sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Os "Pais" da SOCIOLOGIA: MAX WEBER (n. 21 Abr.1864; m. 14 Jun.1920)

Maximillian Weber, nasceu a 21 de Abril de 1864, em Erfurt, foi um intelectual alemão, jurista, economista e considerado um dos fundadores da Sociologia. Seu irmão foi o também famoso sociólogo e economista Alfred Weber. A esposa de Max Weber, Marianne Weber, biógrafa do marido, foi uma das alunas pioneiras na universidade alemã e integrava grupos feministas de seu tempo.

Foi o primogénito de sete filhos de Max Weber e Helene Fallenstein. Seu pai, protestante, era uma figura autocrata. Sua mãe uma calvinista moderada. A mãe de Helene tinha sido uma huguenote, francesa, cuja família fugira da perseguição na
França. Ele foi, juntamente com Karl Marx, Vilfredo Pareto, Augusto Comte e Émile Durkheim, um dos modernos fundadores da Sociologia. É conhecido sobretudo pelo seu trabalho sobre a Sociologia da religião.

Seu pai, Sr. Max Weber, foi um funcionário público e político liberal; a mãe, Helene Fallenstein, uma calvinista moderada. Max foi o primeiro de sete filhos, incluindo seu irmão Alfred Weber, quatro anos mais jovem, também sociólogo, mas, sobretudo, um economista, que também desenvolveu uma importante sociologia da cultura. A família estimulou intelectualmente os jovens Weber desde a tenra idade.

É considerado um dos fundadores do estudo moderno da sociologia, mas sua influência também pode ser sentida na economia, na filosofia, no direito, na ciência política e na administração. Começou a sua carreira académica na Universidade Humboldt, em Berlim e, posteriormente, trabalhou na Universidade Albert Ludwigs, de Freiburg, na Universidade de Heidelberg, na Universidade de Viena e na Universidade de Munique. Personagem influente na política alemã da época, foi consultor dos negociadores alemães no Tratado de Versalhes (1919) e da Comissão encarregada de redigir a Constituição de Weimar.

Grande parte de seu trabalho como pensador e estudioso foi reservado para o chamado processo de
racionalização e desencantamento que provém da sociedade moderna e capitalista. Mas seus estudos também deram uma contribuição importante para a economia. A sua obra mais famosa é o ensaio A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, com o qual começou suas reflexões sobre a sociologia da religião. Weber argumentou que a religião era uma das razões não-exclusivas do porquê das culturas do Ocidente e do Oriente se desenvolveram de formas diversas, e salientou a importância de algumas características específicas do protestantismo ascético, que levou ao nascimento do capitalismo, a burocracia e do estado racional e legal nos países ocidentais. Noutro trabalho importante, Política como vocação, Weber definiu o Estado como "uma entidade que reivindica o monopólio do uso legítimo da força física", uma definição que se tornou central no estudo da moderna ciência política no Ocidente. As suas contribuições mais conhecidas são muitas vezes referidas como a “Tese de Weber".

Em 1882 Max Weber matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Heidelberg, onde seu pai havia estudado, frequentando também cursos de economia política, história e teologia. Em 1884 voltou para casa paterna e transferiu-se para a Universidade de Berlim, onde obteve em 1889 o doutoramento em Direito e em 1891 a tese de habilitação, ambos com escritos da história do direito e da economia.

Depois de completar estudos jurídicos, económicos e históricos em várias universidades, distingue-se precocemente nalgumas pesquisas económico-sociais com a Verein für Sozialpolitik, a associação fundada em 1873 pelos economistas associados à Escola Histórica Alemã em que Weber já tinham aderido em 1888. Em 1893 casou-se com Marianne Schnitger, mais tarde uma feminista e estudiosa, bem como curadora póstuma das obras de seu marido.

Foi nomeado professor de Economia nas universidades de Freiburg em 1894 e de Heidelberg em 1896. Entre 1897, ano em que seu pai morreu, e 1901 sofreu de uma aguda depressão, de modo que do final de 1898 ao final de 1902 não poderia realizar actividades regulares de ensino ou científicas.

Curado, no Outono de 1903 renunciou ao cargo de professor e aceitou uma posição como director-associado do recém-nascido Archiv für und Sozialwissenschaft Sozialpolitik (Arquivos de Ciências Sociais e Política Social), com
Edgar Jaffé e Werner Sombart como colegas: nesta revista publicaram em duas partes, em 1904 e 1905, o artigo-chave A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Naquele mesmo ano, visitou os Estados Unidos. Graças a uma enorme renda privada derivada de uma herança em 1907, ainda conseguiu dedicar-se livremente e em tempo integral aos seus estudos, passando da economia ao direito, da filosofia à história comparativa e à sociologia, sem ser forçado a retornar à docência. A sua pesquisa científica abordou questões teórico-metodológicas cruciais e tratou complexos estudos histórico-sociológicos sobre a origem da civilização ocidental e o seu lugar na história universal.

