quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Às Voltas com a Memória: JOSÉ AFONSO (n. 02 Ago. 1929; m. 23 Fev. 1987)

José Afonso, de nome completo José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, nasceu em Aveiro, a 2 de Agosto de 1929, filho de José Nepomuceno Afonso, magistrado, e de Maria das Dores, professora primária.
Em 1930 os pais vão para Silva Porto (actual Cuíto), Angola, onde o pai havia sido colocado como Delegado do Ministério Público. Por razões de saúde, José Afonso permanece em Aveiro, na casa da Fonte das Cinco Bicas, confiado à tia Gigé e ao tio Xico, um "republicano anticlerical e anti-sidonista". Por insistência da mãe, em 1932, e já com três anos e meio de idade, segue para Angola, no vapor Mouzinho, acompanhado por um primo que ia em lua-de-mel, e que o deixa ao abandono vindo a agarrar-se a um sacerdote, a única pessoa que lhe presta atenção.
Permanece três anos na antiga colónia portuguesa, e aí inicia a instrução primária. José Afonso diz que esta permanência em África deixou uma marca profunda na sua vida: «a África era uma coisa imensa, uma natureza inacessível que não tinha fim, contactos com fenómenos da natureza extremamente prepotentes como eram as grandes trovoadas, os gafanhotos, florestas, travessias de rios em barcaças, etc., etc. (...) A África como entidade física é uma coisa que pesou muito na minha vida e nas minhas recordações». Em 1936 regressa a Aveiro, passando a viver na casa de uma tia materna. No ano seguinte, com 8 anos de idade, vai de novo ao encontro dos pais e dos irmãos, agora em Moçambique, mais concretamente na cidade de Lourenço Marques (actual Maputo). Os irmãos serão uma presença forte na vida de José Afonso: João, mais velho, é uma figura próxima da estrutura do clã, que o apoiará em ocasiões difíceis um pouco ao longo de toda a sua vida; Mariazinha, mais nova, concitará os seus afectos, bem patentes nas cartas que lhe escreve. Regressa a Portugal, passados dois anos, desta vez para casa do tio Filomeno, presidente da Câmara Municipal de Belmonte. É nesta vila da Beira Baixa que Zeca conclui a quarta classe e prepara o exame de admissão ao liceu. O tio, salazarista convicto e comandante da Legião Portuguesa, fá-lo envergar a farda da Mocidade Portuguesa. «Foi o ano mais desgraçado da minha vida», confessaria Zeca mais tarde. Não obstante, é neste período que José Afonso toma contacto com as canções tradicionais que virão a ter uma grande importância na sua obra.
Em 1940, com 11 anos de idade, vai para Coimbra para prosseguir os estudos ficando instalado em casa da tia Avrilete. É matriculado no Liceu D. João III (hoje Escola Secundária José Falcão) e aí conhece António Portugal e Luiz Goes, ambos mais novos do que ele. A família deixa Moçambique e parte para Timor, onde o pai vai exercer as funções de juiz. A irmã Mariazinha vai com os pais, enquanto seu irmão João vem para Portugal. Com a ocupação de Timor pelos Japoneses, no âmbito da Segunda Guerra Mundial, José Afonso fica sem notícias dos pais durante três anos, até ao final da guerra, em 1945.
Nesse mesmo ano (andava no 5.º ano do liceu) começa a cantar serenatas, o que lhe dá não só estatuto, mas também privilégios praxistas. José Afonso, a quem chamavam "bicho-cantor" ("bicho" era a designação praxista para os estudantes liceais), gozava, por exemplo, do privilégio de não ser "rapado" pelas trupes que, depois do pôr-do-sol, saíam para as ruas da cidade à procura de "bichos" e caloiros. Em acumulação, Zeca beneficiava também desse tratamento especial, por jogar futebol nos juniores da Académica. Em 1948, após dois chumbos, completa o curso dos liceus. Conhece Maria Amália de Oliveira, uma costureira de origem humilde, com quem vem a casar em segredo, por oposição dos pais, e para grande escândalo das tias. Faz viagens com o Orfeão e com a Tuna Académica.
Em 1949 inscreve-se no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, da Faculdade de Letras. Vai a Angola e Moçambique integrado numa comitiva do Orfeão Académico da Universidade de Coimbra. Em Janeiro de 1953 nasce-lhe o primeiro filho, José Manuel. Dá explicações e trabalha como revisor no Diário de Coimbra. A condição de estudante e de trabalhador fá-lo tomar consciência dos problemas sociais que o marcariam de forma decisiva: «Havia uma sociedade de indivíduos que viviam na Alta ou na Baixa economicamente depauperados: barbeiros, merceeiros, profissões dependentes do estudante. Recordo-me que as criadas viviam num estado de fome permanente nas férias grandes e começavam a comer quando os estudantes regressavam. (...) Lembro-me do estatuto de estudante que era, apesar de tudo, compatível com uma certa compreensão humana da situação dessa gente. Esta visão sentimental do que eram as desigualdades sociais motivou uma certa transformação em mim. A visão poético-estudantil em que eu me considerava um herói de capa e batina, um cavaleiro andante, desapareceu ou foi desaparecendo com o tempo e à medida que fui vivendo numa situação económica extremamente difícil com os meus dois filhos no Beco da Carqueja».
São editados os seus primeiros trabalhos discográficos – dois discos de 78 rotações com fados de Coimbra, com chancela da Alvorada, e gravados na delegação regional de Coimbra da Emissora Nacional. Cada disco inclui dois fados, sendo "Fado das Águias", com letra e música de José Afonso, a sua primeira composição gravada.
De 1953 a 1955, cumpre o serviço militar obrigatório em Mafra. Recebe guia de marcha para Macau, mas não chega a ser mobilizado por motivos de saúde, vindo a ser colocado num quartel de Coimbra. Da sua vida militar recorda: «Eu fui o menos classificado de todo o curso por falta de aprumo militar». No ano lectivo 1955/56, e para assegurar o sustento da família, e embora não tendo ainda concluído o curso, começa a dar aulas num colégio privado em Mangualde. Inicia-se o processo de separação e posterior divórcio de Amália (a 1 de Junho de 1963). José Afonso manterá uma névoa de silêncio em redor desta sua experiência conjugal.
Em 1956 é editado, pela Alvorada, o seu primeiro EP intitulado "Fados de Coimbra", em que tem como acompanhadores António Portugal e Jorge Godinho (guitarras) e Manuel Pepe e Levy Baptista (violas). Em 1956/57 é professor em Aljustrel, seguindo-se nos anos subsequentes Lagos, Faro, Alcobaça e de novo Faro. José Afonso fala assim da sua experiência enquanto docente: «A minha acção como professor era mais de carácter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes um espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais».
Por dificuldades económicas, em 1958 envia os dois filhos (José Manuel e Helena) para Moçambique, para junto dos avós. Neste ano fica impressionado com a campanha eleitoral de Humberto Delgado. Durante um mês integra a digressão da Tuna Académica em Angola, mas não canta apenas fados de Coimbra. «O Zeca era um dos vocalistas do Conjunto Ligeiro da Tuna e cantava canções como "Adeus Mouraria", o seu maior sucesso, acompanhado ao piano, baixo, bateria, acordeão e guitarra eléctrica. Actuávamos vestidos com umas largas blusas de cetim, cada uma de sua cor, imitando a orquestra de mambos de Perez Prado, o máximo da altura. Acabada esta cena de 'show-biz', vestíamos rapidamente a capa e batina e íamos para a serenata, mutantes do sol para a lua» conta José Niza. Na viagem de regresso, no Paquete Pátria, convive com a poetisa Natália Correia, que mais tarde lhe dedicará um poema (transcrito em epígrafe). «Sob o luar quente dos trópicos, íamos à noite para a ré do navio, com violas, vinho e poesia: o Zeca cantava; e a Natália – cabelos ao vento, deusa grega, nessa altura e sem exagero, uma das mulheres mais belas do planeta – dizia poemas» recorda José Niza.
