ele não ía.”
                                                                                                                                 (Entrevista Nº 5)

Quanto à escolaridade, temos aqui um problema transversal às habilitações académicas, pois nestas nove entrevistas, aparecem quatro graus de ensino, que vai desde a 4ª classe até ao ensino superior. Existe neste aspecto uma heterogeneidade bastante grande, não se traçando qualquer perfil a este nível.
Em relação ao meio familiar, existe também uma diversidade muito grande, pois temos indivíduos que vivem sozinhos, até outros que vivem com mulher e dois filhos.
Finalmente em relação ao meio de vida, existe apenas uma situação de desemprego, verificando-se que todos os outros trabalham, excepto uma mulher que por opção se tornou doméstica, embora já tivesse trabalhado. Existem também dois ex-empresários, que embora neste momento não estejam a trabalhar, a todo o momento iniciarão a sua actividade.
  

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Poeta é um fingidor


Biografia


Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.



Análise do Poema
 
Este poema, datado de 8 de Novembro de 1915 pertence ao conjunto de poemas de Alberto Caeiro denominado por "Poemas Inconjuntos".
Os poemas inconjuntos são aqueles poemas que, pela sua natureza, não puderam ser incluídos nem no "Guardador de Rebanhos" nem no "Pastor Amoroso", ou seja, são poemas desgarrados, sem temas específicos, que foram deixados num conjunto externo.
No entanto por este poema inconjunto passam temas queridos a Alberto Caeiro – nomeadamente a falta de metafísica, a ausência de pensamento e uma sensação forte de não pertencer a nada, um alheamento forte da realidade e da vida.
Diz Caeiro que a sua biografia (a sua vida) tem só duas datas: a do seu nascimento e a da sua morte. Todos os outros dias são seus. O que quer Caeiro dizer com isto?
É simples. Os dias da vida de Caeiro pertenceram-lhe, não pertenceram à humanidade, à realidade exterior. Apenas duas datas exteriores teve Caeiro – quando nasceu, porque não o podia evitar, e a morte, porque também lhe será uma data alheia que não pode controlar. No meio das duas, no que é costume dizer-se se enchem as biografias das pessoas, Caeiro não acha nada que possa pertencer a uma biografia comum, porque os seus dias não foram dias normais, de um homem com uma vida normal.
Caeiro vive a sua vida para dentro – é uma realidade interior, vivida interiormente. No exterior não há nada de Caeiro, apenas uma calma intensa, de um homem tranquilo, sem acção.
"Sou fácil de definir", diz ele. E na realidade é mesmo. Porque ele só viu. Viu como um "danado", ou seja, foi essencialmente um observador da realidade. E mais nada. Nada. Não amou com sentimento, nem desejou cegamente. Nem sequer ouviu só por ouvir. Compreendeu a realidade das coisas serem diferentes umas das outras - sem ligação entre si, ou seja, sem significado. Compreendeu com os olhos e nunca com o pensamento.
O mesmo é dizer que Caeiro não quis pensar. Só quis ver. E isso impediu que ele tivesse uma vida como os outros tinham uma vida, pois ele é apenas um contemplador, não agiu, não interferiu com a realidade exterior. Foi uma personagem diáfana que passou pela realidade humana exterior.
A morte chegou-lhe como o sono a uma criança.
Esta metáfora simples simboliza a posição de Caeiro perante a vida – quer aproximar-se à inocência de uma criança (a criança nova que ele refere no Guardador de Rebanhos). As crianças, enquanto são crianças, não sabem que vivem.
Além disso apenas foi o "único poeta da natureza". Uma afirmação estranha, para quem não viveu um único dia. Mas permitimos a Caeiro este erro momentâneo, se compreendermos a sua missão impossível.  

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - DADOS ESTATÍSTICOS DE ENQUADRAMENTO



Consumo Per Capita


O consumo de álcool e de bebidas alcoólicas é medido, ao nível populacional, em termos de consumo per capita. O seu cálculo é baseado na totalidade de bebidas alcoólicas consumidas em Portugal, que é estimado com base nas estatísticas de produção e nas vendas de diferentes bebidas alcoólicas, tendo em conta as exportações e importações. Este cálculo não inclui a produção doméstica de bebidas alcoólicas que, como se sabe, é muito elevada no nosso país, nem tem em conta os produtores de vinho existentes e não declarados, ou seja, a produção ilegal de outras bebidas que não o vinho, as bebidas trazidas pelos turistas, as bebidas consumidas por turistas principalmente no Algarve e zonas de maior fluxo turístico, como também não entra em linha de conta, com as bebidas alcoólicas que são compradas, armazenadas e não consumidas. Por isso, o consumo per capita fornece-nos uma estimativa do consumo e não o consumo exacto actual.
O consumo per capita resulta da divisão da quantidade total de álcool etílico consumido por estimativa pela totalidade da população com mais de 15 anos. Este cálculo atribui, assim, um consumo médio a cada português, independentemente do seu consumo actual de bebidas alcoólicas e, por consequência, de álcool puro.
Apesar do consumo per capita oferecer uma estimativa aproximada da quantidade total de álcool consumido, são necessários novos dados, novos inquéritos, que permitam ligar dados de consumo a outros de ordem sócio demográfica e de consumo, ao nível individual.
Segundo dados de 2002, o consumo médio per capita dos então doze países da União Europeia, situava-se acima dos oito litros de álcool puro por ano.
Em Portugal, o consumo per capita é dos mais elevados do mundo, tendo-se situado, em 2000, em 10,8 L de álcool puro, sendo assim o segundo consumidor mundial.