Durante a Primeira Guerra Mundial, serviu como director de hospitais militares de Heidelberg e ao término do conflito, voltou ao ensino da disciplina de economia, primeiro em Viena e em 1919 em Munique, onde dirigiu o primeiro instituto universitário de sociologia na Alemanha. Em 1918 ele estava entre os delegados da Alemanha em Versalhes para a assinatura do tratado de paz e foi conselheiro para os redactores da Constituição da República de Weimar. Morreu a 14 de Junho de 1920, em Munique, atingido pela grande epidemia de
gripe espanhola da pós-guerra.


Escritos e obras


Entre as influências que a obra de Weber manifesta, podemos distinguir também seu diálogo com filósofos como Immanuel Kant e
Friedrich Nietzsche e com alguns dos principais sociólogos de seu tempo, como Ferdinand Tönnies, Georg Simmel e Werner Sombart, entre outros.

Das as principais obras do autor – organizadas postumamente pela sua esposa Marianne Weber – constam os seguintes títulos:

1889: A história das companhias comerciais na idade média
1891: O direito agrário romano e sua significação para o direito público e privado
1895: O Estado Nacional e a Política Económica
1904: A objectividade do conhecimento na ciência política e na ciência social
1904: A ética protestante e o espírito do capitalismo
1905: A situação da democracia burguesa na Rússia
1905: A transição da Rússia à um regime pseudoconstitucional
1906: As seitas protestantes e o espírito do capitalismo
1913: Sobre algumas categorias da sociologia compreensiva
1917/1920: Ensaios Reunidos de Sociologia da Religião
1917: Parlamento e Governo na Alemanha reordenada
1917: A ciência como vocação
1918: O sentido da neutralidade axiológica nas ciências políticas e sociais
1918: Conferência sobre o Socialismo
1919: A política como vocação
1919: História Geral da Economia
1910/1921: Economia e Sociedade

Entre os seus escritos mais conhecidos, destacam-se "A ética protestante e o espírito do capitalismo" (1904), a obra póstuma "Economia e Sociedade" (1920), "A ciência como vocação" (1917) e "A política como vocação" (1919).

À Volta com os Pensamentos...

SÓ PODE DESTRUIR
QUEM É CRIADOR!

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ENQUADRAMENTO TEÓRICO

1.1         Um pouco de história


O álcool é tão antigo como a própria humanidade. É consumido pelo homem desde sempre. A fermentação da fruta nunca foi um grande mistério, pelo que os primatas conseguiram produzir leves intoxicações mediante este processo. Nas diferentes civilizações, o consumo de álcool começa a assumir particular importância a partir da revolução neolítica, altura em que se inicia uma produção mais sistemática de matérias-primas, como a cevada e frutas e se verifica um avanço nas formas de fermentação.
A mistura fermentada de água e mel (hidromel) e a cerveja são consumidos há milhares de anos. Um texto datado de 3000 anos antes de Cristo, descreve os gastos de uma família asiática, fazendo alusão clara a este tipo de consumo: “pão e cerveja para um dia”. De 2200 antes de Cristo foram encontradas peças que nos mostram que as mulheres em estado de aleitamento eram incentivadas a beber cerveja e existem registos que relatam que Hamurabi, um rei babilónico, amparava as pessoas que bebiam cerveja ou vinho de palma e dava ordens de execução aos taberneiros que adulterassem a qualidade das bebidas. Os antigos egípcios, que tinham destilarias há cerca de 6000 mil anos, prestavam culto a Osirís como forma de agradecimento pela dádiva da cevada.
Os gregos, que transferiram esse mesmo culto para Dionísio, tinham por hábito oferecer bebidas alcoólicas a deuses e soldados, utilizando-as também como facilitadores de relações interpessoais, nomeadamente nos banquetes com fins recreativos e para discussão de ideias filosóficas e políticas – os chamados Symposios.
Por sua vez, os romanos agradeciam a Baco a criação do “vinho divino” e ofereciam um forte contributo para a regulação de produção de vinho e da sua divulgação em toda a Europa. O vinho tornou-se num fenómeno universal, o qual é visível pela proliferação da taberna – local onde era mantida uma reserva de bebidas alcoólicas para serem consumidas nesse mesmo lugar e que assumia também um papel de relevo a nível das relações sociais e actividades públicas.
O álcool desempenha também um papel importante a nível religioso. A Bíblia, por exemplo, mostra-nos inúmeras alusões ao vinho. No entanto o recurso constante ao vinho em cerimónias religiosas não se encontra exclusivamente no Cristianismo, estando generalizado aos Aztecas, à religião familiar chinesa, ao hinduísmo e ao bantu. A única excepção à regra, encontra-se em religiões como o islamismo, que restringem ou proíbem mesmo o seu consumo.
A destilação de bebidas deve-se aos árabes, também responsáveis pela introdução deste processo na Europa. No entanto, foram os cristãos mediterrânicos quem lideraram o desenvolvimento industrial da produção a partir do século XII. Só no século XIV é que esta tecnologia, já perfeitamente desenvolvida, tem implementação no resto da Europa.
Durante toda a Idade Média, o álcool esteve intimamente associado à saúde e bem-estar sendo conhecido pela designação de aqua vitae. Só em fins do século XVI é que adopta a actual terminologia, a qual etimologicamente tem origem na palavra grega alkuhl, que se refere ao espírito que se apodera de todo aquele que se atreve a abusar dos produtos fermentados.
O álcool tornou-se num importante produto comercial aquando das trocas com as colónias, oferecendo largos lucros aos seus comerciantes, o que também é explicado pela natureza estável dos produtos destilados europeus (aguardente, rum, genebra, em especial), os quais não sofrem deterioração com as distâncias a serem percorridas, nem com o tempo. Progressivamente, estes produtos começam a substituir as produções locais de fermento, o que faz com que os destilados se convertam num dos primeiros mercados mundiais, a partir do século XVII.
A revolução industrial do século XIX abre caminho para uma maior expansão do mercado dos destilados, contribuindo consequentemente para um aumento notável do seu consumo, o qual é acompanhado pelo aumento de problemas com este produtos. É neste contexto que surgem as leis de proibição dos anos 20 nos Estados Unidos, (a chamada Lei Seca), e as campanhas de prevenção, a partir dos anos 60, em países desenvolvidos.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

