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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - BIBLIOGRAFIA



A.   Temática


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B.   Metodológica

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VALA, Jorge, A Análise de Conteúdo, in SILVA, A. Santos, PINTO, J. Madureira, (orgs.), (1999), Metodologia das Ciências Sociais, Porto, Edições Afrontamento.

C.   Fontes Consultadas

Biblioteca do ISCTE.

Localização: Av. das Forças Armadas, Edifício II do ISCTE.
Tipo de Acesso: Público
Horário: Seg. – Sex. 10h00 – 20h00 

Biblioteca Nacional
Localização: Campo Grande, 83
Tipo de Acesso: Público
Horário: Seg. – Sex. 09h30 – 19h30
               Sábados 09h30 – 17h30


D.   Endereços Electrónicos

CRAS, Centro Regional de Alcoologia do Sul (2006),

ISJD, Instituto S. João de Deus, Casa de Saúde do Telhal (2005),

SAAP, Sociedade Anti-Alcoólica Portuguesa, (2006)
http://saap.planetaclix.pt/saap/pt

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ESTUDO DE CASO: PERCURSOS E REPRESENTAÇÕES DE CONSUMIDORES EXCESSIVOS DE ÁLCOOL



Que futuro reserva para si?


No final do Guião e para consolidar toda a informação já obtida, falou-se do futuro, o que pensam do futuro, o que se pretendem fazer no futuro, o que pensam ainda realizar os entrevistados. Era importante perceber se o álcool tinha tido apenas consequências no passado e no presente dos indivíduos, ou também tinha retirado aos indivíduos o”sonho” de viverem e construírem algo de positivo. Embora se utilizassem quatro questões, as mesmas poderiam funcionar como um bloco, pois o que se pretendia saber, era o que queriam fazer daqui em diante, quais as perspectivas no futuro. Ora vejamos:

“Portanto quanto ao futuro, é assim, tenho o meu restaurante, não é grande, mas vai dando para viver, mas mentia se lhe dissesse que estou satisfeito, o ser humano quer sempre mais. Por isso gostava muito de ter uma coisa maior, embora saiba que quanto maior for, mas dificuldades para gerir é, mas gostava. Também gostava de mudar de casa, porque a casa onde vivo, é uma casa, numa quintinha, que é do meu pai e do meu tio, e é daquelas casas muito velhas, parece mais uma barraca, por isso gostaria de ter uma casa com todas as condições, para mim e para a minha mulher e o meu filho.”
(Entrevista Nº 8)

“Voltar a ter uma família, ter a minha casa, de ter um emprego, porque eu gosto muito de ter a minha independência, toda a gente gosta de ter a sua independência, que reconstruir a minha vida, mas em bases bem sólidas.”
(Entrevista Nº 6)

“Eu gostava ainda de ter um filho, ter a minha família, ter um companheiro, ter um filho, ainda estou a ver se arranjo força para tirar o curso que eu sempre quis ir, eu deixei economia, porque não gostava de economia, ou seja, na minha vida parece que deixei tudo por metade, então queria concretizar aquelas metas, queria ir para psicologia,…”
(Entrevista Nº 7)

Excepto o entrevistado, que ainda continua a consumir, todos os outros demonstraram grande força de vontade para realizarem os seus “sonhos”, uns mais modestos, como aprender a viver de novo com o marido, outros mais ambiciosos, como escrever um livro, no entanto todos demonstraram uma coisa, álcool nunca mais, há excepção de um, conforme já salientado.