Desde 1970 registou-se um aumento de 10% no consumo de etanol. Atingiu-se o quarto lugar mundial, com 50 L por habitante, em 2000, no que diz respeito ao consumo de vinho, quando por exemplo, em 1970, o consumo era de 72,5 L. O consumo de cerveja tem vindo a aumentar vertiginosamente, com um incremento superior a 390% entre 1970 e 2000; cada português consumiu, neste último ano, 65,3 L de cerveja. O consumo de bebidas destiladas situou-se, neste mesmo ano, acima de 1 L de etanol, tendo aumentado cerca de 180%, entre 1970 e 2000. Mais uma vez se salienta o facto de que a capitação de vinho e de bebidas destiladas se encontra subestimada em virtude de existir muita produção não declarada destas bebidas e, portanto, sem integração nas estatísticas oficiais.




À semelhança do que vem acontecendo noutros países, também em Portugal os hábitos tradicionais de consumo de bebidas alcoólicas parece ter sofrido, nos últimos anos, alterações significativas, destacando-se as seguintes tendências:

  • Aumento substancial do consumo de cerveja
  • Aumento crescente no consumo de bebidas alcoólicas pela mulher
  • Aumento crescente de bebidas alcoólicas pelos jovens
  • Aumento significativo no consumo de bebidas destiladas (aperitivos, whisky, licores, cocktails, etc,)
  • Internacionalização e uniformização dos hábitos de beber
  • Aumento no consumo de novas bebidas (sumos com álcool, Redbull com vodka, shots, etc,)

A alcoolização geral da população é uma realidade. Segundo um estudo de Aires Gameiro, em 1987, cerca de um milhão e setecentos mil portugueses são consumidores excessivos e doentes alcoólicos crónicos. Um estudo realizado no âmbito do Programa CINDI, Setúbal 1987, cerca de 12% dos indivíduos inquiridos apresentavam dependência alcoólica e/ou graves problemas com o álcool, e 13% tinham tido pelo menos um problema com o álcool. Um outro estudo apresentado pelo Centro Regional de Alcoologia de Coimbra, em Janeiro de 1997, apresentava os seguintes resultados:

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O Poeta é um fingidor



BIOGRAFIA DE ALBERTO CAEIRO


Parece-me bem começar a explicar quem foi Caeiro citando Agostinho da Silva, no seu “Um Fernando Pessoa”, quando o pensador nos diz que “para Caeiro, o ideal é que não se junte coisa alguma daquelas que o mundo, naturalmente, nos apresenta separadas”. Serve esta pequena citação para apresentar uma “personagem” criada por Pessoa para exprimir o que Pessoa tinha em si de contemplativo, de mero observador da Natureza. É uma verdade que Caeiro, que Pessoa apelida de “O Mestre”, surge, na linha temporal dos heterónimos, não como o primeiro, como se esperaria de um “Mestre”, mas sim em último (Pessoa data os seus primeiros poemas de Caeiro com datas de 1925, embora ele surja na sua mente em 1914) contraposição ao próprio Pessoa, como que funcionando como filtro da sua escrita e das suas emoções. Caeiro, em rigor, define a estrutura funcional da obra, partindo dele Reis – em oposição – e Campo – em subordinação. Serve por isso Caeiro um propósito estrito para Fernando Pessoa – o de limpar a sua mente da confusão do que seria ter de desenvolver linearmente uma linha, um estilo de pensamento, que incluía, às vezes contra a sua vontade, pontos de vista tão diversos e, em certa medida, inconciliáveis.
O poeta múltiplo, mais do que apenas levado por uma necessidade de negar a sua própria personalidade, via-se confrontado com uma necessidade de desvendar tudo aquilo que sentia, e nenhuma melhor forma existia que dar vida a cada uma dessas linhas de pensamento, a cada hipótese dar vida e respiração, para que na “discussão em família”, eventualmente se chegasse mais perto da Verdade Inicial. Note-se que esta operação é trinitária – Caeiro, Reis, Campos – e por isso mesmo simbólica, alquímica, oculta. Curiosamente e como indica outro critico, Eduardo Lourenço, no seu Pessoa Revisitado, Caeiro é porventura o mais intelectualista das personagens poéticas de Pessoa, um quasi-filósofo da ontologia tão em voga hoje na nossa modernidade, e que acabou por desaguar na filosofia da linguagem de Wittgenstein. A análise exaustiva de Caeiro, sob a aparência da simplicidade, leva-o a uma “patética aventura”, nas palavras de Lourenço, consubstancia uma crença num mundo de irrealidade, negação ou afastamento não poderemos saber exactamente.
Caeiro na verdade, segundo Pessoa, surge no seguimento de uma brincadeira com o amigo de Pessoa e também poeta Mário de Sá-Carneiro. Pessoa ter-se-á encostado à sua cómoda (segundo nos dizem, costumava escrever assim) e num jacto terá escrito a obra maior de Caeiro, o Guardador de Rebanhos, num dia em 1914, para depois surpreender com esta aventura o seu colega e amigo. Parece esta explicação de índole mais simples. Claro que cabe aos críticos por vezes achar os porquês que o próprio poeta ignora, ou que em verdade operam inconscientemente. Curiosamente a Caeiro é dada uma vida com os mesmos anos de Sá-Carneiro, 26, e morre tuberculoso o “Mestre” como o pai de Pessoa, depois de ter 5 curtos anos de actividade poética fictícia, 5 tendo sido também os anos de felicidade do “Menino de Sua Mãe”.