À Volta com a Vida: Mágoa...

É uma palavra bonita, mágoa. Sabe a lágrimas silenciosas, a noite de insónia, a manhãs de domingo solitárias e sem sentido. Está para lá da tristeza, da saudade, do desejo de lutar pelo que já se perdeu, da raiva de não ter o que mais se queria.
A mágoa chega, quando o cansaço já não nos deixa sentir mais nada. É silenciosa e matreira, instala-se sem darmos por ela, aloja-se no coração e começa a deixar sinais aqui e ali, dentro de nós. A pouco e pouco sentimos que já não somos a mesma pessoa. As cicatrizes podem esbater-se com os anos e serem remendadas com hábeis golpes de plástica, mas ficarão sempre debaixo dos excertos que fazemos à alma.
O cansaço mata tudo. A raiva de não termos quem tanto amámos, a fúria de não sermos donos da nossa vontade, o orgulho de termos perdido quem mais queríamos. Só não mata as saudades e a vontade de continuar a sonhar que um dia pode mudar outra vez e libertar-nos de nós mesmos e do sofrimento, tão grande quanto involuntário, tão patético quanto verdadeiro.
Às vezes, quando a mágoa é enorme e sufoca, vegetamos em silêncio para que ela não nos coma. Fingimos que está tudo bem, rimo-nos de nós próprios perante os outros e até mesmo perante o outro que vive dentro de nós. Tornamo-nos espectadores da nossa dor. Afastamo-nos de nós, do que somos, daquilo em que acreditamos. No fundo estamos a desistir como quem volta atrás porque tem medo do escuro, vencidos pela desilusão, cansados de esperar em casa que o mundo pare e se lembre de nós.
Mas o mundo nunca pára. Nada pára. A vida foge, os dias atropelam-se, é preciso continuar a vivê-los mesmo com dor, mesmo com mágoa. Pelo menos a mágoa, faz-nos sentir vivos. Arde no peito e no orgulho, mas pouco a pouco vai matando a dor. Torna-se a nossa companheira mais próxima, deixando de nos defender da tristeza, que se vai consumindo como uma vela esquecida num presépio morto que uma corrente de ar ou um novo sopro de vida um dia apagará. Mas isso só é possível quando conseguimos esquecer.

Às Voltas com a Memória: CARLOS PAIÃO (n. 01 Nov. 1957; m. 26 Ago. 1988)

