quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Às Voltas com a Memória: FREDDIE MERCURY (n. 5 Set. 1946; m. 24 Nov. 1991)

Freddie Mercury nasceu na localidade da Cidade de Pedra, na ilha Zanzibar, à época colónia britânica, hoje pertencente à Tanzânia, na África Oriental, a 5 de Setembro de 1946. O seu nome verdadeiro é Farokh Bulsara. Os seus pais, Bomi e Jer Bulsara, eram indianos da religião zoroastriana. Mercury foi educado na St. Peter Boarding School, uma escola inglesa perto de Bombaim, na Índia, onde deu seus primeiros passos no âmbito da canção, ao ter aulas de piano. Foi na escola que ele começou a ser chamado "Freddie" e, com o tempo, até os seus pais passaram a chamá-lo assim.
Depois de se formar na sua terra natal, Mercury e a família mudaram-se em 1964 para Inglaterra, devido a uma revolução iniciada em Zanzibar. Tinha então dezoito anos. Diplomou-se em Design Gráfico e Artístico na Ealing Art College, seguindo os passos de Pete Townshend. Esse conhecimento mostrar-se-ia útil depois, a Freddie para projectar o famoso símbolo da banda.
Algo que poucos fãs sabem é que, na escola de artes em que se bacharelou, Freddie era conhecido como um aluno exemplar e muito quieto. Tinha uma personalidade bastante introspectiva. Concluiu os exames finais do curso com conceito A. Possui uma série de trabalhos em arte visual, hoje disponíveis em alguns sites na internet.
Na faculdade, ele conheceu o baixista Tim Staffell. Tim tinha uma banda na faculdade chamada Smile, que tinha Brian May como guitarrista e Roger Taylor como baterista, e levou Freddie para participar dos ensaios.
Em Abril de 1970, Tim deixa o grupo e Freddie acaba ficando como vocalista da banda que passa a chamar-se Queen. Freddie decide mudar o seu nome para Mercury. Ainda em 1970, ele conheceu Mary Austin, com quem viveu cinco anos. Foi com ela que assumiu sua orientação sexual (Freddie era bissexual) e os dois mantiveram forte amizade até ao fim da sua vida. Mary inspirou Freddie na música "Love of My Life", de acordo com declaração do cantor e dos seus companheiros de Banda, sendo Mary acima de tudo o verdadeiro amor dele.
No visual de Freddie, há uma mudança que não deixa de ser notada: se, na era Glam dos anos 70, o cabelo comprido, delineador preto, unhas pintadas, os maillotes de bailado e sapato de tacão alto eram moda, estes iriam dar lugar a uma postura mais "macho": cabedal preto, chapéu de polícia, cabelo curto e meses mais tarde bigode, essa seria a sua imagem de marca na promíscua década de 1980.
Mercury compôs muitos dos sucessos da banda, como "Bohemian Rhapsody", Somebody to Love, "Love of My Life" e "We Are the Champions"; hinos eloquentes e de estruturação extraordinária, particulares e sempre eternos. As suas exibições ao vivo eram lendárias, tornando-se imagem de marca da banda. A facilidade com que Freddie dominava as multidões e os seus improvisos vocais envolvendo o público no show tornaram as suas tournées um enorme sucesso na década de 1970 e principalmente (enchendo estádios de todo o mundo) nos anos 80.
Lançou dois discos a solo, aclamados pela crítica e pelo público. Em 1991, surgiam rumores de que Mercury estava com AIDS, que se confirmaram com uma declaração feita por ele mesmo em 23 de Novembro, um dia antes de morrer, vindo a falecer na noite de 24 de Novembro de 1991, na sua própria casa, chamada de Garden Lodge. A sua morte causou repercussão e tristeza em todo o mundo. A casa de Freddie Mercury, passada por testamento à sua ex-namorada, Mary Austin, recebeu muitas flores na época e continua a receber até hoje.
O corpo de Freddie Mercury foi cremado e por este motivo não existe túmulo para que seus fãs possam homenageá-lo.
Em 25 de Novembro de 1992, foi inaugurada uma estátua em sua homenagem, com a presença de Brian May, Roger Taylor, da cantora Montserrat Caballé, Jer e Bomi Bulsara (pais de Freddie) e Kashmira Bulsara (irmã de Freddie), em Montreux, na Suíça, cidade adoptada por Freddie como seu segundo lar.
Os membros remanescentes do Queen fundaram uma associação de caridade em seu nome, a The Mercury Phoenix Trust, e organizaram, em 20 de Abril de 1992, no Wembley Stadium, o concerto beneficente The Freddie Mercury Tribute Concert, para homenagear o trabalho e a vida de Freddie.
O cantor também foi conhecido pelo pseudónimo de Larry Lurex e pelo apelido Mr. Bad Guy.
Freddie Mercury era proprietário da voz, quem sabe, mais lírica – ou, se preferir, forte – de todos os tempos, chegando provavelmente a superar Elvis Presley. Contam alguns que, durante as gravações do álbum Barcelona, Freddie desafiou Montserrat Caballé, a cantora lírica mais conhecida no mundo, para ver quem possuía maior fôlego. Mercury venceu com uma grande vantagem.
Em 1992, dão-se os Jogos Olímpicos de Barcelona, um ano depois da morte de Freddie Mercury, nos quais Montserrat Caballé interpreta a famosa canção "Barcelona" (gravada em 1988) num dueto virtual com o cantor falecido. Ainda hoje o dueto é recordado como um marco histórico da música.