Conclusões


Pretendeu-se com este trabalho consolidar todos os conhecimentos adquiridos ao longo de vários anos de trabalho e dedicação, neste tão grato curso de Sociologia. Não pretendo contudo terminar sem que este capítulo reúna uma série de conclusões relacionadas com o objectivo desta análise, a sua problemática e as respectivas hipóteses em estudo. Há que compreender porque se começa a consumir bebidas alcoólicas, primeiro com regularidade, depois com dependência, até terminar muitas vezes numa luta desenfreada indivíduo/álcool, que tantas e tantas mazelas vai deixando pelo caminho.
Após a operacionalização da nossa questão inicial (questão central), esta foi subdividida em outras questões (questões secundárias) de forma a flexibilizar a nossa investigação e adaptá-la à realidade do estudo.
Após essa operacionalização construiu-se uma bateria de hipóteses (A principal e secundárias) para agora e após a análise de conteúdo das entrevistas estudá-las e compreendê-las.
Começando pelas hipóteses secundárias, tínhamos como primeira hipótese em estudo: A falta de emprego e as dificuldades económicas conduzem os indivíduos a refugiarem-se no consumo de álcool, de forma a não enfrentarem a realidade da sua situação.
Segundo as análises verificadas, esta afirmação não se retratou em nenhuma das entrevistas obtidas. Aliás a falta de dinheiro pode, antes, ser impeditivo de consumir álcool, pois não havendo hipóteses monetárias de o comprar, o mesmo só poder ser feito através de empréstimos de amigos e/ou familiares. Alguns entrevistados, dizem terem recorrido aos empréstimos de alguns amigos para conseguirem consumir álcool, empréstimos ou pagamento das bebidas pelos próprios amigos. (Entrevista Nº 1 e 4).
A segunda questão em estudo era a seguinte: As dificuldades familiares e a própria negligência perante a família, são factores que desencadeiam a busca abusiva de álcool.
O que se compreendeu na maioria das entrevistas, é que esta hipótese surgia quase sempre, depois dos indivíduos se tornarem consumidores excessivos de álcool e nunca antes (Entrevista Nº 4, 5 e 6), ou seja, era o consumo excessivo de álcool que causava os problemas domésticos, chegando por vezes à violência doméstica (Entrevista Nº3), ou aos divórcios (Entrevista Nº 9) como foi o caso do último entrevistado. Houve pelo menos duas situações em que o facto de acontecer o casamento foi unicamente para haver mais liberdade e portanto mais facilidade no consumo de álcool, outrora restringido pelos pais. (Entrevista Nº 3 e 9). Em suma, esta segunda questão também não se enquadra no nosso estudo.
Passando para a terceira questão em análise, esta diz, A perda de velhos amigos, pode levar ao consumo excessivo de álcool, como forma de “esquecerem temporariamente” o assunto.
Nesta hipótese há a considerar esta perda de amigos mais abrangente, ou seja, deveríamos aqui incluir também os familiares. Neste caso a entrevista nº 1, corrobora esta ideia, pois é afirmado que um dos factores que contribuiu (não foi o único factor) para o consumo excessivo de álcool foi a ausência de familiares e amigos. Existe um segundo caso (Entrevistado Nº 7), que não foi propriamente os amigos, mas sim o seu processo de divórcio, portanto perda do marido, que lhe levou numa primeira fase a consumir mais álcool, ou seja, a perspectiva de ficar sozinha causava-lhe mal-estar e necessidade de se refugiar no álcool.
Finalmente a quarta questão em estudo, dizia, Os factores sócio culturais são muitas vezes uma forma do consumo de álcool se tornar banal, levando ao consumo excessivo do mesmo.
Esta hipótese tem realmente alguma consistência, pois os nossos entrevistados apresentaram algumas práticas que consolidavam esta ideia dos factores sócio culturais. Primeiro e isto foi focado por muitos, os factores culturais inerentes a Portugal ser um país produtor de grande dimensão (Entrevista Nº 5 e 7), por isso o acesso muito fácil ao vinho, principalmente. Depois também o facto do convívio, dos amigos, das festas, serem motivadores para o consumo de álcool, alguns entrevistados falaram mesmo que um dos principais motivos do consumo em excesso, era porque isso acontecia na companhia de vários amigos, nas conversas de café e nos serões em casa, ou passeando pela noite fora (Entrevista Nº 2 e 9). Esta hipótese parece estabelecer um mecanismo social evidente do aumento de consumidores de álcool, se juntarmos a todos estes factores, as discotecas, os jantares e as festas mais privadas, estamos perante uma série de factores sócio-culturais e ambientais para o aumento do consumo de álcool.
Estamos finalmente perante a nossa questão principal, O consumo excessivo de álcool é o resultado das dificuldades que o indivíduo se vê confrontado no seu dia a dia e nas relações estabelecidas ao nível de grupos, círculos de amigos.
Objectivando esta questão ao conjunto das nossas nove entrevistas, verifica-se efectivamente um conjunto de situações que levaram os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool, e mesmo aquele caso (Entrevista Nº 6) que afirma não encontrar razão aparente para ser um consumidor abusivo de álcool, algumas circunstâncias aconteceram, nomeadamente a pressão exercida quando tocava numa banda, para que o fizesse. Em dois outros casos, (Entrevista Nº 2 e 9) esse consumo excessivo de álcool, aconteceu ao nível do círculo de amigos, com quem conviviam e bebiam. Os restantes apresentaram sempre uma dificuldade com que foram confrontados e motivou-os a consumirem álcool em excesso. Para a nossa hipótese central existem, sem dúvida, situações em todos os entrevistados que se poderão enquadrar e validar a mesma. Extrapolando estes resultados, para a nossa questão central, Quais os principais motivos que levam os indivíduos a tornarem-se consumidores de álcool?  Poderíamos enumerar uma série deles para responder a esta questão, ausência de família, stress na tropa, vida boémia com muito dinheiro e rodeado de amigos, tratar de uma pessoa desconhecida, pressão emocional, divórcio, troca de droga pelo álcool, divertimento e amigos.
Com base nestas ilações, este trabalho contribuiu certamente para:
Identificar, compreender e descrever o percurso de vida que leva os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool, levando-os    a   situações   de  exclusão   social  e afastamento perante a sociedade.
Tendo perfeita noção que este trabalho é um trabalho académico, é com grande entusiasmo que vejo nele uma ferramenta, exploratória para futuras pesquisas nesta área que muitas vezes é descorada, a favor de outros objectivos e outra dependências, mas não nos podemos esquecer, e isto são números reais e que estão disponíveis, é que em Portugal morrem diariamente cerca de vinte a vinte e cinco pessoas, directa ou indirectamente, por causa do álcool. A sociologia tem aqui uma palavra a dizer, até porque nesta área e em Portugal existem muito poucos trabalhos com a perspectiva sociológica sobre o consumo excessivo de álcool, e como tal espero que este não seja, o último, mas … mais um.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ESTUDO DE CASO: PERCURSOS E REPRESENTAÇÕES DE CONSUMIDORES EXCESSIVOS DE ÁLCOOL