Carlos Manuel de Marques Paião, nasceu acidentalmente em Coimbra, a 1 de Novembro de 1957, passando toda a infância e juventude entre Ílhavo (terra natal dos pais) e Cascais. Desde muito cedo Carlos Paião demonstrou ser um compositor fértil, sendo que no ano de 1978 tinha já escritas mais de duzentas canções. Nesse ano obteve o primeiro reconhecimento público ao vencer o Festival da Canção do Illiabum Clube.
Em 1980 concorre pela primeira vez ao Festival RTP da Canção, numa altura em que este certame representava uma plataforma para o sucesso e a fama no mundo da música portuguesa, mas não foi apurado. Com Playback ganhou o Festival RTP da Canção de 1981 com a esmagadora pontuação de 203 pontos, deixando para trás concorrentes tão fortes como as Doce e José Cid. A canção, uma crítica divertida, mas contundente, aos artistas que cantam em playback, ficou em penúltimo lugar no Festival da Eurovisão de 1981, realizado em Dublin, na República da Irlanda. Tal classificação não "beliscou" minimamente a popularidade do cantor e compositor, pois Carlos Paião, ainda nesse ano, editou outro single de sucesso e que mantém a sua popularidade até hoje: Pó de Arroz.
O êxito que se seguiu foi a Marcha do Pião das Nicas, canção na qual o cantor voltava a deixar patente o seu lado satírico. Telefonia (Nas Ondas do Ar) era o lado B desse single.
Carlos Paião compôs canções para outros artistas, entre os quais o próprio Herman José, que viria a alcançar grande êxito com A Canção do Beijinho (1980), e Amália Rodrigues, para quem escreveu O Senhor Extra-Terrestre (1982).
Algarismos (1982), o seu primeiro LP, não obteve, no entanto, o reconhecimento desejado. Surgiu entretanto a oportunidade de participar no programa de televisão “O Foguete”, com António Sala e Luís Arriaga.
Em 1983, cantava ao lado de Cândida Branca Flor, com quem interpretou um dueto muito patriótico intitulado Vinho do Porto, Vinho de Portugal, que ficou em 3.º lugar no Festival RTP da canção.
Num outro programa, Hermanias (1984), Carlos Paião compôs a totalidade das músicas e letras de Serafim Saudade, personagem criada por Herman José, já então uma das figuras mais populares da televisão portuguesa.
Em 1985, concorreu ao Festival Mundial de Música Popular de Tóquio (World Popular Song Festival of Tokio), tendo a sua canção sido uma das 18 seleccionadas.
Morre a 26 de Agosto de 1988, perto de Rio Maior (dia seguinte ao incêndio do Chiado), quando acabara de actuar num grande espectáculo em (Fornos de Algodres), num violento acidente de automóvel. Na altura, surgiu o boato de que na ocasião de seu funeral não estaria morto, mas sim em coma, porém a violência do acidente por si nega o boato, pois a sobrevivência a este seria impossível.
Estava a preparar um novo álbum intitulado Intervalo, que acabou por ser editado em Setembro desse ano, e cujo tema de maior sucesso foi Quando as nuvens chorarem. Está sepultado em São Domingos de Rana, freguesia do concelho de Cascais.
Compositor, intérprete e instrumentista, Carlos Paião produziu mais de trezentas canções.
Em 2003 foi editado uma compilação comemorativa dos 15 anos do seu desaparecimento – Carlos Paião: Letra e Música - 15 anos depois (Valentim de Carvalho).
Em 2008, por altura da comemoração dos 20 anos do desaparecimento do músico, vários músicos e bandas reinterpretaram alguns temas do autor na edição de um álbum de tributo, "Tributo a Carlos Paião".

Discografia
 Álbuns
  • Algarismos – LP (EMI, 1982)
  • Intervalo – LP (EMI, 1988)
Singles
  • Souvenir de Portugal / Eu Não Sou Poeta (EMI, 1981)
  • Play Back/Play Back (versão inglesa) (EMI, 1981)
  • Pó de Arroz / Gá-gago (EMI, 1981)
  • Marcha do Pião das Nicas / Telefonia Nas Ondas do Ar (EMI, 1982)
  • Zero a Zero / Meia Dúzia (EMI, 1982)
  • Vinho do Porto, Vinho de Portugal – com Cândida Branca Flor (1983)
  • O Foguete (1983)
  • Discoteca (EMI, 1984)
  • Cinderela (EMI, 1984)
  • Versos de Amor (EMI, 1985)
  • Arco-íris (EMI, 1985)
  • Cegonha/Lá Longe Senhora (EMI, 1986)

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - INTRODUÇÃO

O fenómeno do alcoolismo e todas as suas implicações é transversal à sociedade actual. O consumo de álcool está cada vez mais a tornar-se um tema cuja abordagem multidisciplinar, que não apenas a perspectiva médica ou económica, é requerida. Neste domínio, cabe à sociologia um papel de destaque no seu estudo e compreensão.
Uma vez admitido que o consumo abusivo de álcool tem a ver com o comportamento humano, ele pode, enquanto comportamento, ser estudado com o auxílio de todos os princípios que caracterizam o comportamento humano em geral e os conhecimentos acumulados pelas ciências sociais, em particular.
Cabe à sociologia investigar os variados modos como as acções dos homens são condicionadas por relações estabelecidas ao nível de grupos, organizações em que se inserem e cujas características elas próprias produzem e reproduzem (e transformam): as famílias, os círculos de vizinhança, as colectividades locais, os meios profissionais, os aparelhos institucionais, os Estados, as sociedades – nações, etc.
Segundo Hill e Hill[1], o investigador deve escolher um tema pelo qual tenha particular interesse, uma vez que vai gastar muita energia com o trabalho de investigação que vai desenvolver e é natural que, no decurso da investigação, se verifiquem períodos em que tudo parece correr mal, surjam problemas e frustrações. Se não houver muito interesse pelo tema escolhido, pode acontecer o desânimo, a falta de motivação e o comprometimento irremediável do trabalho.
A escolha do tema tem, como é óbvio, um natural e permanente, mas motivante desdobramento, em atenção ao legado de Durkheim, segundo o qual o homem não pode viver no meio das coisas sem fazer delas ideias, segundo as quais regula o seu comportamento. Esse envolvimento exige uma permanente ruptura do investigador, submetendo as suas hipóteses à investigação empírica. Essas coisas que Durkheim apelidou de “produtos da experiência vulgar” formadas fora da ciência em função de necessidades que nada têm de científico, são indutoras de uma perniciosa “ilusão de transparência, de familiaridade com o social”.
Neste trabalho abordarei o percurso de vida que leva os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool, levando-os muitas vezes a situações de exclusão social e afastamento perante a sociedade.
Não importando à sociologia um conhecimento decalcado do senso comum, mas pelo contrário, interessa, sobretudo, compreender os mecanismos sociais que o produzem.
Para uma melhor compreensão, optei por dividir este trabalho em seis grandes blocos. Na Parte I, faço todo o enquadramento teórico, partindo da história e aparecimento do álcool, aos consumos excessivos. Faço o enquadramento da relação contexto / indivíduo / substância, e acabo por falar das repercussões sociais causadas por estes indivíduos consumidores excessivos de álcool.
A Parte II do trabalho, faz todo o enquadramento metodológico, desde o objectivo do estudo, definição da problemática, as hipóteses, o modelo de análise e finalmente os conceitos, revisitando os “velhos” e “novos” conceitos sobre o alcoolismo.
Guardei para a Parte III do trabalho, a metodologia e técnicas de pesquisa utilizadas, essencialmente as entrevistas exploratórias e a orientação metodológica, para na Parte IV, fazer a caracterização da área de Intervenção, onde enquadro as três unidades em estudo (CRAS - Centro Regional de Alcoologia do Sul, Hospital Miguel Bombarda e Casa de Saúde do Telhal).
A Parte V, é dedicada ao enquadramento estatístico do consumo de álcool, no mundo, na Europa e finalmente em Portugal, para acabar por falar do consumo Per Capita, ao longo dos anos.
Finalmente a Parte VI, enquadra um Estudo de Caso, sobre os percursos e representações de consumidores excessivos de álcool, tendo sido realizadas nove entrevistas nas três unidades atrás referenciadas, fazendo a análise das mesmas e respectivas conclusões.
Seguem-se como é normal a bibliografia e os anexos utilizados para a realização deste trabalho.


