terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Os "Pais" da SOCIOLOGIA: ÉMILE DURKHEIM (n. 15 Abr.1858; m. 15 Nov.1917)

Émile Durkheim nasceu em Épinal, na Alsácia no dia 15 de Abril de 1858. Descendente de uma família judia. Iniciou os seus estudos filosóficos na Escola Normal Superior de Paris, indo depois para Alemanha. Ainda moço decidiu não seguir o caminho dos familiares levando, pelo contrário, uma vida bastante secular. Na sua obra, por exemplo, explicava os fenómenos religiosos a partir de factores sociais e não divinos. Tal facto não o afastou, no entanto, da comunidade judaica. Muitos de seus colaboradores, entre eles seu sobrinho Marcel Mauss formaram um grupo que ficou conhecido como escola sociológica francesa. Entrou na “École Normale Supérieure” em 1879 juntamente com Jean Jaurès e Henri Bergson. Durante estes estudos teve contactos com as obras de Augusto Comte e Herbert Spencer que o influenciaram significativamente na tentativa de buscar a cientificidade no estudo das humanidades.
Fundou também a revista L'Année Sociologique, que afirmou a preeminência durkheimiana no mundo inteiro.
É considerado um dos pais da sociologia moderna. Durkheim foi o fundador da escola francesa de sociologia, posterior a Marx, que combinava a pesquisa empírica com a teoria sociológica. É amplamente reconhecido como um dos melhores teóricos do conceito da coesão social.
Partindo da afirmação de que "os factos sociais devem ser tratados como coisas", forneceu uma definição do normal e do patológico aplicada a cada sociedade, em que o normal seria aquilo que é ao mesmo tempo obrigatório para o indivíduo e superior a ele, o que significa que a sociedade e a consciência colectiva são entidades morais, antes mesmo de terem uma existência tangível. Essa preponderância da sociedade sobre o indivíduo deve permitir a realização desse, desde que consiga integrar-se a essa estrutura.
Para que reine certo consenso nessa sociedade, deve-se favorecer o aparecimento de uma solidariedade entre seus membros. Uma vez que a solidariedade varia segundo o grau de modernidade da sociedade, a norma moral tende a tornar-se norma jurídica, pois é preciso definir, numa sociedade moderna, regras de cooperação e troca de serviços entre os que participam do trabalho colectivo (preponderância progressiva da solidariedade orgânica).
Durkheim formou-se em Filosofia, porém a sua obra inteira é dedicada à Sociologia. O seu principal trabalho é na reflexão e no reconhecimento da existência de uma "Consciência Colectiva". Ele parte do princípio que o homem seria apenas um animal selvagem que só se tornou Humano porque se tornou sociável, ou seja, foi capaz de aprender hábitos e costumes característicos de seu grupo social para poder conviver no meio deste.
A este processo de aprendizagem, Durkheim chamou de "Socialização", a consciência colectiva seria então formada durante a nossa socialização e seria composta por tudo aquilo que habita nossas mentes e que serve para nos orientar como devemos ser, sentir e nos comportar. E esse "tudo" ele chamou de "Factos Sociais", e disse que esses eram os verdadeiros objectos de estudo da Sociologia.
Nem tudo o que uma pessoa faz é um facto social, para ser um facto social tem de atender a três características: generalidade, exterioridade e coercibilidade. Isto é, o que as pessoas sentem, pensam ou fazem independente de suas vontades individuais, é um comportamento estabelecido pela sociedade. Não é algo que seja imposto especificamente a alguém, é algo que já estava lá antes e que continua depois e que não dá margem a escolhas.
O mérito de Durkheim aumenta ainda mais quando publica seu livro "As regras do método sociológico", onde define uma metodologia de estudo, que embora sendo em boa parte extraída das ciências naturais, dá seriedade à nova ciência. Era necessário revelar as leis que regem o comportamento social, ou seja, o que comanda os factos sociais.