Em 1959 começa a frequentar colectividades e a cantar regularmente em meios populares. Em 1960, e depois de quatro anos sem gravar, é editado o EP intitulado "Balada do Outono", com chancela da Rapsódia, disco que inaugura o movimento da balada coimbrã e um marco na História da música portuguesa. A propósito da "Balada do Outono" (Águas das fontes calai / Ó ribeiras chorai / Que eu não volto a cantar) escreve Manuel Alegre: «A canção de Coimbra não voltaria a ser a mesma, a música ligeira portuguesa também não. Aquela balada era nova e ao mesmo tempo muito antiga. Tudo estava nela: a tradição trovadoresca, os cantares de amigo, os romances populares. E também o espírito de um tempo de mudança». Faz nova digressão a Angola, com o Orfeão Académico, durante a qual toma verdadeira consciência da realidade colonial. José Niza recorda: «Fomos encontrar uma Angola diferente. Tinha-se dado a independência do Congo Belga e todo o território estava cheio de retornados belgas. A PIDE tinha-se instalado em Luanda e noutras cidades. E sentiam-se no ar, nas entrelinhas das conversas, nos olhares, os sinais de que alguma coisa iria acontecer». No ano seguinte rebentava a Guerra Colonial.
José Afonso segue atentamente a crise estudantil de 1962. Em Faro convive com Luisa Neto Jorge, António Barahona, António Ramos Rosa e Manuel Pité, e namora com Zélia, natural da Fuzeta, que será a sua segunda mulher e com quem terá mais dois filhos, Joana e Pedro. É José Afonso quem nos diz: «O conhecimento da Zélia, num lugar do Algarve, reconciliou-me com a água fresca e com os tons maiores. Passei a fazer canções maiores». Para o álbum colectivo "Coimbra Orfeon of Portugal", editado pela Monitor (dos Estados Unidos), José Afonso grava dois temas – "Minha Mãe" e "Balada Aleixo" – em que rompe definitivamente com o acompanhamento das guitarras. Nestas duas baladas é acompanhado exclusivamente à viola por José Niza e Durval Moreirinhas. Realiza digressões pela Suíça, Alemanha e Suécia, integrado num grupo de fados e guitarras, na companhia de Adriano Correia de Oliveira, José Niza, Jorge Godinho, Durval Moreirinhas e ainda da fadista lisboeta Esmeralda Amoedo. Em 1963, conclui a licenciatura na Faculdade de Letras de Coimbra com uma tese sobre Jean-Paul Sartre: "Implicações Substancialistas na Filosofia Sartriana". Em 1962 e 1963 são editados dois EP intitulados "Baladas de Coimbra", com Rui Pato à viola, dos quais fazem parte as belíssimas "Menino d'Oiro", "No Lago do Breu", "Canção do Vai... e Vem" e "Menino do Bairro Negro", esta última inspirada nos meios sociais miseráveis do Porto, no Bairro do Barredo. A balada "Os Vampiros", incluída no EP de 1963, tornar-se-á, juntamente com a "Trova do Vento que Passa" (gravada no mesmo ano por Adriano Correia de Oliveira), um dos símbolos maiores da resistência antifascista até ao advento da liberdade.
Em Maio de 1964, José Afonso actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se inspira para fazer a canção "Grândola, Vila Morena", que viria a ser no dia 25 de Abril de 1974 a senha do Movimento das Forças Armadas (MFA) para o derrube do regime ditatorial. É editado o EP "Cantares de José Afonso", o único para a Valentim de Carvalho, que inclui "Coro dos Caídos", "Canção do Mar", "Maria" (dedicada a Zélia) e "Ó Vila de Olhão", com Rui Pato à viola, excepto na última que é acompanhada pelo conjunto de guitarras de Jorge Fontes. As três primeiras viriam a ser depois incluídas num álbum colectivo com Carlos Paredes e Luiz Goes (reeditado em CD pela EMI-VC em 1992). Ainda em 1964, muda-se com Zélia para Lourenço Marques, onde reencontra os seus filhos e os pais. Durante dois anos dá aulas na cidade da Beira. Em Moçambique desenvolve intensa actividade anticolonialista e relaciona-se, entre outros, com Malangatana e António Quadros (João Pedro Grabato Dias), que vem a contribuir com algumas letras para o repertório do cantor. Aí compõe a música para a peça de Bertolt Brecht  "A  Excepção  e  a  Regra",  traduzida e  encenada  por  Luiz Francisco  Rebello,  cujos  temas  virá posteriormente a gravar.
Em 1967, esgotado pelo sistema colonial, regressa a Lisboa, deixando o filho mais velho, José Manuel, confiado aos avós. José Afonso recorda assim a sua última fase africana: «Se houve alguma coisa em África que me marcou definitivamente foi a realidade colonial. Quando eu parti ia preparado para enfrentá-la: sabia quais os seus contornos e o papel que me cabia como professor, quais os alunos que ia ensinar. Sabia também que ia ser um veículo de transmissão ideológica de uma classe dominante. (...) Fiquei terrivelmente ligado àquela realidade física que é a África, aquilo tem de facto qualquer coisa de estranho, uma força muito grande que nos seduz. O meu baptismo político começa em África. Estava a dois passos do oprimido».
É colocado como professor em Setúbal, e a par das funções lectivas começa a aceitar convites para cantar em colectividades da Margem Sul. Fica sob a mira da PIDE que o passa a chamar com relativa assiduidade para prestar declarações no posto de Setúbal. É editado, pela Discoteca Santo António, através da etiqueta Ofir, o LP "Baladas e Canções", gravado nos Estúdios da RTP em Vila Nova de Gaia (reeditado em CD pela EMI-VC em 1997). É o primeiro álbum a sério de José Afonso, com 12 temas, entre os quais "Canção Longe", "Os Bravos", "Balada Aleixo", "Balada do Outono" (em versão instrumental), "Na Fonte Está Lianor" (com poema de Luís de Camões), "Minha Mãe", "Altos Castelos", "O Pastor de Bensafrim" e "A Ronda dos Paisanos". Sofre uma grave depressão que o leva a ser internado durante 20 dias na Casa de Saúde de Belas. Quando sai da clínica, recebe a notícia de que tinha sido demitido do ensino oficial. É publicado o livro "Cantares de José Afonso", pela Nova Realidade. O PCP convida-o a aderir ao partido, mas José Afonso recusa invocando a sua condição de classe. «Nunca fui um indivíduo com certezas dogmáticas acerca de grupos ou partidos preferenciais. Comecei por me relacionar, sobretudo na Margem Sul, a associações de estudantes fortemente politizadas, por um lado, e a determinadas organizações políticas, como por exemplo os Católicos Progressistas, por outro. Achava que todos aqueles grupos eram necessários para formar um movimento que conduzisse ao derrube do poder. Qual seria depois o partido ou organização que surgira após o derrube do poder, não sabia».