[1] HILL, M. Manuela, HILL, Andrew, (2002), Investigação por Questionário, Lisboa, Edições Silabo, p.23

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

À Volta com a Vida: Correr Riscos...


Rir é correr o risco de parecer tolo.
Chorar é correr o risco de parecer sentimental.
Estender a mão é correr o risco de se envolver.
Expor sentimentos é correr o risco de mostrar o verdadeiro eu.
Defender sonhos e ideais diante da multidão é correr o risco de perder pessoas.
Amar é correr o risco de não ser correspondido.
Viver é correr o risco de morrer.
Confiar é correr o risco da decepção.
Tentar é correr o risco de fracassar.
Mas os riscos devem ser corridos, porque o maior perigo é não arriscar nada.
Há pessoas que não correm nenhum risco, não fazem, nada, não têm nada e não são nada.
Ao evitarem sofrimentos e desilusões, não conseguirão nada, não sentirão nada, não mudarão, não crescerão, não amarão, não viverão.
Acorrentadas às suas atitudes, tornam-se escravas e privam-se da liberdade.
Somente quem corre riscos é LIVRE.


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

À Volta com os Pensamentos...

O SUCESSO NÃO É TÃO SÓMENTE O ESFORÇO INDIVIDUALIZADO DO SER HUMANO,
MAS UM CONJUNTO DE REFLEXÕES QUE DINAMIZEM UMA GRANDE MULTIDÃO
PARA O OBJECTIVO FINAL

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

À Volta com a Vida: ÀS VEZES...

Às vezes é preciso aprender a perder, a ouvir e não responder, a falar sem nada dizer, a esconder o que mais queremos mostrar, a dar sem receber, sem cobrar, sem reclamar.
Às vezes, é preciso respirar fundo e esperar que o tempo nos indique o momento certo para falar e então alinhar as ideias, usar a cabeça e esquecer o coração, dizer tudo o que se tem a dizer, não ter medo de dizer não, não esquecer nenhuma ideia, nenhum pormenor, deixar tudo bem claro em cima da mesa para que não restem dúvidas e não duvidar nunca daquilo que estamos a fazer. E mesmo que a voz trema por dentro, há que fazê-la sair firme e serena, e mesmo que se oiça o coração a bater desordenadamente fora do peito é preciso domá-lo, acalmá-lo, ordenar-lhe que bata mais devagar e faça menos alarido e esperar, esperar que ele obedeça, que se esqueça, apagar-lhe a memória, o desejo, a saudade, a vontade.
Às vezes, é preciso partir antes do tempo, dizer aquilo que mais se teme dizer, arrumar a casa e a cabeça, limpar a alma e prepará-la para um futuro incerto, acreditar que esse futuro é bom e afinal já está perto, apertar as mãos uma contra a outra e rezar a um deus qualquer que nos dê força e serenidade. Pensar que o tempo está a nosso favor, que a vontade de mudar é sempre mais forte, que o destino e as circunstâncias se encarregarão de atenuar a nossa dor e de a transformar numa recordação ténue e fechada num passado sem retorno que teve o seu tempo e a sua época e que um dia também teve o seu fim.
Às vezes, mais vale desistir do que insistir, esquecer do que querer, arrumar do que cultivar, anular do que desejar. No ar ficará para sempre a dúvida se fizémos bem, mas pelo menos temos a paz de ter feito aquilo que devia ser feito, somos outra vez donos da nossa vida e tudo é outra vez mais fácil, mais simples, mais leve, melhor.
Às vezes é preciso mudar o que parece não ter solução, deitar tudo abaixo para voltar a construir do zero, bater com a porta e apanhar o último combóio no derradeiro momento e sem olhar para trás, abrir a janela e jogar tudo borda fora, queimar cartas e fotografias, esquecer a voz e cheiro, as mãos e a cor da pele, apagar a memória sem medo de a perder para sempre, esquecer tudo, cada momento, cada minuto, cada passo e cada palavra, cada promessa e cada desilusão, atirar com tudo para dentro de uma gaveta e deitar a chave fora, ou então pedir a alguém que guarde tudo num cofre e que a seguir esqueça o segredo.
Às vezes, é preciso saber renunciar, não aceitar, não cooperar, não ouvir nem contemporizar, não pedir nem dar, não aceitar nem participar, sair pela porta da frente sem a fechar, pedir silêncio paz e sossego, sem dor, sem tristeza e sem medo de partir. E partir para outro mundo, para outro lugar, mesmo quando o que mais queremos é ficar, permanecer, construir, investir, amar.
Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho e mesmo que não haja caminho porque o caminho se faz a andar, o sol, o vento, o céu e o cheiro do mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza que fizémos bem e que não podia ser de outra maneira. Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar. Até se conformar e um dia então esquecer.