Nos seus estudos, os quais serviram de pontos expiatórios para os inícios de debates contra Gabriel Tarde (o que perdurou praticamente até o fim de sua carreira), ele concluiu que os factos sociais atingem toda a sociedade, o que só é possível se admitirmos que a sociedade é um todo integrado. Se tudo na sociedade está interligado, qualquer alteração afecta toda a sociedade, o que quer dizer que se algo não vai bem nalgum sector da sociedade, toda ela sentirá o efeito. Partindo deste raciocínio ele desenvolve dois dos seus principais conceitos: Instituição social e Anomia.
A instituição social é um mecanismo de protecção da sociedade, é o conjunto de regras e procedimentos padronizados socialmente, reconhecidos, aceites e sancionados pela sociedade, cuja importância estratégica é manter a organização do grupo e satisfazer as necessidades dos indivíduos que dele participam. As instituições são, portanto, conservadoras por essência, quer seja família, escola, governo, polícia ou qualquer outra, elas agem fazendo força contra as mudanças, pela manutenção da ordem.
Durkheim deixa bem claro na sua obra, o quanto acredita que essas instituições são valorosas e parte em sua defesa, o que o deixou com uma certa reputação de conservador, que durante muitos anos causou antipatia a sua obra. Mas Durkheim não pode ser meramente tachado de conservador, a sua defesa das instituições baseia-se num ponto fundamental, o ser humano necessita sentir-se seguro, protegido e nivelado. Uma sociedade sem regras claras (num conceito do próprio Durkheim, "em estado de anomia"), sem valores, sem limites leva o ser humano ao desespero. Preocupado com esse desespero, Durkheim dedicou-se ao estudo da criminalidade, do suicídio e da religião. O homem que inovou construindo uma nova ciência inovava novamente preocupando-se com factores psicológicos, antes da existência da Psicologia. Os seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da obra de outro grande homem: Freud.
Basta uma rápida observação do contexto histórico do século XIX, para se perceber que as instituições sociais encontravam-se enfraquecidas, havia muito questionamento, valores tradicionais eram rompidos e novos surgiam, muita gente vivendo em condições miseráveis, desempregados, doentes e marginalizados. Ora, numa sociedade integrada essa gente não podia ser ignorada, de uma forma ou de outra, toda a sociedade estava ou iria sofrer as consequências. Aos problemas que ele observou, ele considerou como patologia social, e chamou aquela sociedade doente de "Anomia". A anomia (procura sintetizar a ideia de que o progresso constitui uma ameaça às estruturas éticas e sociais), era a grande inimiga da sociedade, algo que devia ser vencido, e a sociologia era o meio para isso. O papel do sociólogo seria, portanto, estudar, entender e ajudar a sociedade.
Na tentativa de "curar" a sociedade da anomia, Durkheim escreve "Da divisão do trabalho social", onde ele descreve a necessidade de se estabelecer uma solidariedade orgânica entre os membros da sociedade. A solução estaria em, seguindo o exemplo de um organismo biológico, onde cada órgão tem uma função e depende dos outros para sobreviver, se cada membro da sociedade exercer uma função na divisão do trabalho, ele será obrigado através de um sistema de direitos e deveres, e também sentirá a necessidade de se manter coeso e solidário aos outros. O importante para ele é que o indivíduo realmente se sinta parte de um todo, que realmente precise da sociedade de forma orgânica, interiorizada e não meramente mecânica.
Émile Durkheim morreu em 15 de Novembro de 1917 em Paris.