Mais uma vez confrontado com necessidades de subsistência, é obrigado a dar explicações e a encarar mais seriamente a carreira musical, designadamente através da gravação de discos. Cientes da situação, Rui Pato e António Portugal contactam várias editoras, incluindo aquelas para as quais Zeca já gravara antes, mas todas lhes fecham as portas, com medo da PIDE. Então, em desespero de causa, vão ao Porto falar com Arnaldo Trindade, do Orfeu, para a qual Adriano Correia de Oliveira, já gravava há anos. A proposta era nem mais nem menos que a gravação de "Cantares do Andarilho". Arnaldo Trindade aceita a ideia, assume os riscos e propõe um contrato sui generis: José Afonso passaria a receber, mensalmente, 15 mil escudos (quantia nada desprezível na altura) e em troca comprometia-se a gravar um álbum por ano. Foi através deste vínculo à Orfeu, para a qual gravou mais de 70 por cento da sua obra, que Zeca alcançou a estabilidade económica que nunca tivera, e de que tanto precisava em face dos seus encargos familiares. No Natal de 1968, sai o sugestivamente intitulado "Cantares do Andarilho", com Rui Pato à viola, sem dúvida alguma, um dos melhores álbuns da sua discografia. Deste disco fazem parte, entre outros, temas como "Natal dos Simples", "Balada do Sino", "Canção de Embalar", "Endechas a Bárbara Escrava (com poema de Luís de Camões), "Chamaram-me Cigano" e “Vejam Bem”.
Em 1969, a Primavera marcelista abre perspectivas de organização ao movimento sindical. José Afonso participa activamente neste movimento, assim como nas acções dos estudantes em Coimbra. Em 1969 , participa no 1º Encontro da "Chanson Portugaise de Combat", em Paris. Edita o álbum "Contos Velhos, Rumos Novos" e o single "Menina dos Olhos Tristes" que contém a canção popular "Canta Camarada". Em "Contos Velhos, Rumos Novos", e fazendo jus ao título, continua e aprofunda a exploração do repertório da tradição popular ("Oh! Que Calma Vai Caindo", "S. Macaio", "Deus Te Salve, Rosa", "Lá Vai Jeremias"), ao mesmo tempo que põe em música uma plêiade de escritores eruditos: Airas Nunes ("Bailia"), F. Miguel Bernardes ("Qualquer Dia"), Lope de Vega ("No Vale de Fuenteovejuna"), Luís Andrade Pignatelli ("Era de Noite e Levaram") e Ary dos Santos ("A Cidade"). Pela primeira vez num disco de José Afonso, aparecem outros instrumentos que não a viola ou a guitarra, como a trompa, as marimbas, o cavaquinho e a harmónica. Recebe o prémio da Casa da Imprensa para o melhor disco, distinção que repete em 1970 e 1971.
Em 1970 é editado o álbum "Traz Outro Amigo Também", gravado em Londres, nos estúdios da Pye Records, o primeiro sem Rui Pato, impedido pela PIDE de viajar, por causa do seu envolvimento na crise académica de 1969. Será substituído por Carlos Correia (Bóris), antigo músico de rock, dos Álamos e do Conjunto Universitário Hi-Fi. Além do tema-título, o alinhamento inclui temas como "Maria Faia", "Canto Moço", "Epígrafe para a Arte de Furtar" (com poema de Jorge de Sena), "Moda do Entrudo", "Canção do Desterro" e "Verdes São os Campos" (com poema de Luís de Camões). Na capital britânica, José Afonso conhece os brasileiros Gilberto Gil e Caetano Veloso, que aí se encontravam exilados por motivos políticos. Em Março de 1970, a Casa de Imprensa atribui a José Afonso, por unanimidade, o Prémio de Honra pela «alta qualidade da sua obra artística como autor e intérprete e pela decisiva influência que exerce em todo o movimento de renovação da música ligeira portuguesa». Participa em Cuba num Festival Internacional de Música Popular.
No Natal de 1971, é lançado o LP "Cantigas do Maio", com direcção musical de José Mário Branco, gravado em Herouville (perto de Paris), no Strawberry Studio, um dos mais caros e afamados da Europa. O álbum conta ainda com a participação de Carlos Correia (Bóris), Francisco Fanhais e vários músicos franceses, entre os quais, o percussionista Michel Delaporte. Além de "Grândola, Vila Morena", o disco inclui temas tão emblemáticos como "Cantigas do Maio", "Cantar Alentejano" (em homenagem a Catarina Eufémia, assassinada pela GNR), "Maio, Maduro Maio" e "Mulher da Erva". É geralmente considerado o melhor álbum de José Afonso e representa o momento de viragem para formas de acompanhamento instrumental mais enriquecidas e elaboradas. A editora Nova Realidade publica o livro  “Cantar de Novo”.
No ano de 1972 sai o LP "Eu Vou Ser Como a Toupeira", gravado em Madrid, nos Estúdios Cellada, sob a direcção musical de José Niza e com a participação de Benedicto, um cantor galego amigo de Zeca, e com o apoio dos Aguaviva, de Manolo Diaz. Deste álbum fazem parte, entre outros, os temas "A Morte Saiu à Rua" (em homenagem ao pintor José Dias Coelho, assassinado pela PIDE numa rua de Alcântara), "Ó Minha Amora Madura", "No Comboio Descendente" (com poema de Fernando Pessoa) e o belíssimo "Fui à Beira do Mar" (vide letra abaixo). Em 1973, José Afonso continua a sua "peregrinação", cantando um pouco por todo o lado. Muitas sessões foram proibidas pela PIDE/DGS. Em Abril é preso e fica 20 dias em Caxias até finais de Maio. Na prisão política, escreve o poema "Era Um Redondo Vocábulo", um dos temas mais belos do álbum seguinte, "Venham Mais Cinco", gravado em Paris, no Studio Aquarium, e que conta de novo com a direcção musical de José Mário Branco e com a participação de uma miríade de músicos estrangeiros, sendo de destacar Michel Delaporte nas percussões. O tema-título tem a participação vocal de Janine de Waleyne, solista dos Swingle Singers, o melhor grupo vocal de jazz cantado da altura, na opinião de José Niza. Além do conhecido tema que dá nome ao álbum, merecem ainda destaque três outros temas, autênticas pérolas do repertório de José Afonso: o citado "Era Um Redondo Vocábulo", "Adeus ó Serra da Lapa" e "Que Amor Não me Engana".