Os "Pais" da SOCIOLOGIA: ALEXIS DE TOCQUEVILLE (n. 29 Jul.1805; m. 16 Abr.1859)


Alexis Henri Charles Clérel, visconde de Tocqueville, dito Alexis de Tocqueville, nasceu em 29 de Julho de 1805.
Alexis de Tocqueville pertenceu a uma grande família aristocrática normanda. Era bisneto de Chrétien Guillaume de Malesherbes e tinha ligações familiares com o visconde de Chateaubriand. Seus ancestrais participaram da batalha de Hastings em 1066, que concretizou a conquista de Guilherme, Duque da Normandia e o fim da dinastia de reis anglo-saxões na Inglaterra. Seus pais, Hervé Louis François Jean Bonaventure Clérel, conde de Tocqueville, soldado da guarda constitucional do rei Luís XVI e Louise Madeleine Le Peletier de Rosanbo, escaparam da guilhotina graças à queda de Robespierre no Ano II (1794). Destino diferente teve seu avô, o Marquês de Rosanbo, que foi executado.
Após exílio na Inglaterra, Hervé e Louise retornaram à França durante o Primeiro Império (1804-1815). Aos 16 anos Tocqueville entrou para o Royal College, em Metz, para estudar filosofia. Durante esse tempo Tocqueville começou a ter dúvidas sobre o papel da aristocracia no governo francês e sofreu uma profunda crise religiosa que teria efeito para o resto da vida. Depois de terminar no Royal College, aos 18 anos, Tocqueville voltou a Paris, onde estudou direito.
Embora consagrado pela posteridade como homem de letras, sociólogo da democracia moderna e historiador do Antigo Regime, Alexis de Tocqueville sempre ambicionou ser um homem da política. Em 1827 Hervé torna-se “Pair de France” e “Préfet” de Versalhes (a prefeitura mais importante de França), enquanto Tocqueville filho, recebeu uma posição como aprendiz magistrado no tribunal de Versalhes. Tocqueville começa a ter cada vez mais simpatia pelo liberalismo, como resultado da sua crença que o declínio da aristocracia em França era inevitável.
A revolução de Julho de 1830, em que Carlos X abdica e Luís Filipe subiu ao trono, trouxe fortes repercussões na vida de Tocqueville. Como resultado desta revolução, a família Tocqueville perdeu a sua nobreza e posição que tinha, tornando-se a sua situação precária. Isto levou a que Tocqueville verificasse que a França caminhava para a democracia e viu os Estados Unidos como um modelo a seguir. Consegue viajar para a América, a pretexto de querer estudar reformas prisionais, mas o seu grande objectivo era adquirir conhecimentos sobre o desenvolvimento político americano, que esperar à posterior usar em França. Tocqueville viaja também para Inglaterra para estudar o sistema político britânico.
Em 1835, escreve a primeira parte do livro “A Democracia na América”, onde faz um relato muito positivo e optimista do governo americano e da sua sociedade e nesse mesmo ano casa com Maria Montley, uma inglesa. O casamento foi um escândalo para a família, pois consideravam Maria Montley de um estrato social inferior. A mãe de Tocqueville morre em 1836.
Após a morte de sua mãe, reencontra a política e em 1836, Tocqueville lança a sua primeira candidatura à Câmara, na qual foi derrotado. Em 1839, conseguiria a primeira de uma série de vitórias que o manteriam na câmara até o golpe de estado de 1851.
Em 1840, publica a segunda parte do livro “A Democracia na América”. Sendo muito mais pessimista que o primeiro, fala do despotismo e dos perigos da centralização governamental e como resultado não foi recebido com o entusiasmo do primeiro, em França, embora altamente elogiado em Inglaterra.
Em 1841, Tocqueville é eleito para a Academia Francesa e Academia de Moral e Ciência Política. Nesse ano visita a Argélia, uma colónia francesa e critica os militares franceses e a burocracia do país.
Na Câmara dos Deputados, Tocqueville defendia a expansão do poder naval para desafiar o domínio britânico e apoia o papel da Igreja Católica em relação ao ensino e às Universidades, sendo assim coerente com o que escreveu no seu livro “A Democracia na América”. Tocqueville estava cada vez mais a movimentar-se para uma politica de esquerda, tornando-se em 1844 proprietário do jornal “Le radical do Comércio”, mas deixou-o no ano seguinte devido ao fracasso financeiro.
Em 1846, alinhou-se à “nova esquerda”, facção da Câmara e os partidos de esquerda iniciaram uma campanha para angariar apoios, Tocqueville faz um discurso no início de 1848 a prever a eclosão de uma revolução, mas a sua advertência foi ignorada.
Tocqueville era contra a revolução que finalmente acontece, em 1848, tal como previra, no entanto ajuda a formar um novo governo, é eleito para a Assembleia Constituinte e ajuda a escrever a Constituição da Segunda República. No ano seguinte foi eleito para a Assembleia Legislativa tornando-se seu Vice-Presidente e Ministro dos Negócios Estrangeiros. Esta situação não durou muito tempo porque o Presidente Luís Napoleão Bonaparte o demitiu do cargo. Tocqueville sofre um colapso físico e vai para Itália recuperar a sua saúde.
Retorna a Paris em 1851, opõe-se fortemente ao governo, é preso por pouco tempo, e é impedido de exercer cargos públicos, porque se recusa a jurar lealdade ao novo regime.
Fora da vida política, Tocqueville escreve “O Antigo Regime e a Revolução Francesa no início de 1850, onde relata a história de França que antecedeu a revolução de 1789, onde enfatiza os factores que levaram ao fracasso francês.
Em 1856, morre o seu pai e passados apenas alguns anos, em 16 de Abril de 1859, em função de uma crise de tuberculose pulmonar morre Alexis de Tocqueville.