DISCOGRAFIA DOS QUEEN
1973    Queen I
1974    Queen II
1974    Sheer Heart Attack
1976    A Night at Opera
1977    News of the World
1978    Jazz
1980    The Game
1980    Flash Gordon
1984    Hot Space
1984    The Works
1986    A kind of Magic
1989    The Miracle
1991    Innuendo
1995    Made in Heaven


DISCOGRAFIA A SOLO

1985    Mr. Bad Guy
1989    Barcelona
1992    Freddie Mercury Album
1992    The Great Pretender

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - METODOLOGIAS E TÉCNICAS DE PESQUISA


     Orientação Metodológica

Estudo de Caso: A minha escolha

Um dos aspectos fundamentais para a realização de qualquer investigação, é a adequação do método ao problema em análise, aspecto que obrigatoriamente, requer reflexão por parte do investigador.
De acordo com a especificidade da problemática e dos objectivos deste trabalho, optei por efectuar uma pesquisa empírica através do método intensivo e qualitativo, privilegiando a técnica da entrevista semi-directiva e como técnica suplementar ou complementar, a recolha documental para análise, sobretudo para caracterização da área de intervenção (Instituições de apoio a indivíduos alcoolizados).
Neste tipo de estudos de natureza qualitativa não se coloca a questão da representatividade estatística, nem está em jogo a possibilidade de eventuais generalizações por extrapolação, procura-se, isso sim, o carácter exemplar do caso e a sua pertinência sociológica.
Não se adequando para todas as situações, esta opção justifica-se, porque é uma opção que permite a compreensão aprofundada de um dado fenómeno, da sua riqueza, das suas características e dos seus significados.
O fenómeno em causa, deve ser analisado de forma sistemática, intensiva, em profundidade e interactiva, de forma a respeitar todos os aspectos relevantes que o constituem. Neste sentido, e tratando-se de um fenómeno circunscrito a uma determinada área, visa retratar, da forma mais completa possível, uma determinada realidade.
Segundo Sharan Merriam[1], os estudos de caso podem assumir três tipos de características: 1) Descritivo, 2) Interpretativo e 3) Avaliativo.
O primeiro tipo, descritivo, tem detalhadamente em conta o fenómeno estudado, ou seja, não se guia por hipóteses estabelecidas, nem tem como objectivo principal a formulação de hipóteses gerais. O seu objectivo principal é a apresentação de informação básica sobre áreas ainda pouco conhecidas, pouco sujeitas à investigação, sendo que os seus resultados servem sobretudo para posteriores comparações e formulações teóricas.
O tipo, interpretativo, objectiva a descrição do fenómeno, mas os dados são utilizados para desenvolver categorias conceptuais, ou para servir de base a teorias já formuladas. Exige portanto, a existência prévia de teoria, para que as hipóteses possam ser desenvolvidas.
Quanto ao tipo avaliativo, o seu método consiste na componente avaliativa, para além de considerar a descrição e explanação dos fenómenos. A sua finalidade é poder realizar um determinado julgamento a partir de toda a informação tratada.
O objectivo a atingir, consiste numa descrição e interpretação de um fenómeno – perceber e compreender porque é que o consumo de álcool moderado ou inexistente, se torna num consumo de álcool excessivo e perturbador da sociedade, o que está na sua origem, ou melhor, o que motiva determinados indivíduos a entrarem no mundo do consumo excessivo de álcool e quais as suas consequências. Modéstia à parte, este trabalho visa contribuir para a melhor visibilidade de um fenómeno, que a sociedade muitas vezes trata simplesmente a jusante, e não o percebe, a montante.
Sabendo que para este tipo de investigação não interessa isolar e trabalhar variáveis, nem apresentar resultados quantitativos, julga-se que o método mais adequado seja um estudo de natureza interpretativa, que visa sobretudo, compreender o fenómeno na sua totalidade. Para o efeito, este tipo de estudo exige prévia orientação teórica, para que as hipóteses possam ser desenvolvidas, sendo que a recolha de dados tem como objectivo a interpretação ou a teorização do fenómeno.


Vantagens e Desvantagens do Estudo de Caso

Todas as metodologias de investigação, exibem aspectos positivos e negativos, o estudo de caso não foge a esta regra, revelando alguns aspectos menos positivos ou limitativos, mas também algumas vantagens.
O estudo de caso é um método que nos dá uma perspectiva mais rica e alargada de um determinado fenómeno, oferecendo a possibilidade de alargar conhecimentos e experiências, que mais tarde podem conduzir a novas pesquisas. Este tipo de estudo potencia a percepção da dinâmica dos fenómenos, acontecimentos e situações, e o próprio sentido que os mesmos adquirem para os indivíduos neles envolvidos. Tendo em conta a interacção e o envolvimento nas acções.
No entanto, nem tudo são aspectos positivos, existem também algumas críticas a este método, saliento duas que me parecem pertinentes, a primeira tem a ver com a possibilidade de falta de rigor e na própria possibilidade de algum enviesamento das conclusões, aspecto que, diga-se, não é exclusivo deste tipo de metodologia. Um segundo aspecto negativo, remete-nos para a problemática da extrapolação, nomeadamente do facto deste tipo de estudo não permitir generalizações para populações ou universos mais vastos, uma vez que provém de um único caso.
A implicação pessoal do investigador, o carácter de confidencialidade dos dados, a preservação do anonimato dos sujeitos, a distinção entre dados e a interpretação dos mesmos, são algumas das dificuldades encontradas no decorrer do trabalho, que podem ser relativizadas ou ultrapassadas com uma apresentação detalhada, da forma como o estudo foi conduzido e dos seus resultados.
Finalmente há que reter a ideia da dificuldade de realização e interpretação de um estudos de caso, pois ele reflecte em muito, a habilidade, sensibilidade e integridade do investigador, visto que este é o primeiro instrumento de recolha e análise dos dados.