A 29 de Março de 1974, o Coliseu de Lisboa enche-se para ouvir José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire, José Barata Moura, Fernando Tordo e outros, que terminam a sessão com "Grândola, Vila Morena". Militares do MFA estão entre a assistência e escolhem "Grândola" para senha do golpe militar que está em congeminação e que se concretizará, daí a menos de um mês, no 25 de Abril. No dia daquele espectáculo, a censura avisara a Casa de Imprensa, organizadora do evento, de que eram proibidas as representações dos temas "Venham Mais Cinco", "Menina dos Olhos Tristes", "A Morte Saiu à Rua" e "Gastão Era Perfeito". Curiosamente, a "Grândola, Vila Morena" era autorizada. É editado o álbum "Coro dos Tribunais", gravado em Londres, novamente na Pye Records, com arranjos e direcção musical, pela primeira vez, de Fausto Bordalo Dias e com a participação musical do próprio Fausto e ainda de Michel Delaporte, Vitorino, Carlos Alberto Moniz, Yório Gonçalves, Adriano Correia de Oliveira e José Niza. São incluídas as canções brechtianas compostas em Moçambique no período entre 1964 e 1967, "Coro dos Tribunais" e "Eu Marchava de Dia e de Noite (Canta o Comerciante)". Em 1974/75 Zeca envolve-se directamente nos movimentos populares e no PREC (Processo Revolucionário Em Curso), mas faz questão de não se filiar em qualquer dos sectarismos partidários existentes. Canta no dia 11 de Março de 1975 no RALIS para os soldados e estabelece uma colaboração estreita com a LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária), através do seu amigo Camilo Mortágua, dirigente da organização. A LUAR edita o single "Viva o Poder Popular", com "Foi na Cidade do Sado" no lado B. Em Itália, as organizações revolucionárias Lotta Continua, Il Manifesto e Vanguardia Operaria editam o álbum "República", gravado em Roma nos dias 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1975, nos estúdios das Santini Edizioni. As receitas do disco destinavam-se a apoiar a Comissão de Trabalhadores do jornal "República" ou, caso o jornal fosse extinto, como foi, o Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre. Desconhecido em Portugal, este álbum inclui "Para Não Dizer Que Não Falei de Flores" (versão de Francisco Fanhais da célebre canção de Geraldo Vandré), "Se os Teus Olhos se Vendessem", "Foi no Sábado Passado", "Canta Camarada", "Eu Hei-de Ir Colher Macela", "O Pão Que Sobra à Riqueza", "Os Vampiros", "Senhora do Almortão", "Letra para Um Hino" e "Ladainha do Arcebispo". Além de Francisco Fanhais, este disco teve o contributo de diversos músicos italianos.
Em 1976, Zeca apoia a candidatura presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho, estratega do 25 de Abril e ex-comandante do COPCON (Comando Operacional do Continente), apoio que reedita em 1980. Ainda em 1976, publica o álbum "Com as Minhas Tamanquinhas", com a surpreendente participação de Quim Barreiros. É, na opinião de José Niza, «um disco de combate e de denúncia, um grito de alma, um murro na mesa, sincero e exaltado, talvez exagerado se ouvido e lido ao fim de 30 anos, isto é, hoje». É a "ressaca" do PREC. O próprio José Afonso dirá mais tarde: «Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão é um homem comprometido. Não é o produto saído desse cantor que define o compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolve com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta». E acrescenta: «Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for». O álbum "Enquanto Há Força", editado em 1978, com o apoio de Fausto Bordalo Dias na direcção musical, representa mais um exemplo da fase cronista e panfletária do cantor, ligada às suas preocupações anti-colonialistas e anti-imperialistas, a que não escapa uma crítica mordaz à Igreja Católica (no tema "Arcebispíada"). Conta com a participação de excelentes músicos e cantores, como Guilherme Inês, Carlos Zíngaro, Pedro Caldeira Cabral, Rão Kyao, Luís Duarte, Adriano Correia de Oliveira e Sérgio Godinho. Em 1979 é editado o álbum "Fura Fura", com a colaboração musical de Júlio Pereira e dos Trovante. Dos doze temas do alinhamento, oito são de música para teatro, compostos para as peças "Zé do Telhado" e "Guerras de Alecrim e Manjerona", levadas à cena na Barraca e na Comuna, respectivamente.
Actua em Bruxelas no Festival da Contra-Eurovisão. Em 1981, e após dois anos sem discos, reconcilia-se com a canção de Coimbra e com a guitarra ao gravar o álbum "Fados de Coimbra e Outras Canções", no qual reinterpreta três temas já anteriormente gravados: "Senhora do Almortão", "Vira de Coimbra" e "Balada do Outono". Trata-se da mais bela versão do fado de Coimbra, interpretada por Zeca Afonso em homenagem a seu pai e a Edmundo Bettencourt, dedicatários do álbum. Actua em Paris, no Théatre de la Ville. Em 1982 começam a conhecer-se os primeiros sintomas de esclerose lateral amiotrófica, doença que se caracteriza por uma progressiva atrofia muscular de que resulta geralmente a morte, por asfixia.
Actua em Bruges, Bélgica, no Festival de Printemps.
Em 29 de Janeiro de 1983 realiza-se o espectáculo no Coliseu dos Recreios, com José Afonso já em dificuldades. Participam Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto Bordalo Dias, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé.
É publicado o duplo álbum “Ao Vivo no Coliseu”.
No Natal desse ano, sai o álbum "Como Se Fora Seu Filho", o seu testamento estético-político. Neste trabalho colaboram Júlio Pereira, Janita Salomé, Fausto Bordalo Dias e José Mário Branco. Algumas das canções do alinhamento foram escritas para a peça "Fernão Mentes?" do grupo de teatro A Barraca. É publicado o livro "Textos e Canções", com a chancela da Assírio e Alvim, que inclui muitos poemas que José Afonso não chegou a musicar. Contra a sua vontade, é publicado pelo Foto Sonoro um maxi-single, "Zeca em Coimbra", com um espectáculo dado pelo cantor no Parque de Santa Cruz, na Lusa Atenas, a 27 de Maio, em que também participaram António Bernardino ("Tenho Barcos, Tenho Remos"), Luís Marinho ("Traz Outro Amigo Também") e ainda António Portugal e António Brojo (guitarras) e Aurélio Reis, Luís Filipe e Rui Pato (violas). A cidade de Coimbra atribui a José Afonso a Medalha de Ouro da cidade. «Obrigado Zeca, volta sempre, a casa é tua», disse-lhe o presidente da Câmara, Fernando Mendes Silva. «Não quero converter-me numa instituição, embora me sinta muito comovido e grato pela homenagem», respondeu José Afonso. O Presidente da República, general Ramalho Eanes, atribui a José Afonso a Ordem da Liberdade, mas o cantor recusa-se a preencher o formulário. Mário Soares tentará de novo condecorá-lo, a título póstumo, em 1994, com a Ordem da Liberdade, mas a mulher, Zélia, recusa, alegando que se José Afonso não desejou a distinção em vida, também não seria após a sua morte que seria condecorado.
Em 1983 José Afonso é reintegrado no ensino oficial (fora expulso em 1968), tendo sido destacado para dar aulas de História e de Português na Escola Preparatória de Azeitão. Em 1985 é editado o último álbum, "Galinhas do Mato", com arranjos e direcção musical de Júlio Pereira e José Mário Branco. Zeca já não consegue cantar todos os temas, sendo substituído por Luís Represas ("Agora"), Helena Vieira ("Tu Gitana"), Janita Salomé ("Moda do Entrudo", "Tarkovsky" e "Alegria da Criação"), José Mário Branco ("Década de Salomé", em dueto com Zeca), Né Ladeiras ("Benditos") e Catarina e Marta Salomé ("Galinhas do Mato"). Em 1986 apoia a candidatura presidencial de Maria de Lourdes Pintassilgo, Católica progressista.
José Afonso vem a falecer no dia 23 de Fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica, com 57 anos de idade. O funeral realiza-se no dia seguinte, com mais de 30 mil pessoas, da Escola Secundária de S. Julião para o Cemitério da Senhora da Piedade, em Setúbal. O funeral demorou duas horas a percorrer 1300 metros. Envolvida por um pano vermelho sem qualquer símbolo, como pedira, a urna foi transportada, entre outros, por Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Luís Cília e Francisco Fanhais.