Principais Obras
1893   A divisão do trabalho social
1895   As regras do método sociológico
1897   O suicídio
1902   A educação moral
1912   As formas elementares da vida religiosa
1912   Lições de Sociologia

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ENQUADRAMENTO TEÓRICO

Relação Contexto, Indivíduo, Substância

No mundo inteiro, os países e as sociedades definiram que a utilização de determinadas substâncias, por determinadas pessoas e por factores determinados, deve ser sujeita a controlo. Os tipos de substâncias, as pessoas, as circunstâncias variam de um lugar para outro, de uma cultura para outra.
Para a investigadora norte-americana Hellen Nowlis[1], tornou-se evidente, que o problema do consumo de qualquer substância, independentemente do tipo (o álcool incluído), está ligado às diferentes culturas e às diversas estruturas sociais e políticas, uma vez que as suas causas e as suas manifestações variam, consideravelmente, de um país para outro. Assim, para esta autora, existem três elementos fundamentais no uso de qualquer delas, legais ou ilegais, medicinais ou não medicinais: a substância;  o indivíduo que a utiliza e o contexto social e cultural em que a sua utilização se insere. Seja qual for a maneira de abordar o problema, todos estes três factores devem ser levados em consideração. A acção baseada em apenas um deles, seja ele qual for, está votada ao fracasso.
Para o especialista em ciências sociais, são as variações do consumo no contexto social e cultural que constituem o factor complexo. Diferentes culturas e subculturas definem o consumo de diferentes maneiras, e a ele reagem de modos diferentes. Elas aprovam ou desaprovam o uso de certas substâncias. Elas decidem quem pode ou não utilizar uma dada substância, e sob que condições. Deste ponto de vista, as razões para o consumo são procuradas em factores tais como: reacções da sociedade aos problemas associados ao seu uso, fracasso das instituições e condições económicas e sociais.
Hellen Nowlis[2] preconiza quatro maneiras principais de encarar a utilização dessas substâncias e os seus três componentes interactivos (a substância, o utilizador e o contexto): o ponto de vista tradicional jurídico-moral, o ponto de vista médico ou de saúde pública, o ponto de vista psicossocial e o ponto de vista sócio cultural. Cada uma destas hipóteses tem implicações sobre a acção social, a educação, a prevenção, o tratamento, a legislação e a política a ser seguida.
Nos pontos seguintes serão sintetizados os argumentos que Hellen Nowlis utiliza para sustentar estes quatro modelos bem como outros pontos de vista defendidos por esta autora

Modelo Jurídico-Moral

A substância é considerada como o agente activo. O indivíduo é considerado como a vítima que, por falta de informação, de vontade ou de adaptação ao comportamento normal, deve ser protegido através de medidas legais que controlem o cultivo, a produção, a transformação, a manufactura, a distribuição, a venda, a partilha ou a possessão da substância em questão, e em alguns casos, a própria possessão dos instrumentos e materiais necessários à sua utilização.
Como principais meios de dissuasão são considerados: o controlo do acesso à substância; o controlo do seu preço; a punição ou a ameaça de punição e a divulgação de advertências quanto aos riscos físicos, psicológicos ou sociais implicados no seu uso.

Modelo Médico ou de Saúde Pública

Neste modelo a que Hellen Nowlis chamou de médico ou de saúde pública, e que tende a tomar cada vez mais o lugar do modelo jurídico-moral, a substância, o indivíduo e o contexto são considerados respectivamente como o agente, o hospedeiro e o meio-ambiente, numa transposição do esquema da doença infecciosa. A substância assume o papel de agente activo no seio dos três elementos fundamentais (substância/indivíduo/contexto).
Em relação ao modelo jurídico-moral, o modelo de saúde pública não introduz nenhuma distinção entre a legalidade ou a ilegalidade de uma substância, e por isso inclui frequentemente o álcool, a nicotina e a cafeína como geradores de dependência, embora os distinga das outras substâncias geradoras de dependência com base nas variáveis contextuais (sociais) que correspondem ao facto de que essas três substâncias são fáceis de se obter e de se utilizar. Diminuir a aceitação social e aumentar o preço das substâncias geradoras de dependência pode portanto tornar-se um meio de se limitar o seu uso como de controlar a sua facilidade de obtenção.
Segundo o modelo, os utilizadores compulsivos destas substâncias devem ser tratados e curados como se se tratasse de um problema médico. O consumo deve ser tratado de maneira preventiva, exactamente como se fosse uma doença infecciosa.

Modelo Psicossocial

O modelo psicossocial tende a dar mais ênfase ao indivíduo como o agente activo no esquema a três elementos (substância/indivíduo/contexto).
O uso da substância e o seu utilizador são considerados, dentro deste ponto de vista, como o factor complexo, dinâmico, tornando-se assim o ponto central das acções de intervenção, mais do que as próprias substâncias utilizadas. A utilização de determinada substância é um comportamento que, como qualquer outro, só persistirá enquanto desempenhar uma função para o indivíduo.
Deste ponto de vista, o contexto é concebido em termos da influência exercida sobre o utilizador pelas atitudes e pelos comportamentos de outras pessoas, seja individualmente, seja em grupos sociais como a família, os grupos de afinidade ou a comunidade. O contexto é visto aqui como algo que contribui tanto para o consumo e para os problemas a ele associados – através das concepções vigentes a respeito da utilização da substância e dos seus utilizadores – como para as reacções face a esse uso.