População em estudo

A partir da problemática identificada – O que leva os indivíduos a um consumo excessivo de álcool e as suas consequências, escolheu-se três instituições que acolhem este tipo de indivíduos, para efectuarmos o nosso estudo:

·         Hospital Miguel Bombarda (3 entrevistas)
·         Centro Regional de Alcoologia do Sul (3 entrevistas)
·         Casa de Saúde do Telhal (3 entrevistas)

Na impossibilidade de entrevistar indivíduos na fase aguda do problema alcoólico, optou-se por realizar as entrevistas a indivíduos que estão em fase de recuperação e/ou abstinência total, mas que já passaram por situações de bebedouros excessivos.
Esta situação tem a vantagem de também percebermos as dificuldades de reinserção social, dos próprios indivíduos, que saindo da situação do abuso do álcool, se encontram com dificuldades de arranjar emprego, reconstruir a família, amigos e as dificuldades financeiras, aspectos relevantes neste tipo de indivíduos.

Técnica de Recolha e Tratamento dos Dados

Após a definição da problemática, das hipóteses de partida e da apresentação da população em estudo, torna-se necessária, a escolha de um instrumento que proporcione, no terreno, a melhor recolha de informação.
Como já afirmado anteriormente, os estudos de caso, têm um carácter qualitativo e baseiam-se geralmente em dados obtidos através de entrevistas, observações e análise de documentos.
Neste estudo concreto recorremos a uma abordagem de teor intensivo – realização de 9 entrevistas – cujos dados foram tratados de uma forma qualitativa.
As entrevistas foram realizadas a partir de uma formalização prévia, no qual se estabeleceu, quer a data, quer o local, neste caso, sempre nas instituições que prestam serviço de apoio ao indivíduo, e onde pudemos explicar qual o objectivo das entrevistas, bem como esclarecer o âmbito da investigação em curso.
Solicitámos também autorização para a utilização de um gravador e clarificámos o carácter confidencial de todas as declarações, utilizando para as suas transcrições nomes fictícios de forma à identificação ser praticamente impossível.
As entrevistas tiveram uma duração aproximada de 45 minutos alongando-se sempre que o entrevistado mantivesse um diálogo consistente e elucidativo de toda a sua descrição.
Devido também ao teor das próprias entrevistas, houve necessidade de primeiramente e sem gravador, ter uma conversa cordial, mostrando toda a disponibilidade e abertura da parte do investigador para a necessidade da veracidade de todos os dados, pois só assim, a análise posterior do seu conteúdo poderia ser enriquecedor do próprio trabalho que propunha realizar.

As Entrevistas Semi-Directivas

Decidiu-se efectuar entrevistas semi-directivas porque esta modalidade, através de um plano de entrevista que engloba um guião e um modo de intervenção, permite que:

  •       O entrevistado estruture o seu próprio pensamento
  •       Se limite o objecto, evitando divagações
  •       Se aprofundem certos pontos que o próprio entrevistado não teria explicitado de forma autónoma

Sabendo que estas são as principais vantagens deste método, não queria deixar também de salientar alguns problemas e algumas desvantagens do método da recolha por entrevista, que conforme Quivy e Campenhoudt[1],  nos indica:

Ø  A própria flexibilidade do método pode intimidar aqueles que não consigam trabalhar com serenidade sem directivas técnicas precisas, inversamente, outros podem pensar que esta relativa flexibilidade os autoriza a conversarem de qualquer maneira com os interlocutores;

Ø  Ao contrário, por exemplo, dos inquéritos por questionário, os elementos de informação e de reflexão recolhidos pelo método da entrevista não se apresentam imediatamente sob a forma que requeira um modo de análise particular;

Ø  O aspecto mais fundamental, por fim, é o facto de a flexibilidade do método poder levar a acreditar numa completa espontaneidade do entrevistado e numa total neutralidade do investigador.

Um outro aspecto interessante a salientar neste tipo de método, consiste no facto de que para se tirar o melhor partido na recolha dos dados, o investigador tem de dominar bem o tema e ter lucidez epistemologica, ou seja, bons conhecimentos teóricos, práticos e uma boa formação nas técnicas de entrevista.
Segundo Rodolphe Ghiglione e Benjamin Matalon[2] (2001: 88,89) a entrevista semidirectiva, é adequada para aprofundar um determinado domínio (como é o caso), ou verificar a evolução de um domínio já conhecido, pressupondo uma abordagem livre dos temas.
Por outro lado as principais técnicas a utilizar neste tipo de entrevistas são essencialmente quatro:

·         Linguagem acessível;
·         Tema estimulante para o entrevistado;
·         Definição clara dos papeis;
·         Recolha de informação o mais alargada possível.

Muito importante é, também logo de início,  definir bem o papel de cada um, do entrevistador, por um lado, e do entrevistado por outro, fazendo também, aquilo que nos dizem Rodolphe Ghiglione e Benjamin Matalon[3]: identificação do entrevistador, objectivo da investigação, o intuito e o objectivo da entrevista. Explicar porque foi escolhido (a), ou seja, as modalidades da amostragem, o método da recolha de dados (gravação, escrita, etc,) e a duração da entrevista. É também importante insistir-se nas regras deontológicas da profissão, nomeadamente na noção de anonimato do entrevistado, bem como na noção de anonimato do seu discurso.
Finalmente a atitude do entrevistador é muito importante, devendo ao longo da entrevista ser um ouvinte atento, procurar constantemente compreender o que é dito e ter uma atitude não crítica e de não avaliação. Só desta forma estaremos prontos para realizar uma entrevista semi-directiva.
Neste caso o guião da entrevista (que se apresenta em Anexo….), teve mais uma “função de enquadramento” e teve como objectivo delimitar o campo da investigação, com a finalidade de explorar as situações mais relevantes, e a recolha dos dados com a profundidade desejada para posterior análise e interpretação, face aos contributos teóricos mais significativos. Não se introduziu qualquer tipo de questão fechada, cujas respostas fossem “sim” ou “não”. Antes pelo contrário, recorreu-se a questões abertas, para que os entrevistados pudessem falar livre e abertamente sobre os assuntos específicos à medida que fossem surgindo.
Estas entrevistas propiciaram a recolha, para posterior análise, de uma diversidade de informação relativa a percursos e representações, interacções e opiniões que, de acordo com as metodologias qualitativas, são essenciais para a manutenção da fidelidade do próprio discurso dos sujeitos, de forma a deixar transparecer a evidência da análise efectuada.
A recolha da informação foi sujeita a uma análise transversal com o propósito de agrupar nas categorias presentes na grelha de análise construída, de forma a se proceder a uma organização dos dados recolhidos. Este trabalho conduziu à organização de um quadro de conteúdos, a partir do qual foram elaboradas fichas de análise com transcrições de afirmações e opiniões dos entrevistados (Ver Anexo…)