Obras
1833  États-Unis et le son application en France
1840  De la Démocratie
1856  L’ancien régime et la révolution

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - DADOS ESTATÍSTICOS DE ENQUADRAMENTO


Consumo de Álcool em Portugal


Portugal, país situado entre os países-membros da União Europeia com um dos maiores consumos de bebidas alcoólicas e de prevalência de Problemas Ligados ao Álcool (PLA), tem vindo a integrar-se, nos últimos anos, na política geral europeia de controlo dos PLA para uma melhor saúde do indivíduo e da comunidade, conforme nos refere Maria Lucília Mercês de Mello (2001: 9).
Portugal situa-se entre os países de maior produção e consumo vinícolas. Embora se tenham verificado nos últimos anos, aumentos de consumo em alguns países da Europa, Portugal e França continuam a ocupar posições cimeiras entre os maiores produtores/consumidores de álcool.
O elevado consumo relaciona-se claramente com a forte produção, que em 1999 foi de 7,8 milhões de Hl de vinho, ocupando deste modo o 9º lugar como produtor mundial; a produção de cerveja, em cerca de 6,8 milhões de Hl, enquanto a estatística de produção de bebidas destiladas apresenta uma fiabilidade muito duvidosa.
Cada português gasta, em média, 150 euros por ano em bebidas alcoólicas, mais do que qualquer outro produto alimentar analisado isoladamente; de frisar que este montante sobe para 1500 euros no caso dos doentes alcoólicos, isto em 1995.






Um outro aspecto relevante é o facto de Portugal estar colocado entre os principais consumidores de cerveja. O quadro seguinte é ilustrativo disso mesmo, mostrando o consumo per capita de cerveja, por pessoa, anualmente:



Também ao nível do consumo de bebidas destiladas, Portugal ocupa uma posição significativa, sendo o 32º país mundial em termos de consumo deste tipo de bebidas.

Às Voltas com a Memória: MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (n. 19 Mai. 1890; m. 26 Abr. 1916)