Práticas e representações sobre o Consumo
Excessivo de álcool


Relativamente às Praticas, estas estão ligadas às formas de fazer ou produzir qualquer actividade regular mais ou menos codificada. As práticas sociais reproduzem-se no quotidiano do indivíduo determinadas por factores de ordem económica, cultural, religiosa ou política. Nesta investigação interessa relacionar a alteração destas regularidades normativas na acção dos indivíduos, desde o momento em que passam de consumidores de álcool, para a situação de consumidores excessivos. Pierre Bourdieu introduziu o conceito de habitus que explica a reprodutibilidade das acções dos indivíduos de acordo com um determinado fio condutor, assim “o habitus é o princípio gerador de práticas objectivamente classificáveis e o sistema de classificação (pricipium divisionis) dessas práticas»[1]. É nesta relação, entre a capacidade de produzir práticas e a capacidade de diferenciar e apreciar essas práticas, ou seja, o gosto, que se constitui o espaço dos estilos de vida.
Os habitus, são por assim dizer esquemas de percepção e apreciação da acção, ou seja, normas interiorizadas, o indivíduo fica habilitado para que no decorrer da sua vida possa dar resposta aos estímulos convencionais cuja origem assenta nas estruturas do mundo que tem como objectivo definir os limites e as imposições da acção. São as estruturas que delimitam o campo de acção, então o indivíduo quando inicia a sua aprendizagem face ao mundo que o rodeia e o inclui, incorpora logo desde o início as próprias estruturas e as respectivas tendências. As diferentes condições de existência produzem habitus diferentes, este por sua vez estrutura as práticas e as representações. As práticas que originam os diferentes habitus inscrevem-se nas diferentes condições de existência dos agentes, possuidores de capacidades de percepção e apreciação necessárias para apreender e avaliar as diversas práticas. Condições de existência diferentes produzem habitus diferentes. As práticas que originam os diferentes habitus inscrevem-se nas diferentes condições de existência dos agentes, possuidores de capacidades de percepção e apreciação necessárias para apreender e avaliar as diversas práticas.
Por outro lado, as representações implicam uma relação de um sujeito com um objecto, no entanto, entendemos por representações as construções subjectivas dos sujeitos acerca dos objectos, portanto não é uma reflexão do objecto, é uma actividade que envolve uma construção, modelização e simbolização. Podemos afirmar que existem representações de vários tipos e sobre variados objectos. São consideradas representações sociais quando são partilhadas por um conjunto de indivíduos. “No caso do estudo das representações sociais, o nível de análise que se salienta é aquele que reenvia o sujeito para as suas pertenças sociais e para as actividades de comunicação, e a representação para a sua funcionalidade e eficácia sociais”.[2] O que pretendemos é saber quais as representações que os indivíduos consumidores de álcool possuem de si próprios. Se obtivermos um elevado número de indivíduos que partilhem duma semelhante visão do consumo excessivo de álcool, poderemos falar em representações sociais. Mesmo quando abordamos dois ou três grandes grupos distintos de visão do mundo, continuamos a falar em representações sociais, só que diferenciadas.
Após estas notas introdutórias passemos à análise da primeira questão, que era: o que representa para si consumir álcool?
As respostas foram diversas, mas algumas têm uma certa regularidade, senão vejamos:

“Beber álcool para mim era como uma fuga à realidade da vida.
“Enquanto bebia, estava eufórico, estava alegre, estava com os outros, não tocava nesses problemas, deixava andar, só que ao mesmo tempo estava a agravar mais a minha situação…”
(Entrevista Nº 1)


“Enquanto bebia, esquecia os problemas do dia a dia, ficava mais eufórico, mas mantinha sempre o meu ar bonacheirão,…”
(Entrevista Nº 2)

“Quando eu tinha qualquer coisa que me variava, ía comprar, e comprava vinho que era mais barato, mas eu não goste do álcool, foi sempre um escape…”
(Entrevista Nº 5)

“Quando bebia o álcool representava uma fuga, era um anestesiar dos sentimentos, era não querer encarar a realidade que não se gosta…”
(Entrevista Nº 7)

Poderíamos evocar mais algumas respostas, mas estas são suficientes para verificamos que existe uma certa normalidade em relação aquilo que o álcool representa, fuga, refúgio, escape, para não encarar a realidade da vida.
Quando se questionou na pergunta seguinte, se o indivíduo se acha um peso para a sociedade, ou se se achou, na altura em que consumia álcool em excesso, a regularidade das respostas ainda foi maior, sendo o não, a resposta com maior incidência. Existiram contudo duas respostas diferentes, foram:

“… cheguei a vender o meu próprio sangue nos hospitais para ter dinheiro para beber, era efectivamente um “peso” para a sociedade, naquela fase não havia dúvidas.”
(Entrevista Nº 3)

“Naquele período mais agudo do consumo de álcool, efectivamente, era um peso para a sociedade, mas digo isto agora, porque naquele tempo, nem pensar…”
(Entrevista Nº 9)

E o papel das instituições, é valorizado pelos próprios “utilizadores”, ou pelo contrário, são instituições desprezíveis, desnecessárias e que maltratam as pessoas? Quisemos saber:

“Portanto o CRAS nunca conseguiu que eu deixasse o álcool, mas conheço algumas pessoas que conseguiram, por isso ache que este tipo de instituições são muito úteis.”
(Entrevista Nº 4)

“O CRAS, que é aquele que conheço, é uma instituição dura, aquilo é muito duro lá, mas eu acho que tem de ser assim, para as pessoas aprenderem, é uma coisa muito boa, detestei estar lá internada, mas tem que ser assim, é uma forma dura de encarar e ver a realidade, se fosse muito boa, as pessoas não aprendiam nada, mas assim ajuda muito a deixar o álcool, é muito difícil a pessoa sair sem esta ajuda médica porque eles lá dentro… “
(Entrevista Nº 7)

“Eu estou a referir que estive aqui, mas é bom dizer que foi no Telhal, que a minha vida nasceu de novo, que eu me tornei um homem novo, que me saiu a sorte grande, talvez uma sorte grande diferente do totoloto, mas que para mim é um totoloto.”
(Entrevista Nº 1)

“Mas hoje posse vos dizer, que de facto, abençoada a hora que eu cheguei aqui, a esta casa, encontrei-me aqui com uma equipa multidisciplinar vocacionada para o doente alcoólico, que efectivamente, me tratou com carinho, com respeito, tratou-me como ser humano, que eu era, e na realidade quando eu saí daqui levei outro pensamento, outra ideia para poder transmitir na Guarda.”
(Entrevista Nº 2)