[1] QUIVY, Raymond, CAMPENHOUDT, Lucvan. (1998), Manual de investigação em ciências sociais, Lisboa, Gradiva, (2ª edição), pp. 194 – 195.
[2] GHIGLIONE, Rodolphe, MATALON, Benjamim, (1995), O inquérito: Teoria e Prática, Oeiras, Celta, p. 88 – 89.
[3] GHIGLIONE, Rodolphe, MATALON, Benjamim, (1995), O inquérito: Teoria e Prática, Oeiras, Celta, p. 88 – 89.

[1] MERRIAM, Sharan, (1988), Case Study Research in Education: A Qualitative Approach, São Francisco e Londres, Jossey-Bass Publishers.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - METODOLOGIAS E TÉCNICAS DE PESQUISA

      Entrevistas Exploratórias

Uma das instituições que recebe mais indivíduos alcoólicos, na grande área de Lisboa, é o Hospital Miguel Bombarda, que tem uma valência própria para o efeito, desde a simples consulta até ao internamento, desintoxicação e acompanhamento dos doentes recuperados.
O facto destas instituições abarcarem uma grande diversidade de população, e tratando-se de uma instituição pública, limita de certa forma uma camada de consumidores excessivos, cujo nível social é mais elevado.
Entrevistei a Directora do Serviço de Alcoologia, a Dra. Teresa Mota, que se disponibilizou para falar da instituição, do seu funcionamento, do apoio que é dado e mais do que tudo isso, da sua experiência com indivíduos em que o consumo de álcool é o seu primeiro motivo de vida.
Em termos de instituição, a recepção destes indivíduos dá-se por várias formas, desde o encaminhamento pelos clínicos gerais, acordos com entidades patronais, como é o caso da Carris, que por razões óbvias, os seus trabalhadores têm de manter graus de abstinência elevados, até ao simples “boca a boca”, onde o indivíduo se inscreve, basicamente, para obter uma primeira consulta da especialidade.
O internamento é estruturado em quatro semanas. Após a desintoxicação física, que é a mais fácil, há que tratar da “parte psicológica e reinserção social, normalmente a mais complicada, onde eles por vezes, já perderam os empregos, a família, divórcios ou abandonos, caindo em situações de “sem abrigo”, são realmente quadros difíceis e os recursos são escassos”.
Saliento também o facto de que embora apareçam mais homens do que mulheres, nota-se um aumento significativo de mulheres, sendo o seu perfil totalmente distinto, pois os homens são mais conformados com a bebida, a mulher “é um beber envergonhado, bebe dentro de casa, o vinho da culinária, às escondidas, pelo que normalmente chegam muito mais sem apoios, e pior que o homem, chegam fisicamente mais debilitadas, em virtude da sua massa corporal ser menor, ou seja, são mais sensíveis aos efeitos nocivos do álcool”.
Quanto às idades, a faixa mais habitual é entre os trinta e quarenta anos, embora apareçam jovens dos dezassete, dezoito anos, “o que é assustador, embora nesses casos, seja muito raro um alcoolismo já com dependência, é raro, se atendermos que começam a consumir aos catorze, quinze anos, é muito difícil aos dezoito, dezanove anos, já estarem numa dependência muito grande, mas acontecem, especialmente se forem pessoas da região norte, que começam com as “sopas do cavalo cansado"[1], e chegam-nos completamente dependentes, aos dezanove anos”.
No que respeita ao tipo de profissões, devido à localização do Hospital Miguel Bombarda, “a grande maioria são pessoas da construção civil, muitas pessoas da hotelaria, são profissões de risco, aparecem alguns licenciados, mas as pessoas com um maior poder económico vão para clínicas, não se voltam para aqui, embora apareçam algumas profissões com diferenciação, mas de facto a grande maioria, são indivíduos da construção civil e hotelaria”.
Para a realização do meu trabalho, interessou-me questionar, se estes indivíduos têm alguma dificuldade em contar as suas histórias de vida. E neste aspecto a entrevistada foi peremptória, “ quando realmente admitem que têm um problema, e pedem ajuda, contam com alguma facilidade as histórias de vida. Há muitas histórias dramáticas.”.
O Hospital Miguel Bombarda, recebe todo o tipo de alcoólicos, mesmo aqueles que porventura possam chegar com outro tipo de doença. Neste caso, são encaminhados para enfermarias específicas. “Não há motivo nenhum para não se receber um esquizofrénico que também beba bebidas alcoólicas em excesso, desde que ele na parte psicótica esteja compensado”.
O Hospital tem psicólogos que seguem semanalmente ou mensalmente os doentes recuperados, há grupos de auto-ajuda pós-alta, onde são preparados para lidar com a abstinência, o desejo de voltar a consumir álcool e a própria reinserção social.
Em conclusão é muito interessante a sua posição sobre o consumo excessivo de álcool, “o alcoolismo apresenta por vezes grandes dificuldades de tratamento, porque é uma droga culturalmente aceite, faz parte da nossa cultura, somos um país produtor, toda a gente bebe, é fácil, é barato, é acessível. Existe muita publicidade enganosa, que nos mostra gente feliz a beber álcool, desinibida e rodeada normalmente de gente bonita, tudo factores interessantes que motivam as pessoas a beber álcool, é de facto dramático, e se numa primeira fase, descontrai, os seus efeitos, depois, são muito graves”.