Modelo Sociocultural

Todos os que abordam a utilização de determinadas substâncias e os problemas a elas associados do ponto de vista sócio-cultural tendem a reconhecer e a acentuar a complexidade e a variação do factor contexto, entre os três já referidos (substância/indivíduo/contexto). Substâncias específicas ganham a sua significação e a importância não tanto pelas suas propriedades farmacológicas, mas sobretudo pela maneira segundo a qual uma dada sociedade define o seu uso e os seus utilizadores e a eles reage. Como em todos os comportamentos desviantes, os danos causados ao indivíduo podem ser provenientes tanto do próprio comportamento como da reacção da sociedade perante ele.
Este ponto de vista reconhece que tal comportamento varia necessariamente de uma cultura para outra, de uma subcultura para outra. Ele vai mais além do que os elementos sociais e psicológicos considerados como importantes no modelo psicossocial, para colocar em evidência ou acentuar, nas condições sócio-económicas e no meio-ambiente em que vive o indivíduo, as razões de uma pressão psicológica, sobre as quais será, necessariamente, senão essencialmente, orientada a intervenção.
Este modelo reconhece, no entanto, que apesar da tendência para se ver num comportamento repreensível o resultado dos aspectos repreensíveis do sistema social, muito do que é criticado está na verdade ligado inicialmente a coisas que são aprovadas e mesmo valorizadas. O conformismo, a competição, o sucesso, a produtividade, são às vezes facas de dois gumes.
Cada um destes modelos elaborados por Hellen Nowlis, representa um ponto de vista segundo o qual se pode encarar o uso de qualquer substância e os fenómenos a ele associados, conduzindo-nos a diferentes directivas e acções destinadas a compreender e a actuar sobre esse uso. Cada um deles representa uma lente de aumento, através da qual se observa a substância, o homem e a sociedade, as interacções entre esses elementos, o número e as espécies de distinções feitas no interior de cada elemento, a natureza da reacção de diversas instituições e profissões e a sua capacidade relativa de intervir com maior eficiência.
Se o objectivo for colocar determinada substância fora do alcance do homem, o papel preponderante será dado à legislação e à sua aplicação; se for o de manter o homem afastado dela, a responsabilidade caberá aos especialistas das ciências do comportamento; se for o de criar um quadro dentro do qual as necessidades a que corresponde o seu uso sejam melhor satisfeitas por algum outro comportamento que apresente menos perigos, que faça correr menos riscos ao indivíduo e à sociedade. Neste caso são as instituições e os que as animam que têm um papel a desempenhar.
Actualmente, assiste-se ao desenvolvimento de quatro tendências implementadas na definição tanto do uso destrutivo e socialmente reprovado de determinadas substâncias, como das maneiras pelas quais a ele reagir.
A primeira destas tendências consiste em definir os problemas em termos psicossociais, mais do que em termos farmacológicos, jurídicos ou médicos, e em interpretar cada vez mais o consumo de determinadas substâncias como um comportamento. A segunda consiste, quase sempre a contra gosto, em adoptar como objectivo principal não mais a prevenção, mas sim a redução dos problemas associados ao seu consumo sob uma forma destrutiva. A terceira consiste no desejo crescente, embora não radical, de colocar o uso de substâncias ilegais pelos jovens dentro do contexto do uso de todas as outras, legais ou ilegais, por pessoas de todas as idades. A quarta, estritamente ligada à terceira, consiste em incluir também o álcool entre a lista de substâncias e considerar as implicações do seu uso tanto pelos jovens como pelos adultos.
Pelo menos, isso denota uma vontade de considerar a possibilidade de que as soluções tradicionais, praticadas pelas instituições tradicionais, não têm tido êxito.