A 18 de Novembro é criada, por iniciativa de Alípio de Freitas (homenageado no tema homónimo do álbum "Com as Minhas Tamanquinhas"), a Associação José Afonso com o objectivo de ajudar a realizar as ideias do compositor e intérprete no campo das Artes. No ano seguinte a Câmara Municipal da Amadora institui o Prémio José Afonso destinado a galardoar um álbum inédito de música portuguesa, cujos temas tenham como referência a cultura e História portuguesas, tal como a obra do patrono. Fausto Bordalo Dias, Vitorino, Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Né ladeiras, Amélia Muge, João Afonso, Vai de Roda, Gaiteiros de Lisboa, Dulce Pontes, Vozes do Sul/Janita Salomé, Jorge Palma, Carlos do Carmo, Filipa Pais e José Medeiros, contam-se entre os já contemplados.
Duas semanas depois da morte do cantor, a Transmédia edita "Agora e Sempre", o primeiro triplo álbum da história discográfica portuguesa. A edição é constituída pelos álbuns "Como Se Fora Seu Filho" (1983), "Galinhas do Mato" (1985) e "Ao Vivo no Coliseu" (1983), este com um alinhamento diferente. Nesse mesmo ano, a Movieplay lança em CD os 11 álbuns gravados para a Orfeu (até 1981), tendo também sido editado pela Edisco o CD "Os Vampiros", com as baladas dos três EP da Rapsódia (1960-63), tais como "Os Vampiros", "Menino d'Oiro", "Canção do Vai... e Vem", "Menino do Bairro Negro", "No Largo do Breu" e "Balada do Outono". Em 1996, a Movieplay reúne finalmente em CD os fados de Coimbra dos três primeiros discos (1953-56) e ainda os temas "Menina dos Olhos Tristes" e "Canta Camarada", do single editado pela Orfeu em 1969. Em 1997, no décimo aniversário da morte de José Afonso, a EMI-VC lança em CD o álbum "Baladas e Canções", originalmente editado pela Ofir em 1964.
José Afonso, como pioneiro de uma estética musical alternativa ao "nacional cançonetismo" (como lhe chamou João Paulo Guerra) e pelo contributo inovador que deu na redescoberta e valorização da música de raiz tradicional, será sempre recordado como um dos nomes maiores da História da música portuguesa. Testemunham-no as homenagens e tributos de quem sido alvo ao longo dos anos, com novas versões de temas seus, sendo de destacar os projectos "Ousadias" (1986 - Naná Sousa Dias), "Filhos da Madrugada Cantam José Afonso" (1994 - Madredeus, Frei Fado d'El-Rei, Brigada Victor Jara, Opus Ensemble, Diva, Delfins, Sétima Legião, Resistência, UHF, Tubarões, etc.), "Maio, Maduro Maio" (1995 - Amélia Muge, José Mário Branco e João Afonso, gravado no S. Luiz em 1994), "Utopia" (2004 – Vitorino e Janita Salomé, gravado no CCB em 1998), "A Jazzar no Zeca" (2004 - Zé Eduardo Unit) e "Que Viva o Zeca" (2007 - Ervas de Cheiro).

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Como nasceu a Sociologia em PORTUGAL? (Parte II)

A ditadura desconfiava dos sociólogos e das ciências sociais e por isso procurou sempre desvalorizar qualquer teorização do social e desta forma impedir o seu desenvolvimento institucional: não permitiu que a sociologia entrasse nas universidades, não permitiu organizações de índole social, nem a publicação ou difusão de obras relacionadas com o pensamento sociológico. Isto levou a que durante décadas, quem se aventurou por este caminho tevisse que o fazer de uma forma clandestina. O enfranquecimento do regime e a acumulação das contradições sociais dentro da própria sociedade portuguesa, levantaram enormes problemas entre a população e não havia como escondê-los. Isto levou a que a década de 60 devido a uma conjugação de factores, desde a tomada de consciência, por camadas mais amplas, ao atraso da sociedade portuguesa quando comparada com outras sociedades da Europa e o descrédito do modelo corporativista prometido como alternativa, transformaram-se rapidamente em preocupações de todos os cidadãos. Aumentou a procura de conhecimentos especializados na área social e surgiram instituições de planeamento e intervenção técnica, gabinentes e organismos de estudos sociais, cobrindo temáticas do âmbito colonial ou relacionadas com com o serviço social, o desenvolvimento comunitário, a formação profissional e políticas de desenvolvimento. Em 1963, surgiu cursos com disciplinas de sociologia e, mesmo uma licenciatura em Sociologia no Instituto de Estudos Superiores de Évora, mas sem efeitos notórios para a institucionalização da Sociologia, dadas as preocupações práticas de formação de profissionais e preocupações ético-religiosas.
Um verdadeiro marco na história da sociologia em Portugal, acontece em 1963 com o surgimento da revista Análise Social, projecto de um grupo de investigadores, quase todos identificados com o progressismo católico, movidos pelas ideias do desenvolvimento económico baseado no progresso e na justiça social. Este grupo levou tão longe quanto possível o estudo da realidade social e no elevado nível de exigência teórica e metedológica, ganhando credibilidade, investindo na formação especializada dos seus investigadores e esteve na origem em 1974, já depois da revolução de Abril, da primeira licenciatura em Sociologia nas Universidades Portuguesas.
Dava-se então início à terceira fase do processo de institucionalização da Sociologia em Portugal. Isto acontce, quer através da criação de novas licenciaturas noutras universidades, quer através da criação de verdadeiros centros de investigação sociológica, bem como revistas e publicações periódicas e ainda através da criação de organismos científicos e profissionais cujos congressos passaram a constituir eventos marcantes da vida colectiva dos sociólogos portugueses.
Importa salientar que o processo de institucionalização da sociologia em Portugal, vai coincidir com um período, em que a própria sociologia, enquanto disciplina institucionalizada, atravessava uma fase de reorientação e recuperação de um  período muito crítico, em que toda a produção científica-social, tinha sido posta em causa em toda a Europa. A crise de que se está a falar tinha a ver, sobretudo, com o porcesso de desenvolvimento da própria sociologia. É neste contexto de crítica acérrima e de forte pluralismo que, em Portugal a sociologia se institucionaliza, ou seja, o nascimento da sociologia em Portugal coincide com o renascimento da  própria sociologia, em países onde já mais precocemente se tinha institucionalizado.

Adaptado de um artigo de Pedro Hespanha "Os custos e os Benefícios da Institucionalização tardia da Sociologia em Portugal" de Outubro de 1996

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Às Voltas com a Memória: ERROL FLYNN (n. 29 Jun. 1909; m. 14 Out. 1959)

Errol Leslie Thomson Flynn, nasceu em 29 de Junho de 1909, em Hobart, Tasmania, Austrália e morreu a 14 de Outubro de 1959 (50 anos), em Vancouver, Canadá. Filho de um oceanógrafo, biólogo e botânico, Theodore Thomson Flynn e Marrelle Young, uma jovem mulher descendente de Fletcher Christian e Edward Young, tripulantes do famoso HMS Bounty. Desde muito miúdo mostrou uma personalidade hiperactiva, indisciplinada, muito impulsiva e aventureira. Estudou num prestigiado estabelecimento em Londres, o Eton College, mas depressa foi expulso por indisciplina, acabando em Paris.
Errol Flynn, dedicou-se, entre várias coisas ao desporto, tendo uma paixão assumida pelo boxe, onde recebeu a oportunidade de representar o seu país, a Austrália, nos Jogos Olímpicos de 1928, em Amestrdam. Contudo, inimigo da disciplina não aceitou a convocação e dedicou-se a viajar pelos cinco continentes exercendo os mais diversos ofícios.