Uma segunda instituição onde incidiu o estudo, foi o CRAS – Centro Regional de Alcoologia do Sul, talvez o mais emblemático de Lisboa, construído com subsídios da Calouste Gulbenkian, e gozando de perfeita autonomia em relação aos hospitais psiquiátricos, outrora responsáveis também pela valência de alcoologia.
Abarca uma área que vai desde Lisboa e Vale do Tejo, até ao Algarve, passando pelo Alentejo. Esta instituição não tem serviço de urgência, apenas consultas externas e internamento.
Entrevistei a responsável do Centro, a Dra. Ana Vieira da Silva, que a este respeito me disse, “O internamento tem uma componente de desintoxicação física, mas basicamente, tem uma parte importante de trabalho psicológico, os doentes têm de cumprir as tarefas terapêuticas, têm de assistir às palestras, aos grupos terapêuticos, saem para reuniões de alcoólicos anónimos, em grupos de três e são responsáveis uns pelos outros”.
Qualquer indivíduo que chegue com outro tipo de doenças que possa pôr em risco os restantes, não poderá ser recebido, como foi salientado, “Casos graves de descompensação física não podem vir para cá. Tuberculoses, desde que as pessoas estejam em tratamento, que não estejam em fase contagiosa, recebemos, de outra forma não”.
Quanto ao facto da existência de mais mulheres ou homens consumidores de bebidas alcoólicas, a posição da Dra. Ana Vieira da Silva, é muito clara, quando afirma, “Hoje em dia, eu penso que essas diferenças se esbateram muito, nós vemos nas mesas dos cafés, as mulheres a beber da mesma forma, o que não se via dantes. Provavelmente a emancipação das mulheres também foi paras as coisas más, o tabaco e o álcool…”.
Quanto à média de idades, como o CRAS é um serviço exclusivamente para adultos, não recebe adolescentes, pelo que, “maioritariamente é na casa dos quarenta anos…”.
A forma mais frequente destes indivíduos chegarem ao CRAS, é, “…pressionados pelas famílias, local de trabalho, muita gente também pelos serviços sociais, médico de família, ou até mesmo pelo rendimento de inserção social, que algumas vezes tem uma cláusula que para atribuição do rendimento têm que fazer um tratamento nesta área…”.
Quanto a recaídas e a posterior acompanhamento deste doentes após o internamento, a Dra. Ana Vieira da Silva, foi peremptória, “A recaída também faz um bocadinho parte da própria doença, as recaídas fazem parte da história clínica de muitos doentes”.
Quanto ao acompanhamento, normalmente os técnicos que o fazem têm perfeita percepção de quando os indivíduos começam a deixar de frequentar as reuniões, começa a haver indicadores de que se está a preparar uma recaída. No entanto, no CRAS, dizem-nos “Não temos o hábito, nem sequer achamos que seja correcto fazê-lo, quando as pessoas faltam, telefonar a saber o que se passou”.
Finalmente, questionei a entrevistada sobre o que faz efectivamente as pessoas consumirem excessivamente álcool, e de imediato obtive a seguinte resposta, “esta é uma das questões mais difíceis de explicar”. No entanto adianta, Provavelmente a parte que tem um peso maior são os factores ambientais e muito, a disponibilidade do álcool, numa sociedade como a nossa, em que tudo é motivo para consumir, se estamos contentes, bebemos para comemorar, se estamos tristes, bebemos para nos alegrar, e portanto todos os nossos rituais são ligados ao consumo de álcool. Depois devem ser raras as famílias em Portugal, que não consomem diariamente álcool, portanto todas as nossas crianças estão habituadas a ver, o consumo de álcool”.
A responsável do CRAS, embora considere o alcoolismo como pertencente ao grupo de doenças primárias, ou seja, se a pessoa nunca beber, nunca desenvolverá a doença, elege os factores ambientais como os principais desencadeadores do consumo e dependência alcoólica, embora no caso das mulheres, diga, “…embora algumas pessoas recorram ao álcool como anti-depressivo, para se libertarem, sobretudo as mulheres, mas como o álcool também contribui para a depressão, entra-se aqui no círculo vicioso”.
Faz no entanto uma clara distinção entre os consumidores mais velhos e os novos consumidores, pois enquanto os mais velhos unicamente consumiam bebidas alcoólicas, os mais jovens já são poli-consumidores ou utilizam o álcool em substituição de outras substâncias.