Cultura e Contexto Social – Sua importância

Para Hellen Nowlis qualquer concepção ou modelo sobre a utilização de determinadas substâncias, o álcool incluído, tem necessariamente algo em comum com todos os outros modelos ou concepções, pois os três elementos principais presentes em cada um deles são sempre a pessoa, a substância e o contexto social. O modelo psicossocial apresenta uma grande área comum com o sócio-cultural, pois alguns factores idênticos – interpessoais, sociais e culturais – são importantes em ambos os modelos. Daí a tentação de ampliar o modelo psicossocial recentemente desenvolvido, transformando-o num modelo psico-sócio-cultural, de forma que a pessoa, centro de interesse do modelo psicossocial, seja necessariamente vista como uma pessoa dentro de uma cultura ou subcultura, que ocupa um lugar único entre as várias e diferentes culturas e sub culturas do mundo.
Por outras palavras, a ampliação do psicossocial para incluir o cultural, fornece constantemente uma nova série de critérios que servem para lembrar a existência de diferenças importantes, valorizadas e totalmente relevantes entre as nações e as culturas, diferenças que podem inegavelmente transformar as relações entre os elementos substância/indivíduo/contexto assim como os tipos de soluções apropriadas aos problemas ligados ao seu consumo.
Desta forma, a cultura ou o contexto não só se tornam importantes na elaboração de respostas apropriadas ao uso de determinadas substâncias, como também poderão desempenhar um papel importante tanto na definição, como na criação ou na redução dos problemas associados ao seu consumo.

[1] NOWLIS, Hellen, (1979), A verdade sobre as drogas, Lisboa, Gabinete de Planeamento e de Coordenação do Combate à Droga, (4ª edição), pp. 3 - 73
[2] NOWLIS, Hellen, (1979), A verdade sobre as drogas, Lisboa, Gabinete de Planeamento e de Coordenação do Combate à Droga, (4ª edição), pp. 3 - 73

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

À Volta com os Pensamentos...
















Todos aqueles que se sentem desprezados, fazem tudo na vida para serem odiados.

Às Voltas com a Memória: CHE GUEVARA (n. 14 Jun. 1928; m. 09 Out. 1967)