Na América foi atraído pelo teatro onde actuou em diversas obras até ser descoberto por um caça talentos da Warner Bros. Tendo um perfil atraente, atributos físicos de sobra e uma personalidade burlesca, depressa se tornou numa figura poderosa do grande ecrã.
Em 1935, com O Capitão Blood, em 1936, com The Charge of the Light Brigade, e em 1938, com The Adventures of Robin Hoods, fizeram de Errol Flynn, um actor consagrado e desejado pelas produtoras. A consagração chegou-lhe com papéis de galã ou de herói protagonizando perto de 50 filmes e causando grandes invejas e apreensão pela sua notável capacidade da conquista feminina, a tal ponto que alguns dos seus conhecidos evitavam apresentar as suas esposas ou noivas a Errol Flynn. Talvez devido a esse facto levantaram-se enormes calúnias, tais como ser pró nazi ou homessexual, devido à sua amizade com Tyrone Power e Truman Capote, calúnias essas que nunca se vieram a comprovar. Entre todos os grandes sucessos, trabalhou sobretudo com realizadores como Michael Curtiz (11 filmes) e Raoul Walsh (7 filmes). Olivia de Havilland, trabalhou com Flynn em 1935 e desde daí o cinema consagrou-os como o casal ideal, já que a serenidade da actriz contrapunha com a insolência e desenvoltura do parceiro.
O escândalo chegou à sua vida por volta de 1940, quando foi julgado, embora absolvido, por violação de uma jovem a bordo de um iate.
A sua vida pessoal foi muito turbulenta, contraindo três vezes matrimónio, com Lili Damita (1935 – 1942), onde teve um filho, Sean Flynn (nasceu em 1942 e morreu em 1970); depois com Nora Eddington (1943 a 1949), onde nasceram, Deidre (1945) e Rory (1947), e finalmente com Patrice Wymore (1950 até à sua morte), nascendo Arnella Roma (nasceu 1953 e morreu 1998).
O que é facto é que a sua vida privada foi um contínuo de escândalos, de saias, conflitos e perseguição de credores.
Ainda mostrou a sua faceta de produtor ao realizar o documentário The Truth About Fidel Castro Revolution e um filme sobre o tema Cuban Story de escasso valor cinematográfico.
No final dos anos 50, Errol Flynn já estava diminuído física, económica e espiritualmente corrompido pelos excessos de álcool e drogas, retirando-se para o seu iate, onde viveu solitariamente, só saindo para participar como actor secundário em projectos dos antigos amigos, como foi o caso de The Sun Also Rises, junto de Tyrone Power, Mel Ferrer e a grandiosa Ava Gardner.
O director cinematográfico Irving Rapper, disse dele, “Teve o mundo inteiro na palma de suas mãos e não soube aproveitar”.
Faleceu a 14 de Outubro de 1959, vítima de ataque cardíaco, em Vancouver, Canadá, com 50 anos.


Carreira Cinematográfica:

·         1933 • In the Wake of the Bounty — Charles Chauvel
·         1935 • Captain Blood  — Michael Curtiz
·         1935 • Dom't Bet on Blondes — Robert Florey
·         1935 • Murder at Monte Carlo — Ralph Ince
·         1935 • The Case of the Curious Bride — Michael Curtiz
·         1936 • The Charge of the Light Brigade — Michael Curtiz
·         1937 • The Green Light — Frank Borzage
·         1937 • The Prince and the Pauper  — William Keighley
·         1937 • Another Dawn — William Dieterle
·         1937 • The Perfect Specimen — Michael Curtiz
·         1938 • Four's a Crowd — Michael Curtiz
·         1938 • The Sisters  — Anatole Litvak
·         1938 • The Dawn Patrol  — Edmund Goulding
·         1938 • The Adventures of Robin Hood — Michael Curtiz
·         1939 • Dodge City  — Michael Curtiz
·         1939 • The Private Lives of Elizabeth and Essex  — Michael Curtiz
·         1940 • The Seja Hawk — Michael Curtiz
·         1940 • Santa Fé trail — Michael Curtiz
·         1940 • Virginia City — Michael Curtiz
·         1941 • They Died with Their Boots on — Raoul Walsh
·         1941 • Footsteps in the Dark — Lloyd Bacon
·         1941 • Dive Bomber — Michael Curtiz
·         1942 • Gentleman Jim — Raoul Walsh
·         1942 • Desperate Journey — Raoul Walsh
·         1943 • Thank Your Lucky Stars — David Butler
·         1943 • Show Business at War — Louis De Rochemont
·         1943 • Northern Pursuit — Raoul Walsh
·         1943 • Edge of Darkness — Lewis Milestone
·         1944 • Hollywood Canteen — Delmer Daves
·         1944 • Uncertain Glory — Raoul Walsh
·         1945 • San Antonio — David Butler
·         1945 • Objective, Burma! — Raoul Walsh
·         1946 • Never Say Goodbye — James V. Kern
·         1947 • Always Together — Frederick de Cordova
·         1947 • Escape Me Never — Peter Godfrey e LeRoy Prinz
·         1947 • Cry Wolf — Peter Godfrey
·         1948 • Silver River — Raoul Walsh
·         1948 • The Adventures of Dom Juan — Vincent Sherman
·         1949 • It's a Great Feeling — David Butler
·         1949 • That Forsythe Woman — Compton Bennett
·         1950 • Kim — Victor Saville
·         1950 • Montana — Ray Enright
·         1950 • Rocky Mountain  — William Keighley
·         1951 • Hello, God — William Marshall
·         1951 • The Adventures of Captain Fabian — William Marshall
·         1952 • Mara Maru — Gordon Douglas
·         1952 • Against All Flags — George Sherman
·         1953 • The Master of Ballantrae — William Keighley
·         1954 • Crossed Swords — Milton Krims
·         1954 • Lilacs in the Spring — Herbert Wilcox
·         1955 • King's Rhapsody — Herbert Wilcox
·         1955 • The Dark Avenger — Henry Levin
·         1957 • Istanbul — Joseph Pevney
·         1957 • The Sun Also Rises — Henry King
·         1957 • The Big Boodle — Richard Wilson
·         1958 • Too Much, Too Soon — Art Napoleon
·         1958 • The Roots of Heaven — John Houston
·         1959 • Cuban Rebel Girls — Barry Mahon

Como nasceu a Sociologia em PORTUGAL? (Parte I)


O anterior regime político deixou marcas profundas em toda a comunidade científica portuguesa. Em domínios, mais contestadores da ordem social, como é o caso das ciências sociais e da sociologia em particular, o poder político nunca deixou a divulgação das ideias, a organização de debates, a formação de especialistas, construindo uma paz podre e evitando o desenvolvimento de uma comunidade intelectual autónoma e dialogante.
Contudo mesmo antes da revolução de 25 de Abril de 1974, com o surgir de um sector modernizado da sociedade portuguesa, desejoso de reformas e críticos em relação ao modelo de gestão do país, aparecem as ciências sociais como um instrumento importante desse desenvolvimento.
Com o 25 de Abril de 1974 surgem novas disciplinas, como a Sociologia, Antropologia Social, Ciências da Educação, etc., sendo criadas diversas licenciaturas e pós-graduações espalhados por todo o território nacional. Aparecem centros de pesquisa, normalmente ligados às universidades, constituem-se associações científicas, aparecem publicações de novas revistas especializadas sobre o assunto, organizam-se encontros e congressos, ou seja, numa palavra, consolidam-se as novas ciências sociais, onde a Sociologia irá ter um papel fundamental na divulgação de novas ideias e no desenvolvimento da sociedade portuguesa.