Finalmente, a terceira instituição escolhida, foi a Casa de Saúde do Telhal, uma instituição privada, pertencente à Ordem Hospitaleira de São João de Deus. Foi seu fundador o Dr. Pompeu e Silva, que também impulsionou e trabalhou no Centro Regional de Alcoologia do Sul (CRAS).
A Casa de Saúde do Telhal tem várias valências, sendo a área de alcoologia assegurada pela Clínica Novo Rumo.
Esta Clínica tem algumas especificidades próprias, conforme salientou a Dra. Margarida Neto, que começou por dizer, “A entrada é feita em grupos, até há uns anos atrás era individual, agora vai-se constituindo grupos até dez doentes, a partir da consulta externa, a entrada por grupos permite o desenrolar do nosso programa de tratamento, que é um programa biopsico-social, com intervenções de vários técnicos”.
Quanto ao acompanhamento pós alta, após as quatro semanas de tratamento é feito durante três anos nas consultas externas, “com um incentivo grande na vinda às consultas, as consultas são gratuitas, nós não somos do Estado, portanto o internamento é pago pelo Serviço Nacional de Saúde, mas as consultas externas são pagas à parte, no entanto no primeiro ano a seguir ao internamento e por encorajamento da casa, são gratuitas, para que não haja esse obstáculo, do desaparecimento das pessoas”.
Tal como no CRAS, os internamentos são sempre efectuados a partir das consultas externas, sendo os seus critérios iguais aos que outros têm em relação ao álcool, “… a gravidade, tendências suicidas, conflitos familiares graves”.
Quanto à diferença entre homens e mulheres, a Dra. Margarida Neto é peremptória, “Há uma subida impressionante no número de mulheres, posso dizer que temos uma enfermaria só de mulheres. Há mais consulta do que internamentos de mulheres, as mulheres têm mais dificuldade em serem internadas, existe muitas vezes os filhos, o marido, etc., mas tem sido uma subida exponencial, impressionante”.
Quanto à média de idades, refere que esta tem vindo a descer, mas tal como no CRAS, são uma instituição para adultos e por isso não recebem indivíduos com idades inferiores a dezoito anos.
Com respeito aos indivíduos consumidores “sem abrigo”, refere que “… acontecem mais no estado, entram pela urgência, nós aqui não temos urgência, para virem à consulta têm que pagar. Os que recebem não os consideramos “sem abrigo”, porque podem ser quando aqui chegam, mas nós não internamos doentes para quem não exista um projecto de saída, portanto até podem vir da rua, mas ao chegarem aqui e ao se determinar o internamento, deixa de ser um “sem abrigo”, porque a gente sabe para onde vai quando sair daqui, nunca dei uma alta para um doente ir para a rua”.
Tal como noutros centros de alcoologia, a maioria não têm emprego, estão com a família ou amigos e se tiverem outro tipo de doença que ponha em causa os restantes elementos, não podem ser recebidos, sem antes se tratarem.
Como já foi referido, o seguimento destes indivíduos após alta, é feito em consultas externas, durante três anos. No entanto e ao contrário do CRAS, por vezes telefonam para aqueles que deixam de aparecer às consultas.
Finalmente, também a Dra. Margarida Neto, elege os factores culturais para o consumo de álcool, diz, “É uma cultura favorável ao álcool, são hábitos que permanecem de infância e adolescência, a pressão dos pares e as questões emocionais, as depressões sobretudo”, e acaba dizendo, “A maior toxicodependência em Portugal é o álcool, mas anda tudo preocupado com a heroína. Morrem em Portugal vinte a vinte cinco pessoas por dia, por causa do álcool, directa ou indirectamente”.


[1] Termo utilizado para uma espécie de refeição, que consiste em se deitar num prato de sopa, ou numa malga, bocados de pão e regá-los, generosamente, com vinho. Há quem acrescente um pouco de leite.


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Às Voltas com a Memória: PAVÃO (n. 12 Ago. 1947; m. 16 Dez. 1973)