Nasceu, em Lisboa, no dia 19 de Maio de 1890, no seio de uma abastada família alto-burguesa, sendo filho e neto de militares. Órfão de mãe com apenas dois anos (1892), ficou entregue ao cuidado dos avós, indo viver para a Quinta da Vitória, na freguesia de Camarate, às portas de Lisboa, aí passando grande parte da infância.
Inicia-se na poesia com doze anos, sendo que aos quinze já traduzia Victor Hugo, e com dezesseis, Goethe e Schiller. No liceu teve ainda algumas experiências episódicas como ator, e começa a escrever.
Em 1911, com dezenove anos, vai para Coimbra, onde se matricula na Faculdade de Direito, mas não conclui sequer o ano. Em 1912 veio a conhecer aquele que foi, sem dúvida, o seu melhor amigo – Fernando Pessoa.
Desiludido com a «cidade dos estudantes», segue para Paris a fim de prosseguir os estudos superiores, com o auxílio financeiro do pai. Cedo, porém, deixou de frequentar as aulas na Sorbonne, dedicando-se a uma vida boémia, deambulando pelos cafés e salas de espectáculo, chegando a passar fome e debatendo-se com os seus desesperos, situação que culminou na ligação emocional a uma prostituta, a fim de combater as suas frustrações e desesperos.
Na capital francesa viria a conhecer Guilherme de Santa-Rita (Santa-Rita Pintor). Inadaptado socialmente e psicologicamente instável, foi neste ambiente que compôs grande parte da sua obra poética e a correspondência com o seu confidente Pessoa; é, pois, entre 1912 e 1916 (o ano da sua morte), que se inscreve a sua fugaz – e no entanto assaz profícua – carreira literária.
Entre 1913 e 1914 vem a Lisboa com certa regularidade, regressando à capital devido à deflagração do conflito entre a Sérvia e a Áustria-Hungria, o qual a breve trecho se tornou uma conflagração à escala europeia – a I Guerra Mundial. Com Pessoa e ainda Almada-Negreiros integrou o primeiro grupo modernista português (o qual, influenciado pelo cosmopolitismo e pelas vanguardas culturais europeias, pretendia escandalizar a sociedade burguesa e urbana da época), sendo responsável pela edição da revista literária Orpheu (e que por isso mesmo ficou sendo conhecido como a Geração d’Orpheu ou Grupo d’Orpheu), um verdadeiro escândalo literário à época, motivo pelo qual apenas saíram dois números (Março e Junho de 1915; o terceiro, embora impresso, não foi publicado, tendo os seus autores sido alvo da chacota social) – ainda que hoje seja, reconhecidamente, um dos marcos da história da literatura portuguesa, responsável pela agitação do meio cultural português, bem como pela introdução do modernismo em Portugal.
Em Julho de 1915 regressa a Paris, escrevendo a Pessoa cartas de uma crescente angústia, das quais ressalta não apenas a imagem lancinante de um homem perdido no «labirinto de si próprio», mas também a evolução e maturidade do processo de escrita de Sá-Carneiro.
Uma vez que a vida que trazia não lhe agradava, e aquela que idealizava tardava em se concretizar, Sá-Carneiro entrou numa cada vez maior angústia, que viria a conduzi-lo ao seu suicídio prematuro, perpetrado no Hôtel de Nice, no bairro de Montmartre em Paris, com o recurso a cinco frascos de arseniato de estricnina, em 26 de Abril de 1916.
Contava tão-só vinte e cinco anos. Extravagante tanto na morte como em vida (de que o poema Fim é um dos mais belos exemplos), convidou para presenciar a sua agonia o seu amigo José de Araújo. E apesar de o grupo modernista português ter perdido um dos seus mais significativos colaboradores, nem por isso o entusiasmo dos restantes membros esmoreceu – no segundo número da revista Athena, Pessoa dedicou-lhe um belo texto, apelidando-o de «génio não só da arte como da inovação dela», e dizendo dele, retomando um aforismo das Báquides (IV, 7, 18), de Plauto, que «Morre jovem o que os Deuses amam» (tradução literal de Quem di diligunt adulescens moritur).
Verdadeiro insatisfeito e inconformista (nunca se conseguiu entender com a maior parte dos que o rodeavam, nem tão pouco ajustar-se à vida prática, devido às suas dificuldades emocionais), mas também incompreendido (pelo modo com os contemporâneos olhavam o seu jeito poético), profetizou acertadamente que no futuro se faria jus à sua obra, no que não falhou.
Com efeito, reconhecido no seu tempo apenas por uma fina élite, à medida que a sua obra e correspondência foi publicada, ao longo dos anos, tornou-se acessível ao grande público, sendo atualmente considerado um dos maiores expoentes da literatura moderna em língua portuguesa. Embora não tenha a mesma repercussão de Fernando Pessoa, a sua genialidade é tão grande (senão mesmo maior) que a de Pessoa, mas porém muito mais próxima da loucura que a do seu amigo.
A terra que o acolheu na infância – Camarate –, e a quem ele dedicou também algumas das suas poesias, homenageou-o, conferindo o seu nome a uma escola local. O seu poema Fim foi musicado por um grupo português no final dos anos 1980, os Trovante. Mais tarde, o seu poema O Outro foi também musicado pela cantora brasileira Adriana Calcanhotto.
As suas influências literárias são de Edgar Allan Poe, Oscar Wilde, Charles Baudelaire, Stéphane Mallarmé, Fiódor Dostoievski, Cesário Verde e António Nobre. Este escritor influenciou vários escritores, entre eles Eugénio de Andrade.