Ernesto Guevara de la Serna, nasceu em Rosário, importante cidade industrial argentina, ao noroeste de Buenos Aires, a 14 de Junho de 1928, numa família de classe média alta e anti-peronista. Ernesto tinha dois anos quando sofreu o primeiro ataque de asma. Estudou grande parte do ensino fundamental com sua mãe em casa, onde havia uma biblioteca de cerca de três mil volumes com obras de Marx, Engels e Lenine, com os quais se familiarizou na sua adolescência. Por volta dos 12 ou 13 anos lia frequentemente. Sabe-se que leu Júlio Verne, Alexandre Dumas, Baudelaire, Neruda e Freud aos 15 anos.
Os ataques de asma sofridos por Ernesto durante a infância foram muito violentos e tendo em vista o menino melhorar, os médicos aconselharam uma mudança de ares. Em 1932, quando Ernesto tinha quatro anos, a família mudou-se para a região de Córdoba, no centro da Argentina, que na altura não era ainda a zona industrial que hoje é. Radicaram-se em Altagracía, uma pequena estância de veraneio, não muito longe da cidade de Córdoba. Viviam numa casa de estilo inglês, uma cottage chamada Villa Nidia. Foi titular da primeira equipa de juniores do Velez Sarsfield.
Em 1944, os negócios da família de Che vão mal e Ernesto emprega-se como funcionário da Câmara de uma vila nos arredores de Córdoba para ajudar as finanças em casa, sem deixar, contudo, de estudar.
Em 1946, terminou o liceu. Os Guevara mudaram-se para Buenos Aires e Ernesto ingressou na universidade, estudando medicina. Continuando a situação económica a deteriorar-se, foram obrigados a vender com prejuízo a plantação de mate que tinham desenvolvido. Na capital, Ernesto empregou-se outra vez como funcionário municipal e mais tarde numa tipografia, continuando, não obstante, o curso de medicina. Houve um período durante o qual trabalhou como voluntário num instituto de pesquisas sexuais, então mantido pelo partido comunista. Nesse mesmo ano de 1946, foi chamado ao serviço militar, que, ironicamente, o recusou por inaptidão física.
Depois da Segunda Guerra Mundial, com a vitória dos aliados, a oposição a Juan Domingo Perón ganhou novo ânimo. Os estudantes constituíram uma classe mais aguerrida. Che participou nessas lutas.
Fez uma viagem, começada de moto e terminada a pé, pelas províncias argentinas de Tucumán, Mendoza, Salta, Jujuy e La Rioja, na qual percorreu diversos “resorts” Andinos.
Em 1951, seis meses antes de se formar em Medicina, decide interromper o curso – para desespero de seu pai – e iniciar, com Alberto Granado, uma grande viagem pelo continente, de Buenos Aires a Caracas, na velha motocicleta do companheiro, uma Norton 500 cc, fabricada em 1939 e apelidada de La Poderosa II. Nessa viagem, Guevara começa a ver a América Latina como uma única entidade económica e cultural. Visita minas de cobre, povoações indígenas e leprosários, interagindo com a população, especialmente os mais humildes. De volta à Argentina em 1953 acaba os estudos de Medicina e passa a dedicar-se à política.
Em 1953, Guevara actuou como repórter fotográfico cobrindo os Jogos Pan-Americanos do México, por uma agência de notícias argentina. Ainda em Julho de 1953, inicia a sua segunda viagem pela América Latina. Nessa oportunidade visita Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, El Salvador e Guatemala.
Foi por causa da visão de tanta miséria e impotência e das lutas e sofrimentos que presenciou nas suas viagens, que o jovem médico Ernesto Guevara concluiu que a única maneira de acabar com todas as desigualdades sociais era promovendo mudanças na política administrativa mundial.
Na sua passagem pela Guatemala, onde chegou em Dezembro de 1953, Che presencia a luta do recém-eleito presidente Jacob Arbenz Guzmán, liderando um governo de cunho popular, na tentativa de realizar reformas de base, eliminar o latifúndio, diminuir as desigualdades sociais e um dos principais objectivos, garantir a mulher no mercado de trabalho.
O governo americano opunha-se a Arbenz e, através da CIA, coordenou várias acções, incluindo o apoio a grupos paramilitares, contra o governo eleito da Guatemala, por não se alinhar à sua política para a América Latina.
As experiências na Guatemala são importantes na construção de sua consciência política. Lá Che Guevara auto define-se como um revolucionário e posiciona-se contra o imperialismo americano.
Nesse meio tempo, Che conhece Hilda Gadea, com quem se casa e de cuja união nasce sua primeira filha, Hildita.
Em 1954, no México através de Nico López, um amigo das lutas na Guatemala, conhece Raul Castro que logo o apresentaria a seu irmão mais velho, Fidel Castro. Esse organiza e lidera o movimento guerrilheiro 26 de Julho, ou M26, em referência ao assalto ao Quartel Moncada, onde em 26 de Julho de 1953, Fidel Castro liderou uma acção militar na qual tentava tomar a principal prisão de presos políticos em Santiago. Guevara faz parte dos 72 homens que partem para Cuba em 1956 com Fidel Castro e dos quais só 12 sobreviveriam. É durante esse ataque que Che, após ser duramente espancado pelos rebeldes, larga a maleta médica por uma caixa de munição de um companheiro abatido, um momento que tempos depois ele iria definir como o marco divisor na sua transição de doutor a revolucionário.
Em seguida instalam-se nas montanhas da Sierra Maestra, onde iniciam a luta contra o presidente cubano Fulgêncio Batista, que era apoiado pelos Estados Unidos.