Fernando Pascoal das Neves, mais conhecido por: “Pavão”, nasceu em Chaves no dia 12 de Agosto de 1947.
Começou a jogar futebol no Desportivo de Chaves onde deu nas vistas e em 1964 foi jogar para os juniores do Futebol clube do Porto. Logo no ano seguinte passou para a equipa principal orientada na altura por Flávio Costa, e fez a sua estreia a titular num jogo contra o Benfica com apenas 18 anos.
Mas foi com a chegada do treinador José Maria Pedroto que Pavão ganhou de maneira definitiva a titularidade e para além de ser o jogador mais jovem do plantel foi o escolhido para ser capitão.
O ponto alto da sua curta carreira como futebolista aconteceu na época de 1967/68 ao ajudar o FC Porto a conquistar a Taça de Portugal ao derrotar na final o Vitória de Setúbal por 2-1.
Falava-se que ia para Inglaterra jogar para o Manchester United, e que tinha planos para abrir um “pub” na Praça Velásquez. Todo isso terminou ao minuto 13 da 13ª jornada do campeonato de 1973 no dia 16 de Dezembro, quando depois de fazer um passe para Oliveira, Pavão caiu e não se levantou mais. Foi levado para o hospital de S.João onde 1 hora e meia depois foi anunciada a sua morte. O jogo continuou e o FC Porto venceu por 2-0.
No final quando se soube que Pavão tinha morrido, o silêncio tomou conta das pessoas que enchiam as bancadas ao mesmo tempo que os jogadores procuravam consolo nos colegas. Foi esse o dia mais triste do Estádio das Antas e um dia que ainda hoje muitos portistas ainda não esqueceram.
A Fernando Pascoal das Neves ainda ninguém chamava Pavão.Era Nandito. Pequenino mas galhardo, que nos jogos com rapazio de maior idade não deixava os seus créditos por pernas alheias. Quando em 1958 terminou a escola primária fez exame de admissão aos liceus, chumbou. O pai decidiu, então, que por castigo iria trabalhar e que só voltaria à escola quando tivesse idade para inscrever-se no curso nocturno. Para empregado de balcão foi.  Pavão, como já então todos apotavam, porque tendo peitaça de maratonista gostava de a exibir de braços abertos, vivia na rebeldia solta dos seus 11 anos, abespinhou-se ao ver cliente daquelas a quem nada agrada e tudo deprecia, mofou dela em voz alta, foi de imediato despedido. Era o que queria. Ficou, assim, ainda com mais tempo para os jogos de bola, umas vezes no Canto do Rio, outras no Tabolado, quando o largo nada mais era que um extenso descampado. António Feliciano, a mais famosa das torres de Belém, treinava o Desportivo de Chaves. Como decidira fazer no clube uma escola de jogadores — era paixão que já lhe fervia... — cirandou pela cidade, espiolhando os jogos vadios da petizada, à cata de talentos. Depressa se encantou do jeito de Pavão, levando-o, naturalmente, para a sua escola. Tinha 13 anos.
Como contrapartida pela autorização para jogar futebol o pai convenceu-o a matricular-se nas aulas nocturnas do Curso de Aprendizagem do Comércio. O desporto era paixão cada vez mais ardente. Não só o futebol. O atletismo também. Para as corridas pensou inscrever-se nos campeonatos da Mocidade Portuguesa, mas como era aluno nocturno, impediram-no. Jurou que haveria de voltar às aulas diurnas, deitou-se sozinho aos estudos, fez exame do ciclo preparatório, aprovou. Era assim — pertinaz, lutador. Passando a frequentar o Curso Geral do Comércio, nas aulas diurnas, inscreveu-se, então, nas secções de atletismo, de voleibol e de andebol da Mocidade Portuguesa, sem que isso o fizesse abandonar, naturalmente, a prática do futebol.
Existindo uma vaga no cargo de professor de ginástica na Escola Comercial de Chaves, apesar de não possuir qualquer diploma que o habilitasse como tal, António Feliciano conseguiu autorização para preencher essa vaga, com duplo objectivo: podia assim servir os jovens flavienses, ministrando-lhes lições de educação física, de acordo com os seus conhecimentos e experiência e, ao mesmo tempo, conseguia estar mais perto dos seus pupilos, que em grande parte frequentavam aquele estabelecimento de ensino. Tal era o entusiasmo de Pavão e de todos os seus colegas que, quando as aulas terminavam, punham-se todos a correr atrás do automóvel do professor Feliciano, da escola ao estádio! Chamavam-lhe o treino de fôlego. Com esse espírito e com o talento que já revelara, foi sem surpresa que, em 1966, saltou de Chaves para o F. C. Porto. O destino dar-lhe-ia, contudo, pouco tempo para brilhar... Os mistérios da morte no estádio. Em 1973, para substituir Riera, Américo de Sá contratara Béla Guttmann. Ao minuto 13 da jornada 13 daquele frio Dezembro de 1973, durante o jogo F. C. Porto-V. Setúbal, Pavão estatelou-se no relvado, em estado de coma ficou, num ápice. Conduzido ao Hospital de São João, fizeram-lhe electrochoques, mas hora e meia depois tinha falecido. José Santana, médico portista, admitiu, então, que a tragédia se devesse à «rotura de vaso sanguíneo, talvez em virtude de uma cabeçada na bola». Mas como o treinador do F. C. Porto era Béla Guttmann — que para além do chazinho, adquirira, ainda nos seus tempos de sucesso no Benfica, fama de dar aos pupilos, antes dos jogos, amiúde escondido na sopa, um comprimido, que jurava serem apenas vitaminas — logo se acastelaram suspeitas. De boca em boca voltou a correr a rábula da mulher de Costa Pereira: em vésperas de um Benfica-Manchester, para a Taça dos Campeões, decidira levar os jogadores ao cinema, mas a caminho da sala surgira-lhe a senhora, descabelada, acusando-o de estar a destruir-lhe o marido com aqueles comprimidos, que lhe faziam as noites brancas, com estranhos pesadelos, estranhas euforias... Em surdina se haveria de saber que a necrópsia revelara derrames das cápsulas suprarenais, provocados, possivelmente, por uma descarga brusca de adrenalina, produzida em excesso. Porquê a descarga brusca de adrenalina? Isso ninguém explicara, ninguém explicaria...
Tudo isso ia servindo de pábulo para suspeições que se sussuravam um pouco por todo o lado, mas sobretudo pelas congostas da má-língua. Na certidão de óbito se declarava que a morte de Fernando Pascoal das Neves se devera a estenose aórtica congénita, doença que o impediria de jogar futebol e só por negligência continuava a fazê-lo. Ou seja, Alberto José de Almeida, o médico que pela última vez o examinara no Centro de Medicina do Porto, ficava com a espada de Dâmocles sobre a sua cabeça.
Acabou salvo pela Polícia Judiciária, que o ilibaria, rejeitando a hipótese de o falecimento se dever a estenose aórtica. E, estranhamente, para muita gente, a talho de foice, a PJ concluiu que não fora pelo uso de substâncias estimulantes que Pavão morrera. Pelo que se arquivou o processo, mas não se afastaram as cortinas de fumo.
Pavão deixara órfã filha pequenina. O F. C. Porto de Américo de Sá prometeu ajudar a família, que bem precisava, já que todas as economias tinham sido aplicadas num pub, na Avenida Velasquez, mesmo à beirinha do Estádio das Antas, que seria sonho de Pavão que com ele morreria. Ajudou pouco. A mulher empregou-se no Estado, mais por mérito seu que por outra coisa. A filha, Cristina, só teria os estudos pagos quando Pinto da Costa assumiu a presidência do F. C. Porto... O olho vivo de Pedroto. Corria o ano de 1964 quando a Artur Baeta, responsável pelas camadas jovens do F. C.
Porto, chegaram notícias do talento de Pavão, por quem os benfiquistas já se tinham enamorado. Por 300 contos os portistas ganharam a corrida. Um ano depois era promovido à equipa de honra do F. C. Porto, por Flávio Costa. Depressa revelaria excelente técnica e invulgar capacidade táctica, que faziam dele estratego de um tipo de futebol que, por essa altura, se considerava... moderno, inspirado, sobretudo, na escola brasileira dos campeões do Mundo. Para lhe examinar o perfil psicológico em teste de fogo, lançou-o como titular contra o... Benfica. Pavão não se apoquentou, assinando exibição excepcional. Tinha 18 anos. Os elogios talvez o tenham enebriado e a sua chama entrou em tremulina. Flávio Costa sujeitou-o, então, ao sacrifício do banco. Assim estava quando Pedroto regressou às Antas, na ânsia de resgatar o clube do caminho de escolhos e mágoas em que caíra. Bom psicólogo e astuto treinador, recuperou Pavão de um dia para o outro e fez dele a pedra-de-toque da sua aposta, tomando até a ousadia de fazer do mais jovem jogador da equipa seu... capitão.