Em Portugal e até meados do século XX, foram duas as influências verdadeiramente marcantes na sociedade portuguesa, a do positivismo e a do reformismo playsiano.
Quanto à primeira, Teófilo Braga foi o seu grande divulgador, lutando contra uma filosofia idealista muito forte e hostil, nomeadamente pelas elites intelectuais, culturalmente retrógradas e politicamente conservadoras. Teófilo Braga, que foi Presidente da República, pertenceu ao Instituto Internacional de Sociologia, fundado em 1893, tendo seu vice-presidente em 1913. Contudo o papel central da sociologia que era a reforma da sociedade portuguesa e a condução para um mundo civilizado e de progresso nunca foi alcançado, pela falta de produção científica consistente e empiricamente fundamentado.
Compreende-se desta forma, o relativo sucesso da outra tradição – a do reformismo de Le Play.
Tudo começa em 1908, quando a Sociedade de Geografia de Lisboa, convida J. Durieu, secretário da Societé Internationale de Science Sociale, fundada em 1904 por vários discípulos de Le Play, a fazer um ciclo de conferências sobre as teorias da reforma social e o método das monografia usado pela sociedade nos seus estudos. No ano seguinte, um outro sociólogo, também discípulo da mesma escola faz um estudo sobre a sociedade portuguesa, onde são assinalados factores de desorganização social profundos e continuados e se conclui que as classes sociais e as estruturas das famílias portuguesas, não favoreciam a emergência dos princípios por que se deviam reger as sociedade modernas, a saber: valores pessoais sobre a condição social, o primado do trabalho sobre a política e a abertura ao exterior. São dados assim os primeiros passos para o sucesso da sociologia em Portugal e em 1918 é criada no Porto a Sociedade Portuguesa de Ciência Social, a primeira associação de cientistas sociais formada no país. Se é verdade que esta sociedade nunca se tenha conseguido verdadeiramente impor, as ideias de raiz playsiana sobre a centralidade da família na ordem social e a subsidiariedade do Estado relativamente à autonomia moral desta tiveram crescente aceitação, desde logo pela aristocracia rural e pelos sectores da burguesia que aspiravam a assumir os padrões dessa aristocracia. O que é facto é que o reformismo social favorecia o entendimento entre os diferentes grupos sociais e defendia a correcção coerciva desde que necessária para preservar o homem da tentação. O reformismo social apoiava-se ou inspirava-se na doutrina oficial do catolicismo e aproximava-se das soluções integristas. Não admira, portanto que mais tarde Salazar convide um outro representante da Escola de Le Play, Paul Descamps, para replicar o estudo feito anteriormente sobre a sociedade portuguesa, esperando deste modo fundamentar os estudos credíveis as opções políticas que tencionava desenvolver. No entanto os resultados não agradaram ao regime perante o reconhecimento de Descamps de que “a concepção de sociedade ditada pelo Estado Novo não deixava o mínimo lugar a uma disciplina como a sociologia, mesmo que esta fosse discreta nas menores alusões críticas”.
Independentemente do fracasso de tentar casar a sociologia com os interesses do poder político, as marcas deixadas por esta escola playsiana foram sobretudo importantes na organização de cursos de serviço social e de enfermagem. Os novos institutos criados nestes dois domínios na segunda metade da década de 30 e inspirados no catolicismo social integraram a metodologia sociológica, como componente da formação dos futuros profissionais.

Adaptado de um artigo de Pedro Hespanha "Os custos e os Benefícios da Institucionalização tardia da Sociologia em Portugal" de Outubro de 1996

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Às Voltas com a Memória: CHARLES CHAPLIN (n. 16 Abr.1889; m. 25 Dez. 1977)

Sir Charles “Charlie” Spencer Chaplin foi o mais famoso actor dos primeiros momentos do cinema de hollywood, e posteriormente um notável director. Chaplin foi uma das personalidades mais criativas da era do cinema mudo; actuou, dirigiu, escreveu, produziu e eventualmente financiou seus próprios filmes. Chaplin, cujo quociente de inteligência era de 140, foi também um talentoso jogador de xadrez e chegou a enfrentar o campeão americano Samuel Reshevsky. Nasceu em Walworth, Londres, a 16 de Abril de 1889, filho de  Charles e Hannah Harriette Hill, ambos animadores do Music Hall. Os seus pais separaram-se logo após seu nascimento, deixando-o aos cuidados de sua mãe cada vez mais instável emocionalmente.
Em 1896, ela ficou desempregada e não conseguia encontrar outro emprego; Charlie e seu meio-irmão mais velho Sydney tinham de ser deixados  numa casa de trabalho em Lambeth, mudando-se após várias semanas para a Escola Hanwell para Crianças Órfãs e Destituídas. Seu pai faleceu com problemas de vício em bebida quando Charlie estava com 12 anos de idade, e sua mãe ficou com sérios problemas mentais e mais tarde foi admitida no Asilo Cane Hill próximo a Croydon. Ela faleceu em 1928.Chaplin subiu ao palco pela primeira vez aos 5 anos, em 1894, quando representou no Music Hall diante de sua mãe, que lhe ensinou a cantar e representar.
Ainda criança ele esteve de cama por duas semanas devido a uma séria doença quando, à noite, sua mãe sentava-se na janela e representava o que acontecia fora de casa. Em 1900, com 11 anos, ele conseguiu com a ajuda do irmão o papel cômico do gato em uma pantomima, Cinderela no “London Hippodrome”. Em 1903 participou de “Jim, a romance of cockayne”, após o que assumiu seu primeiro trabalho regular, como o entregador de jornal Billy em Sherlock Holmes, um papel que representou até 1906. A este, seguiu-se o Court Circus de Casey, um show de variedades e, no ano seguinte, ele se tornou o palhaço em “Fun Factory” de Fred Karno, Companhia de comédia slapstick. De acordo com registros de imigração, ele chegou na América com o trupe de Karno em 2 de outubro, 1912. Na Companhia de Karno estava Arthur Stanley Jefferson, que se tornaria conhecido e amado como Stan Laurel. Chaplin e Laurel preferiram compartilhar um quarto  numa pensão. A actuação de Chaplin foi eventualmente vista pelo produtor de filmes Mack Sennett, que o contratou para o seu estúdio, o Keystone Film Company. Embora inicialmente Chaplin tivesse dificuldade para se ajustar ao estilo de acção da Keystone filme, ele adaptou-se e floresceu no meio. Isto foi possível, em parte, por Chaplin ter desenvolvido o personagem trampolim dele, eventualmente ganhando o controle de direcção e criação em cima dos filmes dele que o permitiram tornar-se a grande estrela e talento da Keystone. Em 1919, fundou o estúdio United Artists com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith. Apesar de filmes falados terem se popularizado em 1927, Chaplin resistiu a usá-los até os anos 1930.
O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940) foi o seu primeiro filme com som. Foi, também, uma afronta a Adolf Hitler e ao fascismo que se reinava na época. Foi filmado e lançado nos Estados Unidos um ano antes da entrada do país na Guerra. O papel de Chaplin era duplo: o de Adenoid Hynkel, clara alusão ao nome de Hitler, e de um barbeiro judeu que é cruelmente perseguido pelos nazistas. Hitler era um grande fã de filmes, e sabe-se que ele tenha visto o filme duas vezes (segundo registros de seu cinema particular). Após o descobrimento do Holocausto, Charles revelou que não conseguiria brincar com o regime nazista como brincou no filme se soubesse da extensão do problema.