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - DADOS ESTATÍSTICOS DE ENQUADRAMENTO


Consumo de Álcool na Europa[1]

O álcool é produzido e bebido na Europa desde há milhares de anos, geralmente feito com quaisquer materiais disponíveis. Em tempos, as bebidas alcoólicas eram usadas frequentemente como remédio, uma prática que foi continuada até ao princípio do século XX. Embora existissem de facto leis sobre o álcool, estas eram normalmente diferenciadas por razões de ordem pública ou para regular o mercado, e não numa perspectiva dos efeitos nocivos que o mesmo causava, quer em termos de saúde, quer sociais. Contudo, este quadro mudou com os desenvolvimentos na Europa medieval e moderna, incluindo a industrialização, melhoramento das linhas de comunicação, e a descoberta de bebidas mais fortes, as destiladas. Grandes movimentos espalharam-se pela Europa durante o século XIX e início do século XX, conduzidos sobretudo, por preocupações relativas ao consumo de bebidas destiladas, espalhando-se posteriormente a todo o tipo de bebidas alcoólicas. No entanto, esses movimentos, foram-se desvanecendo, até uma posição de pouca importância no fim do século vinte.
A Europa desempenha um papel central no mercado global do álcool, produzindo um quarto do álcool mundial, e mais de metade da produção mundial de vinho. Por exemplo, na União Europeia, o comércio é ainda mais centralizado, com 70% de exportações e pouco menos de metade das importações mundiais a envolver a União Europeia. Apesar da maioria deste comércio ser feito entre países da União Europeia, o comércio de álcool contribui com cerca de 9 biliões de euros para a balança comercial da UE como um todo.
O contrabando de álcool na Europa é enorme, tendo a European High Group on Fraud apresentado uma estimativa de 1,5 biliões de euros perdidos com a fraude do álcool durante 1996, e só nos 15 países da União Europeia. Em vários países, pelo menos um em cada seis turistas regressam das suas viagens ao estrangeiro com bebidas alcoólicas, trazendo consigo uma média de dois litros de álcool puro, por pessoa.
Baseado na revisão de estudos existentes, em 2003, o custo tangível total com o álcool foi estimado em cerca de 125 biliões de euros, só na Europa dos quinze, o equivalente a 1,3% do PIB. Quanto aos custos intangíveis, estes atingiram uma estimativa em cerca de 270 biliões de euros e mostram o valor que as pessoas atribuem à dor, sofrimento e perda de vidas que ocorre devido aos danos de origem criminosa, sociais, e de saúde pública causados pelo álcool. Recorrendo a outras maneiras de valorizar os mesmos danos, chega-se a estimativas que variam entre os 150 e 760 biliões de euros. Embora estas estimativas considerem um número de outras várias áreas da vida humana onde se regista o impacto do álcool, há várias outras áreas em que nenhuma estimativa foi feita, dado que foi impossível a obtenção de dados.
A União Europeia é a região com maior consumo de álcool do mundo, tendo atingindo em meados dos anos setenta um consumo médio por pessoa, de 15 litros de álcool puro por ano, havendo no entanto um decréscimo nos últimos quarenta anos, para cerca de 11 litros por ano. Embora a maior parte dos europeus bebam álcool, cinquenta e cinco milhões de adultos (15%) abstêm-se; tendo isto e o consumo não registado em conta, o consumo por bebedor chega aos 15 litros por ano.
Metade deste álcool é consumido em forma de cerveja, com o resto dividido entre vinho (34%) e bebidas destiladas (23%). Dentro da Europa dos quinze, as áreas do Norte e do Centro bebem principalmente cerveja, enquanto no Sul da Europa, se beba principalmente vinho. Cerca de 40% das ocasiões de consumo na maior parte da UE15 têm lugar na refeição da tarde/noite, embora na Europa do Sul seja mais provável que se beba ao almoço do que em qualquer outra ocasião.
No que respeita ao bebedor excessivo de álcool, também aqui existem algumas discrepâncias, pois os europeus sulistas declaram menos vezes que se embebedam todos os meses. Este padrão é atenuado quando o “binge-drinking”[2] é, por sua vez investigado, sugerindo a existência de diferenças sistemáticas na vontade das pessoas de declararem que estão intoxicadas, ou declarar a extensão de um “única ocasião”. Os estudos do “binge-drinking” mostram também excepções ao padrão norte-sul, em particular a Suécia que tem uma das mais baixas taxas de “binge-drinking” na UE15. Em resumo, na Europa dos quinze, os adultos declaram ficar bêbados em média 5 vezes por ano, mas fazem “binge-drinking” dezassete vezes por ano; isto é equivalente a 40 milhões dos cidadãos da UE15 que “bebem demasiado” por mês e 100 milhões (1 em cada 3) que fazem “binge-drinking” pelo menos uma vez por mês.
Embora existam muito menos dados disponíveis para a UE10[3], estes sugerem que algum do consumo de vinho, foi substituído por bebidas destiladas, que a frequência de consumo é menor, e que a frequência de “binge-drinking” é maior do que na UE15.
Enquanto 266 milhões de adultos bebem até 20g (mulheres) ou 40g (homens) por dia, mais de 58 milhões de adultos (15%) consomem acima deste nível, com 20 milhões destes (6%) bebendo acima dos 40g (mulheres) ou 60g (homens). Podemos igualmente estimar que 23 milhões de Europeus (5% de Homens e 1% de Mulheres) são dependentes do álcool.
Outro dado interessante, é o facto de muitas mulheres, enquanto grávidas continuarem a beber (25% - 50%) e, algumas continuam a beber a níveis danosos.
Também na Europa dos quinze, quase todos os estudantes de quinze, dezasseis anos (> 90%) beberam álcool em algum momento da sua vida, começando em média aos 12 – 13 anos de idade e, embriagando-se pela primeira vez aos 14 anos. A quantidade média bebida numa única ocasião por jovens de quinze, dezasseis anos é acima das 40g de álcool e, chega mesmo a quase 60g no Sul da Europa. A maior parte dos países mostram uma substancial subida do “binge-drinking” para os rapazes desde 1995 a 2003 e, quase todos os países mostram isto tanto para os rapazes como para as raparigas.
Embora o uso do álcool traga consigo, se bebido moderadamente, um número de prazeres, o risco de uma vasta gama de danos sociais, aumenta se a dose consumida for elevada, isto é, quanto maior o consumo de álcool, maior o risco. Os danos provocados variam, de perturbações sociais tais como ficar acordado durante a noite, até consequências mais sérias, tais como danos conjugais, abuso de crianças, crime, violência e até homicídio. Geralmente quanto maior o nível de consumo de álcool, mais grave é o crime ou o dano.
Além de ser uma droga de dependência, o álcool é a causa de 60 tipos de diferentes doenças e problemas.
O álcool é responsável por colocar um grande peso em vários aspectos da vida humana na Europa, que podem ser vastamente descritos como “danos para a saúde” e “danos sociais”. Sete milhões de adultos afirmam ter estado envolvidos em brigas enquanto bebiam, no último ano (baseados numa revisão de um pequeno número de estudos com custos suportados pelos próprios países) e o custo económico do crime atribuído ao álcool foi estimado em 33 biliões de euros na UE em a 2003. Este custo é dividido entre polícia, tribunais e prisões (15 biliões), despesas com prevenção do crime e seguros administrativos (12 biliões) e danos de propriedade (6 biliões). Os danos de propriedade devido à condução com álcool foram também estimados em 10 biliões, enquanto que o custo intangível dos efeitos físicos e psicológicos do crime foi avaliado entre 9 e 37 biliões de euros (52 biliões para o custo do crime relacionado com o álcool).