De todas as respostas, existe uma concordância quase total para a existência deste tipo de instituições, apenas com a diferença de que alguns as acham muito duras, mas compreendem que é uma forma dos indivíduos deixarem a bebida. O que não deixa de ser natural, pois todas as entrevistas se realizaram a indivíduos que estavam ou estiverem internados neste tipo de instituições.
Para terminar este conjunto de questões, abordou-se as preocupações que os indivíduos têm perante o alcoolismo, havendo também aqui uma regularidade muito grande, nomeadamente em relação à juventude, e aos seus elevados consumos ainda em idades muito jovens, dizem-nos alguns entrevistados:

“Eu quando vejo jovens, de catorze, quinze anos, em Alcoólicos Anónimos, é inadmissível, porque eles conseguem entrar em discotecas, ou porque os porteiros fecham os olhos, ou porque levam bilhetes de identidades falsos, mas eles não olham para a cara da pessoa e não vêem? O álcool daqui a pouco está pior que a SIDA, ou qualquer outra droga, porque cada vez se consome mais álcool. Não me admiro nada que qualquer dia o álcool esteja em primeiro lugar no consumo das pessoas.”
(Entrevistada Nº 5)


“O álcool é um problema que tende a aumentar, eu vejo o meu sobrinho já a consumir, é um consumismo já directo e publicitário para os homens consumirem álcool muito rapidamente, eles hoje em dia querem tudo muito rapidamente, temos Internet, mas a publicidade é culpada, veja bem a imagem que dá, “Portugal apoia a selecção”, e ali a garrafa de cervejinha logo ali, e depois no fim, com um bocado de decência “beba com moderação”.
(Entrevista Nº6)

“Eu acho que nunca deviam dar álcool as pessoas com menos de dezoito, e depois as pessoas não são ensinadas a ver aquilo que o álcool faz, e mete-me um bocado de impressão ver pessoas tão novas a consumirem álcool e um dia podem cair mesmo na dependência, isto é um problema da nossa sociedade, mete-me muita aflição ver pessoas tão novas alcoolizadas”
(Entrevista Nº 7)



[1] BOURDIEU, Pierre ,  La Distinction - Critique Social du Jugement, Paris, Éd. de Minuit, 1979,  p.199
[2] VALA, J., MONTEIRO, M. B., Psicologia Social, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian,1994

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ESTUDO DE CASO: PERCURSOS E REPRESENTAÇÕES DE CONSUMIDORES EXCESSIVOS DE ÁLCOOL





Trajectória de Vida


Este segundo grupo de questões, é de extrema importância para percebermos quais foram os grandes motivos, as dificuldades ou as relações estabelecidas que levaram os indivíduos a tornarem-se dependentes do álcool, é este mecanismo social que interessa à sociologia compreender.
Na primeira questão, parece óbvio que existem factores culturais que levaram estes indivíduos a terem contacto com o álcool ainda muito novos, alguns impulsionados pelos próprios pais, como afirmam dois dos entrevistados:

“O meu primeiro contacto com o álcool, foi talvez aí aos oito anos, a minha mãe dava-me “sopas de cavalo cansado”, também me dava cerveja com gemada, aquelas coisas fortes.”
(Entrevista Nº 7)

“Os meus pais emigraram para França e logo aí começou, que eu me lembro, em tenra idade, os primeiros contactos com a bebida alcoólica. Através das sopas, as famosas sopas de “cavalo cansado”
(Entrevista Nº 2)

Outras situações existem em que é evidente a pouca atenção que os próprios pais davam ao consumo de bebidas alcoólicas, levando os filhos a verem com regularidade o consumo de álcool, de uma forma mais ou menos leviana:

“Os meus hábitos de consumo começaram bastante novo, era eu que ia buscar o vinho ao meu pai também, à taberna. E na realidade, no percurso taberna/casa, tinha uma certa tendência para meter a garrafa à boca e beber.”
   (Entrevista Nº 3)

Mas avancemos com a análise; as questões seguintes, já pretendiam saber como é que se desenvolveu a dependência alcoólica, em que idade e quais os factores que a desencadearam. Sobre estes aspectos, temos uma diversidade de situações, que poderão não ter propriamente a ver com o consumo regular que alguns já tinham, mas sim com acontecimentos que vieram alterar profundamente os níveis de consumo.
Um caso flagrante acontece com um indivíduo, que já sendo consumidor de álcool e mesmo de droga, alterou os seus hábitos alcoólicos, quando a pressão sobre ele aumentou ao pertencer a uma banda rock, como ele próprio afirma:

“Mais tarde é que se complicou, com vinte e dois anos, queria mais era tocar Rock-and-Roll, e isso acarreta logo uma sobrecarga tremenda, as pessoas é que julgam que estar a tocar é tudo muito fácil, cansa, é uma grande entrega, que uma pessoa tem que dar, e acaba por ser esgotante a nível emocional, e eu refugiava-me muito nestas coisas, e as pessoas sempre a dizer-me, “Oh Pedro toca mais uma”, e chegou a uma altura que eu já não conseguia tocar. Andei mais uns tempos, sempre a beber, sempre a beber.”
(Entrevista Nº 6)

Mas a situação mais flagrante, de como alguém pode entrar na dependência alcoólica devido a um acontecimento, é o caso de uma mulher, que nunca tinha bebido, até que aos trinta e sete anos, algo aconteceu que lhe modificou a vida toda:

“E nessa altura, eu tinha trinta e sete anos, ele meteu uma tia dele dentro da minha casa, uma pessoa que eu só tinha visto uma vez… Até que um dia estávamos a comer caldeirada de pargo, e eu estava naqueles dias não, e o meu marido disse-me bebe uma pinga de vinho que até cai bem com a comida e isto anima-te. Eu estava tão coisa, que pensei, mal também não faz, eu nunca bebi isto, deixa lá ver o gosto. O que é facto é que depois do almoço senti-me com mais coragem para entrar no quarto da velha, e comecei-me a aperceber-me que cada vez que eu bebia, era para arranjar coragem, aliás não era coragem, aquilo até era uma falsa coragem, eu hoje vejo isso.
E foi aí que eu comecei a beber, uma filha já com quinze anos, outra com onze…”
(Entrevistas Nº 5)

A outra pessoa de sexo feminino, embora fosse uma consumidora regular de bebidas, mais cerveja, também por volta dos trinta e sete anos, algo lhe fez aumentar o consumo de álcool, até à sua dependência, diz ela:

“…agora a primeira vez que eu bebi quase uma garrafa cheia de Martini, foi na minha fase do divórcio, porque não é que eu gostasse daquilo, aliás eu não gosto, é incrível mas eu não gosto do sabor do álcool, eu era mesmo só para o efeito.
Foi em 2001, eu tinha trinta e três anos, portanto foi o divórcio e foi aquele fulano com quem eu vivi.”
(Entrevista Nº 7)

Outro caso de consumos motivados por acontecimentos marcantes na vida, foi o caso do entrevistado nº 1, que desencadeou a dependência, quando foi para a tropa, ele próprio diz:

“Não sei se para justificar a ausência da família dos amigos ou propriamente o isolamento em que me encontrava, o stress motivado pela própria guerra em si, porque eu estive numa zona operacional a cem por cento, levaram-me a beber, a consumir bebidas alcoólicas exageradamente, sem ter a noção que isso estava efectivamente a ser um perigo para a minha saúde e para a minha vida futura.”
(Entrevista Nº 1)


Outras situações houveram, que motivaram o consumo em excesso de álcool, por exemplo aquele jovem que para deixar a droga, aumentou o consumo de álcool, diz ele:

“Com cerca de dezanove anos, porque a minha saúde ía ficando cada vez mais deteriorada, fiz um tratamento para deixar a droga, uma desintoxicação, foi uma coisa a sério, passei noites e noites terríveis, mas consegui, no entanto foi-se a droga, ficou o álcool. Mais ou menos entre os dezanove, vinte anos, até aos meus vinte e cinco, vinte seis, estive completamente dependente do álcool, consumia tudo, não queria saber se era branco ou tinto, porque pensava, “Não me drogo, ao menos bebo”, foi também uma fase muito má, porque quem me conhecia, não sabia muitas vezes se estava bêbado ou drogado, as pessoas de fora não percebem.”
(Entrevista Nº 8)

Avançando nesta trajectória de vida, questionou-se quais as perspectivas que os indivíduos tinham, quando consumiam álcool excessivamente, e as respostas foram em quase todos os casos muito semelhantes. Se não vejamos:

“Bebia essencialmente para esquecer e conseguir lidar com aquela vida, em que sentia, que a qualquer momento podia acabar.”
(Entrevista Nº 1)