Momentos da Vida: ENTREVISTA COM DEUS

Sonhei que tinha marcado uma entrevista com DEUS.
Cheguei e bati.
Entre. Então, gostarias de ME entrevistar?
Se tiver um tempinho..., disse eu.
DEUS sorriu e disse:
O Meu tempo é eterno, suficiente para fazer todas as coisas. Que perguntas tens em mente?
O que mais O surpreende na humanidade? Perguntei.
DEUS respondeu:
Que se aborreçam de ser crianças e queiram logo crescer e aí desejem ser crianças outra vez;
Que desperdicem a saúde para fazer dinheiro e aí percam dinheiro para restaurar a saúde;
Que pensem ansiosamente sobre o futuro, esqueçam o presente e, dessa forma, não vivam nem o presente, nem o futuro;
Que vivam como se nunca fossem morrer e que morram como se nunca tivessem vivido.”
Em seguida, a mão de DEUS segurou a minha e por um instante ficámos silenciosos. Então perguntei:
PAI, quais as lições de vida que quer que os SEUS filhos aprendam?
Com um sorriso, DEUS respondeu:
Que aprendam que não podem fazer com que ninguém os ame. O que podem fazer é que se deixem amar;
Que aprendam que o mais valioso não é o que têm na vida, mas quem têm na vida;
Que aprendam que não é bom compararem-se uns com os outros. Todos serão julgados individualmente sobre seus próprios méritos, não como um grupo na base da comparação;
Que aprendam que uma pessoa rica não é a que tem mais, mas a que precisa menos;
Que aprendam que só é preciso alguns segundos para abrir profundas feridas nas pessoas amadas e que são necessários muitos anos para curá-las;
Que aprendam a perdoar, praticando o perdão;
Que aprendam que há pessoas que os amam muito, mas que simplesmente não sabem como expressar ou demonstrar seus sentimentos;
Que aprendam que o dinheiro pode comprar tudo, excepto felicidade;
Que aprendam que duas pessoas podem olhar para a mesma coisa e vê-Ia totalmente diferente;
Que aprendam que um amigo verdadeiro é alguém que sabe tudo sobre eles e gosta deles mesmo assim;
Que aprendam que não é suficiente que eles sejam perdoados, mas que se perdoem a si mesmos.
Por um tempo, permaneci sentado, desfrutando aquele momento. Agradeci­-lhe pelo SEU tempo e por todas as coisas que ELE tem feito por mim e pela minha família.
ELE respondeu:
Não tens de quê. Estou sempre aqui, 24 horas por dia. Tudo o que tens a fazer é chamar por mim e EU virei.

Às Voltas com a Memória: SÁ CARNEIRO (n. 19 Jul. 1934; m. 04 Dez. 1980)