[1] Esta alínea foi retirada de um estudo efectuado pelo Institute of Alcohol Studies, Inglaterra, e escrito por Peter Anderson e Bem Baumberg.
[2] Binge-drinking é o termo utilizado para o padrão de consumo para além de um certo número de bebidas numa ocasião, cerca de 5 ou mais bebidas.
[3] UE10, refere-se aos países que entraram agora para a União Europeia, que são os seguintes: Chipre, República Checa, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Malta, Polónia, Eslováquia e Eslovénia.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Poeta é um fingidor


BIOGRAFIA ÁLVARO DE CAMPOS


Pessoa diz, na célebre carta em que relata a origem dos heterónimos, o seguinte: O difícil para mim é escrever a prosa de Reis – ainda inédita – ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea em verso.)"
O assunto da simulação, vasto em Pessoa, encontra em Álvaro de Campos uma encruzilhada. Porque para Pessoa, escrever a Prosa de Campos é "difícil". Porquê? Porque em Campos, encontramos temas sensíveis a Pessoa e que Pessoa deslocaliza, pelo menos emocionalmente, para a caneta do seu heterónimo engenheiro naval. Esses temas são nomeadamente, os relativos à infância, à memória da sua mãe e das viagens para a África do Sul.
Como nasce Campos? Pessoa diz na mesma carta: "E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo individuo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.". Ou seja, Campos surge em oposição a Reis, o que Reis tem de exacto, Campos tem de maleável, o que Reis apresenta de rigoroso, Campos demonstra irracional.
Poeta sensacionalista por excelência, escandaloso e moderno, Campos descreve um mundo em mudança, por efeito retardado (pelo menos em Portugal) da revolução industrial. Mas há, mesmo em Campos, 3 fases distintas (Prado Coelho). A do Opiário (1914); a das grandes Odes (1914-16) e a fase pessoal, que termina com a própria morte de Pessoa (1916-35).
Choca em contraste que o poeta poderoso, à Whitman, que exorta delirante a máquina, que fala do peito as proezas da Energia e do Progresso, surja por vezes tão assumidamente deixado ao tédio, que quase abúlico, fica morto de entusiasmo e capturado pelo niilismo. Prado Coelho diz-nos que "Campos sentiu como Whitman para deixar de sentir como Campos" (in Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa). Tão semelhante se torna a Pessoa, que Pessoa o traz consigo para a vida do dia-a-dia, falando por exemplo dele a Ophélia de Campos, como se pela sua própria voz.
Campos é a parte desligada da realidade emocional de Pessoa. Nele Pessoa escreve mais despreocupado do que se escrevesse em nome próprio, e sente segurança para se deitar ao lamentos de uma vida de sofrimento. Campos é menos sereno, é mais intranquilo, mais solto, energético mesmo quando deitado ao tédio, do que Pessoa – ele mesmo.
A consciência que Caeiro quer não enfrentar, Campos perde-a pelo exagero (Eduardo Lourenço). A noite "materna" invade-o. Porque assombrado pela memória da mãe, da infância perdida, a sua sinceridade acha apenas cansaço, quando ele se vê perto da morte, sem esperança de um regresso impossível à felicidade infantil. A noite é, em sentido literal, a sua própria mãe, que o abandona, mas nunca deixa de o dominar.