A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ENQUADRAMENTO METODOLÓGICO

Falando de Conceitos

Revisitando o “velho” conceito de Alcoolismo

A noção de alcoolismo como doença, e não apenas como vício, desenvolve-se na segunda metade do século XIX em França. A França foi um dos primeiros países em que mais cedo se começou a valorizar o crescente consumo médio de álcool, havendo uma certa preocupação com os consumos anuais por pessoa e a elevada proporção do número de tabernas por habitante.
A consciencialização do perigo que tais factos representavam para a saúde pública e para a própria sociedade, bem como os progressos no conhecimento dos seus efeitos sobre o sistema nervoso estiveram certamente na base de uma abordagem científica dos problemas ligados ao consumo de álcool.
A partir de então, várias definições de alcoolismo têm surgido, sem que nenhuma satisfaça plenamente.
Já em1940, a escola americana de Jellinek, atenta à extensão dos problemas relacionados com o consumo de álcool, à sua complexidade, e à multiplicidade de interacções de forças e vectores na sua origem, deu passos nesse sentido, fazendo colaborar pela primeira vez, em estudos sobre Alcoolismo, médicos, sociólogos, psicólogos, juristas e economistas. Nas primeiras comunicações internacionais surgiu um novo conceito, alargado, de alcoolismo e apontam-se as vantagens da colaboração interdisciplinar.
Em 1945, este movimento, científico sobre o alcoolismo estende-se a toda a Europa, surgindo em França o CNDCA – Comité National de Defense Contre l’Alcoolisme, e na Suiça o ICCA – International Council on Alcohol and Addictions, mas é à OMS – Organização Mundial de Saúde que se deve o grande empenhamento na definição da problemática ligada ao álcool.
Em 1955, Pierre Fouquet, ao fazer uma revisão de trabalho sobre o assunto, concluía que o conceito de alcoolismo, seus fundamentos e sua realidade, tinham noções muito pouco claras.
Em muitos casos o conceito de alcoolismo seguiu caminhos mais propriamente de classificações do que uma definição concreta.
Quase meio século volvido, as mesmas dificuldades persistem, embora nos últimos anos de investigação, se tenha vindo a propiciar uma renovada compreensão do fenómeno de alcoolização e do consumidor excessivo de álcool.


O “novo” conceito de Alcoolismo

Na realidade, definir o conceito que vulgarmente é designado por Alcoolismo, limitando-se aos efeitos do consumo excessivo e prolongado de bebidas alcoólicas, que acaba por determinar um estado de “dependência” do álcool, responsável por doença física, e psíquica do indivíduo, não tem satisfeito aqueles que encaram o álcool como causa, associada ou não, a outro tipo de patologia, não só individual mas também colectiva, e respeitante à saúde pública.
É o caso, por exemplo, dos efeitos do álcool sobre a condução rodoviária, a criminalidade, as perturbações familiares e os seus efeitos sobre as crianças – concepção, gestação, aleitamento, desenvolvimento e rendimento escolar.
Entre as numerosas definições que se ficaram a dever à OMS, destaca-se a que considera o alcoolismo como doença e o alcoólico como doente, fazendo referência a extensas repercussões do mal, para além das respeitantes directamente ao indivíduo e à possibilidade de tratamento.
Eis a definição de alcoolismo da OMS:

            “Alcoolismo não constitui uma entidade nosológica definida,
            mas a totalidade  dos  problemas  motivados pelo álcool, no
            indivíduo,  estendendo-se   em  vários  planos  e  causando
            perturbações  orgânicas  e  psíquicas, perturbações da vida
            familiar,  profissional  e  social,  com  as  suas repercussões
            económicas, legais e morais”.

Por outro lado, a OMS, definiu os Alcoólicos, como:

            “Bebedouros  excessivos,  cuja  dependência em relação ao
            álcool  se  acompanha  de  perturbações  mentais,  da saúde
            física,  da  relação  com  os  outros  e do seu comportamento
            social e económico. Devem submeter-se a tratamento”.

Em 1982, a OMS num documento de trabalho preparado para a “Discussão de Técnicas sobre Alcoolismo”, que teve lugar no âmbito da 35ª Assembleia Mundial de Saúde, refere uma outra definição, de alcoolismo, como sendo:

            “Problemas ligados ao álcool, ou simplesmente problemas de
            álcool, é uma expressão imprecisa mas cada vez mais usada
            para  designar   as  consequências  nocivas  do  consumo  de
            álcool. Estas  consequências  atingem não só o bebedor, mas
            também a família e a colectividade em geral. As perturbações
            causadas podem ser físicas, mentais ou sociais e resultam de
            episódios agudos, de um  consumo excessivo ou inoportuno,
            ou de um consumo prolongado”.

Esta perspectiva mais alargada ultrapassa o simples conceito de alcoolismo como doença, ou seja, os problemas ligados à dependência alcoólica, se bem que extensos e graves, não representam senão uma pequena parte de todos os problemas ligados ao álcool.
Mais do que uma ciência nova, a Alcoologia, tal como foi apontada por Fouquet[1], é uma nova forma de perspectivar um problema complexo e vasto, sob uma forma de abordagem diferente, mais actual e mais adequada, podendo ser definida como:

            “Disciplina consagrada a tudo aquilo que diz respeito ao álcool
            etílico,  quanto  a:  produção,  distribuição,  consumo  normal e
            patológico e implicações deste, suas causas e  consequências,
            quer a nível individual  (orgânico, psicológico e espiritual), quer
            a  nível  colectivo  (nacional  e internacional, social, económico
            e jurídico)”.
           
Mais acrescenta Fouquet:

            “Esta   disciplina,   autónoma,   serve-se,  para  instrumento  de
            conhecimento,  das  principais  ciências humanas, económicas,
            jurídicas e médicas,  encontrando  na  sua  evolução  dinâmica
            as suas próprias leis”.


[1] FOUQUET, Pierre, BORDE, Martine de, (1985), Le Roman de l’álcool, Paris, Seghers.