“…e o álcool para mim representa uma espécie de fuga, porque se eu bebo, é só para esquecer.”
   (Entrevista Nº 5)

“Portanto quando bebia com os meus amigos, a perspectiva que tinha do álcool, era de divertimento, de amizade, e também para esquecer alguns problemas que fui tendo, nomeadamente financeiros e com a minha segunda mulher.”
(Entrevista Nº 9)

Poderíamos retirar mais alguns depoimentos, mas a homogeneidade seria esta, o álcool é uma fuga e um refúgio para não enfrentar a realidade e as contrariedades da vida.
Finalmente e para acabarmos este nosso trajecto de vida, questionaram-se as consequências. Como foi? O que se perdeu? Vejamos:

“Talvez por isso e porque não acompanhava muito de perto o negócio, a loja cada vez facturava menos, e mais tarde acabámos mesmo por fechar a Loja.”
(Entrevista Nº 4)

“…começaram a surgir os problemas do tribunal para eu pagar dívidas, e as coisas começaram a ficar pior… porque daí nasceram desobediências a tribunais, e outras coisas do género, porque eu não aparecia a julgamentos, não aparecia a convocatórias do tribunal e tudo isso, por força das circunstâncias, e acabei por me degradar socialmente e familiarmente.”
(Entrevista Nº 1)


“Fiquei com a minha vida totalmente arruinada, em termos financeiros, também tive a ajuda do outro senhor, ele deixou-me 1.500 contos para pagar…fiquei monetariamente pelas ruas da amargura, quase perdi o meu emprego, também pouco mais do que isso tenho. Quer dizer, perdendo o emprego, não pagando as dívidas que devia da casa, sei lá, penhoravam-me os bens, ficava sem nada, até os desgraçados dos meus animais que eu adoro, os ía perder”
(Entrevista Nº 7)

As mazelas neste tipo de situações são enormes, passam muitas vezes pela ruína total, até à perda dos próprios familiares e amigos, é uma paragem no tempo, que muitas vezes é irrecuperável.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - ESTUDO DE CASO: PERCURSOS E REPRESENTAÇÕES DE CONSUMIDORES EXCESSIVOS DE ÁLCOOL


Análise dos Dados

Realizadas que foram nove entrevistas, distribuídas pelas três instituições que constituíram a área de intervenção, CRAS - Centro Regional de Alcoologia do Sul, Hospital Miguel Bombarda e Casa de Saúde do Telhal, há que analisar toda a informação recolhida, para dela retirarmos algumas conclusões que nos ajudarão a identificar, compreender e descrever o percurso de vida que leva os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool, objectivo central desta dissertação.
O objectivo deste estudo, projecta-se numa questão central, que constituiu o ponto de partida de todo o trabalho de investigação: Quais os principais motivos que levam os indivíduos a tornarem-se consumidores excessivos de álcool? Para que a resposta a esta questão central fosse integradora de toda a pesquisa, optou-se por constituir um conjunto de questões derivadas, desmultiplicando a questão inicial, e dando um fio condutor aos entrevistados, de forma a obterem-se os melhores resultados, sabendo de antemão que muitas vezes o discurso apresentado por estes indivíduos,  devido à própria situação, é de difícil diálogo.
Pretendeu-se assim, que a partir do objectivo do estudo, e da sua problemática, se obtivesse uma Hipótese Principal (O consumo excessivo de álcool é o resultado das dificuldades que o indivíduo se vê confrontado no seu dia a dia e nas relações estabelecidas ao nível de grupos, organizações e círculos de amigos) e algumas outras secundárias, que serão agora analisadas pelo conjunto das entrevistas realizadas no presente trabalho.
Tratando-se, como opção que foi, de entrevistas semi-directivas, cujo objectivo era estruturar, limitar e evitar grandes divagações, o que é facto é que neste tipo de entrevistas e entrevistados, muitas vezes se torna complicado pormos “um travão”, ao discurso do entrevistado, e obriga-nos a um vaivém constante, ou em opção, retirarmos à posteriori, os fragmentos que mais correspondem ao objectivo traçado. Quase sempre se optou, pela primeira opção, orientarmos o entrevistado e limitá-lo a grandes divagações, com a vantagem de tornar o dialogo muito mais aberto, e dando ao indivíduo um à-vontade de forma a corresponder ás expectativas, que foram sempre, retirar o melhor conteúdo possível das suas palavras.
Não quero também deixar de salientar, o enorme valor acrescentado que trouxeram as entrevistas exploratórias, pois as pessoas que participaram têm muitos anos de experiência à frente das suas instituições, são conhecedoras do que se passa à volta deste fenómeno e enriqueceram todas as leituras que antecipadamente tinha realizado, dando uma panorâmica do que se passa nas instituições, no país e até no mundo, em geral.
No percurso do Guião, traçaram-se quatro grandes blocos que seriam os fios condutores de toda a entrevista. Primeiro, a caracterização do entrevistado, um segundo bloco, sobre a trajectória de vida, em terceiro lugar, as práticas e representações sobre o consumo de álcool, e finalmente, a questão do futuro que estes indivíduos reservam para si.  