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - DADOS ESTATÍSTICOS DE ENQUADRAMENTO


Consumo de Álcool no Mundo

O consumo de álcool cresceu rapidamente desde 1961 a 1981, entre 25% a 243%, especialmente em países como os Estados Unidos, Alemanha, Rússia, Japão, Reino Unido, Espanha, Holanda, Irlanda, Hungria, Bélgica, Dinamarca, Áustria, Canadá e Finlândia. Paradoxalmente a França é um dos raros países onde o consumo de álcool puro após um período de estabilização, tendeu a diminuir, desde 1960 a 1994.
Se verificarmos a tabela abaixo, em 1996 ainda existiam países com taxas de consumo de álcool puro, superior a 10 litros/ano por habitante, valor pelo qual já é considerado um factor de risco, entre os quais se incluía Portugal, com 11,2 litros por habitante.



No quadro que se segue, e recuando mais no tempo, verificamos, com excepção de alguns países cujos índices de consumo de álcool eram muito elevados, que a maioria teve aumentos significativos, sabendo também que o mercado paralelo em alguns deles, evita que os dados sejam precisos, pois seriam, concerteza, ainda mais elevados:

Um outro dado que não queria deixar de salientar, tem a ver com o próximo quadro, onde é visível um aumento considerável do consumo médio de álcool puro, na União Europeia em relação às restantes regiões do Mundo, vejamos:

Entre outros dados, é interessante verificar que os dez principais consumidores mundiais de álcool puro se situam todos na Europa, como mostra o quadro seguinte:  



 

Às Voltas com a Memória: ACÁCIO BARREIROS (n. 24 Mar. 1948; m. 18 Fev. 2004)


Político e governante português, Acácio Manuel de Frias Barreiros nasceu a 24 de Março de 1948, em Cabinda, em Angola, filho de um funcionário da administração colonial e de uma professora primária.
Acácio Barreiros estudou em Nova Lisboa, actualmente chamada Huambo, e depois de se mudar para Portugal frequentou até ao quarto ano o Instituto Superior Técnico de Lisboa. Durante esta época envolveu-se em lutas estudantis e ingressou na UDP (União Democrática Popular), partido da extrema-esquerda. Entretanto, abandonou os estudos e começou a trabalhar como bancário.
Em 1976 foi pela primeira vez eleito deputado à Assembleia da República, onde esteve até 1979, tendo protagonizado emocionados discursos, principalmente contra os ricos e os fascistas.
Em 1979 entrou em ruptura com a UDP e abandonou o partido. Pouco tempo depois, no início da década de 80, associou-se à Nova Esquerda, para logo de seguida ingressar no Partido Socialista (PS). Em 1983, depois de ter sido convidado por Mário Soares para integrar as listas de candidatos a deputados ao Parlamento, voltou à Assembleia da República. Nessa época dedicou-se a causas como a defesa do ambiente e a habitação para jovens. Quatro anos depois, em 1987, saiu do Parlamento.
Em 1989 foi o candidato do PS à Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, mas perdeu as eleições.
Dois anos depois voltou como deputado à Assembleia da República, onde se manteve até morrer em 2004. No entanto, fez alguns interregnos no desempenho das funções de deputado, nomeadamente em 1999 quando foi empossado como secretário de Estado da Defesa do Consumidor do governo socialista liderado por António Guterres. Acácio Barreiros esteve no Governo até este cair em finais de 2001.
Entre 1993 e Janeiro de 2002 foi presidente da Assembleia Municipal de Sintra. Ganhou de novo este posto nas eleições autárquicas de Dezembro 2001, mas uma coligação dos restantes partidos impediu-o de ocupar o cargo.
Morreu a 18 de Fevereiro de 2004, vitimado por um cancro, numa altura em que era vice-presidente da bancada parlamentar do PS.