O posicionamento político de Chaplin sempre pendeu para a esquerda. Vários dos seus filmes seguiram essa tendência, principalmente Tempos Modernos (Modern Times, 1936), que foi uma crítica à situação da classe operária e dos pobres em geral.
Chaplin viajou para a Inglaterra em 1952, mas o seu retorno aos EUA foi proibido pelo Serviço de Imigração, devido a acusações de “atividades não-americanas”, na época do macarthismo. Foi um processo encabeçado por J. Edgar Hoover. Decidiu, então, permanecer na Europa, e foi morar na Suíça. Chegou a retornar aos Estados Unidos em 1972 para receber o seu Oscar, que ganhou duas vezes. O primeiro foi recebido em 16 de Maio de 1929, por The Circus, e o segundo prémio veio 44 anos depois, em 1972, pelo “seu incalculável efeito na indústria do cinema”. Ele viu-se livre de seu exílio e recebeu seu prémio menos de um mês antes da morte de J. Edgar Hoover. Chaplin também foi nomeado sem sucesso para Melhor Filme, Melhor Actor, e Melhor Roteiro Original em O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940), e novamente por Melhor Roteiro Original em Monsieur Verdoux, de 1947. Devido às dificuldades de Chaplin com o macarthismo, o filme não estreou em Los Angeles quando foi produzido. Isso só aconteceu em 1972. O seu último filme foi “A Countess from Hong Kong”, de 1967.
Os seus sucessos profissionais tiveram reflexos directos na sua vida pessoal por várias vezes. Em 23 de outubro de 1918, Chaplin casou-se aos 28 anos de idade com Mildred Harris, de 16. Tiveram um filho que morreu ainda bebé. Divorciaram-se em 1920. Aos 35, apaixonou-se por Lita Grey, também de 16 anos, durante as preparações de “The Gold Rush”, casaram-se em 26 de Novembro de 1924, quando ela ficou grávida. Tiveram dois filhos. Divorciaram-se em 1926, enquanto a fortuna de Chaplin chegava a 825 000 Dólares. O stress do divórcio somado com os impostos que não paravam, terminaram por deixar os cabelos de Charles brancos.
Chaplin casou-se secretamente aos 47 anos com Paulette Goddard, de 25, em Junho de 1936. Depois de alguns anos felizes, este casamento também terminou em divórcio, em 1942. Durante este período, Chaplin namorou Joan Barry, actriz de 22 anos. A relação terminou quando Barry começou a perturbá-lo. Em maio de 1943, ela informou a Chaplin que estava grávida, e exigiu que ele assumisse a paternidade. Exames comprovaram que Chaplin não era o pai, mas na época tais testes não tinham muita validade, e ele viu-se forçado a pagar 75 Dólares por semana até que a criança fizesse 21 anos. Depois, conheceu Oona O’Neill, filha do dramaturgo Eugene O’Neill. Casaram-se em 16 de Junho de 1943. Ele tinha 54 anos enquanto ela tinha 17. Este casamento foi longo e feliz, com oito filhos.
Em 4 de Março de 1975, depois de muitos anos de exílio, foi condecorado cavaleiro pela Rainha Elizabeth II. Tal honra foi proposta pela primeira vez em 1956, mas vetada pelo departamento de imigração britânico, já que acreditava-se que Chaplin fosse comunista.
Charles Chaplin morreu aos 88 anos no dia de Natal (25 de Dezembro) de 1977 em Vevey, Suíça em consequência de um derrame cerebral e foi enterrado no Cemitério Corsier-Sur-Vevey em Corsier-Sur-Vevey, Vaud, Suíça. Dois meses depois, a 3 de Março de 1978, ladrões invadiram o cemitério na calada da noite, violaram a sepultura e roubaram o corpo numa sórdida tentativa de extorquir dinheiro à sua família. O plano falhou, os ladrões foram capturados e condenados, o corpo foi recuperado onze semanas depois, no Lago Léman, e novamente enterrado em Corsier-Sur-Vevey. Mas como medida de precaução, a família mandou construir dentro do túmulo, sobre o compartimento do caixão, uma espécie de tampão espesso de 6 pés de largura pesando quase 400 quilos para evitar que o corpo pudesse ser novamente roubado. Há uma famosa estátua de Chaplin em Vevey. Em 1992, um filme sobre a sua vida foi feito, com o título Chaplin, dirigido por Sir Richard Attenborough, com Robert Downey Jr., Dan Aykroyd, Geraldine Chaplin (filha de Chaplin, interpretando sua própria avó), Anthony Hopkins, Milla Jovovich, Moira Kelly, Kevin Kline, Diane Lane, Penelope Ann Miller, Paul Rhys, Marisa Tomei, Nancy Travis, e James Woods.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O Poeta é um fingidor.

Fernando Pessoa notabilizou-se pela produção de textos metalinguísticos, do qual o poema a seguir, é provavelmente o mais famoso e o melhor exemplo:
AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só as que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Este poema famosíssimo de Fernando Pessoa é muito pouco compreendido, talvez a sua fama se deva a uma falsa atribuição de que o seu charme está no mero jogo de palavras da primeira estrofe. Pior ainda é a pobre interpretação que alguns fazem, achando que a idéia básica do texto é a de que todo o poeta seria falso e mentiroso.
A riqueza do poema já se avalia pelo próprio título, que sugere a capacidade de escrever um texto que é ditado por um espirito ao mesmo tempo externo e interno. Parece estar aqui a idéia de heteronímia, como se Fernando Pessoa recebesse outros espiritos que são ele mesmo. Paradoxal, mas belíssimo.
Para compreender este poema de forma adequada, há que se entender que “fingidor” vem do verbo “fingir”, que significa não só “disfarçar, ser falso”, mas algo como “simular”. Neste sentido, está ligado à criação de outra realidade. É essa a idéia expressa aqui. O poeta é de facto um criador de realidades. Assim, o poeta finge sua dor, simula sua dor, ou seja, cria outra realidade. Noutras palavras: seus sentimentos, da área afectiva, são transformados em poesia. Poesia não é afectividade, mas um conjunto de palavras. Essa é a arte da ficção, da simulação: expressar, por meio de palavras, a dor, os sentimentos.
Nota: palavras não são sentimentos, mas uma simulação destes.
Dessa forma, fica mais fácil entender a segunda estrofe, em que se fala de três dores: as duas que o poeta teve (real e ficcional) e a que o leitor não teve, mas com a qual se depara no momento em que degusta o poema.
Interessante é notar as idéias da última estrofe, que fazem lembrar um tema muito caro a Fernando Pessoa. A emoção não está separada da razão. O coração, de acordo com “Autopsicografia”, entretém a razão, ou seja, a emoção é pensada, raciocinada. Noutros textos esse postulado gerará uma crise: até que ponto a emoção é pura, até que ponto é fruto do pensamento. O que sentimos não será fruto da imaginação. Parece que estamos entrando no mesmo caminho do célebre filme “Matrix”.
Extraordinário, como um poema que parece à partida de fácil leitura e interpretação é deveras de enorme talento, que só um grande poeta, como Fernando Pessoa seria capaz de o escrever, gostar de Fernando Pessoa é interpretá-lo e não apenas um conjunto de rimas e estrofes de qualidade máxima.