FRANCISCO Manuel Lumbrales de SÁ CARNEIRO, Nascido no Porto no dia 19 de Julho de 1934, cresceu no seio de uma família da alta burguesia. Era filho do advogado José Gualberto Chaves Marques de Sá Carneiro, natural de Barcelos, e de Maria Francisca Judite Pinto da Costa Leite, filha dos Condes de Lumbrales, Salamanca.
Advogado de profissão, licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, foi eleito pelas listas da Acção Nacional Popular, o partido único do regime salazarista, para a Assembleia Nacional, convertendo-se em líder da Ala Liberal , onde desenvolveu diversas iniciativas tendentes à gradual transformação da ditadura numa democracia típica da Europa Ocidental. Colaborou com Mota Amaral na elaboração de um projecto de revisão constitucional, apresentado em 1970. Não tendo alcançado os objectivos aos quais se propusera, viria a resignar ao cargo de deputado com outros membros da Ala Liberal, entre os quais Francisco Pinto Balsemão e Magalhães Mota. Foi, no entanto, na cidade do Porto, sua cidade natal, que o Partido Social Democrata teve a sua génese, em parte, no diálogo entre amigos e colegas dos meios republicanos do Porto, como Miguel Veiga, Artur Santos Silva (pai) ou Mário Montalvão Machado. Sá Carneiro professava o republicanismo e a laicidade como as formas de organização estrutural do Estado Português, como refere na célebre entrevista de 1973 concedida a Jaime Gama no Jornal República: "Os conceitos de catolicismo progressista e de democracia cristã são bastante equívocos para mim – e não aceito enquadrar-me em qualquer deles. Entendo que os partidos políticos – que considero indispensáveis a uma vida política sã e normal – não carecem de ser confessionais, nem devem sê-lo. Daí que não me mostre nada favorável, nem inclinado, a filiar-me numa democracia cristã. É evidente que a palavra pode não implicar nenhum conceito confessional e nesse sentido apresentar-se apenas como um partido que adopte os valores cristãos. Simplesmente, em política, parece-me que os valores não têm que ter nenhum sentido confessional e, portanto, se amanhã me pudesse enquadrar em qualquer partido, estou convencido de que, dentro dos quadros da Europa Ocidental, comummente aceites, iria mais para um, partido social democrata."
Em Maio de 1974, após a Revolução dos Cravos, Sá Carneiro fundou o Partido Popular Democrático (PPD), entretanto resignado Partido Social-Democrata (PSD), juntamente com Francisco Pinto Balsemão e Joaquim Magalhães Mota. Torna-se o primeiro Secretário-Geral do novo partido.
Nomeado Ministro (Sem Pasta) em diversos governos provisórios, seria eleito deputado à Assembleia Constituinte em 1975 e, em 1976, eleito deputado (na I Legislatura) à Assembleia da República.
Em Novembro de 1977, demitiu-se da chefia do partido, mas seria reeleito no ano seguinte para desempenhar a mesma função.
Em finais de 1979, criou a Aliança Democrática, uma coligação entre o seu PPD/PSD, o Centro Democrático Social-Partido Popular de Diogo Freitas do Amaral, o Partido Popular Monárquico de Gonçalo Ribeiro-Telles, e alguns independentes. A coligação vence as eleições legislativas desse ano com maioria absoluta. Dispondo de uma ampla maioria a apoiá-lo (a maior coligação governamental até então desde o 25 de Abril), foi chamado pelo Presidente da República Ramalho Eanes para liderar o novo executivo, tendo sido nomeado Primeiro-Ministro a 3 de Janeiro de 1980, sucedendo assim a Maria de Lurdes Pintassilgo.
Francisco Sá Carneiro faleceu na noite de 4 de Dezembro de 1980, em circunstâncias trágicas e nunca completamente esclarecidas, quando o avião no qual seguia se despenhou em Camarate, pouco depois da descolagem do aeroporto de Lisboa, quando se dirigia ao Porto para participar num comício de apoio ao candidato presidencial da coligação, o General António Soares Carneiro. Juntamente com ele faleceu o Ministro da Defesa, o democrata-cristão Adelino Amaro da Costa, bem como a sua companheira Snu Abecassis, para além de assessores, piloto e co-piloto.
Nesse mesmo dia, Sá Carneiro gravara uma mensagem de tempo de antena onde exortava ao voto no candidato apoiado pela AD, ameaçando mesmo demitir-se caso Soares Carneiro perdesse as eleições (o que viria de facto a suceder três dias mais tarde, sendo assim o General Eanes reeleito para o seu segundo mandato presidencial).

sábado, 15 de janeiro de 2011

Às Voltas com a Memória: VASCO SANTANA (n. 28 JAN. 1898; m. 13 Jun. 1958)

Vasco António Rodrigues Santana, nasceu a 28 de Janeiro de 1898, em Lisboa, e morreu também em Lisboa a 13 de Junho de 1958, foi casado com a actriz Mirita Casimiro, também ela um grande nome do teatro português.

Com 19 anos, e depois de ver repetidamente a peça “O Beijo”, de Arnaldo Leite e Carvalho Barbosa, no Teatro Avenida, Vasco Santana é solicitado para substituir o actor Artur Rodrigues e faz assim a sua primeira estreia teatral pública, com o papel de Palavreado. Devido ao seu inesgotável talento, a representação não podia ser outra coisa senão um êxito. Daí em diante nunca mais parou. Com as suas habituais manobras de genialidade no palco, levava ao delírio centenas de admiradores.
Vasco Santana abandona o curso de belas-artes e dedica-se exclusivamente à carreira dramática, fazendo longas temporadas no Teatro S. Luiz e viajando ao Brasil nas “tounées” das companhias em que trabalhava.

Destacou-se na comédia e alcançou o estatuto de estrela no cinema, protagonizando filmes como “A Canção de Lisboa”, de 1933, em que contracena com Beatriz Costa e António Silva; “O Pai Tirano”, em 1941, em que faz dupla com Ribeirinho e no qual domina a acção e cria situações brilhantes de humor; e “O Pátio das Cantigas”, em 1942, em que concebe alguns dos seus mais bem sucedidos momentos cinematográficos, como o monólogo com o candeeiro ou os diálogos de trocadilhos com António Silva.