Os rebeldes lentamente se fortalecem, aumentando o seu armamento e angariando apoio e o recrutamento de muitos camponeses, intelectuais e trabalhadores urbanos. Guevara toma a responsabilidade de médico revolucionário, mas, em pouco tempo, foi-se tornando naturalmente líder e seguido pelos rebeldes.
Após a vitória dos revolucionários em 1959, Batista exila-se em São Domingos e instaura-se um novo regime em Cuba, de orientação socialista. Mas teria sido a hostilidade dos Estados Unidos que levou ao seu alinhamento com a URSS. (“Eu tinha a maior vontade de entender-me com os Estados Unidos. Até fui lá, falei, expliquei nossos objectivos. (…) Mas os bombardeios, por aviões americanos, das nossas fazendas açucareiras, das nossas cidades; as ameaças de invasão por tropas mercenárias e a ameaça de sanções económicas constituem agressões à nossa soberania nacional, ao nosso povo”.) (Fidel Castro, a Louis Wiznitzer, enviado especial do Globo a Havana, em entrevista publicada em 24 de Março de 1960).
Guevara, então braço direito de Fidel, torna-se um dos principais dirigentes do novo estado cubano: Embaixador, Presidente do Banco Nacional, Ministro da Indústria.
Che esteve oficialmente no Brasil em Agosto de 1961, quando foi condecorado pelo então presidente, Jânio Quadros, com a Grã-cruz da ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. A outorga dessa condecoração foi o desfecho de uma articulação diplomática, iniciada pelo Núncio apostólico no Brasil, monsenhor Armando Lombardi, seguindo as instruções da Santa Sé, solicitando a ajuda do governo do Brasil para fazer cessar a perseguição movida contra a Igreja Católica em Cuba. Jânio Quadros solicitou a mediação de Che junto a Fidel. Guevara atendeu ao pedido de Jânio e concordou em ser o intermediário do apelo do Vaticano junto ao governo cubano. Meses antes alertara Fidel da existência da "operação Magusto", a invasão da Baía dos Porcos tentada por 1.297 anti-castristas exilados, oriundos da ditadura de Fulgêncio Batista. A "operação Magusto" foi uma operação militar planejada pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), autorizada pelo presidente John Kennedy, que ocorreu em 17 de Abril de 1961 e foi derrotada três dias depois. Em 1 de Maio (ou 16 de Abril, segundo outras fontes) Fidel Castro declarou que Cuba se tornaria um país socialista, e buscou apoio militar de Moscovo para se defender das tentativas de invasões americanas e de ameaças representadas por planos dos militares norte-americanos, do tipo da "Operação Mongoose", autorizada em 4 de Novembro de 1961 por Kennedy, ou da "Operação Northwoods" de 1962. Em 1 de Dezembro de 1961 Fidel Castro declarou que a revolução cubana se tornara marxista-leninista.
Em 8 de Agosto de 1961, Che discursou numa reunião da OEA em Punta del Este. Em 1964 Ernesto Che Guevara representou oficialmente Cuba nas Nações Unidas, tendo pronunciado um discurso em francês por ocasião da sua 19ª Assembleia-geral, em 11 de Dezembro de 1964. Participou no Seminário Económico de Solidariedade Afro-asiática entre 22 e 27 de Fevereiro de 1965 em Alger, quando criticou publicamente, pela primeira vez, a política externa da União Soviética. Nesse mesmo ano, Guevara, deixa Cuba para propagar os ideais da revolução cubana pelo mundo com ajuda de voluntários de vários países latino americanos, contra os conselhos dos soviéticos mas com o apoio de Fidel Castro. Em 4 de Outubro de 1965 Fidel Castro anunciou que Ernesto Che Guevara deixara a ilha para lutar contra o imperialismo.
parte primeiramente para o Congo, na África, com um grupo de 100 cubanos "internacionalistas", tendo chegado em Abril de 1965. Comandante supremo da operação, actuou com o cognome Tatu (do suaíle), e encontrou-se com Kabila. Por seu total desconhecimento da região, dos seus costumes, das suas crenças religiosas, das relações inter-tribais e da psicologia de seus habitantes, o "delírio africano" de Che resultou numa total decepção. Em seguida parte para a Bolívia onde tenta estabelecer uma base guerrilheira para lutar pela unificação dos países da América Latina e de onde pretendia invadir a Argentina. Enfrenta dificuldades com o terreno desconhecido, não recebe o apoio do partido comunista boliviano e não consegue conquistar a confiança dos poucos camponeses que moravam na região que escolheu para suas operações, quase desabitada. Nem Che, nem nenhum de seus companheiros falavam a língua indígena local. É cercado e capturado em 8 de Outubro de 1967 e executado no dia seguinte pelo soldado boliviano Mário Terán, a mando do Coronel Zenteno Anaya, na aldeia de La Higuera. Os boatos que cercaram a execução de Che Guevara levantaram dúvidas sobre a identidade real do guerrilheiro, que utilizou-se de uma miríade de documentos falsos, de vários países, para entrar e viver na Bolívia. A confusão estabelecida em torno do caso culminou no desaparecimento do seu corpo, que só foi encontrado trinta anos depois.
Em 1997 os seus restos mortais foram encontrados por pesquisadores numa vala comum, junto a outras ossadas, na cidade de Vallegrande, a cerca de 50 km de onde ocorreu a sua execução. A sua ossada estava sem as mãos, que foram amputadas (para servir como troféu) logo após a sua morte. Os seus restos mortais foram transferidos para Cuba, onde em 17 de Outubro deste mesmo ano, são enterrados com honras de Chefe de Estado, na presença de membros da sua família e do líder cubano e antigo companheiro de revolução Fidel Castro.