Caracterização do entrevistado (a)


Em relação à caracterização dos entrevistados, achou-se interessante saber alguns dados, mas não era objectivo do estudo fazer-se qualquer extrapolação em relação a estes dados, pelo que se cingiu aos mais básicos, como o sexo, idade, situação conjugal, escolaridade, meio familiar e meio de vida, sabendo que grande parte passou ao longo do seu percurso de vida por diversas alterações nestes dados (excepto sexo e idade), portanto quisemos apenas saber actualmente a sua situação, porque a multiplicidade de alterações foram ouvidas ao longo das entrevistas. 
Tal como a maioria dos estudos indicam, o número de homens, consumidores de álcool prevalece bastante maior do que em relação às mulheres, neste caso obtivemos sete entrevistas a homens e duas a mulheres, no entanto verificou-se, quer em observação directa, quer nas entrevistas exploratórias, um crescente número de mulheres que começam a aparecer nestes Centros de Recuperação.

Verificou-se uma ligeira diferença entre a média de idades nos homens e mulheres, com uma média de idades superior para os homens (49 anos) em relação às mulheres (43 anos). Também em entrevistas exploratórias, foi consenso nas três entrevistas, que a estrutura física da mulher em relação ao homem é muito inferior, ou seja, se um indivíduo do sexo masculino for consumidor excessivo de álcool, muito provavelmente só ao fim de nove, dez anos, é que começam a aparecer as primeira debilidades físicas, enquanto nas mulheres, bastam três, quatro anos, para a sua saúde física ficar em risco.
Quanto à situação conjugal, verificou-se no caso dos homens, a existência de cinco indivíduos ainda casados, um outro divorciado, e finalmente um solteiro. Em relação aos casados, existe um caso, em que o indivíduo vai no terceiro casamento, porque os anteriores não resistiram, sobretudo devido ao seu alcoolismo. Outro indivíduo casado, já conheceu a sua actual mulher na fase de recuperação, não passando esta senhora, pelo processo de dependência alcoólica do marido.
Em relação às mulheres, a situação também é diferente, pois se num caso, foi o próprio divórcio que desencadeou o quadro alcoólico, no segundo, o marido sempre se manteve com a esposa, acreditando na sua recuperação, são palavras da própria entrevistada:

“Não perdi a família, bem pelo contrário, as minhas filhas sempre se prontificaram a ajudar-me, o meu marido como é assim, aquele género mais tortinho, não é mau, mas é tortinho. Eu acho que ele também tem vergonha, a verdade é esta. Disse-me sempre que me ajudava naquilo que pudesse, nos medicamentos que necessitasse, custe o que custar, dava-me o dinheiro, mas que não lhe pedisse para me acompanhar que ele não ía.”
                                                                                                                                 (Entrevista Nº 5)

Quanto à escolaridade, temos aqui um problema transversal às habilitações académicas, pois nestas nove entrevistas, aparecem quatro graus de ensino, que vai desde a 4ª classe até ao ensino superior. Existe neste aspecto uma heterogeneidade bastante grande, não se traçando qualquer perfil a este nível.
Em relação ao meio familiar, existe também uma diversidade muito grande, pois temos indivíduos que vivem sozinhos, até outros que vivem com mulher e dois filhos.
Finalmente em relação ao meio de vida, existe apenas uma situação de desemprego, verificando-se que todos os outros trabalham, excepto uma mulher que por opção se tornou doméstica, embora já tivesse trabalhado. Existem também dois ex-empresários, que embora neste momento não estejam a trabalhar, a todo o momento iniciarão a sua actividade.