Devorado por uma energia imparável, jamais estava quieto. No teatro nunca deixou de trabalhar e, cada vez que subia ao palco, levava consigo uma aura de alegria e boa-disposição. “Ver a Laura ou o Vasco Santana era uma festa. Hoje, achamos extraordinário como eles faziam duas sessões sempre esgotadas. Aquilo era melhor que um Benfica-Sporting!”, testemunha o encenador Filipe La Féria, fazendo referência à célebre dupla que o actor fazia com Laura Alves.

Mas Vasco Santana não fez só comédias. Entrou também em algumas peças dramáticas, como “Três Rapazes e Uma Rapariga”. Brilhou de igual maneira e transmitiu grande humanidade às personagens. Tinha talento nato, mas também dominava as técnicas de representação e sabia como ninguém improvisar. “Havia um charme, uma delicadeza a dizer as coisas. Bem ditas e bem representadas”, refere Fernando Mendes.
O multifacetado actor também conheceu o sucesso na rádio, criando personagens engraçadas como o Zequinha, da série “O Zequinha e a Lelé”, nos anos de 1947 e 1948.

Nasceu e morreu em Lisboa e foi pai de outro conhecido actor português, Henrique Santana. Para sempre adorado pelo público, Vasco Santana será, para a eternidade, uma referência obrigatória na arte da representação. Quase 50 anos após a sua morte, ainda faz rir Portugal.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Como nasceu a Sociologia em PORTUGAL? (Parte III e Última)

De uma forma sintética e identificando as diferentes variantes da produção sociológica em Portugal e a melhor prática dessa produção nos últimos anos, eu diria que os benefícios que a institucionalização tardia da sociologia em Portugal teve as seguintes vantagens:
1.      A abertura interdisciplinar do trabalho sociológico,
2.      A tendência para a auto reflexividade epistemológica e metodológica,
3.      O ajustamento entre dimensão teórica e dimensão empírica do social,
4.      Pluralismo teórico e metodológico, aliado à rejeição de orientações paradigmáticas exclusivistas,
5.      A combinação de metodologias quantitativas e qualitativas,
6.      A articulação de diferentes níveis de análise, macro, micro, global e local,
7.      O interesse por estudos inovadores e de “fronteira”,
8.      A combinação equilibrada entre a investigação fundamental, a investigação aplicada e a intervenção profissional.
Todos estes traços não significa outra coisa senão reconhecer que, à partida, as condições se apresentavam favoráveis ao desenvolvimento de uma sociologia inovadora e de qualidade, e não envolve qualquer juízo de valor em relação ao modo como essas condições foram aproveitadas.
Importa salientar que os contextos mutáveis em que se desenvolveu o trabalho sociológico, se encarregou de reduzir, nuns casos, e aumentar noutros, as vantagens comparativas de que os sociólogos portugueses gozavam à partida.
Boaventura Sousa Santos, a propósito da década de 80, afirma que o contexto sociotemporal, acabou por ser desastroso para a sociologia, por esta não ser capaz de acompanhar as rápidas transformações que estavam a ocorrer, nem evitar que o trabalho sociológico se orientasse, paradoxalmente, noutras direcções. Isto resultou, que devido a certas conjunturas da história portuguesa recente, se abrandasse a vigilância crítica em relação ao poder instituído de que se falou atrás.
Cito Boaventura Sousa Santos, “A tradição sociológica portuguesa tem alguma especificidade. Dominou durante muito tempo uma postura crítica. Em dois momentos, porém, muito diferentes entre si, o compromisso orgânico pretendeu tomar a dianteira: o primeiro foi durante a crise revolucionária do 25 de Abril, o segundo, nos últimos quatro anos, em resultado de uma certa modernização e também de uma certa governamentalização das práticas sociais e institucionais, ambas impulsionadas pela integração de Portugal na CEE”. E conclui: “Os desafios que nos são colocados exigem de nós que saiamos deste pêndulo. Nem guiar nem servir. Em vez de distância crítica, proximidade crítica. Em vez de compromisso orgânico, o envolvimento livre. Uma objectividade feita de independência, e não de neutralidade”.
Finalmente e voltando ainda ao tardio surgimento da sociologia em Portugal e a sua relativa marginalidade em face aos principais centros de produção do conhecimento sociológico, importa realçar a posição defendida em 1988, pelo então Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia, João Ferreira de Almeida: “Sou dos que não consideram forçosamente negativos todos os efeitos da nossa relativa marginalidade (…). É certo que a periferia tende a ser candidata a colonização e, no caso que agora nos interessa, através da importação acrítica de modelos nem sempre adequados ao trabalho local; mas a situação comporta, também, virtualidades que interessa ter em conta e aproveitar. A sociologia que se faz em Portugal pode, com efeito, recolher influxos variados que activamente procure e seleccione, quer os provenientes dos espaços já referidos, quer os que têm origem noutras fontes e noutras regiões. As grandes áreas linguísticas e culturais padecem geralmente de algum isolamento, apesar e por causa da sua dimensão e da sua preponderância. A nossa pequenez, em contrapartida, obriga-nos à extroversão; todo o problema reside em aproveitar sem exclusões apriorísticas os contributos exteriores avaliados como mais positivos”.
Adaptado de um artigo de Pedro Hespanha "Os custos e os Benefícios da Institucionalização tardia da Sociologia em Portugal" de Outubro de 1996